126
Por coincidência, sem dúvida, escreve Theodor Lipps a dissertação académica sobre a ontologia de Herbart no mesmo ano em que Franz Brentano publica a sua obra capital, Psychologie vom empirischen Standpunkt, a saber, em 1874. No entanto, coincidência reveladora do mesmo impulso filosófico subjacente a um e outro. Após a derrocada dos sistemas absolutos do idealismo alemão e face ao descrédito que as “fantasmagorias especulativas”127 tinham lançado sobre a filosofia, o desafio da época consistia em fundamentar empiricamente a filosofia. Tal tarefa fundamentadora caberia à psicologia como ciência da expe- riência interna. Ora o nome do filósofo Johann Friedrich Herbart sim- bolizava à altura não só a recusa de toda a especulação como método filosófico, mas também a ideia da psicologia como verdadeira ciência empírica.
Brentano e Lipps têm de ser vistos à luz da época de então, em que ao descrédito da filosofia transcendental se contrapunha a confiança suscitada pelo trabalho sóbrio, mas sólido, das ciências da natureza e da história, fundamentadas no campo seguro da experiência.128 A dig-
126Brentano, * 1838-1917 + ; Lipps, * 1851-1914 + 127Cf. nota seguinte.
nidade de ciência que a filosofia perdera em elucubrações metafísicas teria de ser ganha por um trabalho empírico idêntico ao das ciências da natureza. Não se tratava de as copiar, mas tão somente de reivin- dicar para a investigação filosófica o mesmo género de trabalho uti- lizado por elas e que tão bons resultados lhes trouxera. O método que dava às suas pesquisas o carácter científico também o deveria dar ao labor filosófico. Já nas teses da agregação académica, defendidas na universidade de Würzburg em 1866, Brentano faz a reivindicação do método empírico para a filosofia: vera philosophiae methodus nulla alia nisi scientiae naturalis est.129 Mas a esta tese, a quarta, antepunha Brentano a primeira sobre a necessidade de a filosofia rejeitar a divisão entre ciências especulativas e exactas sob pena de pôr em causa o seu direito à existência.130 O que se encontrava pois em jogo não era menos que o destino da própria filosofia. O método empírico não era um en- tre muitos a que a filosofia poderia recorrer, mas o único que lhe daria o estatuto de ciência exacta e, por conseguinte, o título de verdadeira ciência. Também Lipps considera logo no início da sua primeira grande obra que o conceito tradicional de filosofia perdera o seu significado prático e que uma nova definição da filosofia constituia uma questão prioritária da investigação filosófica. Essa definição encontra-a Lipps
MANN 1865, p. 223: “Als die bis dahin herrschenden spekulatividealistischen Schulen, durch innere Zwistigkeiten aufgelöst, in Verfall gerieten, als durch den Streit der bisherigen Olymper verwirrt sowie, durch harte Enttäusschungen auf praktisch- politischem Gebiet erheblich verstimmt, die öffentliche Meinung den Glauben an die Hegemonie der Vernunft eingebüßt hatte, als die zünftige Gelehrtenwelt, von speku- lativen Phantasmagorien ernüchtert, sich einem aüßerst prosaischen Realitätshunger hinzugeben begann, als die Naturwissenschaft auf der einen, die Geschichtsforschung auf der anderen Seite eine wenig begeisternde, aber solide und nahrhafte Kost ver- sprach, damals sah es einen Moment lang aus, als sei de Philosophie entweder ganz in den Boden der Spezialwissenschaften eingesickert oder nur noch als der Vergan- genheit überlassenes Gut historiographischer Darstellung vorhanden.”
129BRENTANO 1968b, p. 136.
130 ibid.. “Philosophia neget oportet, scientias in speculativas et exactas dividi posse; quod si non recte negaretur, esse eam ipsam jus non esset.”
