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Gordons vekstformel beregning

9. Verdsettelse

9.3 Dividend Discount Models (DDM)

9.3.1 Gordons vekstformel beregning

A socialização é tema antigo da Sociologia da Educação, mas não podemos dizer o mesmo da reflexão sobre os múltiplos significados, sobre as linguagens e os comportamentos de crianças pequenas que remetem às relações de gênero. As Ciências Sociais e Humanas custaram a focar a criança e a infância como objetos centrais de suas pesquisas; demoraram a fazer suas análises nas relações entre sociedade, infância e escola e a entender a criança como sujeito histórico e de direitos, tendo como eixo de suas investigações os desejos da criança, buscando interpretar as representações de mundo que ela faz. Isso porque, como pudemos ver, os estudos sobre criança e infância eram temas confinados ao seu caráter “biológico” e “essencialmente natural”.

Tal como está construído, o conceito clássico de socialização, até o de desenvolvimento infantil, priva as crianças da possibilidade de serem atores sociais de pleno direito. “A psicologização das crianças considera-as como futuros humanos, mais do que atuais humanos, e impede de reconhecer que a ação da criança tem atributos sociológicos importantes e realizam funções sociais.” (GAITÁN, 2006, p. 26).

Portanto, é fundamental perceber como as crianças foram marginalizadas em função das suas posições submissas na sociedade e das concepções teóricas da infância e da socialização:

A infância ainda é compreendida dentro de parâmetros de um estatuto minoritário, como um período onde os indivíduos requerem proteção porque sabem menos, tem menos maturidade e menos força, em comparação com os adultos, proteção implica provisão que implica por sua vez, relações de poder desiguais. (QVORTRUP, 1999, apud TOMÁS; SOARES, 2004, p. 6)

Segundo Catarina Tomás e Natália Soares, há uma tradução real dessas concepções nas atitudes, nos discursos e nas práticas sociais, e no desmerecimento do que as crianças dizem ou fazem. E dessa forma, aponta para a necessidade de questionar a posição de subalternidade das crianças em relação ao grupo dominante, do adulto, e a necessidade de considerar a sua participação na sociedade:

mecanismos teóricos e práticos, junto do grupo social das crianças e dos seus principais interlocutores (pais, professores, pares...), que permitam desvelar os intrincados trilhos da sua ação, participação e protagonismo (TOMÁS E SOARES, 2004, p. 7).

Portanto, para discutir os processos de socialização, é necessário retomar a concepção tradicional do que é ser criança: um fato biológico, vivido por todo ser humano. Quando a criança é vista apenas no sentido biológico, ela acaba se tornando um objeto abstrato, destinado a passar por níveis diversos de aquisição de competências, o que Claude Javeau (2005) chama de “etapas de fabricação da personalidade” dos indivíduos.

Na Psicologia, há muitos estudos sobre as fases de desenvolvimento das crianças que consideram suas competências cognitivas e comportamentais. Muitas vezes, estas são traduzidas em fases do desenvolvimento infantil e são tão enfatizadas que ganham uma caracterização normativa, ignorando as variações dos contextos nos quais esses indivíduos se desenvolvem e, portanto, a forma como participam da construção social dessa realidade. A

[...] concepção de infância como algo que se compartimentaliza em fases tão delimitáveis que, quase naturalmente, coloca às crianças um modelo definitivo e definidor na construção de seu desenvolvimento e de sua identidade social, reforçada pelas teorias etapistas de desenvolvimento infantil e por pré-noções em relação à infância. (PRADO, 2002, p. 106)

Isso acontece quando se espera que as crianças de diversas culturas e histórias passem pelos mesmos processos de desenvolvimento, no mesmo tempo: acabamos por desconsiderar suas peculiaridades. Tal concepção impede o questionamento das condições sociais presentes na base da sua produção.

A infância, compreendida como uma construção social, fornece um quadro interpretativo que permite contextualizar os primeiros anos da vida humana. Vista como fenômeno diferente da imaturidade biológica, não é mais um elemento natural ou universal dos grupos humanos, mas aparece como um componente específico, tanto estrutural quanto cultural, de um grande número de sociedades. A infância é considerada não simplesmente como um momento precursor, mas como um componente da cultura e da sociedade (JAVEAU, 2005).

O trabalho de desconstrução da naturalização dos conceitos de criança e de infância implica questionar a sua relação com os adultos, buscando compreender a ordem que constrange as suas vivências. Essa relação, ao ser encarada como intrinsecamente humana, faz coincidir a incompetência social das crianças com a “sua

natureza”, ocultando o caráter social da representação estabelecida e a natureza social da relação entre adultos e crianças. Os adultos agem com as crianças conforme referências que definem as normas e os valores atribuídos à infância. O peso dos saberes psicológicos serve para definir e legitimar modelos padronizados de desenvolvimento e escolarização:

Essas cauções que as práticas sociais e os conhecimentos se conferem reciprocamente têm favorecido uma intensa atividade de observação e de medição dos desvios em relação a essas normas. Assim, as instituições têm desenvolvido diagnósticos, cada vez mais precoces, dos sintomas de toda forma de anormalidade, o que por sua vez gerou uma rede institucional e profissionalizada bastante florescente. (MOLLO-BOUVIER, 2005, p. 394)

Segundo de acordo com Solange Jobim e Sousa (1996) a Psicologia do Desenvolvimento tem se destacado, no âmbito das ciências psicológicas, como uma área que autoriza e legitima a construção de teorias e conceitos sobre aspectos evolutivos (cognitivos, afetivo-emocionais, psicomotores, sociais etc.) da infância e da adolescência. No que diz respeito a uma compreensão consensual entre os psicólogos, a Psicologia do Desenvolvimento “distingue-se como disciplina acadêmica que faz parte das ciências do comportamento, e que pretende, objetivamente, observar e medir as mudanças exibidas pelos indivíduos ao longo de sua trajetória de vida”. (ibidem, p. 39- 40).

