Em seu discurso proferido em 12 de maio de 1912, Rosa de Luxemburgo faz um profundo questionamento sobre a questão da luta de classe e sobre o sufrágio feminino. Ela ressalta a importante participação das mulheres na luta pela social democracia na Alemanha. As mulheres, mesmo sem ter direitos políticos, participaram ativamente na causa proletária. Apesar da intensa participação nas conquistas, elas não haviam conseguido ainda o sonhado direito ao voto.
Luxemburgo considera inclusive o trabalho doméstico produtivo, como o das donas de casa e a criação dos filhos Ao contrário do sistema capitalista que considera produtivo apenas o trabalho lucrativo. É a condição de proletária que tira a mulher do ‘ciclo familiar’ e a coloca na luta de classe. Embora Luxemburgo afirme que a luta de classe tenha ampliado o horizonte das mulheres, tirando-as do estreitamento do lar, não houve efetivamente um rompimento da mulher com a função doméstica, pois é fato ainda nos tempos atuais a dupla jornada de grande parte das mulheres trabalhadoras.
Luxemburgo acreditava que o sufrágio das mulheres seria o caminho para a conquista da igualdade, como as primeiras feministas do século XIX sonhavam que o direito ao voto faria com que todas as outras reivindicações fossem alcançadas. Como coloca Rose Marie Muraro (2001), não foi isso que ocorreu. As feministas do início do século XX também se envolveram em outras lutas sociais, como as norte-americanas na luta contra a escravidão. O envolvimento nas lutas operárias, entretanto, trouxe conflitos ideológicos entre mulheres de classe média e operária.
A partir do século XIII começa a caça às bruxas. As mulheres historicamente sempre praticaram os cuidados com a saúde através da manipulação de ervas. Com o domínio da Igreja e a crescente prática da medicina pelos homens, as curandeiras acabam sendo consideradas subversivas e são perseguidas. O número de mulheres exterminadas em quatro séculos atinge a casa dos milhões. Foi sem dúvida o maior genocídio da história da humanidade. É nessa época que os papéis sexuais e as normas de conduta são fixados e mantidos até hoje: “Aparentemente parece exagerada a afirmação de que a caça às bruxas foi uma pré-condição para a solidificação do Estado moderno” (MURARO, 2001, p.110). A autora se fundamenta no fato de que o poder
centralizado exige corpos normatizados que não transgridam. Como a frigidez era a norma, a bruxa constituía o símbolo da mulher orgástica, pela crença de que mantinha relações sexuais com o demônio. Muraro ressalta que a caça às bruxas e a normatização da sexualidade atingiram principalmente as mulheres pobres, o que teve como conseqüência a submissão do proletário: “...estas mulheres já tinham, pois, os seus corpos reprimidos e inorgásticos e podiam, assim, transmitir aos seus filhos e filhas as regras de submissão que viriam a torná-los os operários e operárias submissos e de corpos dóceis do século XIX em diante” (2001, p.121).
Desde a Idade Média, a mulher pobre tem sido a grande revolucionária da história. Elas participaram de todas as revoltas camponesas, da guerra civil inglesa, da reforma protestante e em muitos levantes camponeses na Europa até o século XVIII. Tiveram, sobretudo, papel fundamental na Revolução francesa. Nesse episódio marcante foram elas que tomaram as iniciativas violentas em defesa do pão de seus filhos.
Durante o século XIX, as mulheres formavam quase metade da massa operária nas fábricas e também nas minas de carvão, porém eram exploradas e trabalhavam em condições inumanas. A mortalidade feminina era terrivelmente alta devido ao fato de além de ganharem menos e trabalharem mais, as mulheres doavam a escassa comida aos maridos e filhos, como afirma Muraro. Nesse mesmo século, Karl Marx e Friedrich e Engels escrevem o manifesto comunista convocando os operários a se unirem contra a opressão, porém deixam as mulheres de fora. Como mostra a autora, Marx ainda culpa as operárias por seus maus princípios morais. No mesmo ano de publicação do manifesto, as primeiras feministas se reúnem em um encontro nos Estados Unidos. Começava assim a germinação de um movimento que ao longo do tempo alcançará grande proporção.
O movimento feminista nasce praticamente junto do movimento operário, na era da civilização industrial. Muraro diferencia a luta das mulheres da luta de classe, classificando a primeira como mais profunda e com mais obstáculos: “...aparentemente o apelo de Marx visava erradicar apenas a sociedade de classe, mas o das mulheres ia muito mais além. O que elas reivindicavam era a supressão do patriarcado, muito mais antigo e mais profundo do que a sociedade de classes” (2001, 133).