na determinação da filosofia como ciência da experiência interna.131 Comum ainda a Brentano e a Lipps é o facto de procurarem na psicologia a fundamentação rigorosa da filosofia. Brentano atribui ex- plicitamente à psicologia enquanto ciência dos fenómenos psíquicos a fundamentação da estética, da lógica, da ética, da pedagogia e da política.132 Lipps não menos inequivocamente declara que a “psicolo- gia como ciência do desenrolar da vida psíquica em geral, dos seus elementos e das suas leis gerais é a disciplina base da filosofia, aquela em que assentam as outras ciências filosóficas”.133
A defesa do carácter empírico da psicologia não significa, contudo, nem em Brentano nem em Lipps, a sua redução às ciências da natureza, em particular, à fisiologia. Sem que neguem a influência de factores fisiológicos sobre a consciência e a consequente importância da fisio- logia para a psicologia, um e outro reconhecem uma especificidade às vivências psíquicas, irredutível a qualquer explicação somática, e uma autonomia própria das mesmas a que só a psicologia através da ex- periência interna tem acesso.134 A psicologia descritiva de Brentano
e a psicologia pura de Lipps reivindicam um papel fundamentador da filosofia precisamente na medida em que dispõe de conhecimentos ime- diatos e incondicionados. O empirismo que ambos reclamam para a investigação psicológica não é, pois, de modo algum materialista.
Mas os pontos comuns não escondem as profundas divergências e- xistentes entre a psicologia de Brentano e a psicologia de Lipps. Efec- tivamente ambos se reportam no início das suas obras a dois autores co- muns, Lotze e Helmholtz, reconhecendo a sua influência mesmo onde deles discordam135, a par da influência dos psicólogos ingleses em am-
131Cf. Cap.I da 1.Parte.
132BRENTANO 1874, p. 30-31. 133Cf. LIPPS 1883, p. 10.
134Cf. BRENTANO 1874, pp. 67-93; quanto a Lipps cf. Cap. I.
135BRENTANO 1874, p. 3:"nicht bloß wo ich ihre Lehre annahm, sondern auch da, wo ich zur Bestreitung ihrer Ansicht geführt wurde, mich durch sie gefördert fühlte"; LIPPS 1883, p. IV: “daß ich mir auch da, wo ich zu ihnen im Gegensatz trete, meiner Abhängigkeit von ihnen wohl bewußt bin.”
bos que também é de ter em conta136. Todavia, enquanto Brentano, recorrendo aos vastos conhecimentos sobre Aristóteles e a filosofia me- dieval, introduz elementos novos na psicologia do século XIX, de que o conceito de intencionalidade foi o de maior repercussão, Lipps insere- se na tradição herbartiana ainda presa às concepções mecanicistas da psicologia. Brentano nega a existência de processos ou actividades psíquicas insconscientes137em que, segundo a tradição herbartiana, re- side o mecanismo psíquico ou a mecânica das representações. Sobre- tudo cabe a Brentano o mérito de superar a psicologia associativa no que toca à doutrina do juízo.138 Graças à distinção intencional entre representação e juízo e à acepção do juízo como reconhecimento ou rejeição de uma representação, Brentano vai contra a interpretação do juízo como uma associação de representações139, associação que, se- gundo Lipps140, variaria numa escala de intensidade e de certeza .
O contacto científico e pessoal que Lipps teve com Brentano não foi tão estreito como o que teve com os discípulos deste, por exemplo, Stumpf ou Husserl. A aproximação do pensamento de Lipps à psi- cologia de Brentano não significa eo ipso uma influência directa deste último. Tenha-se, aliás, em conta que nenhum filósofo da contempo- raneidade viu a sua acção sobre o meio científico do seu tempo tão mediatizada pelos discípulos como Brentano. Não obstante isso, im- porta registar as relações havidas entre ambos não só de modo a obter uma imagem mais completa dos laços de Lipps à escola de Brentano, mas também para mostrar que o próprio Brentano e Lipps se deram pessoalmente conta das convergências e divergências das respectivas psicologias.
Em 1892 Lipps e Brentano iniciaram uma controvérsia a propósito
136 Esta influência é geralmente reconhecida em Brentano, mas despercebida em Lipps. Contudo a Lipps se deve a tradução e a anotação do Treatise de David Hume para língua alemã.
