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5 Analyse og drøfting

5.2 Fra outsourcing til backsourcing

etapa da aquisição do conhecimento existente, pois se prolonga até a fase da criação do novo conhecimento...

“[...] O nosso conhecimento do mundo tem historicidade”, afirma Freire (2007c, p.14), o que significa dizer: é cumulativo e prospectivo, simultaneamente. É o conhecimento que já existe e o conhecimento que se anuncia enquanto algo novo, criado, produzido que constituem o que nosso autor chama de ciclo gnosiológico ou ciclo do ato do conhecimento.

No final do livro Ação Cultural para a Liberdade e outros escritos, 13 Freire explicita seu entendimento sobre o sentido da expressão ciclo gnosiológico e sua relação com o já abordado selo do ato cognoscitivo, o diálogo. O ciclo gnosiológico é visto a partir da totalidade de duas fases ou momentos indissociáveis que se implicam dialeticamente: a fase de aquisição de um conhecimento já existente e a fase da produção ou descoberta de um novo conhecimento. Em ambas as fases, salienta, é indispensável uma postura curiosa e crítica dos sujeitos em torno do objeto do conhecimento, garantindo a dinamicidade do processo em sua temporalidade histórica, possibilidade de superação/aperfeiçoamento do que se tornou “conhecido” e uma maior exatidão dos “achados”.

“O objeto do conhecimento não é o termo do conhecimento dos sujeitos cognoscentes, mas a sua mediação” (2007b, p. 71), mediação essa que oportuniza o verdadeiro ato de conhecer, ou seja, o ato criador e recriador, considerando que os objetos não se esgotam bem como é inesgotável a busca pela consciência por esses mesmos objetos.

No livro-diálogo com Ira Shor, Medo e Ousadia – o cotidiano do

professor, Paulo Freire retoma a preocupação com a clareza em torno do

conceito de Ciclo Gnosiológico, sobretudo quanto à sua aplicação no campo pedagógico. Ressaltando mais uma vez que o Ciclo compõe-se de dois momentos indissociáveis e indicotomizáveis – o de produção de um conhecimento e o de apropriação do conhecimento produzido -, salienta que são necessárias certas qualidades ou virtudes do sujeito cognoscente (nomenclatura freireana) em ambas as fases ou momentos, tais como: reflexão crítica, curiosidade, inquietação, incerteza, ação.

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Essas afirmativas se apresentam como uma ênfase na necessidade de não isolar esses momentos, pois a pior conseqüência disso seria o não alcance de um pensamento crítico pela predominância da “transferência de conhecimento”, julgando-se que o ciclo terminaria na mera aquisição do conhecimento existente. (2008, p.53) Ainda salienta, na obra acima mencionada que a visão dicotomizada desses momentos oportuniza à escola converter-se em “espaço de venda do conhecimento” (FREIRE & SHOR,2006, p. 19), o que só fortalece a ideologia capitalista e os mecanismos de exclusão escolar e social das camadas populares, objeto da denúncia constante de Freire.

Quando a postura curiosa e crítica é negada aos sujeitos, o ato de conhecer reduz-se à transmissão do conhecimento já conhecido, sem criticidade, rompendo o ciclo gnosiológico, único capaz de garantir o movimento dialético e dinâmico do verdadeiro conhecimento.

No que se refere à educação enquanto situação gnosiológica, Freire denomina esse movimento de ciclo de ensinar e aprender, que será abordado no próximo capítulo.

Mapa Conceitual 3: O ciclo do conhecimento. Elaborado pela autora.

Observemos no mapa acima a síntese integradora dos conceitos identificados ao longo do capitulo. Acrescentamos, ao mapa anterior14 o

destaque ATO TRANSFORMADOR, pois este, para Freire, é o ápice do processo de conhecimento. Conhecendo mais pela problematização que se alcança pela criticidade, os homens, em sua dialogicidade e capacidade de ação tornam-se capazes de promover o ato transformador. Todo processo que inibe esse ciclo é, pois, um ato de cerceamento, de redução da capacidade humana de SER MAIS.

14

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66

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EDDUUCCAAÇÇÃÃOOCCOOMMOOSSIITTUUAAÇÇÃÃOOGGNNOOSSIIOOLLÓÓGGIICCAA

[...] a educação envolve sempre uma certa teoria do

conhecimento posta em prática. (FREIRE, 2007b, p. 155).

A epígrafe acima tem presença sempre garantida nos escritos de diversos autores que fazem sua incursão na temática do conhecimento em Paulo Freire. Importa, no entanto, clarificar a compreensão do autor sobre dois pontos principais da afirmativa bem como suas interrelações: educação e conhecimento. Esse último ponto – o conhecimento - foi nosso objeto no primeiro capítulo da parte III, Os Horizontes. Estudemos, neste capítulo, o primeiro ponto, a educação e a compreensão freireana sobre educação como situação gnosiológica.

