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A conscientização não está baseada sobre a consciência de um lado, e o mundo, de outro; por outra parte, não pretende uma separação. Ao contrário, está baseada na relação consciência-mundo.” (FREIRE, 2006b, p.15). Conscientização é um conceito central do pensamento pedagógico freireano, mas não é de sua criação, conforme ele próprio esclarece na obra

Conscientização – teoria e prática da libertação, onde atribui aos professores

do ISEB, Álvaro Vieira Pinto e Professor Guerreiro a sua formulação original. Ainda segundo seu depoimento, ao ouvir a palavra conscientização pela primeira vez percebeu a profundidade de seu significado, especialmente enquanto tarefa da educação como ato de conhecimento.

A conscientização parte da compreensão em torno da consciência em suas relações dialéticas com o mundo em seu constante devenir e não como algo acabado, definitivo. As primeiras aproximações do homem com a realidade se dão num nível de espontaneidade e superficialidade. Nesse momento a tomada de consciência das coisas ainda não é conscientização. A conscientização vai se constituindo à medida em que essa tomada de consciência supera a mera percepção ingênua dos fatos procurando situar criticamente as relações desses mesmos fatos sendo postas como problematizações. Isso só ocorre na práxis social que se dá na temporalidade. Essa consciência da realidade social vai se tornando reflexiva e crítica, numa atitude epistemológica, voltando-se para o movimento permanência-mudança enquanto resultado da ação humana em seu mundo histórico-cultural, buscando compreender as práticas sociais, sua origem, fins, métodos e a quem servem e a quem prejudicam, para nelas intervir. Jamais a conscientização é neutra.

Evidente que Freire concorda que esse desvelamento sofre a influência dos condicionamentos de cada época, pois a conscientização só é possível porque o corpo consciente se percebe enquanto consciência condicionada. Só na práxis, porém, ocorre o desvelamento “possível”, não só enquanto desocultação, mas como condição propiciadora das intervenções humanas, ou seja, da conscientização autêntica, aquela que integra consciência de e ação

sobre a realidade.

Na obra Ação Cultural para a Liberdade e outros escritos, Freire apresenta uma auto-crítica em relação aos seus escritos em torno da conscientização bem como no livro Educação como Prática da Liberdade, quando considerava que à conscientização bastava o momento do

desvelamento da realidade social que funcionaria como “motivador psicológico de sua transformação”. (FREIRE, 2007b). É o próprio autor quem afirma:

O meu equívoco não estava, obviamente, em reconhecer a fundamental importância do conhecimento da realidade no processo de sua transformação. O meu equívoco consistiu em não ter tomado estes pólos – conhecimento da realidade e transformação da realidade – em sua dialeticidade. Era como se desvelar a realidade já significasse sua transformação. (FREIRE, 2007b, p. 172).

A conscientização, salienta ainda no mesmo texto, é um fenômeno humano e sua origem está no que o pensador católico Teilhard de Chardin denominou de “hominização”, momento esse remoto em que os seres humanos se fazem capazes de desvelar a realidade, atuarem sobre ela e se saberem sujeitos do conhecimento10.

Conscientização é definida como uma exigência humana, um aprofundamento da tomada de consciência, um caminho para que a curiosidade epistemológica se faça presente e que se dá em seres humanos concretos, situados e que agem em estruturas sociais, junto a outros seres humanos, o que significa dizer que todo processo de conscientização é sempre processo de inter-conscientização.

Da conscientização surge a inserção ativa do sujeito em sua realidade, diferente da emersão ou simples adaptação à situacionalidade encontrada. Essa inserção representa uma opção, um compromisso assumido não só para ter um pensamento crítico sobre essa mesma realidade, mas a decisão de agir. Eis aí a íntima articulação da conscientização com a práxis.

“Quanto mais conscientização, mais se des-vela a realidade, mais se penetra na essência fenomênica do objeto, frente ao qual nos encontramos para analisá-lo”(FREIRE, 2006b, p.30) assevera Freire. Se a conscientização é

10 É também o próprio Freire quem afirma, em entrevista a Ricardo Kotscho, no livro Essa Escola

Chamada Vida, em parceria com Frei Betto, que em Educação como Prática da Liberdade ele não

estabeleceu ligação entre educação e politicidade , ficando suas observações mais no campo psicológico. Na mesma obra com o frade dominicano assegura que mais adiante, no Chile falaria do aspecto político na educação, mas quando assume o exílio na Europa afirmaria desde então que educação é política. O conceito ganharia o caráter eminentemente político na sua obra e o projetaria como um educador crítico.

passível de melhoria, é porque a consciência possui diferentes níveis de compreensão da realidade social, é histórica e se dá num processo dinâmico de superação.

