• No results found

5. Analyse og diskusjon

5.5. GODE VERSUS DÅRLIGE VOKSE LYTTERE

Jô Lessa apresenta-nos seus relatos autobiográficos por meio da escrita de seu livro Eu trans a alça da bolsa: relatos de um transexual. Logo nas primeiras páginas traz uma das temáticas centrais de sua história, a ausência de diferentes vínculos indentitários. Sobre o objetivo da escrita de suas experiências, expõe:

O livro tem o firme propósito de relatar a vida de alguém que até os 46 anos de idade não se sentia enquadrado (não que isso seja assim tão necessário) em nenhuma família, nenhuma tribo, em nenhum grupo, enfim sempre foi só e se

18 O Transhomem Thomas Beatie, nascido em Honolulu, Havaí – Estados Unidos, ficou conhecido como o

primeiro homem grávido, após ter realizado uma inseminação artificial em 2007. Thomas Beatie iniciou o processo transexualizador em 2002, realizou a mastectomia e começou o tratamento hormonal de testosterona. Como pretendia ter filhos/as biológicos, optou em manter seus órgãos reprodutivos internos. Assim, ganhou uma aparência estética tradicionalmente tida como masculina, ao mesmo tempo em que exibiu uma barriga de grávido, subvertendo radicalmente os limites impostos para os gêneros dicotômicos.

96

tornou ímpar, até o dia em que assistiu a uma palestra e ouviu a suas lutas serem contadas pela boca de outra pessoa (LESSA, 2014, p. 1).

O clamor pelo pertencimento a uma tribo, um grupo, ou uma categoria, salta nas palavras de Jô Lessa, de modo análogo à história de João W. Nery. Embora entenderemos, ao ter acesso a seus relatos, que a fragmentação identitária de Jô é ainda mais acentuada, pois essa se deve aos desdobramentos ocasionados pela incerteza referente à sua origem familiar, a seu corpo e a seu gênero de identificação.

Explicitamos que ao problematizar a questão identitária, como também fizemos ao discutir os relatos de João Nery, não estamos com isso propondo, ou defendendo a existência de uma identidade essencializada, rígida, ou de base natural. Antes, estamos fazendo referência a um contexto e postulado produzido pelo sistema sexo/gênero e regulado pelos preceitos da heteronormatividade. No qual “... (os códigos da masculinidade e da feminilidade, as identidades sexuais normais e desviantes) entra no cálculo do poder, fazendo dos discursos sobre o sexo e as tecnologias de normalização das identidades sexuais um agente de controle da vida”. (PRECIADO, 2011, p. 11). Contexto marcado pelas experiências de vida dos quatro transhomens a que aqui fazemos referência.

Para Jô Lessa, a problemática em torno da questão identitária será circulante em sua vida, já que além de viver na fronteira dos gêneros, também não conhece sua origem parental, ou seja, não conhece ao certo a história de seu nascimento, e quem são seus pais biológicos.

Quase todo seu universo lhe afirmava ser um desconhecido de si. A esse propósito, fazemos uma ressalva ao recordarmos as palavras de Nietzsche, quando expressa que a maioria das pessoas são desconhecidas de si, no entanto, não sem motivo, pois:

Nunca nos procuramos: como poderia acontecer que um dia nos encontrássemos? [...] Pois continuamos necessariamente estranhos a nós mesmos, não nos compreendemos, temos que nos mal-entender, a nós se aplicará para sempre a frase: ‘Cada qual é o mais distante de si mesmo’ – para nós mesmos somos ‘homens do desconhecimento’... (NIETZSCHE, 1998, p. 7-8).

No entanto, quando percorremos os relatos autobiográficos de Jô, não percebemos um assujeitamento, uma entrega, ou apaziguamento às condições de desafios atravessadas. Em quase todos os momentos de questionamentos, ou vazios indentitários, encarou-os por meio de enfrentamentos, traçando rotas nômades, pelas quais pôde, não

97

sem grandes dificuldades, percorrer e produzir uma vida potente, livrando-se assim de possíveis capturamentos.

