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Figura 2.12 Fachada e ala direita do Colégio Arquidiocesano no bairro da Vila Mariana.

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O novo prédio é um marco na história do Colégio. Ele foi planejado e construído para ser uma escola e contou com grande investimento financeiro, situação bem diferente da descrita nas páginas da Publicação comemorativa que narrava a dificuldade que foi construir o prédio do Seminário Episcopal em 1856.

Suas dependências – os cômodos que foram construídos, sua localização, tamanho, disposição e mobiliário usado – ajudam a montar um quebra-cabeça de como a educação católica para uma elite masculina paulista era compreendida naquele momento. Se falamos de educação dos sentidos, por que não indagar: como o novo espaço do Arquidiocesano formava os sentidos dos alunos? E a visão, apesar de não ser o único sentido valorizado, era sim muito requisitada. O grandioso prédio aguçava os sentidos, surpreendia pelo tamanho e acabamento, pela entrada suntuosa e pelos amplos espaços. Não tinha como ignorar a já tradicional instituição escolar, agora mais do que antes investida de modernidade. O prédio não foi construído para ser ignorado e, deste ponto de vista, ele cumpria seu papel – era uma escola para ser vista.

Em relatório do inspetor federal designado para verificar as condições materiais no Colégio, a avaliação é positiva. Em relação à sala de Ciências físicas e naturais, observa-se que a aparelhagem segue as prescrições do Departamento Nacional de Ensino e, no tocante aos laboratórios, consta:

Dois optimos quer pelas installações quer pelo material. Completa-os um magnifico amphiteatro com apparelho para projecções luminosas. Um curioso dispositivo faz descer sobre o local de experiencias chimicas uma cortina de vidro que isola os espectadores do executante (Colégio Arquidiocesano, 1940, p. 4). O inspetor finaliza o relatório com comentários bastante elogiosos:

Não posso esconder a V. Excia. a admiravel impressão resultante dessa inspecção. É uma obra notavel e representa um esforço digno de todos os encomios a realizada pelos Irmãos Maristas.

Inverteu esta Congregação cerca de 4.000 contos na consecução do que se havia proposto.

Numa area de 31.600m2 empregaram sua longa experiencia como factor coadjutor de uma engenharia moderna e sobria. Como consequencia nos seus minimos detalhes o collegio Archidiocesano alcança pontos difficeis de serem superados (Colégio Arquidiocesano, 1940, p. 4).

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O documento, rubricado pela auxiliar técnica Amelia Sapienza, da Inspetoria Geral do Ensino Secundário, é acompanhado de uma ficha de classificação e por um despacho, com o pedido de transferência de prédio do Colégio. As notas atribuídas na avaliação de certa forma surpreendem. A sala de Ciências e os laboratórios de Física, Química e História Natural, obtiveram nota 7. As salas especiais e o material didático foi o aspecto que foi menos bem avaliado, obtendo 69,7% dos pontos. Já os critérios referentes à situação, edifício e instalações receberam 100% dos pontos, e as salas de aula 98,5%. Parece haver uma contradição entre a avaliação emitida pelo inspetor federal e as notas atribuídas às salas especiais. O Colégio obteve 9.193 pontos e foi avaliado como “bom”. O parecer da Diretoria Nacional de Ensino foi favorável, mas com ressalvas:

O novo edifício do COLÉGIO ARQUIDIOCESANO DE SÃO PAULO, em S. Paulo, apresenta ótimas condições. Póde-se apenas fazer algumas restrições quanto à disposição das janelas, sobretudo nas salas de aula menores. Algumas salas especiais talvez não atinjam o elevado standard do resto do edifício, o que entretanto não se pode julgar com exatidão por ser pouco minucioso o relatório sôbre êste ponto (Colégio Arquidiocesano, 1940, p. 14).

O pedido de mudança de sede data de 1935 e o parecer é somente de 1937. Este processo, que opinava pela aprovação da mudança de sede, seria ainda submetido ao diretor geral. No próprio documento observa-se a aprovação e a assinatura de Capanema, então Ministro de Educação e Saúde, no dia 12-1-37.

O processo burocrático é certamente mais lento do que algumas mudanças instauradas pelo Colégio Arquidiocesano. Em 1935 não só o novo prédio era inaugurado, como havia uma preocupação com a ampliação dos materiais de ensino ligados às áreas de ciências. No registro da secretaria de 14 de maio de 1935, aparece:

Com o fim de dar providencias para a semana do relatorio mensal, referente ao mez de Abril, esteve, nesta Secretaria, o Snr. Inspector Federal, Exmo Snr. Dr. Manuel do Carmo. O referido relatorio contou do seguinte:

1) – Officio do Snr. Inspector, ao Exmo

Director Geral do Ensino Secundario, apresentando o relatorio, dando informações e fazendo observações diversas. Dentre os dizeres dessas informações, destacamos o seguinte trecho: ‘A installação nova do Collegio no amplo e sumptoso edificio actual trouxe como consequencia a ampliação de todo o material nas vastas salas de Physica, Chimica, Historia Natural e outras, o que vem sendo feito de maneira a em breve ser um dos melhores estabelecimentos congêneres’ (Colégio Arquidiocesano, 1935a, p. 47).

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Ao que parece, a própria instituição reconheceu a necessidade de ampliação do material de ensino, seguindo o mesmo padrão dos novos espaços.

De acordo com a planta interna (Anexo 2), o prédio na Vila Mariana tinha quatro andares e uma construção anexa, com dois andares e um porão. No segundo pavimento ficava o laboratório de Química, junto ao anfiteatro. As duas salas ao lado eram ocupadas pelos gabinetes de Ciência, que ficavam próximos da sala dos professores e da biblioteca. Já o museu ficava localizado no pavimento superior do prédio anexo, chamado de dependências.

Em maio de 1940 há mais uma ficha de classificação do Colégio onde é possível observar a melhoria na pontuação. A sala de Ciências físicas e naturais, assim como os laboratórios de Física, Química e História Natural obtiveram a nota 10. No total, o Colégio obteve 9.850 pontos, o que estaria de acordo com a avaliação “excelente”.

Figura 2.13 Colégio Arquidiocesano. Aspecto parcial dos mostruários do Gabinete de Física / Parte do Gabinete de Física. 1940.

Fonte: Processo de equiparação do Colegio Arquidiocesano.

O relatório é bastante descritivo e traz detalhes das novas dependências. Uma breve descrição é feita da conservação do prédio:

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O prédio é de construção recentissima. É uma casa modelar de ensino, dotada de todas as adaptações materiais sugeridas pela evolução pedagogica dos nossos tempos preconizadas pelas experiencias já realizadas nos paizes de adiantada cultura.

É um prédio de modelar construção, onde o asseio, a garantia de segurança e a proteção contra a intemperie é absoluta (Colégio Arquidiocesano, 1940, p. 33).

Figura 2.14 Colégio Arquidiocesano. Aspecto parcial dos mostruários do Gabinete de Física / Parte do Gabinete de Física. 1940.

Fonte: Processo de equiparação do Colegio Arquidiocesano.

Surpreende, contudo, o item referente às salas especiais. A descrição da sala de Ciências físicas e naturais, assim como a relação de materiais de ensino, é exatamente a mesma do relatório de setembro de 1933. O mesmo acontece na descrição dos laboratórios de Física, Química e História Natural. É curioso que a descrição seja a mesma, pois sabemos que mudanças significativas ocorreram entre os anos de 1933 e 1940, sendo o novo prédio a mudança mais importante. Parte significativa do acervo se manteve e novos materiais foram adquiridos, como consta no relatório do inspetor Manuel do Carmo de 1935. No entanto, essas mudanças não foram apontadas no relatório de 1940. Além disso, é possível verificar as mudanças ocorridas por meio dos registros fotográficos, que também ilustram o referido relatório. Fica, então, uma questão em aberto sobre o assunto – por que os relatórios são os mesmos, se

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mudanças significativas ocorreram? Apontar as melhorias não era importante para a instituição escolar? Uma hipótese é que a descrição do relatório de 1933 já atendia aos preceitos do Departamento Nacional de Ensino e, portanto, não seria necessário modificar esse trecho para obter uma boa pontuação no quesito “Salas especiais”.

Nas figuras 2.13 e 2.14 ficam evidentes as mudanças que o gabinete de Física sofreu. O novo gabinete, claro e iluminado, tem uma grande mesa onde os instrumentos poderiam ser manipulados e observados e onde os experimentos poderiam ser encaminhados. Ao fundo da sala, observa-se um amplo armário envidraçado com quatro divisões principais. Os aparelhos de Física encontram-se dispostos nas prateleiras e, apesar de não ser possível saber se havia algum critério nessa disposição, eles estão aparentemente organizados. Ao lado da estante é possível observar alguns instrumentos um pouco maiores apoiados no chão e, mesmo não sendo mantidos na estante, ainda assim dão uma impressão de organização bastante diversa das figuras 2.1, 2.2 e 2.7, onde havia instrumentos nas estantes, em cima de mesas e no chão e onde também era possível observar diversos quadros parietais, dando a impressão de que havia excesso de informações.