Embora o movimento feminista tenha agitado toda a segunda metade do século XIX, só na década de vinte do século XX, as mulheres conquistaram o direto ao voto na maioria dos países industrializados, todavia, a grande maioria das mulheres votava de
forma conservadora, não alterando assim a situação de opressão e exploração. Além disso, o culto da domesticidade feminina ganha força após a Primeira guerra mundial. Embora essa década tenha dado uma abertura significativa em termos de sexualidade, a domesticidade prevalecia: “O orgasmo clitoriano, que devia ser o das bruxas, é agora substituído pelo orgasmo vaginal, que seria o da mulher ao mesmo tempo sexuada e materna” (MURARO, 2001, p.137).
A dicotomia privado/público não se alterou, portanto, a situação da mulher quase nada mudou, mesmo com todo o esforço das feministas. A situação se agrava devido à Grande Depressão, pois as mulheres foram as primeiras a perderem seus empregos. Devido a isso, nos anos trinta, a mística da feminilidade e o reacionarismo chegam ao seu ponto máximo, porém ainda se agrava mais, principalmente na Alemanha, com o advento do nazismo.
A evolução da condição da mulher não é homogênea. Ela está diretamente relacionada à condição sócio-econômica dos países. Nos países subdesenvolvidos, as mulheres de classe operária ainda são exploradas pelo capitalismo. Como força de trabalho necessário tanto à acumulação de capital como à sobrevivência da família, a mulher acumula dupla jornada, além de, na maioria das vezes, ganhar bem menos do que o homem. Já nas classes dominantes, apesar da situação de riqueza e poder, a grande maioria das mulheres reproduz os valores tradicionais do patriarcado. Nos grandes centros urbanos, embora em número pouco relevante, situam-se mulheres que formam uma outra classe média moderna: intelectuais, profissionais liberais, artistas, pesquisadores, etc. Essas classes formam outra consciência de feminilidade. Segundo Muraro, é justamente nessa classe que as transformações sociais começam a ocorrer.
Ao examinar a evolução feminina nos países capitalistas, a autora mostra que as mulheres americanas também entraram na força de trabalho durante a Segunda Guerra Mundial para substituir os homens. Quando eles voltaram da guerra, as mulheres foram obrigadas a voltarem para casa. A ideologia dominante baseada nas idéias de Freud é a da mulher que não se masculiniza.
Durante a ascensão da sociedade de consumo, a jovem psicóloga Betty Friedan resolve pesquisar a neurose que atinge grande parte das mulheres de classe média. Ela chega à conclusão de que a causa é a não-utilização de todas as capacidades humanas. Em 1963, Friedan publica o livro, Mística feminina, cuja repercussão faz com que o livro de Simone de Beauvoir, O segundo sexo, ganhe notoriedade. Beauvoir foi para o feminismo o que Marx foi para os operários, já que sua obra teoriza sobre a opressão
das mulheres. Muraro mostra que houve dois motivos para o sucesso do movimento feminista. O primeiro foi a emergência da sociedade de consumo, e a segunda o fato de ele se unir a outros movimentos de libertação. Entre eles, destacam-se os movimentos pelos direitos civis dos negros e contra a guerra no Vietnã.
Apesar das conquistas no final da década de oitenta, o feminismo foi esmagado pela dominação capitalista nos Estados Unidos e cooptado pelo sistema dominante na Europa. Contudo há uma revolução silenciosa, pois as mulheres hoje conseguiram superar a dicotomia entre o público e o privado, entrando no mundo dos homens. Muraro caracteriza o final do terceiro milênio como um pós-patriarcado. O crescimento das mulheres no domínio público foi sem dúvida a grande causa do desmoronamento crescente do patriarcalismo. O movimento feminista trouxe, sem dúvida, uma transformação das estruturas sociais e políticas.
A quebra da dicotomia entre público e privado possibilitou que houvesse a partir da década de oitenta a emergência de novas correntes de pensamento. As filosofias pós- modernas se empenham em desconstruir verdades ‘eternas’ da filosofia e até do próprio conhecimento. As novas teóricas feministas de hoje criam metodologias que reincorporam a emoção e a subjetividade ao conhecimento científico. Muraro mostra que essas teorias fazem parte de um projeto pós-platônico e pós-cartesiano na área da epistemologia que corresponderia a uma era pós-econômica, na qual ao invés da produção e o lucro, a prioridade seria o direito à satisfação das necessidades básicas e à fruição. Parece utópico que esses novos modelos de desenvolvimento possam ser realizados. Seria o triunfo do socialismo democrático sonhado por Rosa de Luxemburgo, a mais importante pensadora do século XX, na visão de Muraro, pois ela foi a grande profetisa do que pode vir ser o Estado no século XXI. Essa utopia parece ser a condição de sobrevivência da humanidade nas próximas gerações.
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