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In document GEOLOGI FOR SAMFUNNET (sider 34-40)

Na época actual, e a partir do absoluto da ideia de Liberdade, pode dizer-se que se assiste a uma reacção ‘contra’ a história. Á medida que ela se torna absoluta, mais se denota uma insatisfação que normalmente é sinónimo de tragicidade. O eu sonha romper com a abundância de conteúdos culturais herdados e com o rigor anquilosado de formas culturais fechadas. Aí surge o impulso vital que nunca consegue cabalmente dominar problemas novos e que, amiúde, não consegue sequer rever velhas soluções. Há como que uma constante exigência de adaptação, flexibilidade, reconstrução, às situações novas que nunca terminam.

Por outro lado, e perante o absoluto da civilização técnica, na sua dupla dimensão de manipulação e fabricação, o eu manifesta a sua indigência e incapacidade em lidar com a superabundância das mil e uma possibilidades nela contidas, acabando por se sentir sozinho e vazio, desamparado perante a sua própria infelicidade, deixando-se serena e silenciosamente embalar e aceitar, todo o acontecer. A realidade, tal como uma paisagem, pode ser vista a partir de inúmeras perspectivas, todas verdadeiras, excepto naquela que se considerar a única existente. Por outras palavras, a única perspectiva falsa, segundo a filosofia perspectivista, é exactamente a que pretende ser única. A ingenuidade das filosofias estáticas consistiria em ignorar que interpretam o mundo como se o filósofo não estivesse situado no tempo e no espaço, mas fosse uma simples pupila anónima aberta para o universo!

A realidade histórica que analisamos em pormenor, a saber, o fenómeno histórico- filosófico da cultura pós-Moderna, encarado aqui como um sintoma real da crise contemporânea, só é expresso como facto de ‘natureza vivida’ na acção, no desejo, na recusa, na paixão e na liberdade que definem o nosso ser como história, ou seja, numa dimensão totalista. Reflectir sobre o devir da Cultura e do Homem e considerar a história como lugar sintético de Natureza e Liberdade, é a cifra de uma filosofia da vontade e da cultura, baseadas na efectiva diversidade histórica das formas humanas de vida, em que o sentido não ultrapassa a cifra biológica da degenerescência.

Falar-se de ‘filosofia da vida’ é falar de ‘vida como mundo’, de vitalidade, é assentar- se num protesto da vida contra a função predominante na sociedade contemporânea, do entendimento interpretado como cálculo, num protesto de alma contra a máquina, a coisificação e a tecnificação, sendo que a concepção de que o Homem por ela engendrado

não é pensamento (‘cogitatio’), mas Vida. Logo, não nos devemos cingir à ‘razão pura’ das visões iluministas e positivistas, mas à ‘razão histórica’!

A vivência é um fluxo concreto, contínuo e omnipresente do viver íntimo, irredutível ao atomismo ou abstraccionismo conceptuais. Trata-se, tal como afirmava Ortega, de afastar o imperialismo dos conceitos e não forjar ilusões á volta de uma suposta linearidade da verdade. Neste contexto, toda e qualquer afirmação histórica concreta é sempre e invariavelmente expressão histórica da vida, no sentido em que o Homem é história e tem uma essência temporal própria, a qual lhe transmite um sentido historicamente vivo que coloca futuro, presente e passado numa relação produtiva de plasticidade.

O rumo é claramente o de extravasar a crença numa Verdade exclusiva, alcançável pela Razão e o rompimento ou ruptura da ideia de linearidade histórica, como sinónimo de Paz e Progresso. Os referenciais histórico-filosóficos e sociológicos, transmudam-se decisivamente, num sentido completamente outro. Agora, a Verdade é ilusória, polimorfa, íntima e subjectiva, longe de quaisquer padrões de objectividade e totalidade categorizantes. A desconstrução de princípios, conceitos e sistemas construídos na modernidade, a derrota da esperança revolucionária, a despolitização ideológica, a desafecção social e a consequente banalização, nivelamento e deserção sociais, tornaram-se sinónimos de neutralização do pensar, indiferença, enfim, tornando a imagem da nossa época uma imagem de crise e decadência criativas.

