Richardson (1972) enuncia o conceito de capacitações (capabilities) como o conjunto de habilidades, experiência e conhecimentos apropriados a determinada função. Em sua esteira, bem como na de Penrose, caminha toda a literatura evolucionista, com ênfase nas rotinas e habilidades internas à firma; ver Nelson e Winter (1982), Dosi, Teece e Winter (1990) e Langlois e Roberstson (1995).
Fonte: Elaboração do autor a partir de Penrose (1995)
Figura 2 – Base Tecnológica.
Estabelecida a área de especialização da firma, esta passa a operar produtivamente para poder ofertar bens em seu mercado corrente. Nesse processo, a firma desenvolve rotinas que a permitem executar todos os procedimentos operacionais e gerenciais necessários ao enfrentamento da concorrência. São as rotinas processos interativos entre recursos humanos e físicos que constituem soluções eficazes a problemas particulares do processo produtivo, administrativo e gerencial. Ao serem continuamente executadas permitem o aprendizado, “processo pelo qual a repetição e a experimentação fazem com que as tarefas sejam melhor e mais rapidamente efetuadas e que novas oportunidades sejam identificadas” (Dosi, Teece e Winter, 1990: 242-3).
O aprendizado é cumulativo, condicionado pelas condições organizacionais da firma, e cujo desenvolvimento gera competências operacionais, administrativas e gerenciais que são particulares à cada empresa. É em grande medida um procedimento tácito, de difícil imitação, constituindo-se em vantagem competitiva mais perene. O monopólio da fabricação de leite condensado pela Nestlé no Brasil deveu-se ao conhecimento tácito do ponto ideal de desidratação do leite que permitisse o produto adquirir suas qualidades físicas e organolépticas ideais ao consumo; somente quando esse aprendizado
Base Tecnológica Insumos Habilidade Humana Máquinas Tecnologia Equipamentos Processo Produtos
socializou-se é que outras empresas, como a Mococa, conseguiram penetrar nessa área de mercado.
Fonte: Elaboração do autor a partir de Penrose (1995)
Figura 3 – Horizonte de Oportunidades.
As competências adquiridas no processo produtivo-administrativo- gerencial permitem explorar novas oportunidades tecnológicas, inacessíveis sem a experiência histórica acumulada. Em conjunto, esses elementos definem uma fronteira de operações da firma ao mesmo tempo em que determinam restrições de trajetória para a mesma. Como dizia um passageiro americano em vôo quando argüido por seu colega ao lado do porquê a empresa aérea não servia pratos- feitos decentes, ao que responde, “Pela mesma razão que a MacDonalds não nos transporta em vôo até Los Angeles” (Langlois e Robertson, 1995: 15). Essas considerações implicam que há uma certa coerência entre aquilo que a firma oferta no mercado e suas condições históricas internas.
O processo competitivo cotidiano estabelece-se, pois, nas áreas de especialização da firma, nas quais os recursos humanos adquirem conhecimento e
Mercado Corrente BT I BT II AC a AC b AC c AC d Área de Especialização Fronteira de Oportunidades ou Horizonte de Diversificação
experiência, que, combinados às dotações técnicas, materiais e financeiras da firma, determinam uma fronteira de oportunidades ou horizonte de diversificação para essa. O desenvolvimento do recurso humano, através da aprendizagem, tende a levar a um processo de expansão dessa fronteira, pela possibilidade de percepção de novas oportunidades produtivas.
Na indústria de alimentos, duas empresas gigantes adotam largamente essa estratégia. De um lado, a experiência da Nestlé em processos de desidratação de alimentos e misturas alimentares permitiu sua diversificação em direção a mercados de maior valor agregado (bebidas instantâneas e alimentos pré- preparados) com uma diferenciada linha de produtos expandida (lácteos e sorvetes, chocolates, café, sopas, energéticos). Já a Unilever, com grande experiência na área química e de gorduras, diversificou sua linha de produtos com fundamento nessas bases tecnológicas, abarcando desde detergentes e cosméticos até margarinas e alimentos pré-preparados (Lemos, 1992). Na área de laticínios, a mesma base tecnológica de misturadores e envazadores possibilita à Itambé e à Parmalat diversificarem suas atividades para o mercado de sucos de frutas.
No entanto, as decisões empresariais não se originam do vazio. A trajetória da firma é marcada por um processo de seleção realizado pelos agentes consumidores. Possas (1990) chama a atenção para o fato de que a firma, enquanto locus de acumulação de riqueza patrimomial, não prescinde das condições estruturais da indústria em que se insere nem das dimensões da demanda por seus produtos. Em realidade, a valorização do capital só é possível ao passar pelo crivo do mercado. Esse autor propõe o conceito de estrutura de mercado como o locus da competição intercapitalista, no qual os diversos capitais particulares se defrontam em busca das preferências dos consumidores, buscando apropriar-se de seus poderes de compra.
2.3 As estruturas de mercado na economia capitalista
Há pelo menos três sentidos em que se emprega o termo “estrutura de mercado” na literatura econômica (Possas, 1990). O primeiro diz respeito às
características mais aparentes dos mercados, quais sejam, o número de firmas concorrentes e a existência de produtos homogêneos ou diferenciados. Trata-se de uma tipologia das formas de mercado, do monopólio à concorrência, passando pelo oligopólio, utilizada nos manuais de microeconomia neoclássicos. O segundo abarca um conjunto de características mais amplo, como a concentração dos mercados, a substituibilidade e graus de diferenciabilidade dos produtos, as barreiras à entrada, as estruturas de custo, a integração vertical e o grau de conglomeração. Trata-se de uma abordagem ancorada no modelo “estrutura- conduta-desempenho”, de enfoque estático, uma vez que as características estruturais são utilizadas na construção de uma cadeia de causalidade, buscando medir, em última instância, o desempenho da indústria, não encarando as mesmas como fatores de modificação da própria estrutura, com efeitos dinâmicos sobre a economia como um todo17. O terceiro sentido introduz aspectos dinâmicos à abordagem anterior, dando ênfase em elementos que determinam a evolução da estrutura, como o grau de retenção interna de lucros destinados à expansão, a mudança nas formas de concorrência, o progresso técnico e a vinculação com outras indústrias e com a economia em conjunto; ademais, desconsidera o pressuposto equilibrista dos modelos estáticos. Trata-se de uma abordagem teórica vinculada aos trabalhos de Steindl (1983) e Tavares (1998).
Nessa última acepção, uma estrutura de mercado é definida segundo a inserção das empresas ou suas unidades na estrutura produtiva, o que envolve requerimentos tecnológicos e características da demanda, e segundo suas estratégias de concorrência, abarcando inclusive as políticas de expansão: “A conjunção destes fatores, elementos, a um tempo “estruturais” e de “decisão” das empresas..., configura um complexo de atributos da estrutura de mercado e da estratégia das empresas líderes que nela se inserem, refletindo-se no seu funcionamento corrente e desempenho dinâmico” (Possas, 1990: 164)18.
Uma taxonomia das estruturas de mercado, desde o oligopólio concentrado às indústrias competitivas, possui sua relevância à medida que revela padrões distintos de concorrência, condicionando distintamente as