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Gud i Woodismen

In document Ed Wood Church (sider 84-89)

4. Woodismens etikk

5.2. Gud i Woodismen

A vergonha e a culpa são emoções com valência negativa, que surgem em resposta à perceção do comportamento como um insucesso ou transgressão. Embora vários estudos sobre a fenomenologia destas duas emoções se centrem na diferença de intensidade (i.e., a vergonha é, geralmente, mais intensa e dolorosa do que a culpa) (e.g., Tangney, Miller, & Flicker, 1992), esta não é a única diferença entre ambas. Estas duas emoções diferem, também, nas dimensões afetivas, cognitivas e motivacionais que as enformam, nomeadamente no papel funcional do self. Na literatura, a vergonha e a culpa são, usualmente, diferenciadas, com base: 1) no tipo de evento elicitador; 2) na natureza da transgressão (pública versus privada); 3) na sua contribuição para o comportamento moral (Tangney et al., 2007). A par destes critérios, a literatura documenta o impacto diferencial destas emoções no ajustamento socioemocional.

A investigação mostra que o tipo de evento elicitador tem uma importância reduzida na distinção entre a vergonha e a culpa (Tangney et al., 2007). A análise das experiências de vergonha e culpa, relatadas por crianças e adultos, mostra que o espectro de situações elicitadoras destas duas emoções é amplo, sendo difícil identificar estímulos ou situações específicas que gerem linearmente vergonha ou culpa (e.g., Tracy & Robins, 2006). Com efeito, comportamentos como mentir, enganar, roubar, não conseguir ajudar outra pessoa, ou desobedecer aos pais são referidos, por alguns sujeitos, como estando relacionados com a experiência de vergonha e, por outros, como estando associados à culpa. No entanto, alguns investigadores preconizam que a vergonha é gerada por um espectro mais amplo de situações, incluindo fracassos ou transgressões morais e não morais (Smith, Webster, Parrott, & Eyre, 2002).

Quanto à natureza pública versus privada das transgressões, a vergonha é definida como uma emoção mais ‘pública’, por se encontrar associada à exposição pública e à desaprovação de alguma infração ou transgressão, enquanto a culpa é definida como uma experiência mais

‘privada’ (Tangney et al., 2007). Embora as situações elicitadoras de vergonha e de culpa sejam igualmente públicas, por implicarem a preocupação com a exposição social da trangressão, parece haver diferenças sistemáticas na natureza desta preocupação.

A vergonha está associada à preocupação com a forma como os outros avaliavam o self, enquanto a culpa está ligada à preocupação com o efeito do seu comportamento nos outros (Tangney et al., 1994). A vergonha está, assim, associada a uma preocupação ‘egocêntrica’, enquanto a culpa está associada à preocupação ‘orientada para o outro’ (Tangney et al., 2007).

A experiência de vergonha está centrada em autoavaliações negativas, estando associada à preocupação com as avaliações dos outros e ao receio da exposição pública da infração. Por seu turno, quando uma pessoa sente culpa, está centrada no comportamento negativo, em detrimento do self. Ao centrar-se no mau comportamento, e não no ‘mau’ self, a experiência de culpa potencia o reconhecimento dos efeitos do seu comportamento nos outros, em detrimento das avaliações destes (Niedenthal et al., 1994). No estudo realizado por Smith et al. (2002) com estudantes universitários, quando era pedido aos participantes para se centrarem na exposição pública da transgressão, em três condições (evocação de experiências passadas; confronto com cenários hipotéticos e codificação de excertos literários), estes tendiam a atribuir níveis equivalentes de vergonha e culpa aos protagonistas da história. Porém, quando a dimensão pública versus privada não era referida, os participantes atribuíam menos vergonha aos protagonistas, mantendo-se a culpa igualmente elevada em todas as condições.

Em síntese, a vergonha e a culpa não são induzidas por estímulos ou situações específicas, mas sim pela interpretação que o sujeito faz desses estímulos ou situações (Lewis, 1992). Estas emoções não estão necessariamente relacionadas com a natureza pública ou privada da situação. Assim, embora se assuma, comummente, que a vergonha resulta da exposição pública do insucesso ou da transgressão, a atribuição da transgressão ao self global pode ser pública ou privada. Desta forma, a vergonha é, frequentemente, pública, mas pode ser, também, privada, uma vez que a evocação de eventos privados pode gerar vergonha face a um comportamento específico. Por exemplo, se uma adolescente antecipar que os colegas da turma a ridicularizarão, por causa do seu novo corte de cabelo, esta antecipação da situação de exposição pública poderá gerar vergonha. De modo análogo, a culpa não implica, forçosamente, a exposição pública, podendo ser, tal como a vergonha, despoletada pela evocação de situações passadas em que o sujeito sentiu culpa, ou de situações que, não tendo ainda vivenciado, antecipa como potenciando uma rutura com os padrões e as regras sociomorais.