As denominações que Freire apresenta para designar esses níveis ou estados da consciência face à realidade apresentam pequenas variações nas principais obras que abordam mais detalhadamente o assunto11. Preferimos

apresentar o que consta do livro Conscientização: teoria e prática da libertação;

uma introdução ao pensamento de Paulo Freire, obra destinada

especificamente ao tema onde são indicados os seguintes níveis:

Consciência semi-intransitiva , aquela em que os sujeitos se movem na “quase aderência” à realidade, sem dela tomar “distância” para objetivá-la, problematizá-la e sobre ela refletir. As condições objetivas “dominam” a consciência nesse nível, conformada à situacionalidade onde se encontra. Os problemas são vistos a partir das condições interiores (auto-conceito de inferioridade natural) ou de uma realidade superior (sobrenatural) mas nunca na realidade objetiva e concreta. Mais ainda, a consciência nesse estágio só percebe o que está na órbita da sua chamada experiência vital. Predomina aqui o caráter mágico do pensamento, alimentado pelas estruturas fechadas e pela imposição da “cultura do silêncio”;

Consciência transitivo-ingênua, também uma consciência dominada onde prevalece a aceitação da realidade tal como está. Apesar de uma certa inquietação diante dos fatos, a consciência busca justificativas numa espécie de “manobra” para aceitar o ilusório como real, não atingindo ainda uma percepção estrutural dos problemas da realidade. Ocorre, no entanto, uma ampliação na base da percepção para além da órbita da experiência vital, que deve também ser aprofundada para alcançar sua superação;

11

Assim, por exemplo ,nas obras: Educação como Prática da Liberdade (1967), Pedagogia do Oprimido (1970), Ação Cultural para a Liberdade e Outros Escritos (1975) Educação e Mudança (1979), Conscientização : teoria e prática da libertação; uma introdução ao pensamento de Paulo Freire (1980)

Consciência crítica, aquela que supera as visões ingênuas da realidade bem como a conformação aos fatos, atingindo, pela reflexão, a criticidade da qual resulta um aprofundamento da tomada de consciência e a inserção social do sujeito no processo de transformação. A consciência ingênua só se supera para atingir a consciência crítica quando adota de fato a postura epistemológica, ou seja, quando procura o conhecimento e sua exatidão possível. Esse conhecimento, quando crítico, lhe fornece a condição de inserção e transformação social. Tal nível só pode ser atingido através da educação como instrumento de libertação, uma educação verdadeiramente gnosiológica.

A partir do exposto identificamos a relação entre níveis de conscientização e níveis de conhecimento diferentes. Perguntamos agora:

– HÁ, PARA FREIRE, NÍVEIS DIFERENTES DE CONHECIMENTO?

Quanto mais alguém, por meio da ação e da reflexão, se aproxima da “razão”, do “logos” da realidade objetiva e desafiadora, tanto mais, introduzindo-se nela, alcançará o seu desvelamento. (FREIRE, 2002b, p. 33).

Partindo da visão de conhecimento como resultado da abertura da consciência ao mundo, Freire situa o ato de conhecer como um ato vital, um fenômeno humano, fundado na consciência curiosa e capaz de ad-mirar, que se dá no mundo histórico-cultural de suas vivências e que precisa ser compreendido criticamente para oportunizar a ação transformadora dos homens, nesse processo permanente do devir que é a existência humana.

Freire considera que o ato de conhecer envolve o movimento dialético que se dá na práxis: ação e reflexão sobre a realidade, em permanente continuidade, pois é antes um processo social do que um resultado acabado, concluído.

Como presenças no mundo, os seres humanos são corpos conscientes que o transformam, agindo e pensando, o que os permite conhecer ao nível reflexivo. Precisamente por causa disto podemos tomar nossa própria presença no mundo como objeto de nossa análise crítica. Daí que, voltando-nos sobre as experiências anteriores, possamos conhecer o conhecimento que nelas tivemos. (FREIRE, 2007b, p. 103).

Conhecer é tarefa de sujeitos, é diferente de simplesmente captar o objeto. É percebê-lo, desvelá-lo em suas propriedades, relações e razão de ser.

