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Durante o processo de construção de sentidos sobre este tema, algumas possibilidades de transformar as dificuldades foram sendo negociadas. Segundo Rasera e Japur (2005), na dinâmica conversacional acontecem discordâncias e essas convidam outras explicações e podem favorecer a construção de novos sentidos. Após muitas falas de desabafo, surgiram

outras que trouxeram para o processo grupal a necessidade de ajuda para que a equipe pudesse aprender a lidar e a conversar. Para tanto, as falas sobre ausência de uma equipe de apoio e de ajuda ficaram marcantes em muitos diálogos.

Ana: Você se sente incapaz. Eu acho que a gente precisa de preparo (...). Eu acho que começa por aí, né, nessa falta de preparo que a gente tem. Também eu acho que alguma coisa assim [...] depois disso a gente poderia até desenvolver algumas atividades com essa população com esse pessoal, mas a gente não sabe nem por onde começar.

Renata: A sensação é essa, quando a gente sente que faz um pouquinho, nossa! Aparece tudo aquilo que você trabalhou o dia todo. Se você sente que você ajudou um pouquinho ou que saiu, você ajudou a família, parece que o cansaço passa a gente passa e a gente vai embora feliz, mas não é assim que acontece, né. Cada dez caso um acontece assim. Na maioria das vezes que nem elas falaram a gente se sente impotente, a gente quase não resolve nada e aí até eu vou embora o dobro de cansada.

Débora: você tem até a sensação de tudo que você fez certo deu errado naquele dia.

Renata: Isso!!!Isso, aí você pega o carro pra ir embora vai pensando, entendeu? Então, além de tudo isso que falaram eu às vezes eu sinto até uma carga assim, um negócio, se sente também incompetente sabe? Não sei me comunicar, mas acho que é isso. No mais é gostoso, até para nós faz bem (risos).

As falas mostram a necessidade e o desejo de aprender a resolver os problemas vivenciados no cotidiano do trabalho. A partir dessas reflexões, algumas das necessidades da equipe são evidenciadas como falta de apoio, de capacitação, de treinamento e de escuta desses sentimentos. Até mesmo a sensação de não estar sendo compreendida ou de não estar conseguindo dizer o que sente marca a intensidade afetiva desse relato e também indica que a forma de lidar com os próprios sentimentos pode ser a ferramenta facilitadora ou obstrutora do cuidado (VIETTA; KODATO, 2001).

A esse respeito, a tarefa do cuidado é narrada de forma ambivalente. Ora aparece como negativa, permeada por sentimentos de que não conseguem resolver nada, ora como positiva, no sentido de caminhar em busca de novas experiências e de novos sentidos visando

encontrar maneiras satisfatórias de ajudar os pacientes e de também oferecer conforto a si próprio e à própria equipe. Há entre os participantes a negociação de alternativas possíveis para transformar e criar possibilidades de cuidado.

Definir e explicar a aflição desencadeada pela experiência de enfermidade, dotá-la de sentido, envolve atos de interpretação que se desenrola em um mundo compartilhado com outros. Ou seja, estes “outros” são compostos de uma pluralidade de vozes com quem se dialoga, negocia, debate a fim de produzir definições, conceitos e também formas de manejar a doença. (SOUZA, 1999).

Com relação a isso, sentidos sobre a necessidade de cuidado da própria equipe também despontam em muitas conversas. O contato com o adoecimento psíquico gera a necessidade de conhecer, identificar e aprender a cuidar. É interessante notar que nesse momento da conversa sentidos sobre a humanização do cuidado aparecem como uma necessidade dos participantes. Para que a humanização do cuidado ao portador de transtorno mental aconteça é preciso que os cuidadores também sejam humanizados. Nesse sentido, sem espaço para falar de si, as dificuldades pessoais, as peculiaridades de cada trabalhador são usadas muitas vezes como justificativa para o não cuidado. Segue abaixo trecho de uma conversa que retrata o exposto:

Renata: Mas você sabe que nós, principalmente nós as mulheres a gente tem alguns dias, eu acho que todo mundo passa por isso hoje, né? Alguns dias ruins que a gente trabalha meio mal com a gente, nosso raciocínio fica mais baixo e a gente também tem um pouco daquela TPM. Não deixa de ser, né? (risos) Então tem aqueles dias que você não consegue raciocinar, você tá ansiosa, você ta com dor nas pernas, então eu acho que a saúde da gente também ali e, e a gente [...] mesmo não consegue se controlar.

(Risos do grupo). Então pra nós às vezes com a gente mesmo, fica mais difícil trabalhar.

Lia: Porque a gente é ser humano. Renata: É, a gente é ser humano também.

Diante dos sentimentos expostos, dentre outros anteriormente relatados, as incertezas, os medos e as sensações de impotência não denotam desejo de se colocarem como irresponsáveis pelo cuidado do portador de transtorno mental na unidade de saúde da família, mas ao contrário, são construídos sentidos sobre o desejo de aprender a cuidar e o desejo de serem cuidados.

Além disso, os participantes conversam sobre o suporte necessário para que os cuidados sejam promovidos. Para tanto, definem que um profissional ou equipe especializada em saúde mental possa oferecer informações, orientações de construções de novos saberes para que uma intervenção tenha sucesso.

Adriana: Eu acho assim, que o paciente ele pode ser cuidado na unidade, mas com tanto que a gente tenha um preparo melhor uma capacitação em saúde mental, né. A Ana falou que a gente não tem esse treinamento, nada. Talvez a gente em muitos casos não saber abordar em alguns aspectos, a gente consegue em alguns casos mas em outros não. Se a gente tivesse uma capacitação melhor, eles podem sim serem acompanhados pela equipe de saúde, não precisa ser necessariamente ser encaminhado lá pra saúde mental.

Pesquisadora: Alguém mais gostaria de falar?

Luciana: Aí a gente precisaria da equipe matricial aí pra nos capacitar, nos acompanhar.

Com relação ao suporte desejado e necessário, o Apoio Matricial, relatado pela participante, é um dispositivo legal proposto pelo Ministério da Saúde a fim de oferecer o suporte necessário para que a integralidade e a resolutividade na Atenção Básica seja alcançada (BRASIL, 2006). No município onde se situa esta equipe de saúde da família não foi implantado o Apoio Matricial de saúde mental.

Os sentidos sobre o desejo de cuidar, mas “não saber por onde começar” também foi construído pelo grupo e algumas experiências de capacitação foram relatadas como um recurso facilitador do cuidado, porém nenhuma mudança nas estratégias de cuidado foi colocada em prática. Nesse sentido, para que a ampliação e a inclusão do cuidado aos

portadores de transtornos mentais graves seja possível na comunidade, a equipe de saúde da família também necessita de muitos investimentos e vínculos com novos atores e novos saberes para que possam reconstruir não somente as ações de cuidado em saúde mental, mas sim todas as suas ações de saúde.

5.4.4 Condições da equipe para o cuidado – A equipe que “sente que