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Glimpses from a retreat

In document The Gaze. Unfolding Realms of Enquiry (sider 135-139)

7. REVISITING

7.1 R ETURNING TO K ARMA T ASHI L ING

7.1.3 Glimpses from a retreat

Antes de iniciarmos as análises propriamente ditas, é necessário abordar a construção do corpus.

Quando começamos a pesquisar sobre transcrição do oral para o escrito, nos questionamos sobre a necessidade de trabalhar com profissionais cuja prática de transcrição fizesse parte de seu cotidiano. Por isso, elegemos trabalhar com um linguista e um jornalista, além de uma transcrição feita pelo próprio pesquisador. Nessas circunstâncias, optamos, pois, por buscar um programa televisivo que pudesse interessar aos transcritores. Desse modo, entendemos que o programa Canal Livre, da Rede Bandeirantes de Televisão, cujo formato consiste em uma mesa-redonda em que se escolhe o assunto a ser debatido na semana e se convida um ou mais especialistas sobre o assunto para ser entrevistado. Nesse formato, há um apresentador que conduz a discussão, três outros jornalistas que tecem perguntas de acordo com o desenvolvimento da entrevista. Além desses elementos, há ainda, de acordo com o momento da entrevista, trechos de reportagens referentes ao assunto debatido na noite. Outro questionamento importante que surgiu foi: quem e quantos seriam os transcritores? Foi então que tivemos a oportunidade de eleger como transcritores um jornalista e um linguista, bem como o próprio pesquisador. Isso porque, ao considerarmos a transcrição um ato enunciativo, foi preciso considerar que os transcritores, no ato de transcrição, posicionam-se como sujeitos

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da enunciação e, por isso, emergem rastros de singularidade que permitem observar a condição singular de cada transcritor. Assim, além de buscarmos transcritores que têm como prática cotidiana o ato de transcrever, cada transcritor possui formação distinta. Neste sentido é que vimos como importante um olhar comparativo sobre as transcrições, pois além de haver transcrições feitas por transcritores diferentes, há ainda aspectos relativos à formação destes transcritores que permitem a emergência de efeitos que possibilitam a observação das diferenças, a partir das quais parece ser possível observarmos também a emergência de subjetividade. Nesse sentido, as diferenças que conduzem a uma diferença na interpretação e, em consequência, na transcrição foram consideradas diferenças relativas à subjetividade do transcritor e não diferenças relativas, por exemplo, à qualidade do áudio ou a uma demanda da transposição do oral ao escrito.

Sobre os transcritores, é preciso considerar ainda que o jornalista, cotidianamente, transcreve para fins de publicação em mídia impressa. Neste sentido, faz a transcrição de acordo com sua constituição como sujeito, o que inclui sua formação acadêmica. Desse modo, a maneira como o jornalista se (com)porta ao se apropriar da língua para transcrever depende do conhecimento que possui da língua. Ainda é preciso considerar que, no caso do jornalista, as publicações que comportam a transcrição sob a forma de citação, geralmente, exigem uma linguagem específica da escrita e, em certa medida, abrangente, uma vez que é redigida para leitores diversos. Já o linguista, com formação acadêmica diferente, geralmente, não confere à transcrição a uma linguagem específica da escrita, pois ao transcrever, visa à produção de materiais para análise (à constituição de um banco de dados), o que lhe impele a tentar manter as marcas específicas da oralidade, tais como, por exemplo, digressões, hesitações, lapsos, reconstruções, anacolutos etc.

