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Gjennomsnittlig bemanning og typisk bemanning

5. Tema bemanning

5.1 Gjennomsnittlig bemanning og typisk bemanning

fazia presente nos discursos, pois sua implantação efetiva ocorreria somente no período republicano. Do período anterior a 1889, a autora destaca a Casa dos Expostos (ou Casa da Roda, Casa dos Enjeitados, Roda, dentre outros) como precursora da creche no Brasil. Esta instituição recebia crianças abandonadas. O mecanismo de entrega dessas crianças definiu um de seus nomes. Havia no muro da casa um cilindro com uma abertura para a rua, na qual a criança era depositada, e outra para o interior. O cilindro deveria ser girado para efetivar a entrega do exposto. Por fim, tocava-se uma sineta para avisar sobre a entrega, de modo que a identidade de quem deixou a criança era preservada.

A primeira Casa dos Expostos foi fundada em Salvador no ano de 1726. No Rio de Janeiro, registra-se o estabelecimento de uma Roda em 1738, junto à Santa Casa de Misericórdia, tendo funcionado até 1948. A pesquisa realizada até o momento não evidenciou a presença da Roda, tal como descrita acima, no Estado do Ceará. Registra-se, contudo, a Colônia Orphanológica Christina, localizada na cidade de Redenção. Fundada em 1880 pelo conselheiro José Julio de Albuquerque Barros, a Colônia recebia crianças que ficaram órfãs em decorrência da seca e das pestes ocorridas entre 1877 e 1879.

Kuhlmann Jr. (1998, p. 82) contesta a ideia de Civiletti (1988) de que a Roda precederia a creche pois essa seria “muito mais do que um aperfeiçoamento das Casas de Expostos, que recebiam as crianças abandonadas; pelo contrário, foi apresentada em substituição ou oposição a estas para que as mães não abandonassem suas crianças”. A controvérsia sobre qual o tipo de ligação entre a creche e as Casas da Roda, em termos de seus propósitos, não interessa ao debate aqui realizado. Todavia, é preciso observar o critério estabelecido inicialmente de discutir a atenção à criança de menor idade fora do ambiente familiar. É válido, portanto, questionar quais e de que modo as práticas dessas entidades – e por conseguinte, o trabalho nelas efetivado – foram precursoras daquilo que se fazia nas creches, mesmo que para serem questionadas, como no caso das criadeiras descritas acima. Para discutir o trabalho na Roda, será utilizada a preciosa pesquisa de Sá (1985) que teve por meta desenhar os contornos do funcionamento da Casa da Roda da cidade do Porto, Portugal, entre os anos de 1700 e 1780. A autora realizou seu estudo por meio da análise de vários tipos de livros de registro existentes na Roda e afirma ter por objetivo

delinear o quadro do funcionamento interno da Roda do Porto ao longo de um período […] compreendido entre 1700 e 1780. Trata-se de um estudo que visa conhecer as estruturas de acolhimento às crianças expostas, e em especial o quotidiano nas instalações da Roda. Interessou-nos sobretudo saber de que modo foi administrada a instituição e quais os objectivos pretendidos pelos homens que a

dirigiram (SÁ, 1985, p. 161).

Traçando um paralelo com as categorias aqui utilizadas, pode-se dizer que a intenção de compreender o funcionamento da Roda e seu cotidiano revela informações sobre a atividade realizada, assim como sobre a dimensão interpessoal do trabalho. Ao visar a administração e os objetivos da direção é provável que se descortinem aspectos da dimensão impessoal do trabalho (condições e organização do trabalho, em especial). A leitura do texto confirma estas aproximações. A autora é ainda cuidadosa ao fazer inferências sobre o trabalho das amas que atuavam na roda. Segundo ela,

Todas estas fontes em que nos baseámos possuem limitações inerentes ao facto de reflectirem apenas as preocupações da administração da Roda dos Expostos. Tratado-se o atendimento das crianças de uma actividade especificamente feminina, dever-se-á atentar no facto de que nos documentos se exprime unicamente a perspectiva dos homens que detêm o poder na administração. Aquilo que sabemos acerca das amas é filtrado pelos seus juízos e reflecte as suas intenções, havendo um desnível de preocupações, e, sobretudo, de cultura entre uns e outros. A um grupo de homens instruídos contrapõem-se mulheres iletradas, nem sempre aptas a compreender e cumprir as directrizes dos administradores (SÁ, 1985, p. 163).