As investigações realizadas por essa disciplina apresentavam o desenvolvimento humano sob os enfoques: biológico-evolucionista” e “pedagógico-normativo”. A Psicologia do Desenvolvimento busca compreender a criança a partir da sua constituição biológica numa perspectiva evolucionista, isto é, compreendendo-a como um ser biológico, de pouca idade, que se encontra em curso natural de desenvolvimento rumo à maturidade. Assim, para essa disciplina, a infância e a adolescência representam períodos que antecedem evolutivamente a idade adulta, estágio de plena maturidade e estabilidade. Segundo Jobim e Souza (1996), Piaget e Freud são expoentes desse primeiro enfoque.

A Psicologia do Desenvolvimento tem exercido importante papel nas relações de poder (Dahlberg, Moss e Pence, 2003), através de um sistema de conceitos e classificações, baseada em uma visão adultocentrada e na concepção a-histórica das crianças, pois toma o adulto como parâmetro de normalidade e evolução, imprimindo à infância um caráter natural e atemporal. Segundo Rosemberg (1996), esta perspectiva acaba por retirar da infância seu caráter histórico, ou seja, seu potencial transformador.

Por isso, somente a Psicologia do Desenvolvimento não é suficiente para conceituar os períodos de infância. Ao enfatizar as etapas do desenvolvimento, acaba definindo e buscando garantir a normatividade que se impõe às crianças na escola, em séries de mesma faixa etária; assim, em alguns casos, torna as crianças protagonistas de desvio de norma, pois as “transgressões apenas são aceitáveis dentro de limites estreitos além dos quais se abrem as vias da anormalidade.” (MOLLO-BOUVIER, 2005, p. 393). O que interessa ressaltar, para esta tese, é que as etapas do desenvolvimento cognitivo, afetivo e biológico, assim como nossas identidades de gênero, variam de uma época a outra, de uma sociedade a outra, de um grupo social a outro, de um sujeito a outro.

A Sociologia da Infância propõe-se a constituir a infância como objeto sociológico, resgatando-a das perspectivas biologistas — que a reduzem a um estado intermediário de maturação e desenvolvimento humano — e psicologizantes, que tendem a interpretar as crianças como “indivíduos que se desenvolvem independentemente da construção social das suas condições de existência e das representações e imagens historicamente construídas sobre e para elas.” (SARMENTO, 2004, p. 114).

Essa proposta obriga a uma recomposição do campo sociológico, quer em termos teóricos, quer metodológicos, solicitando que a Sociologia da Infância possa ser, mais do que uma Sociologia da escolarização e da família, uma Sociologia da socialização, centrada na análise dos processos de socialização de que participam adultos e outras crianças.

Nesse sentido, a socialização passa a ser compreendida como um processo múltiplo, conjunto heterogêneo de experiências socializadoras, como um trabalho coletivo de construção e apreensão do mundo, como uma realidade social que faz existir os diferentes sujeitos, atores sociais: adulto-criança e criança-criança. Esta concepção de socialização que problematiza a perspectiva que toma a criança como ser universal está presente no conceito moderno de infância:

[...] a visão da delimitação da infância por um recorte etário definido por oposição ao adulto, pela pouca idade, pela imaturidade ou pela dita integração social inadequada, está sendo contestada, principalmente no final deste século, pela negação ao estabelecimento de padrões de homogeneidade indicados por algumas tendências nos campos da sociologia e da antropologia, articulados com algumas abordagens da psicologia, que apontam, como necessidade, a adequação dos projetos educativos a demandas diferenciadas, rompendo com as desigualdades e vivendo o confronto. Pela via da contextualização, da heterogeneidade e da consideração das diferentes

formas de inserção da criança na realidade, nas atividades cotidianas, nas brincadeiras e tarefas, delineia-se um outro conceito de infância, representativo de um novo momento da modernidade. (ROCHA, 1999, p. 38).

As etapas do desenvolvimento da criança inscrevem-se em uma forma de saber psicológico padronizado que define e garante a normalidade social desse desenvolvimento. As transgressões apenas são aceitáveis dentro de limites estreitos, além dos quais se abrem as vias da anormalidade.

Compreender o processo de socialização da perspectiva interacionista permite que, ao considerá-lo um processo em aberto e pluridimensional, em que também as crianças têm participação ativa, relativize-se a denúncia de uma “má-socialização” produtora de juízos estigmatizantes ou “atividades reparadoras” – como assinala Mollo- Bouvier (2005, p. 393).

Assim, outra noção de desenvolvimento da infância — diferentemente do desenvolvimento psicológico individual da criança — pressupõe seu desenvolvimento histórico, social, político e cultural. Aponta para a construção social da infância como um novo paradigma, com ênfase na necessidade de elaborar a reconstrução desse conceito marcado por uma visão ocidental e adultocêntrica de criança.

2.3. Novo paradigma sociológico: meninas e meninos como atores sociais