Como bem salientou o famoso Heraclito de Éfeso, grande ideólogo do Devir, a única realidade permanente é exactamente a de que nada é absoluto, a única coisa permanente é a mudança. A Mudança é, em si, o valor, o meio e a matéria de que é feita a História. Ela é a força fundamental eterna e insubordinável a uma ordem racional rígida. O Devir aparece associado ao Logos (sinónimo de Razão de Tudo ou Unidade), e é entendido primordialmente como força motriz e directiva do universo, a partir do qual se explica o carácter de permanente transformabilidade das coisas. A forma de que se reveste é a imagem do Fogo como perpétua transformação (o Sol nasce todos os dias, e todos os dias é ele próprio diferente).

A partir do carácter evolutivo/involutivo de tudo o que existe, entende-se a relatividade existencial dos objectos e da própria vida, já que a lei geral do movimento se encontra em estreita ligação com a luta dos opostos. A oposição é a condição da estabilidade e diversidade de tudo o que existe. Como força motriz e lei universal da vida, ou seja, o Logos/Devir assume o papel de Destino. O significado vital do logos, enquanto

fórmula unificadora e organizadora do universo relaciona-se com o sentido geral da ‘medida’, ’proporção’, que fornece sentido às coisas múltiplas. Daí, ser o constituinte cósmico (unidade) de tudo (destino). É isto, afinal, a vida, causa primeira e criadora, na qual o Homem se encontra ancorado e que o transporta!

A espinha dorsal da Vida, é constituído pelos conceitos de História e Vida. A vida humana é a verdadeira realidade radical, tal como na perspectiva de Ortega y Gasset, pois a filosofia aparece como exigência natural imposta pela vida e não como capricho intelectual, pois segundo ele ‘no hay un vivir abstracto.’ Como tal, o seu enquadramento deve fazer-se historicamente. O único modo que o homem tem de a experimentar, é através da história! É na reflexão sobre as manifestações históricas, que a vida se vai aproximando daquilo que ela efectivamente é, ou seja, uma estrutura ou totalidade compreensiva.

Essa estrutura tem três dimensões: a primeira é de ordem representativa ou intelectual, regida pelo entendimento, o qual constrói uma imagem objectiva do mundo (ciência). A segunda dimensão é de ordem afectiva, sobre a qual se constrói um conjunto de valorações que acompanham o viver (experiência de vida e estima dos valores). A terceira, é de ordem volitiva, na qual se inserem as acções em que a vida é fértil (princípios de acção e vontade). É nesta conjugação ou totalidade de dimensões, que a Vida se auto-realiza e se vivencia, e, deste modo, se compreende nas suas expressões históricas e objectivas, ou seja, é aquilo a que Dilthey chama ‘concepções do mundo’.

Hoje em dia, o progresso é uma ideia quase desacreditada, devido em grande parte à crítica demolidora que lhe foi dirigida por Schopenhauer, Nietzsche, Kierkegaard, Simmel, Spengler, e mesmo Ortega y Gasset. A negação total da ideia de progresso, segundo a qual o progresso integral da humanidade nas suas relações com a evolução global do cosmos, resulta de uma necessidade intrínseca do próprio processo histórico e caminha em direcção a um fim imanente da história, implica necessariamente a rejeição das suas cinco premissas primordiais:

 a fé absoluta no valor do passado;

 a convicção de que a civilização ocidental é nobre e superior às outras;  a aceitação do crescimento económico ilimitado e a crença nos avanços

tecnológicos infinitos;

 a fé na razão e no conhecimento científico e filosófico, que nasce da confiança total na racionalidade.

Isto significa que, num mundo que deixou de confiar no progresso e de ter esperança, as pessoas tendem a renegar o passado e a tradição, a deslocar ou a relativizar o Ocidente, a atacar ou recusar o crescimento económico, a recusar ou a rebaixar o conhecimento e a sabedoria, entregando-se obsessivamente aos prazeres ilusórios da efemeridade material, naquilo a que Lipovetsky apelida de ‘democracia dos prazeres’.

A destruição do pensamento meditante, enraizado no valor-espírito, em prol da mera estética do consumo, a preguiça de espírito, a incultura generalizada, a universalização do cinismo e o culto da eficiência e do dinheiro, são hoje realidades indesmentíveis que afastam o maior optimismo e esperança, na ‘bondade’ e no revigoramento da espécie humana.

CAPITULO IV

DE DILTHEY AOS PARADIGMAS SPENGLERIANO E ORTEGUIANO DA

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