Não que não fosse capturado literalmente, pois foi, em diversos momentos, como veremos. No entanto, frente às capturas, buscou traçar rotas de fuga por meio do desterritoriamento da heteronormatividade, pois, segundo Peter Pál Pelbart: “... é o desterritorializado por excelência, aquele que foge e faz tudo fugir. Ele faz da própria desterritorialização um território subjetivo” (PELBART, 2002, p. 34). Encontrou assim, em seus deslizamentos, formas de sobrevivência, quando essa parecia impensável, e a entrega o único caminho a seguir.

Entretanto, como veremos, Jô Lessa arquitetará sua vida de forma a sempre construir novas possibilidades de trajetórias, as quais lhe trarão vivências perpassadas pela busca de uma potência de vida, no sentido de que “... podemos compreender os corpos e as identidades dos anormais como potências políticas, e não simplesmente como efeitos dos discursos sobre o sexo” (PRECIADO, 2011, p. 12).

Jô, desde muito cedo se reconhecia como uma pessoa anormal, estranha, incialmente não sabia ao certo por qual razão, depois, e aos poucos, começará a perceber que sua estranheza se devia ao fato de estar fora dos estereótipos designados para os gêneros binários. Acreditava, devido aos apontamentos e discriminações sofridas ao longo de sua vida, que era uma lésbica com certo estilo estético masculinizado.

A história de vida de Jô se mescla entre os conflitos e agressões sofridas em diferentes contextos e espaços institucionais, primeiro em casa, no manicômio, depois na Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor (FEBEM) e, por fim, nas ruas. Entre as motivações, ocupava lugar de destaque sua diferença física e de gênero, já que não era uma menina dentro das convenções normativas.

Eu sempre tive uma aparência masculina, não era uma criança feia, mas era esquisito e sempre me senti diferente das meninas, sendo isso um grande problema. No colégio não fazia amizades, os meninos não brincavam comigo por acharem que eu era menina e as meninas também não brincavam por acharem que eu era menino, ou seja, eu era uma ‘coisa’ diferente e não me encaixava de lado nenhum (LESSA, 2014, p 18-19).

Os relatos de Jô evidenciam a dificuldade das instituições escolares em lidarem com as multiplicidades sexuais e os gêneros não normativos, o que contribui diretamente para produção dos processos de estigmatização desses sujeitos.

98

A discriminação ocorre porque a escola participa da rejeição social daqueles que vivem masculinidades (ou feminilidades) de formas diversas das hegemônicas, o que contribui para que travestis e transexuais sejam socialmente perseguidos e que gays e lésbicas não sejam reconhecidos como homens e mulheres verdadeiros (MISKOLCI, 2014, p. 101).

A usual padronização política dos sexos e dos gêneros não estava estampada na imagem corporal de Jô, nesse sentido, muitas vezes era tido como menino. Por exemplo, quando sua mãe furou sua orelha para lhe colocar brincos, ao chegar ao colégio, um colega o questiona: “- Porque você sendo menino sua mãe te botou brincos? Fiquei sem saber o que responder e disse: - Não sei...” (LESSA, 2014, p. 19).

A suposta clareza e evidência dos gêneros ficam por meio desse diálogo embaralhadas, pois, tudo indica que o garoto ao fazer a indagação sobre a razão de ser dos brincos, estava convencido que Jô era um garoto, e nesse sentido não os deveria usar. Por sua vez, Jô demonstra que até aquele momento tais questionamentos não lhe ocorriam. Assim, afirma que não sabia ao certo se era um menino, ou menina, achava-se apenas “... estranho, não me enquadrava em nada, não tinha parâmetros, referências, apenas vivia” (ibid., p. 25).

A desterritorialização de Jô, enquanto menino, mostra-se marcante, ele foge aos lugares esperados e marcados para seu suposto gênero feminino. Demostra, por suas palavras, que ainda não estava nem mesmo preocupado em ser um menino, embora tivesse preferências por elementos convencionalmente atribuídos ao universo masculino. Esse é um aspecto que mostra certa diferença em relação à história de João Nery e Dom, os quais se nomeavam e identificavam, desde o período mais remoto da infância, como pertencentes ao gênero masculino. Quando alguém se endereçava a eles no feminino, mentalmente corrigiam para o masculino, como considera João Nery (2011).

Por sua vez, Jô, transitará com certa autonomia em relação às dicotomias dos gêneros. Por um período se reconhecerá como uma lésbica masculinizada, perpassando pela condição de mãe/pai, ou pai/mãe, até o reconhecimento como transhomem.

A exemplo da maioria das pessoas transexuais, não possui um gênero estável, antes, “As identidades e as trajetórias serão sempre relativas num perpétuo movimento de desterritorialização e (re) territorialização. E a Subjetividade longe de remeter a um Eu, é sempre múltipla” (DINIS, 2008, p. 356).

99

Seu reconhecimento como homem trans se dará no momento que conhece João W. Nery, que protagonizará em sua vida uma via transversal para a grafia de novas rotas na produção de sua subjetividade.

Aos quarenta e cinco anos, a história de vida de Jô Lessa se cruza com a história João Nery, produzindo impactos e desmoronamentos produtivos. Em agosto de 2013, assiste a uma palestra de João Nery, na Casa de Cultura da cidade de Maricá, no Estado do Rio de Janeiro. A partir dessa ocasião novas direções serão experimentadas por Jô Lessa. O qual explica que aceitou ir à palestra por incentivo de sua companheira, que argumentou achá-lo diferente dos sapatões, e sem também conhecer a categoria transexual, afirmou que ele parecia um travesti, no entanto, homem.

Jô diz ter se sentido confuso, pois “Apesar de sempre ter me sentido assim, mas por total desconhecimento ter me sufocado tanto, achei que jamais isso viria à tona novamente [...] Eu me sufoquei tanto que me esqueci das mulheres que reclamaram por eu parecer um homem na cama” (LESSA, 2014, p 102).

O convite para estar presente na palestra de João Nery, possibilita a Jô rememorar uma série de acontecimentos relacionados à sua incerteza sobre o gênero identificado, e de como se definir. Relata: “Eu via as diferenças, já tinha me preocupado muito com isso, mas como não tinha parâmetro algum, como me reconhecer?” (LESSA, 2014, p. 103).

João Nery, mais tarde, ao realizar a escrita da contracapa do Eu trans a alça da

bolsa: relatos de um transexual, mostra-nos ter colaborado para que Jô pudesse responder a tal indagação. Assim, afirma ter servido de espelho para o encontro de Jô com sua transexualidade.

Jô confirma a apresentação feita, ao descrever que durante a palestra de João, a cada palavra ouvida sobre sua infância, e história de vida, se sentia atônito, “meio que chacoalhado por inteiro, como se tivesse sido desmontado e montado de novo só que dessa vez com as peças no lugar certo” (LESSA, 2014, p 104).

Começa a descobrir a existência de vidas em uma condição próxima à sua, com muitas linhas de entrecruzamentos. Segundo Berenice Bento esse é um momento de encontro.

O conhecimento da existência de outras pessoas que compartilham a mesma sensação de não-pertencimento ao gênero atribuído é relatado como um momento de "revelação" e de encontro. Finalmente, conseguem nomear, situar o que sentem; entender que não são os únicos com aqueles conflitos e, principalmente, que não são gays, travestis ou lésbicas. Ser "transexual" oferece uma posição identitária que dará um sentido provisório a suas vidas. Contudo, socialmente, continuarão identificados como

100

"veado/travesti/sapatão", o que implica outro trabalho: como explicar para os outros o que eu sou? Nesse ponto, recuperam-se as margens, por meio do "Eu não sou' (BENTO, 2006, p. 209).

Percebemos que a história de João permitiu a Jô a possibilidade de se nomear, renomear, ou mais, de mais uma vez renascer, pois para ele, segundo suas palavras “... esse era o meu renascimento. Naquele dia entrei naquela palestra de um jeito e saí completamente diferente, saí revirado, saí mesmo do avesso” (LESSA, 2014, p 104).

Podemos dizer, segundo as narrações de Jô, que entrou na palestra supostamente como uma lésbica masculinizada e saiu um homem transexual, corroborando a ideia de que “Eles encontraram o termo após uma deriva em que eram assignados ora como ‘lésbicas masculinizadas’ (aceitando ou não essa classificação em algum período de suas vidas), com toda a pecha a ela associada, ora como loucas, ora como ambas”. (ALMEIDA, 2012, p. 517).

Ao chegar a sua casa, sorveu toda a leitura do Viagem Solitária, com a qual se identificou em cada situação exposta, como se tivesse vivido na própria pele de João. E de fato experimentou acontecimentos comuns, em especial aqueles relacionados à recusa de viver no gênero feminino, quando tomou conhecimento sobre as diferenças dos gêneros. As palavras lidas eram reflexos de suas próprias dores e enfrentamentos.

