Às razões que levaram Herbert Spiegelberg a incluir Carl Stumpf na história do movimento fenomenológico, nomeadamente o seu papel na difusão dos métodos fenomenológicos na psicologia, sobretudo na psi- cologia experimental, e a sua situação histórico biográfica intercalar entre Brentano e Husserl,161 há a acrescentar a influência de Stumpf
na génese da fenomenologia de Munique. Durante 5 anos, de 1889 a 1894, Stumpf ocupou uma das cátedras de filosofia na universidade de Munique. Alexander Pfänder ainda chegou a frequentar cursos de Stumpf.162 Ora é a Stumpf que cabe o mérito de introduzir em Munique o pensamento de Brentano163 e de inaugurar um intenso intercâmbio científico entre os psicólogos de Munique e a escola de Brentano, em particular a escola de Graz de Meinong.
A ligação de Stumpf à fenomenologia de Munique assenta em gran- de parte nas suas estreitas relações pessoais e científicas com Theodor Lipps. Stumpf é de todos os discípulos de Brentano aquele de cuja
von Allgemeinheiten, die Sein, ja ewiges Sein, haben.” BERGMANN 1946, p. 94. 161Cf. SpiegeLBerg 1982a, pp. 51-65.
162Cf. Pfänderiana J 1. Neste convoluto encontram-se três apontamentos, feitos por Pfänder, de cursos de Stumpf de 1893: O primeiro é intitulado “Die Frage nach der Teleologie”, o segundo “Logik und Metaphysik” e versa sobretudo a teoria dos juízos e o terceiro “Hauptpunkte der Metaphysik”.
163 Aquando da ida de Stumpf para Munique já um outro discípulo e parente de Brentano, von Hertling, aí ocupava uma cátedra de filosofia. No entanto, von Hertling, que à semelhança de Brentano estudara em Berlim sob a orientação de Tren- delenburg, tem uma afinidade filosófica com Brentano sobretudo na medida em que se situa na mesma tradição aristotélico-escolástica. Mantém-se todavia indiferente, se não mesmo céptico, relativamente aos contributos de Brentano no campo da psi- cologia. Cf. STUMPF 1924, p. 217 e HERTLING 1919, p. 174.
psicologia Lipps, devido à identidade de temas, mais se ocupou. Lipps é o sucessor de Stumpf na cátedra da universidade de Munique quando este é chamado para a universidade de Berlim em 1894. Além disso, os dois organizaram e presidiram ao III Congresso Internacional de Psicologia em Munique.164
É no mesmo ano de 1883 que Stumpf e Lipps publicam as obras que os tornariam conhecidos, respectivamente Tonpsychologie e Grund- tatsachen des Seelenlebens. Apesar do título específico da sua obra, Stumpf dedica uma parte substancial da mesma, sete dos quinze capí- tulos, ao tratamento de questões gerais da psicologia. A primeira parte de Tonpsychologie versa a elucidação de conceitos fundamentais da psicologia tais como juízo, sensação, atenção, análise, comparação, etc. A obra de Lipps, por seu lado, não deixa de abordar, apesar do seu carácter geral, problemas concretos da psicologia. Dois deles são as relações de sons e as representações do espaço.165 Tendo em conta que Stumpf já antes tratara a psicologia do espaço , não admira que a identidade dos assuntos tratados levasse à discussão dos diferentes pontos de partida, dos métodos e das soluções.
Mas é sobretudo um tema que cristaliza a diferença das respectivas ideias de psicologia e motiva uma controvérsia que, iniciada em 1885, viria a estender-se pelos primeiros anos do século XX. Trata-se da teo- ria da consonância e, ligada a esta, do problema da fusão psíquica.166 Esta controvérsia permite pela sua amplidão não só uma melhor in- telecção da psicologia de Lipps, pois que, como todas as controvérsias,
164Cf. AAVV 1897. 165Cf. STUMPF 1873.
166A controvérsia começa com a recensão crítica por Stumpf da teoria da consonân- cia exposta em LIPPS 1885. A resposta de Lipps está contida na recensão que faz em LIPPS 1886 do artigo de STUMPF 1885. Em 1890 em Tonpsychologie II Stumpf volta a criticar a posição de Lipps. Este responde então com LIPPS 1892. Em 1898 Stumpf volta a expor a sua teoria da consonância em STUMPF 1898, tentando en- tão Lipps um entendimento das duas teorias em LIPPS 1898. Este procura então em 1892, no âmbito da psicologia da apercepção, uma solução definitiva para o problema da consonância, LIPPS 1902c, p. 95-97.
obriga Lipps a uma mais profunda demarcação dos pontos de vista e a uma maior clarificação dos conceitos, mas ela oferece também o mais detalhado confronto entre a psicologia da escola de Brentano e a psi- cologia de Lipps.
A teoria da consonância exposta por Lipps em Grundtatsachen des Seelenlebens e desenvolvida em Psychologische Studien é a de uma afinidade de sons. Só que Lipps não considera ser essa afinidade uma afinidade objectiva dos sons entre si, antes uma afinidade que assenta na analogia de processos psíquicos provocados pela proporcionalidade rítmica das vibrações acústicas. Se a um ritmo de 100 vibrações por segundo corresponder um determinado som, então a sua oitava corres- ponde a 200 vibrações por segundo. Segundo Lipps a proporcionali- dade destes ritmos há-de reflectir-se nos processos psíquicos de tal modo que também nestes se encontram ritmos correspondentes aos ritmos vibratórios. A afinidade de sons tal como Lipps a entende é então a analogia entre os diferentes processos psíquicos inconscientes que estão na origem dos sons consonantes. A analogia dos processos psíquicos consiste, portanto, numa analogia rítmica e daí que a teoria da consonância de Lipps seja também designada por “teoria rítmica”.167
A par da teoria da consonância fundada em processos inconscientes análogos desenvolve Lipps a teoria da fusão psíquica. Digo “a par” e não “na base” pois que Lipps, ao contrário de Stumpf, não reduz a consonância à fusão psíquica de sons. Todavia, a apresentação da teoria da fusão psíquica, tal como Lipps a desenvolve, é necessária na medida em que ela é indispensável para a compreensão da crítica de Lipps a Stumpf.
A doutrina da fusão psíquica de Theodor Lipps insere-se na tradição da escola psicológica de Herbart. Fusão indica a união de processos inconscientes na produção de um mesmo conteúdo psíquico. Fusão não significa para Lipps, pois, a síntese de duas ou mais represen- tações numa só que conteria aquelas como seus elementos.168 Antes,
167Cf. LIPPS 1902, p. 100.
por fusão entende Lipps a associação por analogia de dois ou mais processos psíquicos – que por si desembocariam em diferentes repre- sentações – na produção de uma mesma representação. Tais proces- sos são inconscientes, não atingindo nunca o estado de representação, isto é, de serem um conteúdo da consciência. A fusão é condicionada por dois factores: obedece aos princípios associativos, em particular ao princípio da analogia, e é motivada pela limitação da energia psíquica, ou seja, pela estreiteza da consciência. Não podendo dois proces- sos psíquicos análogos produzir as respectivas representações devido à limitada energia psíquica ao seu dispor fundem-se para a produção de uma mesma representação.169 Daí que o conceito correlato de fusão
na psicologia de Herbart e de Lipps seja o de “impedimento” (Hem- mung).170 Não podendo dois processos fundirem-se para o aproveita- mento da mesma energia ao seu dispor, um tenta impedir o outro, procurando cada um obter para si a força suficiente para levar a cabo a produção da sua representação.
Lipps rejeita toda a tentativa de explicar quimicamente o processo da fusão psíquica. A imagem de dois metais que se fundem num novo metal é por ele considerada imprópria para retratar a fusão psíquica.171 A haver uma explicação metafórica da fusão psíquica como Lipps a concebe, ela seria física, aliás no seguimento da sua ideia da vida psíquica como uma mecânica associativa das representações.
A crítica de Stumpf à teoria da consonância de Lipps é que ela as- senta em processos inconscientes, “realidades de traseiras que ninguém
enthielte, nur verdunkelt und nicht in ihrer Besonderheit hervortretend, ist in jedem Fall ein undenkbarer Gedanke.”
169LIPPS 1883, p. 473: “Wir haben keinen Grund in der Verschmelzungstendenz eine neue Eigenschaft von Vorstellungen zu suchen. Sie ergibt sich vielmehr ohne weiteres aus der Begrenztheit der seelischen Kraft bzw. dem daraus resultierenden Gegeneinanderdrängen aller Vorstellungen gegen alle. Je mehr also ähnliche Vorstel- lungen unter diesem Drange leiden, umso eher werden sie sich zur Verschmelzung entschliessen.”
