Uma expressiva literatura tem apontado que, entre as acentuadas mudanças ao
longo dos séculos, merecem destaque as transformações das relações entre os gêneros.
Tais transformações se devem a inúmeros fatores, como o direito das mulheres ao voto, à
sua maior escolarização, à separação entre sexualidade e reprodução - propiciada pelos
avanços na medicina – e, claro, a transformação no âmbito da sexualidade. (Giddens, 1993; Heilborn, 1999; Fonseca, 2004; Wiese & Saldanha, 2011; Moura, 2011).
Apresentada como íntima e privada, a sexualidade adquiriu contornos cada vez
menos recônditos no que se refere ao debate público, seja como palco atravessado por
25 construção de identidades, por intermédio do movimento homossexual. Prontamente, é
nesse contexto que especificamente o gênero se configura enquanto uma variável
importante, onde estão manifestos os valores enraizados no imaginário social que
constituem as práticas de homens e mulheres. (Gubert & Madureira, 2008).
De acordo com Abramovay, Castro & Silva (2004, p. 29), “sexualidade é uma das dimensões do ser humano que envolve gênero, identidade sexual, orientação sexual,
erotismo, envolvimento emocional, amor e reprodução.” Pode ser tanto expressa como experimentada em forma de fantasias, desejos, pensamentos, crenças, atitudes, práticas,
valores e etc.
O modo como cada indivíduo experimenta a sexualidade é determinado pela
identidade de cada um, ao passo que os caminhos percorridos pelo feminino e pelo
masculino nessa esfera tomam dimensões inteiramente opostas, não exatamente devido às
diferenças impressas em seus corpos, mas principalmente em função das expectativas na
tradição ocidental, em relação à conduta sexual que cada um deve assumir. Na finalidade
de preencher estas expectativas, tanto o homem quanto a mulher podem se colocar em
situações de vulnerabilidade ao cumprirem uma prática sexual considerada prejudicial à
sua própria saúde. (Narvaz, 2005; Nalim, 2009; Wiese & Saldanha, 2011). Dessa forma,
para se pensar as questões de gênero, é preciso refletir sobre as múltiplas instâncias e
relações sociais, instituições e símbolos, formas de organização social, discursos e
doutrinas nas quais estão sendo construídas as identidades masculinas e femininas. (Costa,
1998; Adelman & Silvestrin, 2002)
Por conseguinte, no campo da construção social dos gêneros, não se deve deixar de
atentar para a importância da identificação e compreensão das regras culturais e ocasionais
26 objetivos e subjetivos que integram a experiência afetiva e sexual dos indivíduos. Assim, a
cultura é a responsável pela transformação dos corpos em entidades sexuadas e
socializadas, por intermédio de redes de significados que abarcam categorizações de
gênero, de orientação sexual, de escolha de parceiros. As práticas sociais modelam,
orientam e esculpem desejos de viver a sexualidade, dando origem a carreiras
sexuais/amorosas. (Heilborn, 1999; Adelman & Silvestrin, 2002; Silva, 2002, Giddens,
2005; Madureira & Trentine, 2008; Zacharias et al., 2011).
Frente a este apanhado contextual, o termo gênero pode ser compreendido como
um complexo de determinações e características que designam socialmente o que é ser
masculino e feminino em determinada cultura. “Trata-se das categorizações de pessoas, artefatos, eventos e sequências baseadas no imaginário sexual (...). O gênero é pensado
como categoria ‘empírica’, como um operador de diferenças não preestabelecidas que marcame que só podem ser compreendidas contextualmente”. (Piscitelli, 1997, p. 60).
O gênero é uma categoria de análise que permite que se reconheçam não apenas as
semelhanças e discrepâncias existentes entre os sujeitos sociais homem e mulher, mas os
padrões de coerência histórico-cultural que existe em razão da diferença que os separa e as
contradições lógicas e emocionais que fluem desta coexistência binária, considerando as
possíveis conseqüências advindas desta. Isso representa a aceitação de que a
masculinidade e a feminilidade transcendem a questão da anatomia sexual, remetendo à
redes de significação que envolvem diversas dimensões da vida das pessoas. Tal
significação aparece como norma, crenças, valores, percepções ou representações, que
acompanham a vida dos indivíduos. (Heilborn, 1992; Giddens, 2005).
Dessa forma, percebe-se que os papéis desempenhados por homens e mulheres
27 naturalizada, isto é, passaram a ser encarados pelas sociedades como algo adequado e
natural, o que acabou por ter uma grande importância e influência no que compete à
manutenção da desigualdade entre os gêneros, principalmente nas relações afetivas e
matrimoniais. (Matos, 2000, Silva, 2002, Fonseca, 2004; Wiese & Saldanha, 2011; Moura,
2011; Zacharias et al., 2011).
