Ninguém nasce mulher, torna-se mulher”. (Simone de Beauvoir)
Em Mulheres públicas, Michelle Perrot traça a extremidade que marca o termo público quando se refere aos homens e às mulheres: “O homem público, sujeito eminente da cidade, deve encarnar a honra e a virtude. A mulher pública constitui a vergonha, a parte escondida, dissimulada, noturna, um vil objeto, território de passagem, apropriado, sem individualidade própria” (1977, p.7). O lugar das mulheres no espaço público sempre foi problemático. Desde os gregos sempre houve atribuições negativas à presença de mulheres no espaço do qual os homens se julgavam proprietários. Perrot afirma que os corpos das mulheres sempre causam pavor, por serem descritos como doentios, histéricos, nervosos e inquietantes. Às mulheres foram atribuídos os excessos das Revoluções pela falta de equilíbrio. Para ela: “Essas representações, esses medos atravessam a espessura do tempo e se enraízam num pensamento simbólico da diferença entre os sexos” (1977, p. 9)
Perrot mostra as imagens de mulheres que foram difundidas no espaço público como ideais no século XIX. Essas imagens reproduzidas em monumentos, fazem da mulher o espetáculo de contemplação dos homens. Ela diz que os monumentos de representação feminina fazem reforçar a dualidade entre o amor sonhado e a sexualidade do romantismo, aumentando assim o distanciamento entre corpo e coração.
Como objetos de contemplação no espaço público, as mulheres têm a beleza como um dever. Por isso, as cortesãs tornam-se modelos para a burguesia. Não só em relação à moda, mas também em relação ao comportamento. A historiadora aponta que, na falta de testemunhos recalcados pela decência, a literatura oferece muitos exemplos. As mulheres são as grandes leitoras dos romances do século XIX que trazem imagens femininas de todas as espécies. A leitura de romances era uma maneira de se apropriarem do mundo.
No século XIX, sobretudo na França, atraídas pelo mercado de trabalho, as mulheres começam a entrar nas cidades. A principal função, entretanto, é de domésticas, o que ainda as mantêm no espaço privado. Há na verdade uma segregação sexual do espaço público, pois há lugares que são proibidos às mulheres como os espaços políticos, jurídicos, intelectuais e esportivos. Outros espaços lhes são exclusivos como lavanderias, grandes magazines e salões de chá. São lugares de socialização das mulheres, conforme a classe social a que pertencem. As burguesas circulam nos lugares fechados e as mulheres populares se encontram nas ruas, lavanderias e mercados. Assim, as mulheres das classes populares são aquelas que têm maior contato no domínio público.
Por isso, Perrot afirma que a mulher do povo era a mais ‘pública’ de todas. Devido ao trabalho, ela era ‘empurrada’ para a rua. As lavanderias na França do século XIX foram os lugares mais importantes da vida social da mulher popular. Isso se deve ao fato de a lavanderia ir se tornando aos poucos um lugar misto, pois com a introdução das máquinas, passa a haver um controle pelos homens.
Sobre a circulação da palavra na esfera pública, Perrot coloca que: “A idéia de que a natureza das mulheres as destine ao silêncio e à obscuridade está profundamente arraigada em nossas culturas”. (1977, p.59). Apesar disso, a historiadora mostra a influência da palavra das mulheres nas camadas superiores da sociedade através das conversações em salões. As mulheres francesas começaram a ir às tribunas como ouvintes, chegando a interpelarem os oradores, mostrando interesse pelo debate público. Isso as levou a serem expulsas e proibidas de falar de política pelo poder revolucionário. Ao longo do tempo, as mulheres foram abrindo caminho na esfera pública. Muitas vezes esse espaço foi conquistado pela brecha deixada pelos homens, como acontece nos tempos de guerra. Essas guerras foram extremamente conservadoras, pois quando terminaram, recolocaram as mulheres em seus antigos lugares. Por outro lado, o acesso das mulheres no mercado de trabalho possibilitou que os homens alcançassem melhores posições. Mantinha-se a inferioridade feminina. Daí a importância da educação e da preparação das moças. Segundo Perrot, a instrução abria para elas a possibilidade de ingresso em muitas profissões, principalmente na área da educação e da saúde.
Além da influência na educação, as mulheres tiveram papel fundamental na transmissão religiosa durante o século XIX na Europa. A Igreja, através das mulheres, tentava reconquistar os espíritos. A historiadora conta que o poder espiritual das
mulheres era exercido através da piedade e da mística. Essa também caracterizou uma das formas de entrada no domínio público, já que através da caridade e da filantropia podiam deixar o espaço privado e conquistar novos horizontes. A historiadora nota, porém, que muitas dessas ‘damas padroeiras’ tinham idéias moralizantes bastante estreitas. Mesmo assim não deixavam de exercerem um abalo na fronteira entre o público e o privado.
A luta das mulheres para entrarem no espaço público tem sido árdua, principalmente no que diz respeito às três ordens que, desde a Idade Média, têm sido os santuários proibidos a elas: o militar, o religioso e o político. Mesmo que em alguns momentos da história, algumas mulheres tenham conseguido entrar nesses territórios, na maioria das vezes, o poder era exercido com mais autoridade do que os homens, como o caso da ‘dama de ferro’ na Inglaterra. Essas mulheres, em momentos de crise, enfrentam a tempestade por serem demasiadamente enérgicas: as salvadoras da pátria, como Joana D’Arc.
Perrot argumenta que os militares são menos resistentes à presença feminina do que os políticos. As guerras revolucionárias sempre provocaram o patriotismo das mulheres. No meio religioso está a maior resistência às mulheres. Isso acontece principalmente nas religiões monoteístas. A desigualdade entre os sexos sempre foi reforçada pelo judaísmo, cristianismo e pelo Islã. Excluídas da palavra e do sacerdócio, o que seria uma forma de reconhecimento público, as mulheres continuam sua luta para conquistar a entrada nesses espaços hostis. A historiadora conta que o protestantismo, nesse aspecto, realizou uma ruptura. As mulheres são pastoras há muito tempo, enquanto o catolicismo resiste à ordenação de mulheres. O catolicismo, como o Islã, talvez ainda seja o grande bastião de resistência de entrada das mulheres no espaço público.
Mesmo com resistência, as mulheres se apoderaram do espaço público. As organizações feministas tiveram o papel fundamental nas grandes batalhas. Perrot mostra que os movimentos feministas hoje já não têm o brilho das décadas de 70 e 80, quando conquistas importantes aconteceram. Mesmo que atualmente as divergências ideológicas dividam as feministas, principalmente na questão da identidade de gênero, o acesso ao mundo público é uma realidade. É evidente que esse acesso perde proporção em países de menor desenvolvimento e de extremismo religioso. Nesses países, o desafio para as feministas ainda é grande, principalmente quando têm de enfrentar a hostilidade não só dos governantes como também das próprias mulheres.