Vi-me ali, meio quieto e nu no fundo de uma caverna, sem roupas e sem rótulos e de repente me dei conta que talvez tenha passado a vida até agora assim e por isso tenha dito tantas vezes que eu não era nada daquilo que diziam de mim e decidi por isso ser somente Eu (LESSA, 2014, p. 106).

Entretanto, Jô relata que “esse Eu estava nu e só” (idem), e assim começa a vislumbrar uma mudança radical, que somente em seus sonhos achava ser possível. Passa a ansiar pelas mesmas transformações corporais realizadas por João.

Identifiquei esse como sendo o meu maior sonho e lembrei que no final da infância e início da puberdade, naquela fase em que o corpo começa a tomar formas eu rezava pedindo para que não nascessem os indesejáveis, os intrusos (seios) e que o trabalho e a energia utilizada nessa construção fossem usados para nascesse um pintinho (LESSA, 2014, p 106).

A partir desse encontro, tem acesso às ferramentas nunca antes disponibilizadas, agora sabe que o corpo não segue a ordem da natureza e que pode produzi-lo, ainda que com grandes desafios, segundo seus ideais. Percebe que “O corpo não é um dado passivo sobre o qual age o biopoder, mas antes a potência mesma que torna possível a incorporação prostética dos gêneros” (PRECIADO, 2011, p.14).

101

O desejo de modificar seu corpo transforma-se de um devaneio para uma realidade a se arquitetar, antes era “... utópico demais, algo que jamais alcançaria, mas agora ele começava a ter contornos sólidos e eu já começava a planejar como fazer a cirurgia necessária” (LESSA, 2014, p. 106-107).

O momento de nossa escrita é simultâneo às mudanças corporais e de identidade de gênero de Jô Lessa. Tivemos a oportunidade de contatá-lo via e-mail e de acompanhar seus projetos e transformações, também por meio de sua página na rede social Facebook.

O encontro com João Nery se caracterizará como uma conexão potente, uma via transversal que possibilitará, em certa medida, Jô reconhecer seu corpo como uma obra de arte, sendo ele mesmo seu próprio escultor, capaz de operar a modelagem da subjetividade desejada, e por tantas vezes literalmente encarcerada.

João Nery será um divisor de águas em sua vida, o impacto se caracterizará como um redemoinho que revirará toda sua história, numa espécie de explosão de acontecimentos, pois até mesmo a autonomia para se referir no masculino passa a ser possível. Antes, como podemos ver em um audiovisual compartilhado no canal de vídeos

You Tube, no ano de 2013, Jô Lessa ainda se nomeava no feminino. No início de sua apresentação reporta-se aos/as internautas dizendo: “Olá, tudo bem, eu sou a Jô Lessa...” (COMO SE RELACIONAR..., 2015, s. p.).

Após a publicação desse vídeo, em agosto do mesmo ano, conhece João Nery. No ano seguinte, em 2014, publicará o livro que nos permitiu o acesso a sua história e a presente análise. Por meio das redes sociais, soubemos que no mês de maio de 2015 deu início a seu processo transexualizador, com a realização da mastectomia masculinizadora, conforme pode se constatar em uma publicação de sua página no facebook19. Jô Lessa

diz:

Conquistar os meus sonhos não me basta é muito boa a sensação de liberdade, é uma felicidade incrível olhar no espelho e me reconhecer, mas eu quero mais... Quero que outros milhares iguais a mim sintam essa mesma alegria, quero que em qualquer parte desse planeta onde existi um homem trans ele possa reacender a esperança de ser livre e inteiro ao perceber que somos muitos e estamos em todos os lugares, inclusive na Guarda Municipal do Rio de Janeiro quero que em um futuro não muito distante deixemos de fazer parte da estatística de suicídios e de pacientes psiquiátricos para sermos reconhecidos somente como gente (LESSA, 2015, s. p.).

19 Relatamos que a publicação ocorreu no dia vinte e nove, do mês de junho do ano de 2015, às vinte horas

e vinte nove minutos, a qual pode ser alterada ou delatada a qualquer momento, segundo interesse do veiculador.

102

Toda a reviravolta experimentada recentemente na vida de Jô, em seu encontro com a categoria da transmasculinidade, se realiza após os muitos enfrentamentos iniciados desde o período da infância.