137Cf. BRENTANO 1874, p. 143. 138Cf. KRAUS 1959, p. XIII. 139Cf. BRENTANO 1959, p. 48. 140Cf. Cap.II da 1.Parte.
de ilusões ópticas, controvérsia que daria azo a uma vasta discussão so- bre a matéria.141 Pomo da controvérsia era a explicação psicológica da
ilusão a que certas figuras geométricas dão lugar. O exemplo principal é o caso em que duas paralelas de igual comprimento, mas com fina- lizações diferentes como a figura a seguir apresenta, dão a impressão de uma ser mais curta que a outra:
A explicação dada por Brentano para esta ilusão é que temos a tendência de sobrestimar os ângulos agudos e de subestimar os ângu- los obtusos.142 Trata-se de uma lei psicológica que se aplica a todos os casos similares. Brentano procura comprovar empiricamente tal lei psi- cológica por meio de casos concretos de diferentes figuras geométricas em que tem lugar a mesma ilusão.
Lipps contesta a explicação de Brentano. Apresenta figuras geo- métricas em que a lei proposta por Brentano não vinga, apesar de provocarem ilusão idêntica, cita o caso dos ângulos rectos que segundo a lei de Brentano não dariam azo a qualquer juízo erróneo, mas que efectivamente também originam as mesmas ilusões e, por fim, adianta a sua teoria que suplantaria a proposta por Brentano em virtude de explicar todos os casos análogos. Lipps atribui tais enganos ópticos ao dinamismo inerente às representações das figuras geométricas em causa. Exemplo disso é o caso em que, dado um quadrado com os la- dos ABCD, e prolongando nas duas extremidades os lados paralelos
141BRENTANO 1892, pp. 349-358; LIPPS 1892, pp. 493-504; BRENTANO 1893, pp. 61-82. BRENTANO 1894, pp. 1-7; LIPPS 1896, pp. 39-59. Durante e depois destes artigos surgiram na mesma revista múltiplos artigos de outros autores sobre o mesmo assunto.
AC, o mesmo quadrado suscita agora a impressão de um rectângulo com os lados AC mais compridos que os lados BD.
Como neste exemplo, também “em todos aqueles apresentados por Brentano de sobrestima do comprimento temos a impressão de um movimento do centro da figura para fora, e nos casos de subestima temos a impressão de um movimento de fora para o centro da figura.”143
Brentano responde pormenorizadamente às objecções e à expli- cação de Lipps.144 No entanto, a apresentação dos argumentos de Brentano é dispensável pois que não é propriamente o tema da con- trovérsia que nos interessa, antes a controvérsia em si e as diferentes ideias de psicologia que lhe estão subjacentes. Efectivamente, com a discussão deste caso psicológico concreto vêm ao de cima as respecti- vas posições de fundo na psicologia. O próprio Brentano confessa que a sua intenção era mais do que a análise de um caso singular, sendo seu objectivo mostrar, através de um exemplo concreto, como era possível resolver um problema psicológico do mesmo modo como nas ciências da natureza.145
143LIPPS 1892b, p. 503: “In allen von Brentano angeführten Beispielen der Über- schätzung unterliegen wir aber...in besonderem Maße dem Eindruck einer frei aus sich heraus oder in die Weite gehenden, von einer Mitte fortstrebenden, in allen Fällen der Unterschätzung dem Eindruck einer in sich zurückkehrenden, einer Mitte zus- trebenden Bewegung; und in dem Maße als jenes oder dieses der Fall ist, besteht die Über- oder Unterschätzung.”
144Cf. BRENTANO 1893.
145ibid., p. 61: “an anschaulichem Beispiel wünschte ich zu zeigen, was geordnetes psychologisches Verfahren vermag, und wie zwischen rivalisierenden Hypothesen, auf dem Gebiete des Geistes nichts anders als auf dem der Natur, ein experimentum crucis mit Sicherheit entscheidet.”
A explicação de Brentano assenta numa concepção estática da cons- ciência, obedecendo nessa perspectiva as ilusões ópticas enquanto rea- lidades psíquicas a leis objectivas da consciência. Em contrapartida, a explicação de Lipps funda-se numa visão dinâmica da consciência, entendida esta no sentido herbartiano de uma mecânica de processos psíquicos.146 Lipps considera que os factos psíquicos são o sintoma, à superfície da consciência, de um jogo de forças subterrâneas e que, por- tanto, só o recurso a estas poderá explicar aqueles. Poder-se-ia, assim, resumir as duas posições: enquanto para Brentano só uma descrição exacta dos conteúdos da consciência possibilitaria explicar o que nela ocorre, para Lipps o consciente seria explicado pelo inconsciente, que evidentemente não pode ser descrito, mas que há que imediatamente inferir a partir dos dados imediatos.
