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Há construtos similares à auto-eficácia em estudo na psicologia, comumente confundidos entre si. As afinidades desses termos provavelmente derivam de sua natureza compartilhada, visto que auto-eficácia é tanto um construto auto-referente quanto motivacional. A seguir serão pontuadas as distinções existentes entre tais construtos, no intuito de aprofundar o entendimento de auto-eficácia.

Construtos motivacionais

Motivação é um fenômeno complexo, multicausal e multidimensional, que interage com vários aspectos do indivíduo e de seu contexto, respondendo pela ativação, direção e persistência do comportamento humano (Gondim & Silva, 2004). Auto-eficácia, por sua vez, é associada à escolha do indivíduo por determinado curso de ação e o investimento de esforços na manutenção desse curso, a despeito de adversidades. Desta forma, fica caracterizado por que auto-eficácia é compreendida por diversos autores como construto motivacional, assim constando de revisões sobre o tema. Sua presença habitual nas investigações da área é como mediadora dos efeitos das variáveis individuais e contextuais sobre o desempenho humano (e.g., Ambrose & Kulik, 1999; Eccles & Wigfield, 2002; Latham & Pinder, 2005).

Há diversos vínculos teóricos e empíricos entre auto-eficácia e comportamento no trabalho, em especial no tocante ao poder explicativo do primeiro quanto à variação de desempenho do indivíduo, e muitos desses vínculos se fazem presentes em teorias motivacionais. Serão exemplificados a seguir dois desses vínculos que versam sobre temas afins à criatividade no trabalho: tarefas novas e complexas, na Teoria de Estabelecimento de Metas; e motivação intrínseca, na Teoria de Autodeterminação. Posteriormente, serão abordados em mais detalhe

dois construtos motivacionais derivados da Teoria de Expectância e semelhantes à auto-eficácia, visando esclarecer suas distinções e estabelecer a base do entendimento adotado neste estudo.

No tocante a Teoria de Estabelecimento de Metas (Latham & Locke, 1979/1991), auto-eficácia foi positivamente associada à adesão a metas mais desafiadoras, ao maior comprometimento com as metas estabelecidas e a níveis mais elevados de desempenho (Ambrose & Kulik, 1999; Latham & Pinder, 2005; Gist, 1987). Entretanto, quando o foco é em tarefas novas e altamente complexas, Wood, Mento e Locke (1987) encontraram evidências empíricas indicando superioridade de metas do tipo "faça o melhor" sobre metas específicas e desafiadoras, embora auto-eficácia persista positivamente associada ao desempenho (em Rousseau, 1997).

A Teoria de Autodeterminação (Ryan & Deci, 2000) é uma abordagem sobre motivação humana cujo postulado principal é a existência de três necessidades psicológicas inatas — autonomia, competência e associação — sendo o atendimento dessas necessidades requisito para a existência de motivação intrínseca, que os autores entendem como uma tendência inerente ao ser humano de buscar desafios e desenvolvimento pessoal permanentes. Trata-se de importante referencial teórico adotado por Amabile (1997) na formulação de seu Modelo Componencial, visto no capítulo I, e na operacionalização de medida de orientação motivacional (Amabile, Hill, Hennessey & Tighe, 1994). A despeito das divergências nos fundamentos que as originam, apontadas por Deci e Ryan (2000), necessidade de competência e motivação intrínseca têm sido positivamente associadas à auto-eficácia.

Os construtos motivacionais que mais se assemelham a auto-eficácia advêm da Teoria de Expectância, também conhecida como teoria VIE (valência - instrumentalidade - expectância), originalmente formulada por Vroom em 1964 e que possui várias versões subseqüentes, com diferenças menos importantes que suas similaridades (Pinder, 1984/1991). A idéia central dessa teoria é que “as pessoas decidem sobre suas ações de modo instrumental, procurando maximizar seu prazer e seus ganhos e minimizar seu desprazer e suas perdas” (Gondim & Silva, 2004, p.153). A partir do cálculo da força motivacional (função multiplicativa de VIE) das opções de ação existentes, a teoria prevê que o curso de ação de maior força motivacional seria o adotado. Há duas expectativas centrais na teoria VIE: a tipo I, referente à relação entre esforço-desempenho; e a expectativa tipo II, referente à relação desempenho-resultado. Juntas formam a expectância, que é o quanto o indivíduo acredita que determinado resultado é possível de ser alcançado (Gist & Mitchell, 1992).

A distinção entre auto-eficácia e expectativa tipo II é bem caracterizada, visto que auto-eficácia se refere à confiança em desempenhar determinado curso de ação, enquanto expectativa tipo II trata da confiança de que tal comportamento gerará as conseqüências almejadas (Gist, 1987). Bandura (2000) alerta que se a pessoa não se julga capaz de certos comportamentos, várias alternativas de ação sequer seriam cogitadas e avaliadas em termos de força motivacional. Ou seja, a auto-eficácia afetaria as opções de ação consideradas, bem como os esforços de implantação subseqüentes. Outro ponto de contato entre os construtos se refere ao grau em que auto-eficácia influencia expectância, produto das condições sócio-estruturais vigentes, que impactam a relação entre comportamento do indivíduo e respectivas conseqüências. Há casos em que os resultados dos

comportamentos não são determinados por esses comportamentos em si, como em sistemas concebidos para perpetuar desequilíbrios sociais, o que acaba por diminuir o poder explicativo da auto-eficácia sobre expectância (Pajares, 2005).