Sua infância foi bastante conturbada, marcada por um universo de violência, conhecida em distintos ambientes, sendo o primeiro e principal deles, em sua própria casa. O fato de ser de uma família de classe média, com alguns confortos, não lhe retirava suas dores diárias.

Era o primeiro filho, sem saber ao certo em qual versão acreditar sobre seu nascimento, pois havia duas. Uma afirmando que era filho de uma trabalhadora do sexo, já falecida, e teria sido adotado bebê, ainda no hospital. A outra, afirma ser filho biológico do pai de sua mãe, fruto de uma relação extraconjugal. Sua mãe o teria criado como filho adotivo para preservar a honra e o casamento do próprio pai.

Relata que faz mais sentido acreditar na segunda versão, embora a mãe sustente a primeira. Têm dois irmãos, filhos biológicos de seus pais. O irmão nasceu com sérios problemas de saúde, vindo a ter um atraso mental, a irmã caçula se tornou o mimo da mãe. O irmão, por suas dificuldades de saúde, exigia cuidados permanentes. A Jô cabia a indiferença e violência, conforme expõe.

Seu pai adotivo era alcoólatra, o que desencadeava muitas brigas em sua casa, chegando mesmo a agressões físicas com registros em delegacias. Sua mãe, uma mulher forte e autoritária, não lhe demonstrava carinho e era sempre muito enérgica e violenta. Apanhar se tornou uma rotina na vida de Jô, ocorreu por diversas vezes ao longo de sua infância, sendo que muitas delas, não chegava a saber a motivação. Afirma que “Aquele chicote passou a conhecer bem todos os poros da minha carne por qualquer motivo” (LESSA, 2014, p 14).

A violência marcou toda a relação de Jô com seus familiares, em especial com a mãe. A qual, parece nunca ter aceitado sua ambiguidade e maleabilidade de gênero, e especialmente sua orientação sexual. Passou a considerá-lo como lésbica, e fundamentar sua revolta e atitudes nessa prerrogativa.

A mãe de Jô é apenas um exemplo da grande dificuldade dos familiares, de muitas outras mães e pais em lidarem com a homossexualidade, travestilidade, transexualidade, ou qualquer expressão que inclua uma orientação sexual ou identidade de gênero fora do viés da heteronorma. O que advém de seus próprios engendramentos como sujeitos

103

inseridos nas relações de forças e poder do sistema sexo/gênero. Pois segundo Marlene Neves Strey:

A ideologia de gênero dos pais/mães é um fator central para examinar o impacto da família de origem com respeito às questões de gêneros. Desde uma perspectiva da socialização, os pais/mães transmitem e reforçam suas próprias crenças por meio da linguagem e das ações. As crianças são aprovadas ou repreendidas a partir daquilo que seus pais/mães respectivamente julgam ser os comportamentos apropriados ou não- apropriados para ambos os sexos (STREY, 2007, p. 27).

A dificuldade das famílias em lidarem com a circunstância da fluidez dos gêneros é apresentada no filme francês, Tomboy, um drama de Célinne Sciamma (2011), que problematiza a relação familiar perante a possível transmasculinidade de Laure (Zoé

Héran). O qual era considerado para a família uma garota, e não viam problema com seu hábito de se vestir com roupas atribuídas a meninos. Até o momento que isso se torna público, e acarreta conflitos com vizinhos. A trama gira em torno da angústia de uma família, que apesar de liberal em muitos aspectos, como brincadeiras e vestes que rompem a naturalização dos gêneros, não consegue admitir o fato de que o filho pudesse ser um transhomem.

O filme também exibe atitudes do garoto Laure, muito semelhantes com os relatos deixados por João e Dom. Por exemplo, a necessidade de parodiar um pênis, com intuito de mostrar publicamente um corpo masculino convencional. No filme, Laure utiliza massa de modelar para construir seu pênis, e assim poder nadar com os/as amigos/as. Recurso também utilizado por Nery e Dom, com materiais diferenciados.

Da ficção às conjunturas cotidianas, podemos dizer que no Brasil poucas famílias, em especial nos contextos anteriores à década de noventa, possuem ferramentas adequadas para atuarem contra os processos de normalização da heteronormatividade. Uma vez que no cenário político brasileiro ações efetivas para instrumentalizar e