170Cf. HOLENSTEIN 1972, p. 119. 171Cf. LIPPS 1883, p. 43.
pode verificar”172. Não sendo a afinidade dos sons objectiva, isto é, não dependendo dos sons em si, antes devendo-se à analogia dos processos acústicos insconscientes, não se pode saber em que consiste essa analo- gia pois que pertence a uma região inacessível ao conhecimento. A teoria da consonância proposta por Lipps surge assim como uma cons- trução, sendo impossível verificá-la à luz do que dado à consciência.
A teoria da consonância proposta por Stumpf é a da fusão de sons. Contudo, o conceito de fusão na acepção de Stumpf é deveras dife- rente do da tradição herbartiana. Para Stumpf fusão significa “a re- lação pela qual dois conteúdos psíquicos, em especial conteúdos da sensação, constituem um todo e não uma simples soma das partes.”173
Com o conceito de fusão Stumpf procura responder à pergunta de que trata toda a Tonpsychologie II: qual o comportamento da consciência perante vários sons simultaneos?174 Stumpf reivindica com efeito para
as sensações simultâneas uma relação especial que faz delas mais do que simples parcelas de uma soma. Diferentemente das sensações su- cessivas “que apenas constituem um simples somatório, as sensações simultâneas constituem um todo.”175 A fusão não é mais do que a re-
lação especial entre as diferentes sensações singulares simultâneas que constituem a nova sensação. Para Stumpf existem múltiplos graus de fusão; desde o mais rudimentar onde é fácil analisar as sensações com- ponentes até ao mais perfeito, como certos sons complexos que pare- cem ser idênticos a uma sensação simples. Quanto maior for o grau de fusão mais difícil se torna analisar as sensações nela envolvidas. Por análise entende Stumpf a “percepção de uma multiplicidade”.176
172“mit nie verifizierbaren Hinterwirklichkeiten”, citado em LIPPS 1896b, p. 301. 173 STUMPF 1890, p. 128: “Wir nannten Verschmelzung dasjenige Verhältnis zweier Inhalte, speziell Empfindungsinhalte, wonach sie nicht eine bloße Summe, sondern ein Ganzes bilden.”
174ibid., p. VI: “Dieser Band behandelt ausschließlich die Frage: wie verhält sich unser Bewußtsein gegenüber mehreren gleichzeitigen Tönen?”
175ibid., p. 64: “Aufeinanderfolgende Empfindungen bilden als Empfindungen eine bloße Summe, gleichzeitige schon als Empfindungen ein Ganzes.”
Na fusão as sensações elementares não perdem a sua identidade, nem deixam de subsistir. Será teoricamente sempre possível analisar o todo ou prestar atenção a esta ou àquela componente, ouvindo-a na sua sin- gularidade. Só que na prática esta actividade analítica pode ser ex- tremamente difícil, pressupondo muitas vezes para a sua execução, além de um longo treino, certos dotes especiais. É assim que muitos sons complexos surgem como se fossem sons simples a pessoas que não tem um ouvido suficientemente educado sob o ponto de vista mu- sical.
Tem pois todo o cabimento a afirmação de Stumpf de que o seu conceito de fusão nada tem a ver com a tradição psicológica herbar- tiana, seja do ponto de vista histórico, seja dum ponto de vista objec- tivo.177 As diferenças entre Stumpf e a escola herbartiana, o mesmo é dizer, neste ponto, entre as doutrinas de Stumpf e de Lipps a propósito da fusão psíquica, são as seguintes: enquanto para Herbart a fusão é um processo dinâmico, para Stumpf ela representa uma relação es- tática entre conteúdos psíquicos; para o primeiro, a fusão ocorre entre dois processos que acabam por desembocar numa única representação, para Stumpf são os próprios conteúdos (sensações) que se fundem; para Herbart a fusão ocorre unicamente no âmbito de processos do mesmo sentido, isto é, há fusão de sons entre si, mas não de sons com cores e sabores – este último processo designa-o Herbart por complicação –, ao passo que Stumpf estende o conceito da fusão também às sensações de diferentes sentidos; por fim, Stumpf, ao contrário de Herbart, entende que a fusão não resulta de qualquer analogia ou associação.178
A resposta de Lipps à crítica de Stumpf à sua teoria da consonân- cia consiste primeiramente numa defesa do recurso ao inconsciente na explicação dos fenómenos psíquicos. Segundo Lipps a “tarefa de to-
unter Klanganalyse also die einer Mehrheit von Tönen in einem Klang.”
177 ibid., p. 130: “Ist zu bemerken, daß der Ausdruck und Begriff der Ver- schmelzung hier in keinem, weder in sachlichem noch historischem, Zusammenhang steht mit Herbarts allgemein-psychologischer Lehre.”
das as ciências consiste em postular realidades de retaguarda”179 que hão-de preencher as lacunas dos fenómenos directamente acessíveis à consciência. É assim que na Lógica de 1893 Lipps desenvolve a ideia de que a ciência mais não faz do que adicionar elementos pos- tulados à realidade directamente percebida afim de emprestar a esta uma consistência lógica.180 No caso da psicologia esses elementos adi- cionais são atribuídos ao inconsciente. De todas as maneiras, a crítica de Stumpf às “realidades de retaguarda” obriga Lipps a repensar o pa- pel do inconsciente na psicologia. A teoria dos dois eus em Lipps está intimamente conectada com o binómio consciente-inconsciente, teoria em boa parte motivada pela controvérsia com Stumpf. Na conferência, proferida no encerramento do III Congresso Internacional de Psicolo- gia em Munique, sobre o conceito do inconsciente na psicologia181, conferência onde se refere explicitamente à teoria descritiva da con- sonância de Stumpf, Lipps postula o eu real como elemento explicativo das vivências do eu puro. O inconsciente é todo o elemento psíquico atribuído ao eu real ou transcendente, não imediatamente vivido, de que a psicologia necessita para explicar as representações actuais.182
No caso da teoria da afinidade de sons Lipps afirma que essa afini- dade reside nos processos inconscientes da alma, vale dizer, do eu real. A consonância, um dado imediato da consciência, há-de ganhar a sua explicação, segundo Lipps, no recurso aos processos psíquicos análo- gos provocados pelas vibrações rítmicas. O inconsciente funciona aqui como o elo de dois dados: um físico, a vibração rítmica dos instrumen- tos de som e outro psíquico, o fenómeno da consonância.
A crítica de Lipps à teoria da consonância de Stumpf baseia-se fun- damentalmente numa problematização do conceito da fusão psíquica deste. Tendo em conta que Stumpf identifica a consonância com graus
179LIPPS 1886, p. 302: “Die eigentliche Aufgabe aller Wissenschaft besteht in der Postulierung von Hinterwirklichkeiten.”
180Cf. LIPPS 1893, p. 4. 181Cf. LIPPS 1897.
182ibid., p. 157: “Die unbewußten Vorstellungen sind Momente in dem psychischen Erregungsprozess, dessen Endziel die bewußten Vorstellungen darstellen.”
superiores da fusão de sons183, a crítica de Lipps procura atingir a teoria de Stumpf no seu âmago.
Lipps contesta, antes de mais, que, ao ouvirmos simultaneamente uma multiplicidade de sons, seja possível ter uma consciência da unida- de do múltiplo e de cada som singular. Se a multiplicidade de sons se fundir num único som complexo (Klang), então desaparece a consciên- cia da multiplicidade, ficando apenas a consciência de um som como de uma única sensação. Se, porém, analisarmos os sons que compõem o som complexo, então este pura e simplesmente deixa de ser percep- cionado. Com isto nega Lipps o conceito de análise de Stumpf. Para este último a análise é a percepção de uma multiplicidade, sendo pos- sível com maior ou menor dificuldade – dificuldade que depende ob- jectivamente do grau da fusão – ouvir (heraushören) no som complexo os vários sons simples que o compõem. Para Stumpf a fusão mantém- se apesar da análise. Ora é precisamente isto que Lipps contesta. A fusão desfaz-se no momento em que a análise chama os diferentes sons à consciência. A análise não pode significar senão “a actividade pela qual os estímulos inconscientes em vez de cooperar na produção de um único conteúdo psíquico produzem os diferentes conteúdos psíquicos que são próprios a cada um deles.”184 E, porque estes sons que compu-
nham o som complexo não eram conscientes aquando da audição deste, há que considerá-los como novos sons para a consciência logo que a análise os individualiza. Por esta razão não podem ser designados por sensações no momento em que o som complexo está presente à cons- ciência. Querendo, todavia, titulá-los de sensações, como faz Stumpf, só se pode fazê-lo no sentido de sensações potenciais.185
183STUMPF 1890, p. 333.