Já em relação à expectativa tipo I, Bandura e Locke (2003) alegam que a maioria das pessoas acredita que elevado esforço tende a melhorar o desempenho, e muitas vezes o que é medido nos estudos que adotam o referencial VIE se resume a essa vertente genérica. Isto acabaria por afetar seu poder de predição de desempenho, inferior ao de auto-eficácia, que trata do esforço específico para execução de determinado curso de ação, em contexto particular. Por outro lado, auto-eficácia seria conceitualmente mais ampla que expectativa tipo I, pois também envolve a confiança do indivíduo em regular os demais aspectos cognitivos, afetivos, motivacionais e sociais relativos à consecução da sua tarefa, além de medir essa expectativa em relação a diferentes níveis de desempenho, em termos de sua dimensão e intensidade (Gist, 1987; Pajares, 2005). Vale destacar que esta distinção de amplitude proposta por Bandura e Locke não fica clara se consideradas as proposições da teoria VIE, segundo Pinder (1984/1991), que descreve expectância como sujeita a diversos fatores — sob o controle ou não do indivíduo — como a confiança em sua habilidade, o quanto de ajuda espera obter de seus colegas, e a qualidade dos materiais e dos equipamentos disponíveis.

Dentre os elementos apresentados pelos autores, os que parecem melhor auxiliar na distinção entre auto-eficácia e expectância são aqueles ligados à mensuração micro-analítica de auto-eficácia — que avalia sua dimensão, intensidade e generalidade; bem como os relativos à abordagem específica, na qual auto-eficácia se refere a tarefa, domínio e contexto particulares. A subseção 2.2.3

será dedicada a este último ponto, dado o destaque que tem obtido na literatura da área e a relevância para o grau de especificidade adotado neste estudo.

Construtos auto-referentes

Construtos auto-referentes são aqueles relativos a descrições ou avaliações do indivíduo sobre si mesmo, estando interligados entre si, embora se refiram a fenômenos distintos, sendo definidos e mensurados diferentemente. Visando consolidar o entendimento do construto auto-eficácia, a seguir serão apresentados os elementos necessários para distingui-lo de auto-estima e autoconceito, construtos auto-referentes afins.

Segundo Gist e Mitchell (1992), um dos construtos mais freqüentemente confundidos com auto-eficácia é auto-estima, embora haja importantes diferenças entre ambos. Auto-estima é considerada um traço que reflete uma avaliação do indivíduo sobre si mesmo, de cunho primordial afetivo, sendo concebida tipicamente de forma global. Contrastando com essa definição, auto-eficácia se refere à capacidade percebida de realizar tarefas específicas, e é de predominância cognitiva. Chen, Gully e Eden (2004) destacam que componentes afetivos, cognitivos e motivacionais estão na verdade presentes em ambos os construtos; o que os diferencia nesse aspecto é a ênfase afetiva de auto-estima em contraposição à ênfase motivacional de auto-eficácia, quando comparados entre si.

Autoconceito, por sua vez, é um construto mais próximo de auto-eficácia, ainda que seja tido como de maior amplitude, tendo em conta sua incorporação de diversas formas de autoconhecimento e sentimentos de auto-avaliação. Em sua origem, era definido como uma percepção global que o indivíduo tinha de si mesmo e sua reação a essa percepção. Talvez por não ter sido encontrada relação consistente entre autoconceito e desempenho acadêmico, alguns teóricos — Harter,

1978; Marsh e Shavelson, 1985 — reformularam o construto em termos de uma estrutura hierárquica que comporta subcategorias intermediárias, como autoconceito acadêmico, e na base subdivisões mais específicas, relativas a cada domínio, como autoconceito acadêmico em matemática (em Zimmerman, 2000).

As atuais medidas de autoconceito específico, de acordo com Zimmerman (2000), tendem a enfatizar reações referentes à auto-estima, enquanto as medidas de auto-eficácia são expectativas de desempenho quanto a tarefas específicas. Em tese, é possível ter elevada auto-eficácia em tarefas com as quais não se tem afinidade, assim como o contrário, embora muitas vezes reações anteriores à tarefa e expectativas de desempenho futuro sejam correlacionadas. A despeito de possíveis correlações, as evidências empíricas apontam para o maior poder de predição de auto-eficácia em comparação a autoconceito específico, ao menos no tocante a tarefas já conhecidas e claramente definidas. Neste aspecto, Pajares (2005) destaca que o poder de predição das medidas de auto-eficácia será tanto maior quanto mais próxima for a correspondência entre as crenças avaliadas e o desempenho esperado. Essa correspondência se associa a quão específica é a medida de auto-eficácia, compondo dois claros critérios de medida que a distinguem de autoconceito específico.