Já partindo do nascimento, Egypto & Egypto (2000) esclarecem que meninos e
meninas são preparados para responder às expectativas da sociedade em relação ao papel
que cada um deve satisfazer e também acerca da delimitação da sua identidade. E,
particularmente, a família e a escola aparecem como instituições vigilantes e facilitadoras
do processo de assimilação desses papéis. O carrinho e o revólver, simbolizando o espaço
público, representam a decisão, a violência e o domínio concernentes ao homem. A
boneca atinente à menina está incorporada à maternidade, a casinha e ao trabalho
doméstico.
De tal modo, as identidades de homens e mulheres são projetadas na necessidade
da existência de um ser submisso, sensível, dócil, a fim de justificar o outro ser forte,
provedor, agressivo, inflexível, reiterando a cultura patriarcal e a diferença entre os
gêneros (Fischer & Marques, 2001; Costa, 2007).
Tais ideais de romanticismo enraizados desde a Idade Média e concretizados a
partir da modernidade, no século XVIII, traziam o desempenho dos papéis de gênero
assumidos e protagonizados em torno dessas diferentes manifestações de intimidade a
partir da divisão das esferas de ação. Havia, portanto, uma maior preocupação por parte
dos indivíduos quanto à emissão de comportamentos socialmente definidos como
esperados e adequados para cada um dos membros da relação amorosa, principalmente no
28 relegadas à promoção do amor. Aos homens sucumbia o contrário, logo, a vida pública e o
papel de provedor material. (Villela, 1997; Costa, 1998; Saldanha, 2003)
Observa-se que foi a partir deste domínio contextual que se consolidaram na
sociedade os estereótipos tradicionais de gênero, que designam os homens como
assumindo um papel pró-ativo na iniciação das relações, e as mulheres como assumindo
um papel reativo, aceitando ou recusando as investidas masculinas. Pode-se perceber que
tais estereótipos se fazem presentes em vários campos de atuação dos indivíduos, um deles
é nas relações afetivo-sexuais, onde o uso do preservativo é extinto pelas mulheres apenas
por uma questão de passividade frente ao desejo do parceiro fixo de não usá-lo, o que
representa os ideais do mito do amor romântico, como indicado em estudos já
desenvolvidos. (Heilborn, 1992; Saldanha, 2003)
Frente a estas decorrências situacionais, Borges (2004) adverte que o equívoco
quanto às diferenças entre os sexos, se deu, precisamente, quando foram naturalizadas, ao
invés de serem analisadas dentro de um marco cultural delimitado por significados do ser
homem e de ser mulher, considerando as hierarquias e relações de poder existentes em
cada época, espaço e grupo social.
Apesar disso, os papéis sociais de gênero antes vistos como indiscutíveis perante
os ideais de romanticismo, passaram, nas últimas quatro décadas, a serem questionados,
discutidos e de fato modificados. De acordo com Vaitsman (2001), não se pode negar que
na contemporaneidade esses papéis vêm tecendo uma nova dimensão, principalmente com
a consolidação da liberdade sexual e no alcance em que as mulheres conquistam novos
espaços em termos de cidadania e direitos, desafiando a dicotomia público/privado.
Muito embora algumas consideráveis mudanças, ainda há de se levar em conta o
29 violência material e simbólica, relacionada ao comportamento sexual feminino e
masculino no domínio familiar e social, pelos déficits na capacidade de tomar decisões e
colocá-las em prática e pela pouca liberdade em manifestar ou contestar queixas. Por
conseguinte, o que tem resultado no impacto desproporcional às mulheres, visto que
mesmo em meio a vários ganhos relevantes em termos do feminismo e da conquista de
direitos políticos adicionais e civis, dificulta, ainda assim, o seu empoderamento,
colocando em jogo a valorização mulheril. (Heilborn, 1999; Saldanha, 2003; Matos,
2000; Neves, 2007; Moura, 2011).
Diante desses pressupostos, um dos pontos de exploração deste estudo é entender
como se dá, nos dias atuais, as diferenças e o desempenho dos papéis de gênero frente às
crenças e práticas concernentes na vivência da sexualidade de jovens em relacionamentos
amorosos estáveis. Assim, busca-se uma investigação sobre a ocorrência de transposição
na condição de constância dos laços amorosos, isto é, analisar se foram dissolvidas as
tradicionais distinções de funções entre os parceiros, descentralizadas do ideal de
subjetividade feminino.
Portanto, ao se analisar a vulnerabilidade ao HIV/AIDS em relacionamentos
amorosos estáveis, se faz necessário analisar as relações estabelecidas enquanto cenário
particular de estratégias de poder de gênero, pois nessa vertente ela se esboça como um
acordo, frente às múltiplas formas contratuais de relações entre homens e mulheres.