Ao estar nas comunidades e conversar com seus integrantes sobre suas adversidades, a escola aparece como um lugar de destaque, principalmente pelo fato de ter sido fruto de uma luta das comunidades. Pois, como bem discute Gomes (2006) em seus estudos sobre o racismo na escola, “nos moldes do capitalismo, essas relações sofreram várias transformações, mas não deixaram de lado um legado histórico de exploração de um grupo social e étnico-racial em detrimento de outro” (GOMES, 2006, p. 23).
A importância para eles é muito grande! Eu acho que eles valorizam muito a escola. Eles têm uma coisa com eles, que essa escola aqui é deles. Eles consideram como deles. Até os alunos falam: Essa escola é nossa! É uma luta deles, foi na verdade uma luta deles. Se eles não partissem para reivindicação, correr atrás, não teria a escola aqui. Eles falam que uma aluna chegou a ser picada por uma cobra indo para a escola que era em Itapeúna. Como não tinha escola por aqui, estudavam longe, em Itapeúna.
(Rosana, hoje diretora da Escola Estadual Maria Antônia Chules Princesa, membro das comunidades, com trinta anos de docência e dedicação às escolas da comunidade)
Assim, a dimensão do escolarizar ocupa outro sentido, que para as comunidades acaba sendo o de aprender para também trazer melhores condições de vida. A educação não deveria se restringir à orientação profissional, técnica, mas deveria se voltar “a todos indistintamente, possibilitando tanto a apropriação dos conhecimentos das ciências, como das capacidades práticas em todas as atividades produtivas” (LOMBARDI, 2008, p. 13).
As comunidades lutaram para que tivesse uma escola, para que seus filhos não tivessem que se deslocar até Itapeúna. O transporte era difícil, hoje ainda é! Quebra muito ônibus aqui, não tem transporte à noite! É difícil! Então, tiveram muitos pais que não estudaram, estão estudando agora na EJA. A gente sabe que foi uma luta deles, dos quilombolas das comunidades
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que se uniram e lutaram para que tivesse essa escola aqui hoje?!
(Coordenadora Pedagógica)
Porém, a luta pela efetivação de seus direitos constitucionais é uma necessidade de sobrevivência, pois se não fosse por essa consciência política, o direito de se escolarizar não estava sendo garantido e, além de tudo, jovens e crianças estavam correndo risco de vida rumo à escola.
Essa escola aqui é uma vitória! É uma vitória porque, eu falo assim como experiência de vida. (Professora de Português, Quilombola)
Aprender para se empoderar e buscar em condições de igualdade atingir seus objetivos de vida, tanto pessoais quanto coletivos. O empoderamento dos membros das comunidades é imprescindível. “É preciso propiciar a todos os homens o acesso aos conhecimentos historicamente produzidos pela humanidade, bem como, uma educação crítica pautada em uma política de transformação socia (LOMBARDI, 2008, p. 34)”.
A valorização do ler e escrever, do conhecimento das leis e da história, mostra que há uma necessidade histórica de conhecerem para valorizarem suas origens e seus espaços. Sobre o aprendizado e crescimento humano, Vygostky (2005) esclarece que “o bom ensino é aquele que se adianta ao desenvolvimento (VYGOSTSKY, 2005, p. 114)”. O aluno se desenvolve quando aprende. E as palavras de Leontiev (1978) justificam a importância de se apropriar do conhecimento historicamente acumulado ao dizer que “o homem apropria-se das riquezas deste mundo participando no trabalho, na produção e nas diversas formas de atividade social e desenvolvendo assim as aptidões especificamente humanas que se cristalizaram e encarnaram nesse mundo” (LEONTIEV, 1978, p. 265).
Então, o objetivo deve ser igual que o aluno aprenda, se empodere do conhecimento, para ser dono do seu próprio nariz. Tem que ser livre. Mas para ser livre tem que ter conhecimento! Se ele não tiver tudo que chegarem e falar aqui vai ser verdade, a gente vai sempre concordando, dizendo: você tá certo! Você tá certo! Não, ele tem que ter opinião própria, ele tem que ser crítico! Ele tem que pensar! Então para ele pensar, decidir ele tem que ter conhecimento! Tem que conhecer! Mas para isso ele precisa da escola.
(Professora de Português, Quilombola)
Mas esse aprender deve garantir o acesso ao conhecimento socialmente produzido e também falar das necessidades humanas, o que, para Gomes (2006), é
164 desmascarar e enfrentar o racismo, engendrando forças por meio da aquisição do conhecimento:
Nas relações de poder, as diferenças socialmente construídas e que dizem respeito aos grupos sociais e étnico-raciais menos favorecidos foram naturalizados e transformados em desigualdades. É preciso enfrentar o debate das desigualdades sociais e raciais no país. Para isso é preciso compreender o que é pobreza e como ela afeta, de maneira trágica uma grande parcela da população, assim será possível analisar que as pessoas pobres e negras enfrentam os maiores preconceitos e dificuldades em nosso país. (GOMES, 2006, p. 25).
A escola tem que ter um sentido e tem que falar daquilo que se quer e precisa saber. Ela deve criar condições que considerem a memória e a história das comunidades, contudo não pode negar a apropriação do conhecimento historicamente acumulado. Esse trabalho pedagógico, que fale das realidades, das tramas do racismo e que valorize a cultura e a tradição local, deve ser construído coletivamente. Os movimentos sociais, representado pela liderança e por membros das comunidades, devem e questionam a escola sobre sua função social naquela comunidade, o que acaba pressionando e, consequentemente, levando a implantação de trabalhos pedagógicos que falem da realidade. A educação escolar quilombola deve cumprir a sua função de transmissão do conhecimento, de modo que permita que seus alunos venham, no futuro, a contribuir com as lutas das comunidades.
Na escola a gente se incomoda com o conteúdo passado, porque a intenção das comunidades que lutaram pela escola é colocar um conteúdo que tenha sobre a história das comunidades. Para os alunos saberem que São Pedro é uma comunidade com mais de duzentos anos. Então precisam conhecer mais sobre suas comunidades. (Liderança da Comunidade São Pedro)
A valorização do saber sistematizado não é recente, mas sim algo que vem sendo passado de gerações como uma condição de protegerem seus direitos e seus espaços.
Minha mãe era analfabeta, mas fez de tudo para a gente estudar. Porque era tudo difícil para ela sem saber ler. Para ela ler um documento tinha que pedir para alguém que estava do lado e ela achava aquilo uma humilhação. Com a educação você tem conhecimento e informação. (Liderança da Comunidade São Pedro)
O fato de saber ler e escrever aparece como uma necessidade e ao mesmo tempo como um instrumento de sobrevivência e superação das adversidades.
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A gente precisa saber ler e escrever para tudo. Então sem a escola fica difícil. A gente precisa conhecer os documentos para fazer parcerias, ver o que vai assinar. Então tem que ir para a escola. (Liderança da Comunidade Nhunguara)
Esse trajeto revelou dificuldades que foram insistentemente superadas, descritas a seguir.