125 Ibid. 202.
126 POMPA, Cristina. Conversões indígenas: poder simbólico e razão prática no sertão colonial. In: AGNOLIN, Adone et alii. Contextos missionários: religião e poder no Império português. São Paulo: Hucitec-Fapesp, 2011. p. 99.
O Padre Francisco de Figueroa foi um hispano-americano nascido no ano de 1607, em Popayán, Nova Granada, na atual Colômbia. Ele era filho do capitão Francisco de Figueroa e de Joana de Vergara. Seus estudos se desenvolveram no Colégio Seminário de São Luís de Quito da Companhia de Jesus, e quando tinha por volta de 23 anos entrou para a Ordem inaciana. Quando da fundação do Colégio de Cuenca, considerado um posto avançado das missões, o Padre Francisco Fuentes, então Vice-Provincial de Quito, enviou para lá, em 1638, dois eminentes religiosos: o Padre Cristóbal de Acuña, renomado escritor e viajante, e o Padre Francisco de Figueroa. Ao se ausentar para ir a uma expedição com Pedro Teixeira, Acuña deixa Figueroa pregando em Cuenca tanto para índios quanto para espanhóis.128 Neste momento, Figueroa se aprofunda na língua inga.129 Após o levante mayna, mencionado
acima, foram enviados à região missionária os Padres Francisco de Figueroa e Bartolomé Pérez. Em 1642 Figueroa chegou a São Francisco de Borja, onde trabalhou enfaticamente com as questões apostólicas tanto com espanhóis como com os Maynas. Por dez anos dedicou-se a esta tarefa. Em 1652 fundou o aldeamento de Nuestra Señora del Loreto de
Paranapura juntando índios Paranapuras, Chayahuitas e Muniches. Em 1656, ano em que
assumiu o cargo de Superior (inicialmente como substituto, mais tarde como titular da missão) realizou uma viagem de quatro meses ao povoado dos roamaynas.130
No preciso dia de 22 de agosto de 1659, Figueroa recebeu de seu Provincial, Padre Hernando Cavero, o pedido da elaboração de um Informe, pois estava este último muito interessado em saber qual era o estado destas missões com o objetivo de divulgar o Informe a outros padres que, naquele momento, escreviam a história da província do Novo Reino de Granada e Quito.131 F. Londoño aponta que o resultado do pedido de Cavero, ou seja, o Informe de Figueroa, configura-se como um relato rico e consistente, pela abundância de detalhes que oferece a respeito da região em que o missionário se encontra, destacando-se entre as produções do século XVII a respeito das missões do Marañón, conseqüência do grande conhecimento que tinha Figueroa dos seus assentamentos.132 O relato original se intitula Informe das Missões do Marañón, Gran Pará ou Rio das Amazonas133 e demorou
cerca de dois anos para ser redigido, sendo concluído em 8 de agosto de 1661, com seu último lugar de trabalho para a redação junto ao aldeamento de Limpia de Concepción de Xeberos.
128 FIGUEROA, Francisco de; ACUÑA, Cristóbal de; OTROS. Op. cit. p. 149. 129 Variação do quéchua.
130 REGAN, Jaime. Introducción. Op. cit. p. 16
131 LONDOÑO, Fernando Torres. Op. cit. p. 243-244, nota 2. 132 Ibid. p. 244.
133 O título acima apresentado é uma tradução. O seu nome original é Informe de las Misiones de el Marañón,
O Informe encontra-se disponível graças a uma republicação de coleções de documentos amazônicos organizada pelo Centro de Estudos Teológicos da Amazônia (CETA), de Iquitos, no Peru. Este trabalho do CETA originou vários volumes de uma coleção chamada Monumenta Amazônica que não trata apenas de escritos missionários, mas de conquistadores, de agentes do governo, de cientistas e viajantes, e de extrativistas também, publicados na segunda metade da década de 1980. No entanto, o texto de Figueroa, de maneira específica, possui uma cópia que se encontra na Colección Usoz de la Biblioteca
Nacional de Madrid, sob o número 13.530; e outra, que se encontra no Colégios dos Jesuítas
de Chamartín de la Rosa, também na Espanha.134 Em 1904, em Madri, o escrito foi publicado como o primeiro tomo de coleção de livros e documentos referentes à História da América com o título Relación de las Misiones de La Compañía de Jesús en el País de los Maynas.135
O Informe completo de Figueroa foi publicado baseado na comparação de duas cópias manuscritas divulgadas pelo estudioso espanhol Marcos Jiménez de la Espada.
