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A poluição dos aquíferos pelo nitrato é um problema de lenta resolução. Este trabalho tenta fornecer um pequeno contributo no âmbito da aplicação de estratégias que permitam diminuir as cargas poluentes que (inevitavelmente) poderão atingir os aquíferos. Estas estratégias assentam essencialmente na gestão da fertilização e da rega. Julgamos que a fitorremediação da água contaminada pelo nitrato através da utilização da mesma na rega das culturas, com a contabilização do nitrato que contém, a fitorremediação dos resíduos agro-industriais, como o bagaço de uva, ou as cascas de citrinos e/ou a fitorremediação das lamas de depuração das estações de tratamento de águas residuais possam ser estratégias capazes de contribuir para uma menor utilização de adubos na produção de alimentos.

Ao nível da gestão da fertilização, a utilização das leituras SPAD nas culturas hortícolas tem potencial interesse pois permite monitorizar o estado nutricional das plantas em azoto e responder rapidamente a qualquer sintoma de carência das mesmas. No entanto, é uma metodologia ainda usada exclusivamente na investigação uma vez que o pequeno aparelho é de custo elevado e necessita de ser calibrado para cada espécie e/ou cultivar. A técnica da quantificação da cor verde das folhas com a utilização de cartas de cor é uma alternativa real ao SPAD-502 na gestão da fertilização azotada nos arrozais em algumas zonas da Ásia (Balasubramanian et al., 1999). O Agriexpert PPW-3000 (Ichie et

al., 2002), ainda que pouco referenciada na literatura, parece ser outra alternativa ao SPAD-502,

essencialmente, na determinação da concentração foliar de azoto.

A aplicação de resíduos orgânicos, agro-industriais, lamas urbanas, resíduos sólidos urbanos, lamas celulósicas ou os produtos resultantes da compostagem daqueles, pode ter efeitos significativamente positivos para a sociedade já que os elementos nutritivos existentes naqueles compostos podem ser utilizados de uma forma sustentável na produção agrícola, resolvendo o problema do seu destino final, permitindo diminuir a quantidade de adubos aplicados na agricultura e, consequentemente, contribuir na diminuição da poluição das águas subterrâneas pelo nitrato. No entanto, é sempre bom relembrar que a aplicação excessiva de biosólidos ao solo e/ou o desajuste temporal na incorporação dos mesmos pode também afectar negativamente a qualidade da água subterrânea não só pela lixiviação do azoto nítrico, como também do azoto amoniacal, tal como referem Känkänen et al. (1998) e Nikolaidis et al. (1999), respectivamente.

A utilização de cápsulas de porcelana a diferentes profundidades, mesmo com as limitações ao nível da instalação e amostragem em condições de grande variabilidade espacial (Misselbrook et al., 1996), permite realizar a colheita de amostras da solução do solo e a quantificação da concentração do nitrato e de outros elementos/compostos ao longo do perfil. Também é uma técnica exclusivamente utilizada na investigação como ferramenta no cálculo das cargas azotadas que potencialmente podem ser perdidas ao longo do solo até aos aquíferos. A utilização destas cápsulas para além da investigação pode ser útil na gestão da fertilização, permitindo monitorizar in situ a existência, ou não, de perdas de pesticidas e de nutrientes por lixiviação, em geral, e do azoto, em particular.

Um dos aspectos mais interessantes neste trabalho foi a diferença detectada nas concentrações de nitrato nos lixiviados onde se aplicaram os resíduos orgânicos, nomeadamente as lamas urbanas, comparativamente com as modalidades onde se aplicaram os fertilizantes convencionais e mesmo onde se aplicaram os adubos de libertação controlada. Uma, entre as várias razões, prende-se com a adsorção, aos resíduos orgânicos, do azoto na forma amoniacal, impedindo que este seja transformado em nitrato e, posteriormente, arrastado no perfil do solo. Richards et al. (1993) apresentam resultados similares quando compararam a quantidade de nitrato lixiviado numa cultura de milho fertilizada, por um lado com um fertilizante organomineral e, por outro, com nitrato de amónio convencional. Eles referem que a turfa envolvente dos grãos do fertilizante organomineral, terá adsorvido o azoto amoniacal, resultando numa menor perda de azoto, sob a forma de nitrato, resultante da nitrificação do azoto amoniacal.

A utilização de lamas urbanas e, em geral, de resíduos orgânicos, geralmente melhora as propriedades físicas dos solos, aumentando a capacidade de retenção da água e a estabilidade

estrutural daqueles (Labrecque et al., 1998). Mas a aplicação de lamas urbanas pode prejudicar o ambiente e o Homem devido à presença de metais pesados, compostos orgânicos e microrganismos patogénicos. Brito (1986), Labrecque et al. (1998), Miyazawa et al. (1998), entre outros, referem as lamas urbanas como um potencial fertilizante, capaz de contribuir positivamente na produção de biomassa e de frutos nas culturas. Tal como Bodzek e Janoszka (1999) fazem referência, as lamas provenientes exclusivamente de zonas urbanas têm, geralmente, concentrações pequenas de compostos orgânicos tóxicos e de metais pesados e a sua utilização na agricultura fica condicionada, não pela potencial contaminação pelos metais pesados, mas sim pelo tipo de cultura, por questões de ordem sanitária. Para salvaguardar este potencial de contaminação, as entidades competentes deveriam implementar regulamentação que obrigue a utilização de técnicas tais como a adição de óxido de cálcio (CaO) às lamas, para elevação do pH acima de 12, aniquilando os microrganismos (Brito, 1986; Miyazawa et al., 1998) ou a compostagem, com a consequente elevação da temperatura a valores da ordem dos 60 – 70 ºC, capazes de reduzirem o problema da contaminação microbiológica (Miyazawa et al., 1998; Harrison et al., 1999). Esse é um dos objectivos da legislação existente nos Estados Unidos: incentivar o processo de compostagem das lamas urbanas para que não haja qualquer tipo de restrição à sua utilização.