Em mais um paralelo com as categorias desta investigação, vê-se que Sá (1985) reconhece a limitação presente na descrição e na avaliação da atividade das amas, pois estas serão tomadas pelo viés dos dirigentes da Roda. Além disso, a autora apresenta indícios de que reconhece a distinção entre prescrito e real, na medida em que afirma o distanciamento entre os ordenamentos dados pelos diretores letrados e a apropriação destes pelas amas iletradas.

A Roda do Porto era financiada pela câmara municipal, mas administrada pela Santa Casa de Misericórdia. Compunham a administração um Provedor, responsável por governar a casa, um tesoureiro e um escrivão. Ao longo dos anos, foram acrescidos um auxiliar de secretaria e empregados responsáveis por fazer diligências, contatando amas de empréstimo que cuidavam de crianças em seus domicílios, atividade similar àquela citada acima, realizada por “amas mercenárias” para o Asilo dos Expostos da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo.

Na casa, moravam efetivamente as amas de leite e os expostos, pois as atividades de gerência eram realizadas fora da Instituição, cabendo guardar o funcionamento da instituição, se responsabilizar pela contratação de pessoal e providenciar os registros de entrada e saída dos expostos. Em 1768, foi criada a figura da ama-seca que seria a diretora da Roda, mulher mais velha cujo dever era de, em nome da administração, controlar o que se

passava no interior da Instituição e supervisionar o trabalho das amas. As amas de leite (ou de assento) deveriam residir na Roda para amamentar os Expostos recém-nascidos e tomar conta dos mais velhos.

Também se contava com a atuação de médicos. Eles eram responsáveis por atender às crianças, sendo um para as meninas, outro para os meninos e um cirurgião para ambos os sexos. Era necessário, ainda, fazer a verificação do leite das amas, prática também realizada no Brasil, conforme se viu em relação ao IPAI e ao Asilo dos Expostos da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo.

Alguns aspectos sobre as condições de trabalho podem ser destacados, o que informa sobre a dimensão impessoal do trabalho. A instituição funcionava em um prédio de dois andares. O pavimento inferior contava com seis camas destinadas às amas. O andar de cima possuía oito berços. Se houvesse um número maior de crianças, havia cestas cheias de palha nas quais era possível acomodá-las. A alimentação fornecida pela Misericórdia era exclusiva para as crianças maiores, exceto quando do adoecimento das amas, caso contraíssem enfermidades que se entendiam como decorrentes do ofício. Era obrigação das amas cozinhar para si próprias e para os expostos, atividade desempenhada na cozinha da Roda e realizada em rodízio.

Era comum o contágio por sífilis (mal gálico) e compreendia-se que a ama podia se contaminar através da amamentação. Nesses casos, também era providenciada assistência médica, inclusive para os maridos das amas.

Diversas características da Roda são apresentadas em documento da época transcrito ao final do artigo de Sá (1985). Este documento é uma espécie de manual para a abertura de Rodas em outras cidades. Dado seu valor como fonte primária, vale a apresentação de alguns trechos. Seguem descrições sobre uma lavanderia e uma cozinha (RELAÇÃO DA REAL CAZA DA RODA DA CIDADE DO PORTO, apud SÁ, 1985, p. 193):

Há também dentro da mesma Caza da Roda hum suficiente tanque com sua fonte para as mesmas amas lavarem os coeiros e mais roupas das crianças, que se lançam em hum mirante ou varanda que está toda circuitada de cordas onde com mais facilidade se enxugão, tanto pelo sol, como pelo tempo de chuva, pela muita ventilação que deste modo recebem.

