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BARAS STRATEGIER FOR Å PÅVIRKE FORELDREES BESLUTIGER

5. Analyse og diskusjon

5.4. BARAS STRATEGIER FOR Å PÅVIRKE FORELDREES BESLUTIGER

João W. Nery, no ano de 2011 publica seu segundo livro, Viagem Solitária:

memórias de um transexual trinta anos depois, no qual afirma: “Esta Viagem Solitária é

uma releitura de minha própria história. Nos 27 anos que transcorreram desde a publicação de Erro de Pessoa: João ou Joana?, meu primeiro livro, as transidentidades saíram da clandestinidade e conquistaram um espaço de cidadania” (NERY, 2011, p. 11).

Erro de pessoa: João ou Joana?, publicado em 1984, narrava as experiências vividas por João Nery desde a infância até às cirurgias para o processo transexualizador, em um momento em que esse processo não era legalizado. Sobre seu primeiro livro ressalta:

Escrevi este livro enquanto me recuperava das cirurgias e não podia trabalhar, por não ter mais direito aos documentos civis e curriculares. Meu objetivo, antes de qualquer pretensão literária, foi o de documentar as sensações que fui tendo das vivências ambíguas no transcurso de minha vida - o de ter nascido homem, aprisionado num corpo de mulher. Sei que não sou o único, mas um dos poucos que, além de viver este dilema dual, pode ter condições não só de

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expressá-lo no papel, através de total desnudamento diante dos leitores, como também de denunciar a hipocrisia e ignorância sociais diante de um problema sério, profundo, e até agora unicamente humano. Esta não é propriamente a história da minha vida, mas da minha sexualidade. Alguns fatos - que talvez façam falta – foram esquecidos; outros, omitidos por meu ‘filtro’ de interesse, e outros ainda modificados, para não comprometer ninguém (NERY, 1984, apud ÁVILA, 2014, p. 145-146)

Temos por meio desse excerto a informação que João Nery, em decorrência de sua transição FtM, perdeu o direito de utilizar seus documentos civis, consequentemente sua profissão como psicólogo, seu emprego como professor universitário, e o curso de mestrado que havia iniciado. No momento que faz sua transição não havia nenhuma garantia jurídica sobre a mudança de documentos civis.

A história de João se faz marcante também por essa particularidade, a qual compreendemos como uma subversão às condições que lhe eram impostas, pois no lugar de se fazer vítima de seu aprisionamento a um corpo não desejado, e dos preconceitos e violências sofridas, resolve escrever de forma corajosa outra história. Abandona as referências identitárias já conquistadas, como profissão, ascensão acadêmica, pois a identidade buscada era outra, a de produzir-se fisicamente como o homem que sempre se reconheceu.

Desde a publicação de Viagem solitária: memórias de um transexual trinta anos

depois se torna uma pessoa pública ao aparecer constantemente na mídia, dando entrevistas em programas de grande repercussão. Assim como realizando palestras no âmbito acadêmico, junto ao movimento LGBTTT e, especificamente, junto a movimentos de transmaculinidade. Estabelece ainda conexões com inúmeras pessoas e particularmente com homens trans, por meio de suas três páginas no Facebook.

Particularmente, conheci João Nery em um evento no município de São Carlos- SP, na Semana da Diversidade Sexual, no ano de 2013, quando participou como palestrante de uma mesa nomeada Faces da sexualidade humana. Nesse momento, tive a oportunidade de perceber a pessoa incrível que é o João, sua alegria, empatia de comunicador, e gentileza em receber e trocar conexões com as pessoas. Participei de um bate-papo reservado após o evento, quando pude lhe falar sobre minha pesquisa de mestrado e meus planos para desenvolver minha pesquisa do doutorado, mas ainda não tinha projetado trabalhar com as transmasculinidades. Fiquei fortemente impactada por sua fala, e certamente encantada com a potência de vida que evapora por seus poros e contagia quem compartilha de sua presença. Saí com sua dedicatória no exemplar

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adquirido de seu último livro, e instigada com a força de sua história, sem imaginar que daqui a dois anos estaria redigindo estas linhas.

Por intermédio das mídias, muitos transhomens ao terem acesso à sua história, veem uma espécie de exemplar de si mesmos, capaz de acolher a urgência e necessidade de desnaturalização de uma identidade atrelada ao sexo biológico. Uma desnaturalização que os livre, sobretudo, de serem identificados como lésbicas. Já que sendo lésbicas, seriam em alguma acepção vinculados ao universo feminino, o qual buscam afastar-se enquanto referência identitária normativa.