Para melhor dialogarmos com Freire nessa questão, partimos de uma afirmativa do próprio autor:

Não se pode encarar a educação a não ser como um quefazer humano. Quefazer, portanto, que ocorre no tempo e no espaço, entre os homens uns com os outros. Disso resulta que a consideração acerca da educação como um fenômeno humano nos envia a uma análise, ainda que sumária, do homem.” (FACULDADE DE EDUCAÇÃO DO ESTADO DA BAHIA, 1997, p. 9).

A proposta sócio-pedagógica de Freire não resulta de uma reflexão crítica pontual sobre o papel da educação numa sociedade excludente, desumana e opressiva em que viveu. Sua proposta vai mais além, pois se situa a partir de uma análise da natureza humana, da sociedade humana construída enquanto processo histórico, do conhecimento enquanto conteúdo cultural fundamental ao processo de libertação e da educação enquanto instrumento ou recurso necessário e importante para a vida social e para a humanização.

– QUAL A VISÃO DE FREIRE SOBRE A NATUREZA HUMANA? QUEM É O HOMEM?

O homem é um corpo consciente. (FREIRE, 2002b, p. 51).

O ponto de partida da proposta freireana de educação está na sua visão de natureza humana. Dela decorre a construção de um pensamento otimista em relação às possibilidades humanas, distante das visões apriorísticas e deterministas sobre o homem.

Ainda que vinculado ao pensamento católico progressista, Freire considera que homens e mulheres, tanto individual quanto coletivamente, se fazem na experiência humana que é histórica, cultural, política, inter- comunicativa, ética, pedagógica, epistemológica15. É nessa experiência que ocorrem as relações corpo consciente ou consciência e mundo, subjetividade e objetividade, relações cujas conseqüências tornam homens e mulheres seres de compreensão, de conhecimento, de comunicação e de ação, na temporalidade da existência humana. A razão de ser dessas relações bem como a possibilidade de ocorrência do processo educativo se devem à condição do ser humano como ser inacabado (imperfeito), incompleto (que precisa dos outros) e, especialmente, inconcluso, ou seja, em processo de transformação.

As condições de inacabamento, incompletude e inconclusão, aliadas à consciência disso por parte do sujeito, a abertura da consciência intencionada aos objetos cognoscíveis num permanente movimento de busca e o fato de ser “programado para aprender” 16, constituem as bases do processo educativo

na pedagogia freireana.

Esse processo ainda tem como fatores constitutivos, presentes na natureza humana: a postura curiosa e de ad-miração, a possibilidade de

15 Como já assinalamos anteriormente nesta Parte III, cap. 5, p. 69 16

superação das percepções ingênuas pelas percepções críticas, a necessidade de comunicação e expressão, o desejo e a capacidade de compreender, criar e intervir na realidade existencial.

Dialetizam-se, assim, as condições próprias que a Natureza dotou os homens (inconclusão, abertura ao mundo e aos outros, curiosidade, necessidade e possibilidade de expressão e comunicação, vocação ontológica para o SER MAIS, capacidade de mover-se intencionalmente no mundo para nele intervir) e as experiências sociais, culturais, que se dão nas realidades concretas, existenciais. Eis a original concepção de Paulo Freire onde

essência (condições próprias ou inatas que a Natureza dotou aos homens) e existência (sócio-histórica) se dialetizam no sentido mais original da

expressão dialética, ou seja, confrontam-se, articulam-se, relacionam-se numa interdependência, dialogam no dinamismo de “estar sendo, do movimento.

É nesse horizonte temporal que a criatura humana encontra-se consigo mesma (como corpo consciente), com a Natureza e com os outros corpos conscientes, num presente que, metaforicamente falando, flui, corre como um “rio”, margeado de um lado pela herança do passado e, de outro, pela possibilidade de construção do futuro, do novo, num processo dinâmico e incessante protagonizado pela inconclusão do ser e pela busca pelo homem do SER MAIS, de novos sentidos, de novas realizações.

Freire justifica a vocação ontológica de SER MAIS pelo anseio de liberdade que caracteriza os homens, ainda que estejam em situações de opressão e exclusão. Da sua compreensão sobre a natureza humana Freire passa a situar o que denomina de existência humana, conceito que pressupõe, em síntese, a consciência pelo homem de sua natureza inconclusa e a busca do SER MAIS, através da compreensão e transformação da realidade, em múltiplas formas de relação e ação.