Iniciou-se este estudo pela inventariação da bibliografia que permitiria construir uma fundamentação teórica para os temas a abordar. Mediante a leitura, análise e discussão da literatura, foi-se aprofundando o enquadramento teórico e aferindo quais as questões que importavam colocar, quais os intervenientes a entrevistar e quais as fontes a procurar para ir ao encontro da pergunta orientadora.
Depois de identificados e contactados alguns agentes, construiu-se uma lista de envolvidos no estudo: o presidente da associação, representantes de três dos municípios constituintes e três participantes em diferentes atividades relacionadas com a associação. Foi também listado o conjunto de documentos de especial interesse para a investigação: estatutos, plano de atividades, plano de viabilidade económica financeira, planificação de projetos e documentos de divulgação da associação e de atividades.
Visitou-se ainda dois centros interpretativos da associação (nos concelhos de Arruda dos Vinhos e Sobral de Monte Agraço), fez-se visitas guiadas a dois fortes (Alqueidão e Carvalha) e assistiu-se a uma recriação histórica para obter uma perspetiva enquanto visitante e participante, em que se recorreu à observação e análise direta da realidade.
A restante informação foi recolhida por via digital, nomeadamente nos sítios que as Câmaras Municipais disponibilizam na internet e que apresentam dados diversos sobre as atividades realizadas em torno da temática das Linhas de Torres.
Considerando o âmbito e os objetivos da investigação, também as fontes e documentos a recolher e analisar, contribuíram para a opção pelo estudo de um caso, metodologia que prevê o recurso a fontes diversificadas, com a aplicação das técnicas de recolha e análise documental.
A escolha da metodologia do estudo de caso é, de facto, intuitiva quando o problema analisado envolve variáveis comportamentais e se pretende caracterizar os sujeitos de forma completa e por meio de fontes diversas, diferentemente do que acontece na modalidade experimental, pois recorre a “métodos que fazem uso da sensibilidade humana, como a entrevista, a observação e a análise. Formas não probabilísticas de amostragem e a análise de dados indutiva são consistentes com os objectivos e pressupostos deste paradigma, tal como são modos específicos de garantir a validade e a fiabilidade” (Merriam, 1988, p. 2).
54 Definindo-se este método de investigação por “estudo em profundidade de um ou mais exemplos de um fenómeno no seu contexto natural, que reflete a perspetiva dos participantes nele envolvidos”(Gall e colaboradores 2007, cit in Amado, 2013, p. 124), onde se procura conhecer e compreender as especificidades de um caso, a estratégia vai ao encontro do tipo de investigação que aqui se pretende realizar (abordagem qualitativa num paradigma interpretativo), bem como da especificidade do caso selecionado: a associação Rota Histórica das Linhas de Torres (caso delimitado, ao qual tenho facilidade de acesso).
Sabendo que na seleção de um caso há critérios a considerar, tal como referido por Stake “maximizar o que podemos aprender”, constituir um caso de “fácil aceso” (Stake, 2012, p. 20), importando ainda garantir previamente a colaboração dos atores, considero que os meus objetivos de investigação cumprem estes critérios, para além de perseguir o objetivo principal do estudo de caso: a particularização.
Na medida em que o foco da investigação qualitativa é a interpretação, ligando-se ao exame atento daquilo que o investigador observa, atribuindo-lhe significados diversos, pretendo “entrar” nesta investigação não apenas como observadora, mas também como participante ativa, nas atividades dinamizadas pela associação RHLT, envolvendo assim neste estudo a minha experiência pessoal, profissional, bem como a influência de outros estudiosos.
Se, num estudo de caso, as questões que são inicialmente colocadas podem ser modificadas de acordo com o desenrolar da investigação, tal permitir-me-á ir adaptando os pressupostos à medida que vou construindo a dissertação, alargando talvez as dimensões de análise à medida que descubro novas vertentes a explorar.
Stake (2012, p. 28) refere que o destaque dado à interpretação pode revelar-se perigoso se as conclusões dos investigadores de um estudo de caso se basearem numa recolha de informações pouco exaustiva. Afirma o autor que “um bom estudo de caso é paciente”, devendo o investigador preservar as múltiplas realidades e perspetivas num processo de observação discreto, “não interventivo e empático”, pelo que pretendo suportar a minha investigação em múltiplas fontes e técnicas.
A escolha desta modalidade de investigação depende, assim, de aspetos diversos, tais como a natureza das dimensões de análise, a particularidade do caso, os objetivos da investigação, o tempo disponível para a compreensão e caracterização integral do fenómeno em estudo de uma forma contextualizada, em suma, o estudo de caso prende-se com uma descrição e análise profunda e completa de uma unidade, baseando-se no raciocínio indutivo com base em diversas fontes de dados.
55 Devido às características mencionadas, o estudo de caso é associado à investigação qualitativa, em que se pretende compreender a significação de um fenómeno como um todo, diferenciando-se do paradigma científico (de cariz mais objetivo, observável e mensurável). A problematização e exploração dos fenómenos em estudo assenta na sua observação e compreensão em situação natural, sem manipulação de variáveis, sendo o processo o principal foco da investigação, seguido pela busca de significado por parte do investigador (este torna- se parte integrante do fenómeno, experienciando e interpretando o mesmo), constituindo ele próprio um instrumento de recolha e análise de dados através das suas perceções, sensível e adaptável às situações. “O que se tem que fazer é observar, intuir, sentir o que está a ocorrer numa situação natural – daqui o uso da expressão pesquisa naturalística” (Merrian, 1988, p. 9). O trabalho de campo é outra das características da investigação qualitativa, que normalmente acontece junto das pessoas, onde é possível observar os comportamentos em contexto natural.
Neste estudo de caso, recorri a múltiplas fontes e técnicas de recolha de dados, a saber: recolha documental (estatutos da associação, plano de atividades, estudo de viabilidade sócio- económico, publicações diversas no âmbito da ação da associação), entrevistas semiestruturadas (ao presidente da associação, a representantes dos municípios e outros intervenientes, nomeadamente a técnicos que desenvolvem iniciativas da associação, para descobrir os motivos que originaram a criação da associação, como se organizam os associados, quais os contributos de cada um, como divulgam as atividades da associação, quais os meios de financiamento, quais as finalidades e o que proporcionam aos munícipes e às localidades) e observação (dos espaços reabilitados, e de espaços criados pela associação). As entrevistas semi-estruturadas realizadas possibilitaram o contacto direto com os intervenientes, o que permitiu a adaptação/ reformulação das questões apresentadas sempre que necessário. As entrevistas basearam-se em três guiões diferentes, formulados para abranger as questões atrás apresentadas, num primeiro momento aos técnicos em serviço à associação e depois a participantes em diferentes atividades promovidas pela associação. Por motivos de disponibilidade, o presidente da associação foi o único que respondeu à entrevista por escrito (via email).
No que respeita à técnica de tratamento da informação recolhida, foi a análise de conteúdo, considerando o conjunto diversificado de documentos recolhidos a analisar e a prévia definição da metodologia:
56 “Conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter procedimentos sistemáticos e
objectivos de descrição do conteúdo das mensagens indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) destas mensagens.” (Bardin, 2014, p. 44).
A análise de conteúdo permitiu assim estruturar as informações recolhidas, facilitar a interpretação dos dados e a organização da própria análise.
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