Igualmente tem hua cozinha onde continuamente esta hum grande caldeirão de agoa quente para todos os gastos da Caza, principalmente para se lavarem as crianças assim que entrão e deste mesmo fogo partecipão todas as amas para fazerem o seo respectivo comer e para o mais que lhe he percizo.

Sobre o salário, outro aspecto relativo às condições de trabalho, constata-se que este era pago mês a mês, contando-se os dias trabalhados. Também havia uma gratificação anual, mas que em raras ocasiões era recebida integralmente, devido à grande rotatividade das amas. Nas festividades, também era ofertada uma gratificação, cujo montante ficava a critério do Provedor da Roda.

Os arquivos analisados por Sá também trazem informações sobre as prescrições e a organização do trabalho estipuladas para os trabalhadores da Roda, outros aspectos relativos à dimensão impessoal do trabalho. No documento citado abaixo há informações sobre a diretora da Roda (RELAÇÃO DA REAL CAZA DA RODA DA CIDADE DO PORTO, apud SÁ, 1985, p. 194):

A diretora da Roda, que sempre deve ser numa mulher temente a Deus, muito caritativa, de respeito e ágil, que saiba ler e escrever bem, e contar, tem obrigação assim que entra alguma criança pela roda, de examinar se vem mortal para a baptizar logo e a iodas as que entrão analisar se trazem a embide [cordão umbilical] bem atada e se as não trouxerem atá-las melhor. Depois de feita esta diligência sem meter algum tempo de permeio, deve escrever em um papel todo o enxoval que traz a criança com toda a exatidão e miudeza; se traz escrito ou não o nome que traz ou o que se disse de fora; e logo da coisa que vem do enxoval da criança mais notável e pronta rasgar sua tira e atá-la no braço da mesma criança a cujo sinal chamam «calsa» que nunca se lhe tira na Roda; e por em um bilhete se aquela criança é a primeira que entrou ou a 2.a ou 3.a etc. (?) e o seu nome que trás ou o que se lhe há- de pôr no batismo (vindo sem nome) e por baixo do mesmo bilhete escrever a calsa que lhe competiu; e depois entrega-la a Ama a quem pertencer e tocar por lurno [...]

Havia outras características desejáveis, como ser viúva e ter mais de quarenta anos. Também era recomendável não ter família, pois a falta de vínculos deveria garantir uma permanência mais estável na Instituição. Vê-se que os administradores, além de determinarem um procedimento crucial para o funcionamento a Roda, a recepção das crianças, apontam um perfil profissional desejado, além habilidades mínimas como pré-requisito para o exercício da função: saber ler, escrever e contar. Habilidades estas restritas aos homens da época, não tão usuais em mulheres, ao ponto de haver a necessidade de explicitá-las. O trabalho da ama-seca revela estratégias de supervisão e controle sobre o trabalho na Roda. A atividade desempenhada por ela era essencial para evitar maus tratos às crianças e, como visto na citação acima, garantir sua posterior identificação.

No mesmo documento citado alhures há uma diferenciação entre dois tipos de amas:

As amas de empréstimo, (são) assim chamadas por serem amas da cidade que não criam as crianças senão os meses, ou enquanto estão doentes e se reforçam, ou

enquanto não vem amas de fora buscá-las, a que chamam de assento por ficarem de ordinário com as ditas crianças sempre até a idade de 7 anos (RELAÇÃO DA REAL CAZA DA RODA DA CIDADE DO PORTO, apud SÁ, 1985, p. 194).

As amas de assento, trabalhando dentro da Roda, deveriam dar atenção a duas crianças, no máximo. Ultrapassado este número eram chamadas mais mulheres temporariamente ou se encaminhavam os expostos para amas de empréstimo. As trabalhadoras da roda viviam em um regime de semiclausura. Todas as noites, as portas da Roda eram fechadas por fora. Havia poucas saídas permitidas. Era possível levar as crianças mais velhas às missas aos domingos e batizar os recém-chegados, sendo essas algumas de suas obrigações.

