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6.3 V ENNER OG MESTRINGSSTRATEGIER

6.3.1 Glemming som mestringsstrategi

Na sociabilidade rural do Crato, no “tempo de antigamente” (1950), a unidade básica de produção era a agricultura de subsistência – o roçado, e os engenhos no fabrico da rapadura e da aguardente. Que sociabilidade se criava nos sítios rurais e quais as condições de sobrevivência dos trabalhadores rurais?

Na região do Cariri, o processo de colonização efetuou-se em duas frentes: a cristianização dos índios Cariris pelos missionários capuchinhos franciscanos, no século XVII, e o povoamento da região pelos brancos e mestiços, procedentes da Bahia, Pernambuco e Alagoas, tangendo gado pelas beiras do rio São Francisco em busca de terras para pastagem, no século XVII e XVIII. Junto com seus costumes, esses colonos, presume-se, trouxeram as primeiras sementes de cana da zona canavieira baiana e pernambucana. (ARAUJO, 1971,1973).

Figueiredo Filho e Pinheiro (1953, p. 45), em poucas linhas, elaboram uma síntese da colonização do município do Crato:

Teve origem o núcleo povoado que formou depois a cidade do Crato, da antiga Missão do Miranda, surgida lá pelos princípios do século XVIII. Foram missionários capuchinhos os arrojados pioneiros da civilização silvícola. Ensinaram-lhe as primeiras noções da doutrina cristã, rudimentos de letras e ofícios, agrupando-o, em tôrno de casa de farinha, para melhor domesticá-lo naquele trabalho ligado à lavoura que tinha raízes tão profundas no elemento autóctone. Nasceu assim Crato, sob o signo da fé e do trabalho, cresceu e desenvolveu-se à mesma sombra benfazeja. Os índios Cariris foram expulsos da região pelos colonizadores vaqueiros na tentativa de alargar pastos para o gado vacum que tangiam. Esses homens foram os primeiros colonos a se fixarem no Cariri, atraídos pela facilidade do solo para as lavouras. A luta pela terra teve sua primeira batalha entre os colonos e os índios que já habitavam a região e haviam desenvolvido o cultivo da mandioca e a técnica do fabrico da farinha. O trabalho de catequese já os havia iniciado no aprendizado de alguns ofícios de manufatura, das letras e da música de origem europeia. Quanto ao processo de cristianização em curso, se deu em função da adequação do modo como os índios cultuavam suas divindades, aos preceitos e práticas católicas, como a superioridade de Deus sobre todas as divindades, e a prática de alguns sacramentos como o batismo, a confissão e o hábito de se rezar missas. Foram os capuchinhos que introduziram no povoado Missão do Miranda o culto a Nossa Senhora da Penha de França, até hoje padroeira da cidade do Crato, com a construção da primeira capela.

Na luta pela terra os índios, derrotados pelos colonos, se dispersaram em direção ao norte do Estado, onde foram dizimados pelo infortúnio das guerras entre nações indígenas. Os que ficaram foram submetidos ao trabalho servil nas terras dos colonos. (ABREU, 1988; FIGUEIREDO FILHO, 1964a).

Como afirma Padre Araújo (1971,1973), 45 após minuciosa pesquisa nos arquivos de batistérios da freguesia de Icó, que alcançava àquela época a vila do Crato, o povoamento do Cariri veio mesmo pelas ribeiras do rio São Francisco. Em busca de pastagens, baianos, alagoanos e pernambucanos desenvolveram no Cariri a pecuária e, ocupando terras de sesmarias (devolutas ou compradas), iniciaram o plantio da cana-de-açúcar para o fabrico da rapadura no final do século XVII.

Para se assomar à herança de costumes indígenas que no Cariri fincaram raízes, os novos colonos trouxeram consigo práticas culturais de origem africana, a se juntar com a herança indígena e a portuguesa. A divisão social do trabalho estruturou-se em torno da pecuária, agricultura de subsistência, fabrico da farinha e da rapadura, com base na relação de propriedade com a terra e do desenvolvimento de relações de sujeição do trabalhador rural

45 A primeira edição de suas referidas obras data de 1953, na Revista A Província, n. 1, editada no Crato, sob a

livre, mediadas pela necessidade e pelo sistema de padroado. Morador ou agregado, o regime de trabalho era de extrema exploração.