184LIPPS 1892a, p. 551: “Die Tätigkeit des Analysierens besteht in der Herstel- lung gewisser Bedingungen, beispielweise der Aufmerksamkeit, durch welche unbe- wußte Erregungen, oder wenn man lieber will, physiologische Gehirnprozesse dazu gelangen, statt, wie sie es vorher taten, zur Erzeugung eines einzigen Bewußtseinsin- haltes zusammenzuwirken, vielmehr jeder den ihm eigentümlich zugehörigen Be- wußtseinsinhalt zu erzeugen.”
Enquanto Stumpf defende uma simultaneidade de elementos ob- jectivos na consciência, a audição do som complexo e a análise ou percepção dos sons simples que o constituem, Lipps representa o som complexo como uma unidade consciente exclusiva que em termos ob- jectivos, ao nível da consciência, aparece tão simples como um som singular. Dito de outra forma: se para Stumpf o som complexo é um composto de sensações sonoras actuais, para Lipps no som complexo apenas se encontram sensações em potência, no sentido de que os pro- cessos psíquicos inconscientes que estão na base do som complexo po- dem dar-lhes origem. No primeiro caso, e é isto que importa salientar, a relação entre som complexo e sons simples é directa e objectiva, não dependente do sujeito auditor, no segundo caso a relação depende das estruturas psíquicas do sujeito.
Aqui entronca o segundo ponto da crítica de Lipps à teoria de Stumpf. Ao apresentar a fusão como relação de sensações simultâneas pela qual estas constituem um todo, Stumpf não diz em que consiste essa relação.186 Stumpf deixa em aberto a questão da unidade constitu-
tiva do todo. Se o som complexo se apresenta como um todo e não como um simples aglomerado dos diferentes sons elementares, isso quer dizer que estes constituem uma unidade. Com efeito, o signifi- cado que Stumpf empresta ao conceito de fusão é que duas ou mais sensações se apresentam como uma unidade à consciência. Mas em que consiste essa unidade? O que Stumpf silencia é o que Lipps con- sidera ser capital numa teoria da consonância.187
Theodor Lipps considera que “unidade” é tudo aquilo que a cons- ciência percepciona como unidade. Este sentido extremamente lato de unidade encerra dois tipos: a unidade objectiva e a unidade subjectiva. A primeira caracteriza-se pelo facto de o sujeito se ver obrigado pela natureza do objecto a pensá-lo como unidade. Se a unidade do som
186Cf. ibid., p. 564 e LIPPS 1898, p. 3.
187LIPPS 1898, p. 40: “Die Verschmelzung erklärt nichts, sondern ist das zu Erk- lärende.(...) Aber auch Stumpf will ja mit der Verschmelzung schließlich keine Erk- lärung geben. Er verzichtet auf die Erklärung, während ich sie zu geben versuche.”
complexo for deste género, quer isso dizer que não posso pensar a mul- tiplicidade que a compõe sem ser como elementos de um todo.188 Caso
fosse subjectiva, isso significaria que os sons complexos seriam a meu belo prazer, dependendo simplesmente da minha arbitrariedade com- por novos sons com os elementos que muito bem entendesse. Contudo, não há dúvida que o som complexo é objectivo. Reside na natureza dos sons consonantes percebê-los como uma unidade e não no meu desejo de percebê-los assim. Seria impossível, mesmo com o maior esforço, perceber um som de piano e um ruído de uma máquina como consonantes. Não obstante, há que ter em conta que também a unidade objectiva se deve a um acto aperceptivo do sujeito. Comum a todo o tipo de unidade, seja ela objectiva ou subjectiva, é, segundo Lipps – e nisso reside a sua fundamental diferença relativamente a Stumpf e aos outros discípulos de Brentano –, a sua natureza aperceptiva, isto é, de a unidade apenas se constituir na consciência que a percepciona ou a pensa. É assim que a unidade subjectiva se revela num sentimento de esforço e dificuldade que o sujeito tem para a levar a cabo. Ao con-