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3 Rammeverket

3.3 Gjensidig tilpasning

Quando ocorreram aquelas experiências inaugurais de televisão, em 1954, o quadro da imprensa no Paraná ainda se encontrava, de modo geral, em um estágio relativamente pouco desenvolvido, do ponto de vista de equipamentos gráficos e da quantidade de leitores, com exceção de Curitiba. De acordo com Martins (2001, p. 321), naquele ano o Brasil contava com 261 jornais diários, dos quais somente 14 eram publicados no Paraná.27 A capital era a única cidade do estado onde se imprimiam, diariamente, mais de dois títulos. Os diários curitibanos eram cinco: Gazeta do Povo, O Estado do Paraná, O Dia, Correio do Paraná e

Diário da Tarde.28

Eles pertenciam a grupos empresariais de pequeno ou médio porte, no máximo, e estabelecidos havia décadas em Curitiba, uma cidade construída com significativa participação de imigrantes oriundos de diversos países europeus e que, por isso, traziam arraigado em suas origens culturais o hábito da leitura de jornais. Tanto que novos e importantes títulos seriam lançados nos anos seguintes: o Diário do Paraná, em 1955, e a

Tribuna do Paraná, em 1956. O primeiro fazia parte do conglomerado Diários e Emissoras

Associados, enquanto que a Tribuna pertencia aos mesmos proprietários de O Estado do

Paraná.

O Dia circulou de 1923 a 1961; o Correio do Povo foi publicado de 1932 a 1966; e o Diário do Paraná, que mudara de proprietários nas décadas de 1970 e 1980, deixou de

circular em 1983. O Diário da Tarde, lançado em 1899 e, desde a década de 1960, pertencente ao grupo da Gazeta do Povo, era então o jornal mais antigo em circulação no estado. Ao final do século XX, o Diário da Tarde passou a ser publicado apenas

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Em meados da década de 1950, o Paraná ainda era um estado de economia eminentemente agropecuária, pouco povoado no interior – notadamente nas regiões sudoeste, centro-oeste e noroeste –, que possuía uma população de aproximadamente 3 milhões (equivalentes a 5% da brasileira), e com apenas 27,5% dos habitantes residindo em áreas urbanas. Em 1985, a população do Paraná estava em cerca de 8 milhões (equivalentes a 6,1% da brasileira), e com 66% dos habitantes morando em cidades (IBGE, 2001, p. 29).

28O primeiro jornal a circular no Paraná foi O Dezenove de Dezembro, lançado em Curitiba em 1º de abril de

1854 pelo gráfico Candido Martins Lopes. Ele fora de Niterói (RJ) à capital paranaense, para este fim, a convite do primeiro presidente da Província do Paraná, Zacarias de Góes e Vasconcellos, que havia assumido o governo em 19 de dezembro do ano anterior e garantido subvenção oficial ao empreendimento.

esporadicamente, em datas comemorativas e em edições especiais. Os demais diários curitibanos citados anteriormente – além do Indústria & Comércio, lançado em 1976 – circularam até o fim do período pesquisado, em 1985.29

Nas principais cidades do interior e do litoral do Paraná – com populações que não chegavam a 100 mil habitantes, em meados da década de 1950 – havia, geralmente, no máximo um jornal diário e de pequena tiragem. E, quase sempre, aqueles jornais eram financiados – direta ou indiretamente – por verbas publicitárias das prefeituras municipais. Situação que, com raras exceções, perdurou nas décadas seguintes como característica comum a milhares de periódicos de pequenas cidades, em todo o país.

Em Ponta Grossa, localizada a 100 km de Curitiba, circulavam o Diário dos Campos, que havia sido fundado em 1906, e o Jornal da Manhã, lançado em 1954. Apesar de terem sofrido algumas crises econômicas e interrupções na tiragem, ao longo do tempo, ambos os diários seguem sendo publicados atualmente.

Em Londrina – a cerca de 400 km de Curitiba, no norte do Paraná, e que na segunda metade do século XX substituiria Ponta Grossa como a maior e mais importante cidade do interior –, o único diário a circular durante toda a década de 1950 foi a Folha de Londrina, que havia sido lançada em 1948. Nas décadas seguintes, vários outros jornais – diários ou semanais, normalmente – foram publicados, mas tiveram vida efêmera, inclusive o diário

Panorama, que em meados da década de 1970 foi editado pelo mesmo grupo de O Estado do Paraná, que alcançou sucesso entre os leitores, mas durou apenas cerca de um ano. A Folha de Londrina, em formato standard30 continua sendo publicada ainda hoje.