Quando se analisa o Informe como um todo, assim como fez F. Torres-Londoño, é possível perceber uma estrutura de sete pontos que o configura, quais sejam: a cronologia das missões; as dificuldades do trabalho missioneiro; a disposição do índio à cristianização; a precariedade da vida material; a descrição dos costumes; a defesa das missões; e as necessidades para a continuidade do trabalho missioneiro.136 Jaime Regan, por sua vez, apresenta um roteiro mais sintético:
Figueroa describe la formación de las missiones o pueblos entre los distintos grupos étnicos, habla de los problemas que teníam en llevar adelante su trabajo, presenta una importante sínteses de la cultura de los pobladores de la región y termina con una serie de sugerencias.137
Em sua introdução ao texto completo de Figueroa, Jaime Regan apresenta os principais pontos abordados pelo missionário em questão. Apesar de ter passado vinte e três anos na selva, Figueroa demonstrou dificuldades de adaptação. O missionário menciona as doenças causadas pelos insetos, pelo sol, pelas chuvas, pelos alimentos dos quais não gostava. Em seu relato, traz uma precisão etnográfica para o contexto da época em que escreve. Trata das plantas que os índios costumavam cultivar, além de seus métodos de plantação, de formas de caça e pesca (de modo particular, a pesca do peixe-boi) e faz apontamentos curiosos a respeito de formigas comestíveis. Em relação à organização social, a figura de liderança do cacique é
134 REGAN, Jaime. Op. cit. p. 18. 135 Ibid.
136 LONDOÑO, Fernando Torres. Op. cit. p. 244-245, nota 2. 137 REGAN, Jaime. Op. cit. p. 19.
destacada mais pelo carisma que exerce em sua comunidade que por sua autoridade de fato. Figueroa também trata das características e regras referentes ao matrimônio.138 No entanto, é o capítulo dedicado aos ritos e costumes indígenas que merece maior atenção. É exatamente nesta parte do relato que Figueroa realiza o mais pesado investimento argumentativo no que se refere à desqualificação do sistema de crença indígena ao mesmo tempo que deixa em aberto inúmeras possibilidades de conexão daquele sistema com o cristianismo, uma vez que é de seu legítimo interesse ter um campo aberto para trabalhar a conversão. A antropofagia também está presente no relato de Figueroa, bem como os rituais fúnebres. A menção dos modos rudes e violentos com os quais os espanhóis tratavam os índios quando os buscavam para trabalhar como escravos é tratada como uma das principais causas pelas quais as populações indígenas eram arrasadas, seja por violência ou por epidemias.139 De modo geral,
Figueroa retrata em seu relato tudo o que considerou sumariamente importante comunicar ao seu Provincial, o Padre Hernando Cavero. A atenção devotada aos costumes “religiosos” denota o seu grande interesse em apresentar um campo de trabalho a ser muito explorado.
A região de Maynas era um núcleo de conflitos que, com a presença de missionários e espanhóis, se tornavam verdadeiros territórios de enfrentamentos armados. Em 15 de agosto de 1666 Figueroa foi assassinado, juntamente com alguns jeberos, durante uma rebelião de cocamas, fruto dos conflitos acima apontados.
No momento em que Figueroa escreve, as missões estão já com vinte anos de existência, o que exige uma grande reflexão sobre os feitos atingidos e sobre os objetivos não cumpridos. E mais, a Companhia de Jesus já estava com mais de cem anos de existência e era exemplo de trabalho missionário em diversas partes do mundo, o que formatou uma configuração de resultados esperados pelas missões dos jesuítas que, por conseguinte, pressionou a demonstração de saldos positivos na região da Amazônia.140 O que faz o Padre ao longo de seu Informe é tentar argumentar com propriedade que o projeto missionário de Maynas já produzia seus frutos, mas ainda lhe restava atingir alguns objetivos, pois os índios ainda não estavam convertidos à verdadeira religião; e para tanto, o religioso aponta para a necessidade do envio de mais sacerdotes para tentar dar conta da grande área em que estão assentadas as missões e do modelo de cristianização que se havia consolidado.141
138 Ibid. p. 19-20. 139 Ibid. p. 20-21. 140 Ibid. p. 246. 141 Ibid.