Relativamente aos metais pesados, as concentrações determinadas nos solos, encontraram-se abaixo dos valores limites impostos pela legislação. Esta observação, pode ter sido consequência das baixas concentrações de metais pesados existentes nos materiais orgânicos utilizados e, por outro lado, tal como Miyazawa et al. (1998) fazem referência, pode ter sido consequência da baixa solubilidade que os metais pesados têm na água, já que podem formar complexos estáveis com os compostos orgânicos, nomeadamente com os ácidos húmicos e fúlvicos do solo, ou mesmo com a própria lama, ou formar compostos insolúveis com os carbonatos, fosfatos, oxidrilos, entre outros.

Relativamente à lixiviação do azoto ao longo do perfil do solo, no ensaio em campo realizado em citrinos verificou-se que o azoto, no início do Outono, estava em concentrações consideradas médias, tendo-se verificado, aquando da ocorrência de precipitações significativas, em meados de Outubro de 1999, um arrastamento para as camadas mais profundas do solo com a consequente acumulação nas águas subterrâneas. No final do Verão, após um período propício à mineralização do azoto (aminização, amonificação e nitrificação), este acumulou-se no solo sob a forma de nitrato, ficando disponível para ser arrastado com as precipitações outono-invernais, período em que a procura pelo azoto e pelos outros nutrientes também foi menor pela cultura. Observação similar é feita também por Jackson et al. (1994), Trindade et al. (1997), Whitehead (2000) e Watson (2001). Uma forma de reduzir a quantidade de azoto que potencialmente é lixiviada no Inverno pode passar pela implantação de culturas de cobertura como Trindade et al. (1997), Catt et al. (1998), Delgado (1998), Goss et al. (1998), Juste et al. (1999) e Clotuche e Peeters (2000) referem. As culturas de cobertura podem utilizar o azoto potencialmente exposto às precipitações invernais e no final do seu ciclo vegetativo restituir esse mesmo azoto aos citrinos (e outras culturas), na altura em que a árvore (planta) volta novamente a ter necessidades nutritivas maiores. Consequentemente, a necessidade de aplicação de fertilizantes, nomeadamente dos azotados, também vai ser menor.

Ao nível da gestão da rega, é importante que a forma, nomeadamente o tipo de rega, as dotações e a frequência com que é feita sejam tais que o volume de água que se infiltre para camadas mais profundas seja o menor possível. A água de rega deve ser sujeita a análises frequentes, para que o agricultor tenha conhecimento da sua riqueza nos diversos elementos nutritivos, nomeadamente, em azoto, sob a forma de nitrato. A contabilização do azoto (nitrato) que é veiculado pela água de rega é um ganho não só económico, contribuindo num menor consumo em fertilizantes, como ambiental, ao permitir que as culturas sejam o elemento depurador do excesso de nitrato existente na água. Esta é uma ferramenta e um factor de produção que os agricultores têm e devem saber gerir. Contudo, a concentração elevada de nitrato ou de outros iões pode afectar a qualidade da própria água de rega, tornando-a imprópria para certas culturas, nomeadamente, aquelas mais sensíveis aos efeitos da salinidade e cujas produções podem ser facilmente afectadas. A rega de culturas sensíveis aos sais, pode ser uma das razões para a ocorrência de baixas eficiências de utilização da água e do azoto, aumentando a quantidade e a susceptibilidade daquele ser arrastado ao longo do perfil do solo, tal como referem Lea-Cox e Syvertsen (1993).

Em síntese e relembrando mais uma vez, as perdas de azoto através do arrastamento ao longo do perfil do solo podem ser minimizadas através de:

- fertilizações das culturas segundo as suas necessidades, determinadas através das análises do solo, da água de rega e das plantas;

- reduções das dotações de rega, aumentando a sua frequência; - contabilização do nitrato da água de rega;

- aplicação de resíduos orgânicos ao solo, restabelecendo o conteúdo orgânico do mesmo, com melhorias ao nível da retenção de água, adsorção de nutrientes e disponibilização gradual dos mesmos. Por outro lado, aumentando o teor de matéria orgânica do solo, pode reduzir-se as perdas por lixiviação através de maiores perdas por desnitrificação.

Finalmente, deve salientar-se que o Homem está consciente do problema ambiental resultante da excessiva aplicação de fertilizantes e mesmo de fitofármacos e conceitos como agricultura biológica e, principalmente, agricultura sustentável já se fazem ouvir e a serem práticas agrícolas muito em voga. Nesta perspectiva e tal como Prasad (1999) refere, devem realçar-se estes conceitos e, principalmente no último, temos a obrigação de fazer lembrar que o azoto é claramente reconhecido como sendo um dos principais contaminantes do solo, das plantas e das águas que consumimos.