João Nery, narra de forma emocionada sua experiência e os dilemas vividos. Delineia, em minúcias, os enfrentamentos dramáticos de sua infância, desde aproximadamente os três anos, quando já se reconhecia como menino. Descreve alguns momentos de alegria quando brincava com carrinhos ou inventava histórias cheias de fantasia do imaginário de um garoto. Ao mesmo tempo, também relata que apesar das brincadeiras junto com as irmãs, se sentia uma criança só e triste, por não ser reconhecido como o menino que se afirmava, e por perceber que seu pai não lhe incentivava a seguir seus exemplos de homem.

Sabemos que convencionalmente, em uma família heterossexual, é comum, quase numa espécie de ritual, um pai ensinar repetitivamente seu filho a ser homem. Ensinamento que se dá, conforme aponta Donald Sabo (2002), afastando a masculinidade de tudo que se vincula à mulher e ao universo feminino. No entanto, por mais que João, em seu comportamento e interesses, demonstrasse ser um menino, a ele era negado o acesso ao gênero reivindicado.

O que nos obriga a relembrar que de natural não há nada nesse aprendizado, ou seja, não se aprende a ser homem ou mulher em decorrência de uma genitália feminina ou masculina, mas das violentas reiterações exercidas por meio das políticas de sexo/gênero.

João, afirma ter começado a sofrer constrangimentos e preconceito desde muito cedo, por exemplo, “Na pracinha, perto de casa, onde costumava brincar, era ridicularizado. No colégio, não tinha grupinhos e, em casa, não era compreendido” (NERY, 2011, p. 32).

Ainda em sua infância não compreendia o motivo das pessoas o tratarem de forma diferente e de não o reconhecerem como menino. Assim, relata que:

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Não conseguia entender por que me tratavam como se fosse uma menina! Faziam questão de me ver como nunca fui. Sabiam que não gostavam disso! Por que insistiam em me entristecer, em me ridicularizar? Algo estava errado. Restava saber se com eles ou comigo. Tornei-me um ser acuado (NERY, 2011, p. 32).

Aos poucos identificava que o errado deveria ser ele, pois não se adequava às exigências familiares ou escolares para viver no universo considerado feminino. Por exemplo, a vestimenta desde a infância foi um desafio, pois rejeitava utilizar vestidos, saias, ou acessórios femininos. No entanto, sua mãe insistia que usasse tais vestes. A única forma de resistir era solicitar que, pelo menos nos vestidos feitos por costureiras, pudessem ser acrescentados muitos bolsos e gravatas, pois assim, de alguma forma, se aproximaria daquilo que é considerado masculino.

Os apontamentos nas pracinhas, as reafirmações constantes de adequação à feminilidade fizeram João se retrair, e silenciar em sua solidão as tormentas corriqueiras. A esse respeito, descreve alguns momentos marcantes; um ocorrido com um desconhecido: “Certa vez saí com mamãe. Tivemos de atravessar a pracinha. Alguém gritou: ‘ - Maria-homem! Maria-Homem! Quis morrer naquela hora” (NERY, 2011, p. 34). Outro transcorrido em sua própria casa, quando escutava: “- Tome jeito, menina, parece um homem! Isto não é maneira de se comportar! ‘Uma mocinha não faz isso, não senta assim, não fala assado, não come assim, não olha assado!’ Não! Não! Não!” (ibid., p. 35).

Para João, infelizmente, os ensinamentos não eram sobre como ser menino, e sim como ser menina. Assim, deveria se adequar aos papéis que cabia para um comportamento considerado e esperado de uma menina. Pois embora haja na contemporaneidade grandes avanços em relação a uma educação não sexista e androcêntrica, ainda prevalecem, em múltiplos contextos educacionais, formações pautadas no privilégio das expressões de gênero normativas. Ou seja, para as meninas reserva-se a liberdade “... para ser cozinheiras, cabelereiras, fadas madrinhas, mães que limpam seus filhos, enfermeiras, etc. e os meninos são livres para ser índios, ladrões de gado, bandidos, policiais, ‘super-homens’, tigres ferozes ou qualquer outro elemento da fauna agressiva” (MORENO, 1999, p. 32).

No exercício de sua paternidade, João teve a oportunidade de educar Yuri, seu filho, em uma perspectiva contrária ao do machismo, androcentrismo e sexismo. Yuri, que em um dado momento manifestou não gostar de futebol, o indagou: “– Pai, menino

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que não gosta de futebol é veado?” (NERY, 2011, p. 269). João, em sentido oposto ao que foi educado, conta sua atitude: “Falei que homem não tem de gostar de futebol, nem mulher gostar de boneca. Falei do preconceito das pessoas em relação a quem tem opção sexual diferente”. (idem). Buscou ensinar seu filho a ser um homem que não tivesse vergonha de chorar, ou medo de demonstrar ser gentil, sincero, sensível. Desse modo, adota “todos os mesmos valores que na nossa cultura são considerados femininos, sem fazer dele um ser necessariamente efeminado, fortalecendo sentimentos que dificilmente são enaltecidos nos homens” (NERY, 2011, p. 262).

Voltando à infância de João Nery, destacamos que seu corpo aos poucos também lhe causava angústia e vergonha, pois cada vez mais percebia sua diferença em relação aos outros garotos da mesma idade. Não possuir um pênis era um dilema e um sonho, “Mas alimentava a esperança de que ainda crescesse. Deitava na cama e ficava puxando o meu ‘pinto’, para ver se aumentava. Ao acordar, a desilusão! Tudo continuava na mesma. Nenhuma fada apareceu. Nenhum milagre aconteceu” (NERY, 2011, p. 33). Assim, considera que o seu corpo não representava a forma como de fato se via, sentia e reconhecia, queria de tal modo, fazer as pessoas compreenderem que seu corpo era uma mentira sobre si.

O que nos permite percebermos que mesmo em um período muito remoto de sua infância, João W. Nery já possui incorporados os códigos reguladores da sociedade heterocentrada, a qual, como bem aponta Preciado (2014), coloca o pênis em local privilegiado e central. Desse modo, para um garotinho, se ver em um corpo feminino, sem a presença do pênis, é razão para sofrimentos psicológicos e emocionais intensos. A glamorização dada a esse pedaço de carne, e sua capacidade reguladora, impõe a verdade dos gêneros. Sem ela não se pode ser homem! Ao menos quando não se tem disponíveis ferramentas capazes de operar uma desconstrução desse postulado, para compreender que de fato “A fabricação da heterossexualidade depende do sucesso da construção destes sexos gonodais, binários, diferenciados” (PRECIADO, 2014, p. 126).

Essa certeza acompanhará João durante um longo período de sua vida, apenas mais tarde, com a vivência da paternidade, e o acesso às informações sobre os estudos da transexualidade e os estudos queer, começa a perceber que não precisa de um pênis para ser de fato homem. Fala-nos que tomou:

... conhecimento de algumas teorias, como a queer, que surgiu nos aos 1980, nos Estados Unidos. Essa nova postura questiona as diferenças de gênero

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baseadas no sexo biológico, heterossexual, ou mesmo nas práticas homo e transexuais. Acredita na multiplicidade de corpos sexopolíticos que se sobrepõe aos rótulos de normal e anormal. São transidentidades: homem sem pênis, gays lésbicos, cross-dressr, grags (queen e quing), trans-gays, etc. A orientação sexual seria uma criação da sociedade, e não algo natural, inclusive a heterossexual. Quando nos referimos ao papel do homem ou da mulher, estamos falando do “gênero” ou dos papeis de gênero, e não de sexo. Há inúmeras formas de transversalidades de gênero (NERY, 2011, p. 320-321).

Entretanto, para traçar tais rotas de desconstrução das verdades relacionadas à sexualidade e aos gêneros, as quais foram produzidas em seu meio como verdades absolutas, João teve que esboçar sua própria trajetória, de maneira corajosa, ainda que os temores muitas vezes o assombrassem a caminhar em sentido oposto.

A educação de seu filho também lhe permitirá colocar em prática todo um processo de desestabilização das vertentes normativas dos gêneros e sexo. Destacamos outra fala de Yuri, quando este mostra de forma autêntica a simplicidade com que o sistema heterocentrado pode ser desconstruído, quando o ambiente discursivo opera nesse sentido. João nos conta que “Yuri tinha uns quatro anos quando um dia ele aparece com meu pênis artificial na mão, encontrado numa gaveta do armário: - pai, não consigo tirar o meu. Como você faz?” (NERY, 2011, p. 260). A fala de Yuri é representativa do ponto de vista contrassexual, de como a tecnologia “se faz corpo” (Preciado, 2014, p. 158), pois nos mostra que os corpos poderiam, sem grande esforço, ser vistos como máquinas, tecnologias artificiais, e não como resultado de uma condição biológica naturalizante.

A resposta dada por João à indagação do filho é perspicaz, pois de maneira simples, ele relaciona a prótese pênis, com outra prótese qualquer, nesse caso, a dentária, quando diz: “O deslumbramento dele foi semelhante ao me ver tirar a prótese dentária para limpar, o que parecia uma mágica.” (NERY, 2011, p. 260).

O diálogo de João e Yuri ajuda-nos a constatar a pertinência das colocações de Beatriz Preciado, quando considera que afinal a prótese “não substitui somente um órgão ausente; é também a modificação e o desenvolvimento de um órgão vivo com a ajuda de um suplemento tecnológico [...] cada ‘órgão’ tecnológico reinventa uma ‘nova condição natural’ na qual todos nós somos incapazes” (PRECIADO, 2014, p. 164-166).

Entretanto, no período da infância o dilema ainda persistia de maneira mais acentuada, alimentava paixões secretas e fantasiosas por suas coleguinhas de sala, sentia- se atraído por cada detalhe e beleza da feminilidade. Mas, por exceção de uma paixão, as demais foram, até o fim da adolescência, unilaterais. Pois, sentia que as meninas não

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aceitariam qualquer declaração vinda de um menino fora dos padrões hegemônicos de gênero.

Como podemos perceber, João demostra uma orientação sexual heterossexual, afinal, despertava-se sentimental e sexualmente por garotas. Embora gostaríamos de apontar, desde já, que a transmaculinidade não é sinônimo de orientação sexual heterossexual. Antes, uma expressão identitária de um sujeito masculino, o qual pode ter seu desejo sexual voltado para o mesmo sexo, para o sexo contrário, para ambos os sexos, ou, pode ainda ser uma pessoa assexuada, ou seja, sem interesses por relações sexuais diretas.

João experimentou, durante todo o período da infância e início da adolescência, o dilema com o corpo, o preconceito; angustiado, carregava a sensação de ser marginal, estrangeiro. Não sabia a qual identidade se identificar, pois não se reconhecia, ou se sentia como mulher, nem como homossexual. Porém, ansiava por uma identificação, com uma categoria em que pudesse se agarrar, se nomear, e sentir de alguma forma pertencente a um grupo. Afinal, “A ironia era precisar de um rótulo, do que todos tentam fugir” (NERY, 2011, p. 45).

A ironia apontada por Nery é problematizada por Stuart Hall (2014), pois enquanto estratégia política parece que não podemos facilmente abandonar a categoria de identidade. Em nossa análise, quando nos referimos em diversos momentos à identidade, não trabalhamos com uma perspectiva enrijecida, permanente, antes, dobrável, capaz de ser refeita, multiplicada, relacionada, intercalada, posta ao lado, ou, em conjunto com as diferenças e com as práticas discursivas que implicam a produção das identidades e das diferenças dos sujeitos. Para Stuart Hall:

Parece que é na tentativa de rearticular a relação entre sujeitos e práticas discursivas que a questão da identidade – ou melhor, a questão da

identificação, caso se prefira enfatizar o processo de subjetivação (em vez das práticas discursivas) e a política de exclusão que essa subjetivação parece implicar – volta a aparecer (HALL, 2014, p. 105).

Se “A infância era uma espécie de álibi. ‘Não tinha sexo’” (NERY, 2014, p. 46), o início da adolescência vem depor contra sua masculinidade, quando “A coisa começou a aparecer aos 14 anos, quando veio a primeira ‘monstruação’. A ideia de aquilo ter vindo de dentro de mim me repugnava. Evidenciava uma série de órgãos, hormônios e funções que eu sabia existirem, mas que, felizmente, não podia ver” (NERY, 2014, p. 46).

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Supostamente, o corpo assexuado, álibi da infância, dá lugar ao corpo delator da adolescência, aquele que gritará em tom elevado aquilo que deveria estar soterrado, ou melhor, aniquilado. Para João “... tudo, absolutamente tudo, estava fora do lugar [...] não podia se expressar por meio daquele monte de carne” (ibid., p. 47), assim, protestava: “Não sou isso! [...] Seu aleijão, só lhe resta mesmo chorar pelos cantos... [...] Quem foi o imbecil que disse que a natureza é perfeita?” (idem).

Perante seu imenso desespero, João conclui que possui apenas duas saídas: “acabar comigo ou lutar contra o impossível” (ibid., p. 48). Como não tinha desejo pela morte, resolve traçar uma rota nova, transversal. Decide apostar no impossível, o que caracteriza uma aposta na potência da vida, ou, em termos nietzschianos, uma vontade de potência15.

Para driblar as mudanças no corpo, a monstruação, João resolve dedicar-se ao esporte. Sua escolha nos chama a atenção, pois buscará justamente no esporte um agenciador16 de masculinidades, sua sobrevivência nesse período dramático.

A particularidade dessa escolha é proposital para João, pois subversivamente resolve produzir uma masculinidade justamente no meio em que ela é posta em cheque ou confirmada, ou seja, o meio esportivo. Resolve se dedicar, especificamente, ao salto aquático.

Afirma que embora competisse na categoria feminina, seu esforço, dedicação e seriedade fará com que adquira grande admiração. Conta-nos que apenas com poucos meses de treino já havia ultrapassado, “... em técnica e estilo, muitos saltadores [...] Foi a primeira vez que me senti importante e necessário [...] concorria no trampolim de um metro, na categoria infanto-juvenil, pelo Clube Fluminense [...] levantei o título de campeão nacional (NERY, 2011, p. 49).

Ainda que vestido de um corpo feminino, João consegue subverter as normatizações dos gêneros e adentrar no círculo competitivo das masculinidades, assim, consegue se colocar em lugar de evidência e admiração.

15 Suposto, enfim, que desse certo explicar toda a nossa vida de impulsos como a conformação e ramificação

de uma forma fundamental da vontade - ou seja, da vontade de potência, como é minha proposição [...] toda força eficiente univocamente como: vontade de potência (NIETZSCHE, 1974, p. 283).

16 Segundo um primeiro eixo, horizontal, um agenciamento comporta dois segmentos: um de conteúdo, o

outro de expressão. Por um lado, ele é agenciamento maquínico de corpos, de ações e de paixões, mistura de corpos reagindo uns sobre os outros; de outro, agenciamento coletivo de enunciação, de atos e de enunciados, transformações incorpóreas sendo atribuídas aos corpos. Mas, segundo um eixo vertical orientado, o agenciamento tem, de uma parte lados territoriais ou reterritorializados que o estabilizam e, de outra parte, picos de desterritorialização que o arrebatam (DELEUZE; GUATARRI, 1995, p. 23).

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Observamos a partir das considerações de Sabo (2002), em um contexto norte americano, como o esporte é central e decisivo na produção das masculinidades e das relações de gênero. Segundo o autor, por meio do esporte, os meninos aprendem sua superioridade em relação às mulheres, ou seja, incorporam ensinamentos sexistas e misóginos. Aprendem que em termos de competições e disputas, o homem será sempre superior. Assim, por meio do esporte, precocemente, os garotos devem instruir-se a serem frios, racionais, disciplinados, competitivos, agressivos, fortes, assim como a ignorar a dor e emoções. “A subcultura do futebol também nos ensinou, como meninos, várias lições sobre as meninas e sobre nossa relação com as mulheres. Nós meninos aprendemos a receita básica do sexismo: os meninos não só se distinguem das meninas, senão que são superiores” (SABO, 2002, p. 36).

Em larga medida as ponderações de Sabo (2002) são pertinentes à cultura brasileira, pois observamos práticas misóginas acentuadas naquilo que diz respeito ao futebol brasileiro, sem dúvida um cartão postal de nossa cultura. Entretanto, apenas o futebol masculino, pois apesar de o futebol feminino ser de elevada qualidade técnica, premiado com medalhas de ouro em olimpíadas, é pouco aclamado, quando comparado à categoria masculina.

Se levantássemos uma conjectura e propuséssemos a entrevistar uma dezena de brasileiras/os, questionando o nome de mais de três jogadoras do futebol da seleção brasileira, possivelmente muitas pessoas não saberiam responder. Mas, acreditamos que todas teriam em mente vários nomes de jogadores (craques) do futebol masculino.

Situação em que se nota como o discurso é arquitetado para produzir ideais desejados e politicamente bem intencionados, assim, não se trata de acasos, inocências, ou preferências. Homem e mulher ocupam discursivamente locais hierárquicos, diferenciados no que se refere ao futebol brasileiro, assim como ocupam posições inferiores no trabalho, na escola. Sendo essa última uma das primeiras instituições a atuar