Após eleger o material que serviria aos propósitos estabelecidos na hipótese, na pergunta de pesquisa e nos objetivos gerais e específicos, procedemos às análises ancorados às bases teóricas que possibilitam observar os aspectos pertinentes ao recorte feito para a pesquisa. Contudo, ainda é preciso observar, tanto em relação ao linguista quanto em relação ao jornalista, que, no que se refere ao nosso objeto de estudo, foi pedido aos transcritores que fizessem uma transcrição especificamente para esta pesquisa, mas que transcrevessem segundo o modo como o fazem em seu cotidiano. Assim, juntamente com as cópias das gravações das entrevistas [o texto transcritível], foi, também, entregue aos transcritores uma cópia do projeto desta pesquisa para que eles tomassem conhecimento do que seria feito com as transcrições que eles se propuseram a fazer. E foi em decorrência dessa finalidade que

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optamos por produzir uma transcrição, mas, nesse caso, a finalidade, diante da proposta desta pesquisa, era de sentir como o processo de transcrição de fato ocorre, além de ter mais uma transcrição para comparar com as outras.

Além da emergência de subjetividade verificada no processo de transcrição do oral para o escrito, há ainda uma questão subjetiva que se interpõe, ao se constituir o corpus de análise. Se observarmos o linguista que participa desta pesquisa como transcritor, este transcreve motivado por algum recorte temático. E assim é em toda pesquisa que envolve transcrição. A maneira como o linguista abordará a transcrição é única e irrepetível. Assim, se em outro momento os “mesmos” textos transcritíveis forem matéria para outra pesquisa, novas transcrições serão feitas; portanto, novos atos enunciativos entrarão em cena. Em decorrência do fato de estarmos tratando de atos enunciativos é que achamos pertinente o pensamento de Flores (2009) quando diz que é impossível a constituição de um banco de transcrições. Desse modo, surgem, nesse novo processo de transcrição, possibilidades para outros efeitos de sentido. Em relação a esta pesquisa, o pesquisador trabalhará com a transcrição em uma perspectiva diferente, uma vez que o foco é a análise da subjetividade implicada no processo de transcrição. Neste sentido, a constituição do corpus é também subjetiva, uma vez que se trata de uma pesquisa em particular. Qualquer outro que vise tentar repeti-la, repete-a, porém de forma diferente, pois se trata de um ato enunciativo, único e irrepetível.

Sobre essa questão, Agustini & Bertoldo (2009, p. 5 e 6) dizem que:

na construção de corpus, a implicação da interpretação do pesquisador se reflete nos recortes estabelecidos; ao mesmo tempo em que instaura uma outra enunciação (uma enunciação sobre a enunciação da qual o corpus é construído), porque o lugar de enunciação torna-se outro, inclusive o ponto de vista é outro. Portanto, qualquer construção de corpus é uma transcrição.

Assim, considerar ato enunciativo a transcrição, nos moldes em que desenvolvemos nesta dissertação, implica considerar que, ao constituir o corpus de pesquisa, o pesquisador também faz uma transcrição, para obter seu material para análise. Além disso, ao manipular o material de análise, o pesquisador, por meio de um gesto de interpretação, insere estas transcrições em outro contexto, diferente daquele que motivou as primeiras transcrições e suas análises refletem sua presença na condição de sujeito.

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Para a realização deste trabalho, foram gravadas duas entrevistas: uma com o médico legista Badan Palhares, outra com o então ministro das telecomunicações Hélio Costa. A escolha dessas duas entrevistas foi feita em decorrência dos assuntos. É claro que o foco da pesquisa não é a observação do conteúdo, mas a análise do funcionamento da linguagem. O fato é que o doutor Badan Palhares é um médico que atuou em casos polêmicos de conhecimento nacional, como o caso do assassinato do ex-tesoureiro do ex-presidente Fernando Collor de Melo, Paulo César Farias e sua namorada Suzana Marcolino, entre outros. A entrevista ocorreu no momento em que o médico lançava seu livro “Por que converso com os mortos” eixo central do debate. A outra entrevista, com o então ministro Hélio Costa, foi realizada no dia em que o Governo Federal lançou oficialmente a TV Digital no Brasil. Se a pesquisa analisa o funcionamento da linguagem, por que, então, dizer que há importância no conteúdo das entrevistas? É que a escolha dessas entrevistas e seu conteúdo se configuram como bons representantes de assuntos que interessam à opinião pública, além de interessar, para fins de publicação ou de análise, aos transcritores eleitos para esta pesquisa.

Após selecionadas e gravadas as entrevistas, fizemos a distribuição do material aos transcritores. Para fazer a escolha dos transcritores, o principal critério utilizado foi o de considerar, como já dissemos, que as transcrições deveriam ser produzidas por transcritores com formações distintas, bem como cada transcritor tivesse a prática de transcrever como algo que fizessem habitualmente. Portanto, os transcritores escolhidos fazem este tipo de trabalho profissionalmente. Desse modo, não escolhemos participantes sem experiência em transcrição. Isso porque, para o tipo de análise que empreendemos neste trabalho, visamos observar a inscrição do transcritor como sujeito e entendemos que a prática de transcrição seria uma aliada no processo de análise na medida em que estes transcritores já têm estabelecidos critérios para a transcrição do oral para o escrito.

Para realizar essas análises, consideramos relevante estabelecer, como parte do método de análise, algumas etapas básicas, quais sejam: 1. realizar leituras teóricas, 2. realizar as gravações do Programa Canal Livre, 3. confrontar a percepção auditiva da gravação dos programas com as transcrições, 4. recortar33, do material coletado, as sequências que constituiriam o corpus de análise, 5. analisar as ocorrências de pontuações distintas para a mesma sequência, 6. compará-las, a fim de observar a relação entre o texto transcritível, o

33 É importante lembrar que o próprio recorte é marcado por questões subjetivas, uma vez que o

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transcritor e a transcrição e 7. a partir das diferenças que foram observadas, analisar a emergência de subjetividade, bem como a emergência de rastros de singularidade do transcritor.

Depois das transcrições feitas, o próximo passo era recortar. A princípio parece uma tarefa fácil, mas este precisou ser um trabalho minucioso de observação e escolha dos trechos em que pudéssemos explicitar e problematizar a emergência dos rastros de singularidade. Flores34 (2009) afirma que, em pesquisas filiadas à Linguística da Enunciação, não é a quantidade de recortes que conta, uma vez que uma única sequência pode possibilitar a observação de muitos aspectos relacionados aos objetivos da pesquisa que se pretende fazer. Ou seja, após ter recortado mais de trinta páginas de transcrição, ainda era preciso escolher quais os trechos a serem utilizados, pois era preciso levar em consideração as sequências que, a nosso ver, melhor atenderiam às nossas expectativas de análise. Assim, optamos por fazer os recortes primeiramente no texto do jornalista e, na sequência, identificávamos os trechos recortados nas outras transcrições. A princípio, essa opção foi aventada por acreditarmos haver mais diferenças na transcrição do jornalista que nas outras duas transcrições, no entanto, é importante considerar a afirmação de Saussure (2006) quando ele coloca que é o ponto de vista que faz o objeto, uma vez que, no caso das diferenças entre as transcrições, ao olharmos para as outras transcrições, é também possível dizer, por exemplo, que a transcrição do linguista é a que apresenta mais diferenças, já que, mesmo tendo formação semelhante à do pesquisador, não é a formação acadêmica que garante uma quantificação menor dessas diferenças entre pesquisador e linguista, e maior entre estes dois e o jornalista. Isso porque essas diferenças surgem no fio do dizer em decorrência da singularidade de cada transcritor, no entanto não há como quantificar as diferenças, uma vez que elas simplesmente emergem no processo de transcrição. Assim, a escolha que fizemos constitui-se muito mais pelo fato de haver uma necessidade de se fazer os recortes a partir de uma das transcrições – qualquer que seja ela – o que nos permite observar que essa escolha é uma questão de perspectiva.

In document The Gaze. Unfolding Realms of Enquiry (sider 135-139)