Esta polémica viria a ter repercussões em 1896 no Terceiro Con- gresso Internacional de Psicologia em Munique. No fim da confe- rência de Lipps sobre “impressão estética e ilusão óptica” Brentano coloca-lhe precisamente a pergunta sobre o esclarecimento da ilusão óptica provocada pela figura geométrica acima referida.147 Mas este
congresso reveste-se ainda de uma importância muito especial para o tema que aqui directamente nos interessa, a saber, as ligações de Lipps à escola de Brentano, porque nele Lipps teve oportunidade de encontrar quase todos os discípulos de nomeada de Brentano: Carl Stumpf, Anton Marty, Alexius Meinong, Christian von Ehrenfels, Os- kar Kraus.148 Encontravam-se ainda presentes discípulos de Meinong,
146 No necrológio de Theodor Lipps, Moritz Geiger escreve que a psicologia do seu mestre enraízava na doutrina de Herbart da dinâmica das representações: “An Herbarts Dynamik der Vorstellungen knüpfte seine Psychologie an. Das psychis- che Geschehen ist ihm ein Wettkampf der psychischen Vorgänge um die psychische Kraft - und als ein Grundgesetz des Anpralls von Kräften gegen übermächtige Wider- stände.” GEIGER 1915, pp. 68-73.
147Cf. AAVV 1897, p. 220. O protocolo limita-se a registar que Lipps respon- deu às objecções que lhe foram postas pelos ouvintes com a apresentação de novos exemplos.
148Cf. lista dos participantes do Congresso em ibid., pp. XVIII-XLI. Brentano e Ehrenfels também fizeram conferências no Congresso. Anton Marty apresentou uma
havendo a referir Eduard Martinak e Stephan Witasek que viriam a en- trar na polémica que Lipps travava com Brentano e Stumpf, nomeada- mente sobre as questões das ilusões ópticas e da fusão psíquica.
Em sintonia com Brentano e toda a sua escola, Lipps tornase o porta-voz dos que no Congresso defendem uma psicologia pura, recu- sando a redução da psicologia à psicofisiologia, expondo-se com isso directamente à crítica dos que encaravam os fenómenos psíquicos como simples resultados de processos neurológicos e que consideravam a posição de Lipps como retorno à “escolástica e à dogmática”149. Mas a demarcação que Lipps faz da sua psicologia também se dirige contra a psicologia descritiva da escola de Brentano. Precisamente na conferên- cia com que encerrou o Congresso, Lipps sujeita a ideia da psicologia descritiva a apertada crítica. Lipps apresenta com esta conferência so- bre o conceito do inconsciente uma posição de fundo face às polémicas que então travava com Brentano e Stumpf.150
Depois de afirmar que a questão sobre o inconsciente, mais do que uma questão psicológica, é a questão central da psicologia e desse modo indicar o nível fundamental da disputa, Lipps coloca a alternativa entre a psicologia descritiva e a psicologia do inconsciente. “A psicolo- gia não necessitaria de qualquer conceito do inconsciente caso fosse seu único objectivo descrever as vivências psíquicas.”151 Tal psicolo-
gia, no entanto, seria um absurdo, segundo Lipps.152 Em primeiro lugar não passaria de uma mera narrativa de vivências individuais. A dife- rentes indivíduos corresponderiam diferentes vivências a que caberiam diferentes narrativas. Em segundo lugar ficar-se-ia pela verificação dos factos psíquicos sem que questionasse o seu porquê ou para quê, sendo por isso incapaz de os integrar no todo da vida psíquica e assim
contribuição escrita. 149Cf. AAVV 1897, p. 73. 150Cf. subcapítulo seguinte.