Em 1765 no Cariri se tem notícia de já se haver produzindo mel e rapadura cerca de 37 engenhos, localizados nas proximidades dos canaviais que ocupavam pequenas áreas de brejos, situados no pé da serra do Araripe. Não eram distantes os sítios canavieiros uns dos outros, beirando as descidas d‟água que formavam rios e riachos essas terras úmidas ganharam por anos a primazia econômica da região pelo mercado da cana e o fabrico da rapadura. Pela proximidade dessas propriedades que por partilha de herança não se estruturou o latifúndio na região, os trabalhadores (moradores ou agregados) podiam, em circunstâncias diversas, percorrer a pé essas distâncias. Era comum um dono de engenho localizado no brejo ter outro sítio em área circunvizinha e em períodos de moagem juntar no sítio sede do engenho todos os trabalhadores fixados em suas terras. Mesmo precariamente, a pé ou em lombo de burro, os trabalhadores circulavam entre sítios e estabeleciam laços de vizinhança, principalmente em períodos de moagem, constituíam a mão-de-obra do engenho. Nesse sentido, os engenhos de rapadura eram os núcleos produtivos que por divisão de trabalho proporcionavam o encontro periódico entre moradores em sítios do mesmo dono.

Segundo Facó (1963), no processo de formação da sociedade cratense, as relações sociais no meio rural, na primeira metade do século XX, estruturaram-se sob as condições de trabalho “semi-servil”, uma herança do modelo da escravatura e das condições de monopólio da terra. A sobrevivência desses migrantes pobres dependia do dono da terra.

Na formação da cultura local, as práticas de religiosidade ocuparam um lugar de centralidade e isto inclui a criação de irmandades leigas, a prática das procissões e culto às imagens de santos. Comumente encontrados até hoje nas moradas de sítios no Cariri, os santuários domésticos são heranças do período de colonização portuguesa.

Para explicar a emergência do cangaço, bem como do fanatismo religioso no Cariri, Facó (1963) argumenta ter sido fruto de uma reação à muita miséria e fome provocadas pelas secas e pelo monopólio da terra no Nordeste. O autor afirma ser a religião a única forma de consciência para aquela legião de famintos analfabetos que migravam para o Cariri em busca de sobrevivência. Qualquer trabalho valia em troca do comer. Assim, a fome tanto separou quanto juntou essas pessoas: seitas foram criadas nas próprias comunidades rurais; o direito, a lei, a polícia, era a palavra do patrão; os trabalhadores “semi-servos” se armam com cacetes de jucás, formando exércitos em defesa do patrão. “A classe dos pobres do campo se achava à margem da sociedade constituída. Não tinha terra, não tinha direitos, não tinha sequer deveres – além daqueles de servir ao senhor.” (FACÓ, 1963, p. 36).

Consoante Alves (1945), o crescimento da região do Cariri efetuou-se antes mesmo da ação religiosa do Padre Cícero. As secas periódicas no Nordeste traziam levas de migrantes a se estabelecerem na região. Embora o cultivo da cana-de-açúcar no Cariri para o fabrico da rapadura não registre a presença do escravo, como ocorreu na zona da mata pernambucana e no recôncavo baiano, a herança cultural no trato com o escravo acompanhou os migrantes vindos de lá, e aqui tornados os senhores de engenho. O trabalhador livre destinado ao engenho fixava morada na propriedade do senhor, além de cultivar a agricultura de subsistência para si e para o patrão, servia de mão-de-obra para os engenhos durante todo o ciclo – plantação, colheita e moagem da cana. 46

Os engenhos de rapadura e a agricultura de subsistência deram suporte ao desenvolvimento econômico e social do Crato. Em 1953 esta cidade possuía setenta e seis engenhos movidos a motor, nove puxados pelos bois mansos e dois movidos à água. Quase como atividade paralela, havia cento e quinze casas de farinha para a desmancha da mandioca, cultivo maior da serra do Araripe. (FIGUEIREDO FILHO e PINHEIRO, 1953).