É ainda um ato exigente, difícil, mas igualmente prazeroso, afirma Freire. (2008). Requer do sujeito o estudo, o exercício da pergunta e o ir mais além, pois não conhece verdadeiramente o que recebe passivamente o conhecimento que lhe é imposto ou o que se satisfaz com o que a prática “ensinou” (1982). Sendo um ato criador, não pode ser “doado”. Conhecer também não é adivinhar embora algumas vezes possa ter a ver com a intuição que é própria do corpo consciente ou consciência, nem tampouco é memorização mecânica das descrições ou narrações.

Por ser busca, o ato de conhecer naturalmente tem o erro como um momento do seu próprio processo, mas igualmente tem a “re-admiração” que possibilita não só uma visão crítica do produto como do próprio processo de conhecimento.

Podemos sintetizar alguns requisitos necessários ao sujeito para o ato do conhecimento, conforme o pensamento freireano :

Presença curiosa em face do mundo;

Postura impaciente, inquieta, indócil e atitude de busca, de investigação diante dos objetos cognoscíveis que a realidade apresenta, buscando sua razão de ser, superando a relação apenas “sensível” com esses mesmos objetos, “ad-mirando-os”;

Reflexão crítica sobre o próprio ato de conhecer identificando seu percurso e condicionamentos históricos, abrindo a possibilidade de um novo conhecimento;

Ação transformadora sobre a realidade, através da invenção e da re- invenção da existência humana.

É evidente que para Freire nem todos os seres humanos apresentam nos processos de relações com o mundo, enquanto consciências intencionadas tais requisitos. Por isso, situa três níveis de conhecimento, a saber : doxa, magia e logos.

No livro Ação Cultural pela Liberdade e outros escritos, Freire relembra a idéia de Platão sobre doxa, a mera opinião, diferente da episteme, ou seja, o conhecimento verdadeiro, criticando-a pelo fato do filósofo grego situar a necessidade de superar esse nível primeiro do conhecimento pela “lembrança” do “logos esquecido”. Sua posição é a de que esse nível inicial de “sensibilidade” diante dos objetos só pode ser superada na práxis, isto é, na ação-reflexão humana e jamais por uma atitude simplesmente intelectualista. Mas é especialmente na obra Extensão ou Comunicação? onde Freire aborda a questão dos níveis de conhecimento.

A doxa corresponde a um primeiro nível de conhecimento onde a

consciência percebe, capta os objetos da realidade, mas não busca desvelá-los em suas verdadeiras inter-relações e, por essa razão, permanece na superficialidade, não “olha” por dentro dos fatos, não aplica um rigor capaz de afugentar um pensamento ingênuo, “desarmado”, pré-científico em torno das coisas.

Também nesse aspecto Freire considera a necessidade ontológica de superação da doxa pelo logos, o único nível de conhecimento onde o sujeito atinge o ontos, a essência das coisas.

Há ainda uma outra forma ingênua de captação da realidade a que Freire denominou de “magia”. Nesse nível também ocorre uma percepção da realidade, mas sem atingir a “ad-miração”, ou seja, o necessário distanciamento para a objetivação dos objetos na busca de seu verdadeiro conhecimento. No nível da magia a busca das explicações se dá no campo do

sobrenatural, do mistério, tanto no que se refere ao mundo natural como no mundo humano ou histórico-social.

Esse nível de conhecimento, “não e ilógico nem é pré-lógico. Tem sua estrutura lógica [...]” (FREIRE, 2002b, p.31) e está ligado a uma linguagem, uma estrutura e modos de agir próprios. Ainda quando alguns outros elementos culturais penetrem em uma dada comunidade onde prevaleça esse nível de conhecimento, ocorrerá o que nosso autor em questão chama de “banho purificador” para serem aceitos e incorporados.

A dificuldade, repetimos, está no não alcance da atitude de “ad-miração”, no fato do sujeito estar mais “aderido” à realidade do que “ad-mirado” perante ela, como afirmamos anteriormente.

Finalmente, o conhecimento ao nível do logos é aquele que, como resultado da superação da doxa e da magia, atinge a condição de penetrar a essência das coisas, a cognoscibilidade dos objetos, de ver “desde de dentro” da realidade para, desvelando-a, nela atuar de modo transformador. A isso Freire chama de logos ou o verdadeiro saber, conhecimento, “o saber cabal das coisas” (FREIRE, 2002b, p. 47), o pensar certo, o que integra consciência e ação transformadora, relação essa gerada na práxis que se dá na existência humana no mundo. Como alcançar o logos, ou: