IV.1. OSWALD SPENGLER E A MORFOLOGIA HISTÓRICA DA DECADÊNCIA.
Partindo esta tese do axioma da Vida como realidade radical, a qual intenta ultrapassar a clássica distinção conceptual da história do século XIX, esmagada entre uma visão metafísica hegeliana e outra, positivista contiana (segundo as palavras de Spengler, entre uma materialista, e outra ideológica), a história tal como a vida, são aqui encaradas como um fim em si mesmas, cujo entendimento da dinâmica histórico-social – diversamente do natural – tem que ser captado a partir do interior, na evidência vital da experiência vivida.
A vida não se compadece com a representação anquilosada de quaisquer formas de categorias lógicas ou raciocínios formais, antes é um ‘que hacer’ inadiável, ou ‘la inexorable forzosidad de realizar el proyecto de existência que cada cual es’, bem ao jeito orteguiano. Tal como Spengler também afirma no Prefácio à 1ª edição de A Decadência do Ocidente:
“(...) não se trata segundo a minha convicção de uma filosofia possível ao lado de tantas outras e tendo apenas a sua justificação lógica, mas da filosofia de algum modo natural, pressentida vagamente por todos (...)” 19
A Vida, a Alma e o Mundo, constituem uma tríade inseparável, a primeira sendo a forma e a realização da possibilidade (de criar o novo), a alma, essa mesma possibilidade e que a cabe realizar no tempo, e o mundo a realidade histórica do que já se realizou. Por isso, a vida é o facto capital e radical dentro do mundo, considerado história!
A Vida significa exactamente a realidade tal como é realmente vivida e sentida por cada um, sejam quais forem os mecanismos psico-biológicos que entrem em jogo. A vida humana é uma unidade que se concretiza através de constantes mudanças de estado ou acontecimentos, sob a forma de tempo, constituindo-se como um drama inevitável e omnipresente. Já como afirmava Spengler, o cósmico leva sempre em si impresso o ‘destino da periodicidade’!
O Homem é sempre o actor e produto da vida e do universal, como processo de carácter evolutivo. Por isso é que é um ser histórico: acha-se em devir e vive no meio das coisas do passado, desvelando continuamente a aletheia da natureza e do respectivo perfil
epocal próprio, e perspectivando aquele que lhe haverá de sobrevir..
Vico já manifestara uma aguda consciência desse circunstancialismo histórico quando afirmava na sua Ciência Nova:
“ (A) Natureza das coisas não é senão o seu nascimento em certos tempos e em certas circunstâncias que, sempre que são tais, as coisas nascem tais e não outras.” 20
Nunca é demais relembrar que é Vico, efectivamente, que, na sua obra antecipa as ideias fundamentais do historicismo alemão, em particular Wilhelm Dilthey, ou mesmo Oswald Spengler, propondo pela primeira vez a paternidade do Homem como construtor da história. Sublinhou igualmente a importância daquilo a que chamava ‘Providência’ (ou ‘Destino’, na terminologia spengleriana), e que se materializava numa teoria cíclica da história através da tripla distinção ‘etária’ (idade divina-teocrática/idade heroica-mitológica /idade humana-racional). Deste modo, Vico baseava-se no mundo das acções humanas, ’no que
acontece’, captando nele o fluxo de vida numa dinâmica de compreensão e discernimento
críticos.
Como se referiu anteriormente e tal como aconteceu em Spengler, por exemplo, não estamos perante uma visão determinista como o eterno retorno grego, mas perante uma lei formal (um ritmo histórico) que pé-existe à história e que se refere a uma sucessão de formas análogas e não já de conteúdos. O ritmo histórico a que Spengler se refere, é esse elemento que se pode descobrir na direcção, no tempo e no destino histórico.
Trata-se, a meu ver, de uma autêntica ‘revolução coperniciana’, em termos metodológicos. O homem passa a ser o construtor da história. O mundo civil ou o mundo das nações que se identifica com a própria história, é fruto da actividade humana radicando os seus princípios nas modificações da nossa própria mente. É por isso que como mais tarde vai dizer Ortega y Gasset, a razão não é universal e absoluta, mas histórica e vital. A sua significação substantiva fluidifica-se no seu fieri! O saber não é apenas o conhecimento das coisas, pois para se conhecerem urge desmontá-las e reconstrui-las. Saber é ser capaz de fazer (‘verum est factum, scire est facere’, como diz o aforismo), e para conhecer a natureza de algo é necessário tê-la feito.
Daí, a óbvia importância da ciência histórica – ‘a ciência nova’ – é ela que nos permitirá captar o significado do modelo compreensivo, capaz de nos fornecer a direcção ou tendência que se auto-manifesta na história das nações e que, talvez, permita profetizar com base nessa tendência, o que será o seu futuro desenvolvimento. Tal como o pensador napolitano refere:
“Pelo que esta Ciência vem simultaneamente a descrever uma história ideal eterna, sobre a qual transcorrem no tempo, as histórias de todas as nações nos seus surgimentos, progressos, estados, decadências e fins (...) tendo este mundo de nações sido certamente feito pelos homens (...) e por isso devendo-se descobrir o modo dentro das modificações da nossa própria mente humana – ele, naquela prova ‘teve, tem e terá’ (...) porque, quando acontece que quem faz as coisas é o mesmo que as narra, não pode aí ser mais certa a história.” 21
A actualidade de Vico leva-o a rejeitar julgar idades passadas mediante pontos de vista a si contemporâneos mais ou menos dogmáticos, como sejam os factores operantes da raça, do clima, do meio, etc., acreditando, pelo contrário, nas leis do crescimento e da decadência que se revelaram importantes em desenvolvimentos posteriores da interpretação histórica (Dilthey, Spengler ou Toynbee). Intenta Vico a partir dos factos, extrair leis necessárias que possam detectar o plano de uma história eterna e ideal de todos os povos. É neste particular que o autor napolitano se mostra inovador e grande obreiro da visão morfológico-orgânica da história, à maneira de um Spengler.
A ideia de ‘ciclo’, em que cada ‘nação’ passa por várias fases de desenvolvimento e em que cada fase possui um carácter específico que permeava todos os sectores da expressão e vida humanas, ou seja, identifica-se claramente com a antecipação de uma visão pessimista spengleriana. Quando nos lembramos da sucessão evolutiva das três idades, todas as dimensões da vida humana têm sempre uma analogia e um ciclo comum com os conceitos orgânicos (nascimento – juventude – velhice – morte), tal como acontece com a sucessão das culturas.
Todavia, e tal como se deixou dito anteriormente, não deveremos julgar esta sequência como um determinismo, mas tão só como uma lei puramente formal que se presentifica numa sucessão de formas e modos, mas nunca de conteúdos e valores. Nesta visão necessariamente panorâmica, constatamos que Giambattista Vico inaugura uma etapa importantíssima no modo de encarar a História, já que se emancipa das concepções
teológicas de asserções mitológico-heróicas, abolindo os pseudomitos e dessacralizando o real.
Vico tenta teorizar o irrepetível naquilo que dará origem a uma especulação fisionómica e morfológico-histórica do devir. Não importa o que são per si os factos palpáveis da história com fenómenos epocais e situados, mas sim a sua ‘dignidade’ aquilo que eles significam e indicam, pelo simples facto de aparecerem. Na esteira de Dilthey, há que compreender o Homem naquilo que constitui a sua própria essência constitutiva (o viver) e interpretá-las como expressões de vida ou vivências, conforme nos é dito em
Psicologia da Compreensão:
“No centro desta conexão adquirida agita-se sempre um feixe de impulsos e de sentimentos. Comunica ele interesse a uma nova impressão, suscita uma representação, deixa nascer uma direcção da vontade. O interesse desemboca no processo de atenção. O grau maior de consciência, em que consiste esta atenção, não existe ‘in abstracto’, mas consiste em processos, e estes configuram a percepção, formam uma representação mnemónica, constituem um fim ou um ideal, e tudo isto em
ligação viva e vibrante com toda a vida psíquica adquirida. Tudo aqui é vida.” 22
O material das vivências é a realidade histórico-social enquanto percepção real, ou elemento histórico do conhecimento, comportamento uniforme dos conteudos, enquanto elemento teórico, e juízos de valor, enquanto elementos práticos. Spengler referindo-se à ‘forma’ para se referir à clássica noção de ‘nação’, a qual foi no início do século XX duramente questionada pelos apologistas do universalismo e globalismo, efectiva uma desconstrução do conceito de história universal, através do primado da ideia de decadência, pois considera que a dinâmica do declínio constitui como que uma necessidade balizada à volta de sequências de mil anos.
Neste período as culturas passam por ‘estações ou estados de crescimento’ em número de quatro: Primavera (nascimento), Verão (maturidade), Outono (decadência) e Inverno (extinção). É esse o caminho que ele irá seguir através da expressão ‘recorrência histórica’, e cujos frutos Ortega y Gasset não deixará de aproveitar, reforçados pela visão diltheana (o grande teórico da vida) da doutrina da compreensão:
“E na compreensão partimos da textura do todo, que se nos oferece de um modo vivo, tornando-nos assim apreensível o singular.” 23
22 DILTHEY, 2002, p. 63.
O que há então de sublinhar através deste paralelismo e deste remontar às ‘origens’ do ‘pensamento histórico’? Apenas uma ideia-força: a filosofia não é obra da razão absoluta, mas da vida humana. Daqui o constatar e reconhecer que a História Universal acaba por ser a auto-biografia da Humanidade, sendo que a mesma só pode ser cabalmente compreendida, quando a aventura humana vital, tiver chegado ao seu final.
É no todo e não na parte, que reside o seu mais amplo e profundo significado (a totalidade vivida), pois é a partir daí é que se tratará de demonstrar a validade supra- histórica e universal da ciência do passado humano.
O fundamento das ciências do espírito em geral e da história em particular, não se encontra em nenhuma realidade metafísica ou actos psíquicos de tipo atomista, mas sim, reside na evidenciação vital das estruturas ou estados de consciência: a vida é o princípio e o fim da verdade e compreende-se na própria e radical experiência interior de uma psicologia compreensiva. O historiador é, assim, aquele que numa visão panorâmica capta a realidade no seu conjunto, pois insere cada facto na totalidade vivida, demonstrando a validade universal da ciência do passado humano. Daí Dilthey apelidar, na sua obra já citada, este tipo de psicologia, psicologia real, contrastando com a psicologia atomista, que encarava as sensações como partes ou elementos separados:
”A psicologia explicativa (...) não tem, pois, por objecto a natureza humana integral e o seu trecho concreto (...) contrapus-lhe o conceito de uma psicologia real (...) cujas descrições visavam apreender a integridade da vida psíquica, as conexões que nela existem e, além das suas formas, também o seu conteúdo.” 24
A compreensão diltheana é, então, aquilo a que Spengler denomina como o destino do homem culto que vive para dentro, ou seja, o verdadeiro motor da vida, mas este não pode ser representado por quaisquer formas de categorias lógicas. Como todas as manifestações externas do homem exprimem estados ou eventos mentais, ela relacionará qualquer dessas manifestações com o respectivo estado subjacente, através de dois momentos capitais: a transposição e a revivência ou recriação.
Por isso urge desdogmatizar o esquema clássico e rectilíneo ‘Idade Antiga’/’Idade Média’/’Idade Moderna’, já que o que o autêntico filósofo da história deve realçar, não é o que aparentemente se mantém imóvel, mas o que varia, o que é dinâmico, através de um amplo e complexo sistema de relações e analogias.
Todavia, e isto é muito importante, a ‘compreensão diltheana’ nunca atingirá o valor lógico de verdade absoluta, pois como atrás referi, a certeza é de índole inteiramente subjectiva. Como ser histórico que é, e determinado por um tempo de vida e de morte naturais, o Homem acha-se inserido no eterno ciclo de vida mas numa cosmovisão necessariamente situada, e é a partir desta perspectiva, que compreende os fenómenos históricos impulsionando-os num sentido unitário, isto é, numa concepção do mundo (uma Weltanschauung). O objecto da concepção do mundo não é um enigma reportado ao conhecimento objectivo, mas, pelo contrário, um enigma decorrente do próprio facto da Vida, mutável, singular e única.
A ciência histórica é, pois, uma captação da vida que devém no decurso dos tempos, e o homem é histórico porque vive no meio das coisas do passado e desenvolve- se, amplificando as suas conquistas e experiências num inesgotável hic et nunc, o qual constitui o tecido da história nas suas diversidades e particularidades. Não é ao intelecto que só encontra verdades e as critica que devemos recorrer, mas à razão que evoca ideias e que é capaz de criar.
IV.2. AS CATEGORIAS DE NECESSIDADE E RECORRÊNCIA