No Cariri, a atividade canavieira desenvolveu-se em níveis bem inferiores aos vizinhos pernambucanos e baianos. Caracterizou-se pelo fabrico da rapadura e da aguardente, ladeados por pequenas lavouras de subsistência e pequenas e médias faixas de terras destinadas ao plantio da cana-de-açúcar, enquanto nas duas regiões citadas o fabrico do açúcar branco era a principal finalidade. Segundo Andrade (1980), o comércio da agricultura nordestina, desde o período da colonização, foi voltado para a grande lavoura, inclusive contando com políticas protecionistas do Estado, as quais não se estendiam às pequenas lavouras, consideradas pobres. Foi o caso do Cariri, cuja atividade dos engenhos e a comercialização da rapadura e da aguardente atendiam somente à demanda dos Estados vizinhos, sem nenhum tipo de política de investimento do poder do Estado para o setor.

Em fins do século XIX até meados do XX, os donos de engenhos do Cariri eram considerados pobres, não vivam no luxo e geralmente residiam nas suas propriedades rurais. Tinham contato muito próximo com o morador, donde se estabeleceram com facilidade as relações de compadrio.

Houve no Crato um processo de modernização nos engenhos com uso de tecnologias na substituição dos primeiros engenhos de madeira por engenhos de ferro, movidos a motor. Segundo Figueiredo Filho (1958), o “ciclo de ferro” veio substituir o “ciclo

46 Como registra Alves (1945, p. 124), na região do Cariri a produção da cana é a mais desenvolvida no período

de 1939-1949. No Cariri existiam então 300 engenhos (222 movidos a motor e 78 a força animal). Desses, a maior parte (74, com 34 a motor e 40 a força animal) encontravam-se no Crato. A fabricação de farinha de mandioca no Cariri também era considerada de boa monta: 740 aviamentos, desses, também a maior parte (179) situava-se no Crato. Nesse mesmo período a produção agrícola de milho, feijão, arroz, algodão, mamona, era considerada abundante em relação às outras regiões do Ceará.

de madeira”, expressão usada por ele para definir as etapas de desenvolvimento da produção rapadureira do Crato. O autor destaca o pioneirismo da família Melo ao instalar engenho de ferro no sítio São José, “debaixo de festejos populares, ao som das músicas de couro e ao pipocar de foguetório.” (FIGUEIREDO FILHO, 1958, p. 14).

Nas ocasiões, sobretudo religiosas, era comum a festa na casa do senhor de engenho no Cariri. Novenários, batizados e casamentos eram festas animadas pelos componentes de bandas de couro em tocadas de baião e marchas. Componentes das bandas e convivas da festa eram os moradores, a regalar-se em comida farta, a afirmar o compadrio numa hierarquia de valores culturais e de trabalho, a parecer que o dono de engenho do Cariri lera Antonil (1982, p. 92) a ensinar aos senhores em épocas de braços escravos no Nordeste canavieiro a deixar-lhes folgar, pois “negar-lhes totalmente os seus folguedos que são o único alívio do seu cativeiro, é querê-los desconsolados e melancólicos, de pouca vida e saúde”. Para bem o trabalho se transmutar em dádiva do favor de morar o morador nas terras alheias, seus donos compartilham no Crato desde o início do engenho festas abençoadas pelo calendário santo, não contestando as práticas de religiosidade dos seus moradores, fosse feita a contento e medida de não permitir exageros, nem desvios à hierarquia de Deus, e aos preceitos da Igreja Católica. O vigário comparecia a rezar e benzer os engenhos em cada início de moagem, todo ano, para Deus dá boa colheita e boa produção e moagem, costume também herdado dos engenhos de Pernambuco, como registra Antonil (1982).

Os moradores tocavam suas bandas cabaçais, nas quais era frequente a presença de tocadores de pife vindos de terras alagoanas e pernambucanas. Para impedir a formação de comunidades independentes, os senhores dos engenhos proibiam seus moradores de participar das irmandades leigas. Crédulos nas possibilidades naturais oferecidas pelo verde do vale, esses imigrantes constituíram, de fato, a mão-de-obra livre para a lavoura e o trabalho nos engenhos da região. O trabalhador rural fixou-se na região, ao produzir sua sobrevivência mediante o cultivo da terra: a roça, ou roçado.

Figueiredo Filho (1958, p. 27) afirma a condição de pobreza do morador do sítio na região. Uma “paisagem” adversa aos “verdejantes canaviais” e à “natureza pródiga do Cariri”, tal condição de miséria, um “drama pungente” que no seu entendimento poderia ser resolvido pela atenção dos poderes públicos e a “cooperação dos proprietários de sítios, para melhor atenuá-lo.” Não aprofundando a questão, o autor afirma ser o tempo de moagem esperado pelo morador como um período de trabalho certo e comida garantida. Praticamente o ano é tomado pelo ciclo da moagem. Este tempo requisita o trabalho do morador desde o plantio até o fabrico da rapadura, e isto percorre sete a oito meses do ano. Como é verdade, o

engenho sustenta os moradores nos arredores do Cariri, porém a intensidade do trabalho no período de moagem muitas vezes exaure o tempo do morador que não prepara o seu roçado, daí ser comum na região a prática do ajutório.

De acordo com Rabello (1969, p. 65), na sociabilidade nos engenhos de rapadura “os laços domésticos e as relações de trabalho unem as mesmas pessoas dentro do seu domínio”. No caso de trabalhadores que plantam e criam em terras de proprietário, na condição de moradores ou em regime de meação, os vínculos de trabalho se misturam às relações familiares. Trabalhadores e patrões tornam-se compadres uns dos outros, uma espécie de “parentesco espiritual”. Essa relação contribui em muito para a sujeição do trabalhador à exploração no trabalho. Um filho de trabalhador cujo padrinho é o patrão gera um sentimento de prestígio, “Receber a bênção do padrinho é então uma espécie de confirmação diária dessa importância ou desse prestígio que se estende ao afilhado.” (RABELLO, 1969, p. 66).

Em meados dos anos de 1970 o aparecimento da usina de açúcar vai mudar as relações de produção em torno do cultivo da cana. O Programa Nacional de Álcool (Proalcool), criado por decreto presidencial em 1975, incentiva a instalação da Usina Manoel Costa Filho, da Companhia Açucareira Vale do Salamanca, que inicia suas operações em 1976 e põe a destilaria em funcionamento dois anos depois.

A plantação de cana no Cariri chega a ser considerada a segunda área do Ceará destinada ao cultivo da cana. Segundo Brito (1985), a partir daí uma nova estruturação do espaço se configura na região. É o marco do desenvolvimento da agroindústria na região. Além de reorganizar as áreas produtivas que passam a fornecer a cana para a usina, há o tráfego de trabalhadores advindos de Pernambuco e de Alagoas para o trabalho de corte na região. Alteram-se, então, significativamente as condições de trabalho para os moradores nos sítios da região, os quais não se encontram mais ao abrigo do plantador de cana que, com o fechamento do engenho, não necessita mais de boa parte de seus moradores. Expropriados do campo, migram para a cidade em condições de desemprego.

Essa nova configuração das relações de trabalho nos sítios do Crato vai desestruturar as comunidades de moradores e, ao provocar a migração, desorganiza também seus laços de vizinhança e de pertencimento ao seu ofício de agricultor, como assim se reconheciam. Nesse sentido, o encontro entre esses trabalhadores torna-se mais difícil ante a sociabilidade rural que se modifica, e o contato com a sociabilidade urbana passa a ser mais intenso, porquanto muitas dessas famílias ou migraram para as periferias das cidades, ou, mesmo continuando no campo, terão de buscar na cidade alguns meios de sobrevivência.

De certa forma, a mudança na sociabilidade dos moradores dos sítios, de certa forma, modifica também a função social das tradições. Sua prática brincante, como se revelará pela própria narrativa dos mestres, passa por mudanças e são essas mudanças sentidas por eles quando percebem que o “tempo de antigamente” não se assemelha, em muitas situações, ao modo de vida que hoje lhes põe novos desafios para a obtenção de sua sobrevivência e para a realização de sua prática brincante.