151LIPPS 1897, p. 146: “Die Psychologie bedürfte gar keines Begriffes eines Unbe- wußten, wenn die Psychologie einzig die Aufgabe sich stellte, Bewußtseinserlebnisse zu beschreiben.”
abranger o seu significado. Não teria ainda qualquer valor científico já que faltariam aos factos por ela descritos as características da univer- salidade e da necessidade. Seria sempre uma narração particular de- pendente dos diferentes indivíduos e das diferentes épocas. Por outro lado, ver-se-ia incapacitada de encontrar os nexos entre as diferentes vivências psíquicas e de determinar a identidade do objecto de várias vivências. Por fim, limitar-se-ia à consciência do indivíduo que fizesse a descrição, pois que só por inferência podia aceder às vivências dos outros indivíduos.153
Tendo em conta esta forte crítica à ideia de uma psicologia des- critiva, não deixa de admirar que, passados poucos anos, Lipps se torne seu defensor confesso. Com efeito, num artigo de 1901, mas escrito em 1900, portanto ainda antes de Lipps ter conhecimento da crítica de Husserl no primeiro volume das Investigações Lógicas e antes da saída do segundo volume da mesma obra, Lipps utiliza mesmo o termo “fenomenológico puro”154 no sentido de uma descrição sem preconceitos.155 Logo na primeira edição de Leitfaden der Psycholo-
gie em 1903 Lipps aponta como primeiro objectivo da psicologia a tarefa “fenomenológica ou descritiva pura”156. Daí em diante não mais deixará Lipps de designar a descrição dos dados da consciência como primeiríssima tarefa de uma psicologia pura.157
Contudo não é só em relação à ideia de psicologia descritiva que Lipps modifica radicalmente a sua posição, também noutros pontos adopta posições específicas da psicologia de Brentano. Um exemplo é a adopção da capital distinção brentaniana entre representação e juízo. Em 1904 numa nota de roda-pé à segunda edição da tradução do Trea- tise de David Hume, Lipps indica como sendo a maior deficiência do pensador inglês não ter feito a distinção entre a representação, isto é, o
153ibid., pp. 146-148.
154LIPPS 1901, p. 161; este artigo deu entrada na editora a 19.12.1900 conforme é indicado na p. 213 do mesmo.
155Cf. SMID 1982, p. 116. 156LIPPS 1903, p. 5.
simples ter de conteúdos ou imagens, e o pensamento enquanto reco- nhecimento das “exigências” postas pelos objectos representados. Ora é precisamente nessa deficiência, própria do psicologismo, que reside o malogro epistemológico de Hume.158 Apesar de Lipps interpretar a teoria de Brentano do reconhecimento do conteúdo no sentido que lhe é muito próprio de exigência do objecto a que corresponde um constrangimento por parte do eu, e assim se quedar ainda numa con- cepção psicologista do juízo, não ficam dúvidas que a teoria do juízo de Brentano serve de figurino à teoria de Lipps. Seguindo a concepção brentaniana de que o juízo não é uma ligação de representações, mas sim um acto de afirmação ou negação de um conteúdo da consciência, Lipps distingue agora também entre a representação de um conteúdo e a relação que esse conteúdo pode tomar com o eu aperceptivo. Ao con- trário, portanto, da teoria do juízo por ele exposta em Grundtatsachen des Seelenlebens, em que o juízo seria uma ligação compulsiva de duas representações devido aos processos psíquicos inconscientes que lhes estariam na origem, Lipps entende agora o juízo como posição do eu face ao conteúdo julgado.
Outros encontros de Brentano e Lipps em Munique, além do referi- do em 1896 aquando do Congresso Internacional de Psicologia, não se- riam de estranhar. O irmão de Brentano, Lujo Brentano, era colega de Lipps na universidade de Munique, onde ensinava economia política e, assim como Johannes Daubert se encontrou duas vezes com Brentano em casa do irmão afim de lhe explicar a nova teoria exposta por Husserl nas Investigações Lógicas159, assim também era possível que Lipps se tivesse encontrado com ele. De todas as maneiras, a forma como Brentano reage criticamente ao desenvolvimento posterior de Lipps, designado por Daubert como psicologismo transcendental, revela um conhecimento e um apreço pela pessoa e obra anterior de Lipps.160
158Cf. LIPPS 1895, p. 5. 159Cf. SMID 1984, pp. 143.
160Carta de Brentano a Bergmann de 3 de Maio de 1907: “Bedauerlich aber ist, was Sie von Lipps’ neuesten Leistungen berichten. Vielleicht ist er dabei nicht einmal originell, sondern von Husserl verführt. Der redet ja, schier wie ein Plato redivivus
Certo é que Franz Brentano e a sua psicologia constituem uma referência fundamental no percurso filosófico de Lipps e que, não tendo isso em vista, inflexões importantes no pensamento de Lipps se torna- riam inexplicáveis.