No que respeita à contribuição para o comportamento moral, uma das questões frequentemente discutida é o facto de a vergonha e a culpa não serem emoções igualmente ‘morais’ (Bafunno & Camodeca, 2013). Os dados empíricos suportam o pressuposto de que a

culpa é uma emoção mais adaptativa, porque favorece a relação do sujeito com o outro, enquanto a vergonha pode dificultar o ajustamento socioemocional, o que poderá legitimar a assunção de que a culpa é uma emoção ‘mais moral’ do que a vergonha (Tangney et al., 2007). De notar que o comportamento moral é aqui entendido como o comportamento consonante com os padrões e regras ssociomorais.

A culpa requer a perceção de estar envolvido num comportamento que entra em rutura com os padrões e regras morais, estando, por isso, associada à preocupação com as consequências do comportamento infrator. A primeira tendência de ação adstrita a esta emoção é, pois, a de reparar o comportamento, de forma a minorar o seu efeito negativo sobre as pessoas por ele atingidas (e.g., Lewis, 1992). Neste sentido, quando a experiência de culpa surge em reação à perceção de, direta ou indiretamente, ter causado danos morais a outrem, é uma resposta empática que potencia a manutenção das redes de relações significativas do sujeito (Olthof, 2012). A investigação sustenta esta assunção, mostrando que a atribuição ou antecipação de culpa está negativamente associada à violação das regras em crianças de cinco e seis anos (Lake et al., 1995) e positivamente correlacionada com o comportamento pró-social de crianças de idade pré-escolar e escolar (Chapman et al., 1987). Estes resultados sugerem que a antecipação da culpa serve, simultaneamente, como inibidora do comportamento antissocial e como facilitadora do comportamento pró-social (Olthof, 2012).

Em contraposição, a vergonha é uma resposta desadaptativa, que reflete a avaliação do self como sendo globalmente mau (Tangney, 1991). Está, por isso, positivamente associada ao comportamento antissocial e negativamente associada ao comportamento pró-social (Tangney et al., 2007). Apesar da evidência empírica sustentar a associação entre a vergonha e o comportamento antissocial, alguns estudos mostram que a vergonha pode contribuir para inibir comportamentos de infração das normas (Olthof, 2012). Como reflete uma identidade não desejada, suscetível de gerar a desaprovação dos outros (Ferguson, 2005), a tendência de ação primária associada à vergonha é esconder-se e manter uma postura submissa face aos observadores externos por quem o sujeito se sente negativamente julgado, com vista a conquistar a sua aceitação futura e a evitar a repetição desta experiência emocional. Deste modo, a vergonha pode gerar diferentes comportamentos, em função da forma como o sujeito perspetiva o comportamento. Esta emoção pode ser despoletada pela presença real ou imaginada do outro, ou pela antecipação da forma como poderia ser percecionado por uma audiência com valores e padrões sociais específicos (Olthof, 2012). A identidade não desejada associada à vergonha implica que a antecipação desta emoção possa inibir o comportamento de rutura com os padrões e regras sociomorais, nomeadamente o comportamento antissocial. Neste sentido, embora a vergonha possa elicitar reações defensivas, pode também estar associada à

obediência aos padrões que o sujeito perceciona como salientes numa situação específica, podendo, por este motivo, favorecer o comportamento moral.

Em síntese, a vergonha e a culpa têm uma conotação moral, por regularem o comportamento desadequado, e levarem o sujeito a agir em conformidade com os padrões e regras sociomorais. Porém, esta dimensão moral é, frequentemente, subestimada na vergonha (Bafunno & Camodeca, 2013), por esta emoção estar, preponderantemente, associada ao desajustamento socioemocional (e.g. Ferguson, Stegge, Miller, & Olsen, 1999; Tangney et al., 2007). Não obstante, face a uma infração, quer a antecipação da vergonha, quer da culpa, parecem refletir a consciência moral do sujeito, podendo favorecer a inibição de comportamentos de rutura com as regras e padrões sociomorais. Com efeito, a vergonha não está associada apenas à defensividade e isolamento, mas também à inibição do comportamento infrator, enquanto a culpa está associada à mobilização de acções reparativas face à transgressão. Estas emoções funcionam, neste sentido, como um ‘barómetro moral’, dando um feedback imediato e saliente sobre a ‘aceitabilidade’ social e moral do sujeito (Tangney et al., 2007). Assim, apesar das diferenças na experiência fenomenológica destas emoções, ambas podem traduzir-se na inibição da transgressão das regras e padrões sociomorais, o que corrobora o cariz moral destas emoções.

1.2.3.2. As emoções autoconscientes como consequência ou antecipação da situação

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