Figura 2.15 Colégio Arquidiocesano. Laboratório de Química (1940)

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Já o novo laboratório de Química guarda algumas semelhanças com o do prédio antigo da instituição. A mesa de manipulação continua sendo central na disposição da sala e é possível observar diversos armários com os materiais da área de ensino. A estante de madeira, contudo, foi substituída por armários envidraçados, que protegem mais os materiais, ao mesmo tempo em que mantém a visibilidade dos mesmos. A cor das paredes também foi alterada, como é anunciado em um catálogo do Colégio presente no processo de equiparação: “De paredes inteiramente brancas e alízar de azulejos da mesma côr, mesas para experiências, estantes e mostruários com farto material, o Gabinete de Química constitue ambiente agradável e convidativo” (Colégio Arquidiocesano, 1940). O anfiteatro também era um ponto de destaque e, da mesma forma, ostentado pela instituição: “Uma das principais exigências do Departamento de Ensino, os laboratório merecem cuidado todo especial. Para gabinetes de física e química nada mais se pode exigir” (Colégio Arquidiocesano, 1940). Fica evidente, neste trecho, a importância de se cumprir as exigências do Departamento de Ensino, preocupação já antiga do Colégio.

Figura 2.16 Colégio Arquidiocesano. Museu de História Natural. 1940.

Fonte: Processo de equiparação do Colegio Arquidiocesano.

Outro espaço destinado ao ensino das disciplinas científicas e que passou por transformações com a mudança de prédio foi o Museu de História Natural (figura

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2.16). Chamado de Gabinete de História Natural nas figuras 2.4 e 2.5, vemos que a configuração da sala guarda semelhanças com o espaço anterior. Diversos materiais são mantidos em armários envidraçados, sendo possível observar inúmeras aves taxidermizadas, minérios e modelos de órgãos.

Figura 2.17. Colégio Arquidiocesano. Museu de História Natural. 1940.

Fonte: Processo de equiparação do Colegio Arquidiocesano.

Já no armário da figura 2.17 observamos mamíferos taxidermizados, assim como peles de animais de maior porte, além de quadros parietais, outros modelos de órgãos, um modelo de esqueleto humano e diversos minérios. É visível a mudança em como esses materiais eram mantidos e organizados nas prateleiras – enquanto que nas figuras 2.4 e 2.5 a impressão é que estão amontoados e que falta espaço para mantê- los nas duas prateleiras, nas figuras 2.16 e 2.17 se tem a impressão de ordem e classificação desses materiais. A maneira como a sala é disposta, contudo, foi pouco alterada, pois vemos dois armários repletos de materiais em todas as imagens. O nome de museu combina com essa configuração, pois parece que os objetos estão lá para serem observados e apreciados. Não há uma mesa, como no laboratório de Física ou Química, que indique alguma atividade por parte dos professores ou alunos. Ainda assim, não podemos nos esquecer da imagem em que observamos alguns animais

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taxidermizados em cima das carteiras na sala de aula, o que pode indicar que o uso dos animais taxidermizados e dos demais materiais do Museu acontecia não nesse espaço especificamente, mas nas próprias salas de aula.

Figura 2.18 – Colégio Arquidiocesano. Museu de História Natural. 1940.

Fonte: Processo de equiparação do Colegio Arquidiocesano.

A partir da análise dos documentos do Colégio Arquidiocesano é possível acompanhar as transformações pelas quais passaram o laboratório de Química, de Física e o Museu de História Natural. Vimos que o Colégio se empenhava em seguir as orientações do Governo, já que fazia parte da avaliação a qual se submetia para obter a equiparação. Inicialmente havia apenas uma pequena sala que consistia no Gabinete de Física e Museu e que parecia ser mais fruto de interesse e iniciativa de um determinado professor, e menos um projeto levado a cabo pela instituição escolar. Aos poucos, vemos a situação se alterar e novos espaços são criados no Colégio para atender as prescrições colocadas em relação ao ensino secundário. Concomitantemente aos novos espaços criados, vemos uma preocupação com a aquisição de materiais de ensino. Estas iniciativas eram divulgadas pelo Colégio, tanto por meio da revista Echos, quanto por meio de prospectos de propaganda que

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exaltavam, dentre outros aspectos, o museu, o laboratório e o gabinete de ensino. Vale lembrar que esses espaços, além de dizerem de uma determinada proposta de ensino, eram aspectos alardeados pelo Colégio e indicavam que estava de acordo com a moderna pedagogia e com o ensino de disciplinas científicas, além das tradicionais disciplinas atreladas aos conhecimentos das humanidades. Por fim, também indicavam o grande investimento feito pela instituição, que se orgulhava da educação que oferecia pautada nos princípios cristãos, ao mesmo tempo em que proporcionava uma sólida formação científica, evidenciando a relação harmônica que poderia ser estabelecida entre a Fé e a Razão.

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