Já em Maringá, no norte do estado a cerca de 90 km de Londrina, o único diário a circular naquela época das experiências iniciais da televisão era o Jornal de Maringá, lançado em 1953. A Folha do Norte do Paraná, nascida em 1962, foi publicada até 1979. Em 1974, surgiu o Diário do Norte do Paraná, único deles que segue sendo publicado atualmente.

Na cidade de Apucarana, localizada entre Londrina e Maringá, circulava em meados da década de 1950 apenas a Folha do Paraná, primeiro diário daquele município, lançado em 1953 e extinto em 1960. Antes e depois daquela Folha, vários jornais semanais e mensais

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Os dados sobre a história da imprensa no Paraná, nos séculos XIX e XX, foram encontrados fundamentalmente em PILOTTO (1976) e CARDOSO (1969).

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Standard é o maior e mais comum formato de jornal impresso no Brasil, também conhecido popularmente

como “jornal grande”. Cada página mede, em geral, 55 cm de altura por 31 cm de largura; o que significa, em média, o dobro do tamanho da página do jornal em formato tabloide.

surgiram, mas tiveram vida efêmera. Outro jornal que marcou época em Apucarana foi a

Tribuna da Cidade, criado em 1971, como semanal, e transformado em diário em 1978, e que

circulou até 1991.

Em Cornélio Procópio – uma pequena cidade localizada a 60 km de Londrina – havia dois diários em 1954, apesar de contarem com poucas páginas e serem de pequena tiragem: A

Cidade, lançado em 1950, e A Voz do Povo, que começara a circular em 1952. Depois de

superarem crises financeiras e serem remodelados, ambos seguem circulando, semanalmente, ainda hoje.

Mapa 1 – As principais cidades do Paraná com o ano de lançamento de seus primeiros jornais (1854 – 1985)

Fonte: pesquisa do autor sobre mapa do Google; arte: Nadir Chaiben.

No extremo oeste do Paraná, em Foz do Iguaçu – cidade da tríplice fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai – começou a circular, em 1953, o tabloide mensal A Notícia. Depois, outros jornais – em sua maioria semanais ou quinzenais – surgiram e desapareceram rapidamente. Em 1985, circulavam o Diário da Cidade, que tinha sido lançado em 1983, e os semanários Hoje Foz, criado em 1978, e o Nosso Tempo, de 1980.

Oeste – começou a circular em maio de 1953, em formato tabloide. Depois, surgiram e

desapareceram outros jornais ao longo dos anos. Em 1985, circulavam o diário O Paraná, lançado em 1976, e o semanário Hoje, criado em 1977.

Já avançando pela segunda metade do século XX, a imprensa paranaense teimava em não entrar – com poucas exceções em Curitiba e uma única em Londrina – na fase “das grandes empresas”, um processo havia décadas conhecido por jornais e revistas de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e outros estados, e caracterizada por Nelson Werneck Sodré (1999, p. 275) nos seguintes termos:

A imprensa, no início do século, havia conquistado o seu lugar, definido a sua função, provocado a divisão do trabalho em seu setor específico, atraído capitais. Significava muito, por si mesma, e refletia, mal ou bem, as alterações que, iniciadas nos dois últimos decênios do século XIX, estavam mais ou menos definidas nos primeiros anos do século XX. A passagem do século, assim, assinala, no Brasil, a transição da pequena à grande imprensa. Os pequenos jornais, de estrutura simples, as folhas tipográficas, cedem lugar às empresas jornalísticas, com estrutura específica [...]. O jornal como empreendimento individual, como aventura isolada, desaparece, nas grandes cidades.

Não obstante, de maneira geral e em números ainda expressivos, predominaram na imprensa paranaense, na década de 1950 e mesmo nas posteriores, o jornal e a revista como empreendimentos familiares. Eles ainda eram administrados de forma amadorística, com escassa profissionalização dos recursos humanos, pequena tiragem de exemplares, má qualidade gráfica e pouco retorno econômico. Situação que, na época, levou a maioria dos impressos a uma vida bastante efêmera, notadamente as revistas.

Do ponto de vista editorial, financeiro e político, a maioria dos jornais paranaenses insistia em manter estreitos vínculos e quase que completa dependência com partidos, grupos políticos locais e, principalmente, com os governos municipais e o estadual; distintamente do que já ocorria na imprensa brasileira, nos grandes centros, desde o final da década de 1940 e início da década de 1950, conforme demonstra a pesquisa de Sotana (2010, p. 29-45).

Esta íntima ligação de grande parte da imprensa – bem como da quase totalidade das emissoras de rádio – aos poderes executivos levou, ao longo do tempo, à construção de uma imagem segundo a qual no Paraná predominou, no século XX, um tipo de jornalismo chamado, jocosamente por profissionais do próprio setor, de “chapa-branca”, o qual que seria

especializado em beneficiar quase sempre a versão oficial dos fatos e acontecimentos (SOMMA NETO, 2007, p. 153-195).A imprensa “oficialesca” é submissa aos interesses dos mandatários do poder estadual e, obviamente, prejudicial à organização da maior parte da população na busca por seus direitos sociais e políticos. Esta origem histórica da imprensa e da radiodifusão paranaenses teria forte influência, mais tarde, no tipo de televisão que seria implantada e desenvolvida no estado. Até porque ela foi, em sua quase totalidade no período pesquisado, concedida a antigos donos de jornais e/ou concessionários de emissoras de rádio.

Outro fator limitante dos jornais paranaenses foi a quase sempre pequena tiragem de exemplares de suas edições normais, contudo nisto eles não se diferenciavam muito do restante da imprensa brasileira. Para efeito de comparação, sabe-se que em 1975 O Estado do

Paraná, o jornal de maior tiragem auditada no estado, teve uma impressão diária média de

18.981 exemplares. Ele ocupava naquele ano o 24º lugar em tiragem no Brasil, sendo a primeira posição ocupada pelo jornal carioca O Dia, com 199.574 exemplares diários, em média.31

Por sua vez, entre as revistas paranaenses do período de 1954 a 1985, uma das raras exceções de sucesso de público fora a TV Programas, coincidentemente a primeira publicação no estado, especializada em assuntos de televisão. Fundada em Curitiba em maio de 1961, ela nasceu com circulação mensal, passou a semanal e circulou até 1977. A TV Programas teve início com uma tiragem de mil exemplares por mês, alcançou a marca de 18 mil semanais no final da década de 1960, e depois decresceu para 12 mil, na época do seu fechamento. A revista pertencia aos advogados e jornalistas Luiz Renato Ribas e Rubens Hoffmann. Ela publicava, basicamente, a programação diária das emissoras de TV paranaenses e redes nacionais. Além desse tipo de publicação e de entrevistas com atores, atrizes e demais profissionais do ramo, a TV Programas exibia reportagens sobre os bastidores da televisão e veiculava anúncios comerciais, segundo informa Dalpícolo (2010, p. 75-79).

Terminada a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e encerrado o ciclo do Estado Novo (1937-1945) 32, o Brasil entrou no período de estabilidade político-democrática mais longo do século XX, que vigorou de 1946 a 1964. Naqueles quase 20 anos, o país se urbanizou e se industrializou de maneira acentuada. No início da década de 1950, os

31ALMANAQUE ABRIL, São Paulo, 1976, p. 275.

32 “A grande imprensa na primeira metade do século XX”, capítulo escrito pela historiadora Tania Regina de Luca, no livro de MARTINS; DE LUCA (2008, p. 149-175), sintetiza o desenvolvimento dos principais jornais e o estágio em que a imprensa brasileira encontrava-se ao fim dos anos 1940.

moradores em cidades brasileiras eram apenas 36% da população nacional; enquanto que ao final da década de 1960 a população urbana já representava 56%.

Em 1950, a cidade de Curitiba possuía 180.575 habitantes; número que dobrou em uma década, chegando a 361.309 moradores. Dez anos depois, esta população crescera aproximadamente o dobro, atingindo o número de 609.026 pessoas, em 1970. Londrina iniciou a década de 1950 com 34.230 moradores na zona urbana e 37.182 na zona rural. Em vinte anos, houve uma profunda inversão neste quadro, sendo a população londrinense urbana – então, já a maior do interior do Paraná – composta por 163.528 habitantes, contra somente 64.573 da população rural.33

É fundamental acompanhar, detalhadamente, esta evolução de Curitiba e de Londrina – as duas maiores e mais importantes cidades do Paraná no período pesquisado –, porque nelas eram editados os principais jornais do estado: a Gazeta do Povo, O Estado do Paraná e a Folha de Londrina. Além disto, Curitiba e Londrina sediaram seis das 12 emissoras de televisão que entraram em funcionamento nessa época. Faz-se necessário, igualmente, conhecer bem as origens e trajetórias política e empresarial dos proprietários daqueles três diários, pois se tornariam concessionários de oito dos 12 canais televisivos abordados neste estudo. Como consequência daquela nova realidade brasileira – além das liberdades democráticas e da melhora no índice de alfabetização –, os negócios do campo comunicacional se expandiram de 1946 a 1964: novos jornais e revistas foram lançados e novas emissoras de rádio entraram em funcionamento, no Paraná e em todo o país.34

Na capital, os principais periódicos que surgiram naquele período foram O Estado do

Paraná, em 17 de julho de 1951, o Diário do Paraná – pertencente ao grupo de Assis

Chateaubriand – em 29 de março de 1955, e a Tribuna do Paraná, em 1º de outubro de 1956. No interior, foram lançados, entre outros, a Folha de Londrina, em 13 de novembro de 1948; o Jornal de Maringá, em 1953; o Jornal da Manhã, de Ponta Grossa em 1954; e a Folha do

Norte do Paraná, de Maringá em 1961.

Tratava-se de um novo período, no qual se ampliara o papel dos anunciantes, notadamente de produtos de empresas estrangeiras, e o da publicação de conteúdos

33 Estes dados são dos censos demográficos do IBGE, em suas respectivas datas. Os dados sobre Curitiba e outras capitais, citados neste texto, estão em Sinopse do Censo 2000 (IBGE, 2001).

34 Um bom resumo sobre a evolução da imprensa nacional naquele período, com avanços tecnológicos, modernizações gráficas e reformulações editoriais, encontra-se no Capítulo I de SOTANA (2010).

internacionais nos diferentes meios da comunicação brasileira (CARTA, 1984, p. 472-473). Cite-se, como exemplo, o fato de ter ocorrido em julho de 1950, em São Paulo, exatamente dois meses antes da inauguração da TV Tupi, o lançamento da “Revista mensal de grandes historietas de Walt Disney”, O Pato Donald, a primeira publicação da Editora Abril. Esta empresa, propriedade da família Civita, terminou o século XX como a maior do setor gráfico- editorial na América Latina. No Paraná, no entanto, os recursos estrangeiros investidos na imprensa e no setor de radiodifusão não foram significativos.

Alguns daqueles jornais paranaenses desapareceram ao longo da segunda metade do século XX, bem como outros de menor destaque, aqui não citados, surgiram e igualmente não prosperaram. Dois deles, Não obstante, se modernizaram e chegaram ao final do último século entre os diários com maior circulação e de grande importância no Paraná: O Estado do

Paraná e a Folha de Londrina. Neste seleto grupo de líderes do setor, eles se juntaram à

antiga Gazeta do Povo, fundada em Curitiba no dia 3 de fevereiro de 1919.

Praticamente durante todo o período de 1954 a 1985, a Gazeta foi o jornal de maior tiragem e mais importante do Paraná. Porém, no período anterior à mudança de seus proprietários, em 1962, aquele diário conviveu com constantes crises financeiras causadas por sua linha editorial opinativa, polêmica, e engajada político e partidariamente. Esta postura não era nova, aliás, vinha desde a sua fundação, em 1919, contudo ela teve aumentados os seus efeitos negativos ao fazer oposição a Ney Braga, que seria o principal líder político do Paraná, a partir da década 1950.

No início de 1953, a Gazeta encontrava-se ainda sob a direção do seu fundador Oscar Joseph De Plácido e Silva35, mas com a admissão de um novo sócio, Alfredo Pinheiro Júnior. Em uma edição dominical36, o texto opinativo intitulado “Entrevista” – sem identificação de ser o editorial, mas parecendo se tratar de um, porque estava cercado e sem assinatura de autor – criticava duramente as posições do major do Exército Ney Aminthas de Barros Braga, recém-empossado como chefe da Polícia Civil do Paraná pelo governador Bento Munhoz da Rocha Neto. Este foi o marco inicial na oposição que a Gazeta faria, nos anos seguintes, a Ney Braga.

35 Alagoano, Plácido e Silva chegou em Curitiba aos 19 anos de idade, em 1912, para cursar Direito na então recém-criada Universidade Federal do Paraná. Depois, com o amigo, sócio e também advogado Benjamin Lins, ele lançou a Gazeta do Povo, no início de 1919 (BÓIA, 2002). A coleção completa do jornal encontra-se arquivada – em papel e microfilmada – na Biblioteca Pública do Paraná, em Curitiba.

36Entrevista.

Esta posição político-editorial do diário curitibano fundamentava-se, havia décadas, em seu histórico de alinhamento, ao ex-governador getulista Moysés Lupion (PSD), principal opositor de Bento Munhoz; e que, inclusive, voltaria a chefiar o poder Executivo do estado, no mandato subsequente, entre 1955-1960.

Porém, não era apenas contra o governador e o prefeito de Curitiba que a Gazeta mirava seus ácidos ataques naquele período. No editorial “Ciganagem”, a direção do diário afirmava que na capital paranaense “não morremos de amores pelo Sr. Assis Chateaubriand [...]”.37 O texto deixava antever uma preocupação comercial dos proprietários do jornal curitibano com a futura chegada do grupo dos Diários e Emissoras Associados ao estado, o que ocorreria dois anos depois com o lançamento do Diário do Paraná. Indício de que os empresários do campo comunicacional, assim como os profissionais da área, nem sempre estão unidos e solidários entre si. Segundo Bourdieu (1997, p. 56-58), a concorrência realizada entre órgãos da imprensa pelos leitores dá-se, muitas vezes, sob a forma de uma concorrência entre os jornalistas, que têm objetivos próprios e definidos. Isto significa que não se trata apenas de uma disputa econômica entre empresas, mas que existem relações de forças econômicas e simbólicas entre os agentes do campo jornalístico capazes de definir posicionamentos neste mesmo campo.

A oposição da Gazeta a Bento Munhoz pode ser exemplificada no editorial “Autonomia de Curitiba”.38 Nele, a posição do diário era favorável à realização de eleição direta para o cargo de prefeito da capital paranaense, até então, indicado pelo governador. O texto mostrava que o jornal defendia, historicamente, um sistema democrático, mas não informava aos leitores que o seu diretor e colunista de assuntos políticos, Alfredo Pinheiro Júnior, seria um dos candidatos da oposição à Prefeitura de Curitiba, em 1954.

Durante os últimos meses de 1953, por diversas vezes, os textos editoriais e de reportagens de capa da Gazeta criticaram duramente projetos, obras e atitudes do governo estadual de Bento Munhoz da Rocha Neto (PR), bem como do seu prefeito-indicado de Curitiba, Erasto Gaertner. Obviamente, as críticas visavam enfraquecer politicamente o futuro adversário do diretor da Gazeta, na campanha para prefeito no ano seguinte.

37Ciganagem. Gazeta do Povo, Curitiba, 19 fev. 1953, p. 3. 38

No editorial intitulado “Caçando pontagrossenses” 39, a Gazeta criticou um outro diário de Curitiba – sem citar o nome, mas indicando o seu endereço, à Praça Vicente Machado – chamando-o de situacionista, governista e outros adjetivos que deixavam clara a ligação política do concorrente com o governo de Bento Munhoz (1951-1955). Esse jornal era

O Estado do Paraná, lançado em 1951 por um grupo de empresários e políticos realmente

ligados ao governador.

Chegou o ano de 195440 e, com ele, a tão aguardada primeira eleição direta para prefeito de Curitiba. O diretor da Gazeta e já deputado estadual, Alfredo Pinheiro Júnior, candidatou-se ao cargo pelo PSD, com apoio do ex-governador Moysés Lupion (1947-1950). Havia outros seis candidatos da oposição. O candidato situacionista era Ney Braga (PSP), lançado pelo seu ex-cunhado e governador Bento Munhoz.

Durante os meses que antecederam à eleição, realizada em 3 de outubro, a Gazeta publicou, com frequência, reportagens elogiosas e propagandas eleitorais camufladas, todas benéficas a Pinheiro Júnior. Muitas dessas reportagens omitiam o nome do partido ao qual ele era filiado e escondiam que ambos – jornal e candidato – faziam oposição a Bento Munhoz. Nada surtiu o efeito desejado, posto que Ney Braga foi eleito com 18.327 votos (28,7% dos sufrágios); Wallace Tadeu de Mello e Silva (PST) ficou em segundo lugar, com 11.576 votos; e, Pinheiro Júnior (PSD) ficou em terceiro, com 11.070 votos.

A derrota de seu diretor Pinheiro Júnior não levou, entretanto, a Gazeta do Povo a