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4.2 Material hindrances for repair

4.2.1 Glass

A Companhia de Jesus foi uma Ordem fundada basicamente pelo princípio da comunicação no aprimoramento do trabalho missionário que se projetava ser instrumento da vontade de Deus. Os primeiros jesuítas formavam parte de um grupo de estudantes que possuíam todos o título de mestre em Letras.142 O letramento, pressuposto essencial para o desenvolvimento pessoal dentro da Companhia de Jesus, era mais do que um mero item de currículo. Bem sabia seu fundador, Santo Ignácio de Loyola, que o carácter expansivo de uma Ordem missionária requereria um elemento de coesão interna que não desse margem para a possibilidade de desagregação, visto que seus agentes rapidamente se espalharam por diversas partes do mundo. Nesse sentido, a grande contribuição de Loyola foi dar a seus companheiros a consciência da existência de expectativas por parte do interlocutor e também dos objetivos que deviam ser trabalhados pelo redator justamente à luz destas expectativas.143

A comunicação através de cartas não estava deixada às particularidades de cada escritor. Havia regras de escrita que se diferenciavam de acordo com o destinatário e, com estas regras, mudavam também os tipos das comunicações. Escrever não era apenas uma sugestão, mas uma “obrigatoriedade institucional”.144 Mas, afinal, o que escreviam os

jesuítas? O gênero de escrita pode ser variado. As cartas trocadas por eles remetem a uma série de exigências: difundir e propagar os resultados da catequese; controlar membros distantes do governo da Ordem; e reconfirmar, de forma permanente, a identidade desses membros.145 Assim, os missionários foram autores de relatos, informes, registros, como se queira chamar a atividade epistolográfica dos jesuítas. Estes variados tipos de escrita compõem o gênero chamado crônica.146 Escrever nos séculos XVI e XVII significava ter como regência discursiva a retórica enquanto técnica de persuasão. E mais do que isso: a História estava marcada por um esforço de apontamento das verdades morais, integrada à tradição cristã, e não necessariamente por trazer os feitos verdadeiros, mas com o objetivo de apresentar um quadro de vícios e virtudes.147 Jaime Borja Gómez lembra que as técnicas

retóricas eram tão importantes neste período que existiam manuais que ensinavam a aplicá-las

142 LONDOÑO, Fernando Torres. Escrevendo cartas. Jesuítas, escrita e missão no século XVI. Revista Brasileira

de História, São Paulo, v. 22, n. 43, p. 11-32. 2002. p. 15.

143 Ibid. p. 17.

144 POMPA, Cristina. Op. cit. p. 81. 145 Ibid.

146 REIS, Anderson Roberti dos; FERNANDES, Luiz Estevam de Oliveira. A crônica colonial como gênero de documento histórico. Revista Idéias, Campinas, v. 13, n. 2. p.25-41, 2006. p. 25.

147 BORJA GÓMEZ, Jaime. Idolatría, Tiranía y barbarie. Ediciones del Banco de Crédito del Perú: Lima, 2003. Op. cit. p. 34.

em um discurso histórico.148 Cristina Pompa, em concordância com Charlotte Castelnau- l´Estoile, afirma que os escritos jesuíticos, não aqueles de carácter administrativo, as chamadas hijuelas, e sim aqueles de carácter literário, compõem a chamada “escrita da missão”, na qual a elaboração da narrativa nos relatos jesuíticos se desenvolve de maneira conjunta e concomitante à legitimação e à criação de uma identidade do projeto catequético.149 Adriano Prosperi, por sua vez, acrescenta uma outra utilidade às cartas jesuíticas: a de fomentar, nos missionários, o impulso apostólico do trabalho de conversão dentro da própria Europa. Ao recuperar o exemplo de Landini, que desejava missionar na Índia, Prosperi evidencia a figura de Juan de Polanco, o grande estrategista do sistema epistolar jesuítico. Para manter Landini na Itália, Polanco fazia chegar ao referido missionário cópia das cartas das Índias de modo que a leitura destas cartas funcionasse como um “espelho distante” do trabalho do próprio Landini no Velho Mundo. É com este pressuposto que a ideia das Índias internas à Europa se concretizou, uma vez “A ascensão missionária acontecia por efeito de uma consideração, nos documentos e através das cartas, dos empreendimentos realizados na Índia.”150 Tornou-se prática, então, dos missionários atuantes na Europa

requisitar as cartas ao Geral da Companhia para incitar este impulso apostólico para motivá- los.151

Uma adequada leitura do Informe exige levar em consideração o fato que seu autor é um jesuíta (com todo peso apontado acima que esta posição carrega), ou seja, alguém que não (re)conhece uma estrutura de sociedade diferente da sua, utiliza-se de categorias essencialmente ocidentais, elaborando assim, o que Agnolin chamou de “ontologia da linguagem”:

Dito de outra forma, o Ocidente recorta a realidade do outro segundo suas próprias categorias e o ato de nomeação, a estrutura da narração, a escolha dos eventos, que se dão através da obra do narrador (e de sua sociedade), representam uma maneira de unificar o saber compartilhado por sua sociedade.152

Na prática da construção de uma crônica, tal como coloca Jaime Borja Gómez, no que se refere exatamente à elaboração da imagem do indígena, a percepção das diferenças se estabelecia (também) a partir dos diferentes graus de civilidade. O espelho de Heródoto americano, que consistia em tomar o si próprio ocidental como modelo de normalidade para

148Ibid. p. 36.

149 POMPA, Cristina. Op. cit. p. 82.

150 PROSPERI, Adriano. Op. cit. p. 544-545. 151 Ibid.

definir alteridade, era aplicado aos indígenas. Foi exatamente neste sentido que a ideia do selvagem, em contraponto ao europeu civilizado, marcou a elaboração das diferenças e facilitou as interpretações da idolatria e do paganismo,153 pontos centrais da atuação missionária americana. Esta construção da alteridade se dá sob o instrumento da religião como código privilegiado de mediação cultural. É para este sentido que aponta Cristina Pompa:

Resumindo: no momento da Conquista Espiritual do Novo Mundo, o imaginário europeu construiu a alteridade indígena a partir de uma revisão e de uma rearticulação de algumas categorias religiosas: a fé, a profecia, a esfera demoníaca. A partir daí, construiu-se também o projeto missionário, voltado para a realização do desenho providencial da pregação do Evangelho entre todos os povos da Terra, principalmente os “naturais”.154

Nesse sentido, a fim de traduzir a cultura outra, é necessário converter. E para converter, é necessário civilizar. É justamente (e somente) com esta complexidade que é possível analisar um Informe jesuítico e que, mesmo assim, levando em consideração que não podemos exigir dele um quadro completo do que foi a realidade indígena no contato de civilizações, uma vez que a leitura desta foi feita com parâmetros e valores exteriores a ela.

No entanto, foram as correspondências dos missionários que permitiram o conhecimento, tanto dentro quanto fora da Companhia, das missões e das experiências dos jesuítas seja com o infiel ou com o gentio “... aquel outro desconocido y diferente de los europeos que podía ser indio, japonês o indígena...”.155

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