Não eram autorizadas visitas aos maridos, no caso das amas casadas (ou homens com os quais se estabelecesse outro tipo de relacionamento, no que dizia respeito às solteiras), e estes também eram impedidos de entrar na Instituição. Essa regra era burlada com frequência e, dentre outras razões, foi registrada como motivadora de diversas demissões. Há vários relatos sobre esse tema. Sá (1985) relata que a ama Ana Maria recebia seu marido na roda e ainda ameaçava as outras, caso a denunciassem. É interessante notar como uma regra relacionada à organização do trabalho permeava a dimensão interpessoal do trabalho e atravessava a própria realização das atividades. Era o caso também da obrigação na cozinha. A ama Rosa Maria Soares foi dispensada do trabalho, porque, dentre outras razões, ocupava- se em fazer refeições para o cônjuge.

As obrigações das amas (portanto a prescrição do seu trabalho) são vagas até o ano 1768. Até então havia observações sobre o cuidado com os enjeitados, o zelo em relação à limpeza e mesmo sobre a necessidade de tratá-los com amor. No geral, esperava-se que as amas atentassem para a alimentação, a higiene e a guarda das crianças, assim como para cuidados para com a casa. Em 1768, elabora-se uma espécie de regimento que reunia as informações existentes até então. Era função da diretora, a ama-seca, lê-lo às amas que ingressavam na casa e garantir o seu cumprimento. Conforme Sá (1985, p. 172), tal contrato

reitera a proibição de contactos supérfluos com pessoas exteriores ao serviço da roda, sublinha o cuidado que as amas devem ter em conservar os objectos de que as crianças são portadoras no momento da chegada e a obrigação de guardar segredo absoluto sobre tudo o que se passar na casa.

Ao comentar sobre o relacionamento entre as amas, o artigo de Sá (1985, p. 170) aponta aspectos importantes da dimensão interpessoal do trabalho. A autora afirma:

A convivência entre as mulheres parece ter sido difícil, a avaliar pelas querelas e intrigas que a documentação refere. Não raro essas mulheres se insultam e incompatibilizam, como consta das notas tomadas pelos funcionários nos registros de contratação. No entanto, o serviço da Roda exigia um certo grau de cumplicidade na medida em que muitas vezes se tornava necessário encobrirem erros umas das outras.

A análise dos motivos de demissões das amas também revela algo da dimensão interpessoal do trabalho e mesmo da atividade. Notadamente, são apresentadas falhas, na medida em que são explicitados motivos para exclusão da ama, entretanto, a descrição dos erros mostra o que faziam e o entendimento sobre o que a Instituição esperava da atividade. Sá (1985) faz a ressalva de que as informações não dizem do contato direto dos administradores com os fatos, mas de relatos posteriores, na medida em que estes não tinham acesso ao interior da Roda.

Retomando as relações interpessoais, Sá afirma a existência de inúmeros conflitos entre as amas e destas com a administração. A citação a seguir vale pela minúcia com que apresenta tais querelas:

Rita Maria foi despedida «... por mau génio e não se dar com as companheiras tendo com elas várias descomposturas e por isso não deve ser mais admitida a criar na Roda de assento...»; Ana Luísa «... por ser de terrível génio e má condição com as mais amas chegando ao excesso de lhes dar até com a faca para que não a estorvassem...» e Maria Joaquina chegou ao extremo de «... espancar uma sua companheira e fingir uma carta difamatória para expulsar outra...». Com tantos conflitos não nos espanta que a administração acuse as amas de se insultarem reciprocamente: tal ama abandona o serviço «por se atrever a descompor as mais amas» enquanto uma outra vai embora «... por ser de muito má língua e insultar com ela as mais...»

Os próprios administradores parecem ter tido desentendimentos com as suas subordinadas: Maria de Sá foi «... petulante, descortêz e atrevida com o irmão mordomo», Maria Joana era «... inquietadora do serviço da Roda e desobediente aos seus superiores...» Outra ama foi repreendida pelo provedor porque não se portava «com modéstias» e «... em vez de se humilhar foi para casa da Roda proferir atrevimentos». Encontramos também mulheres que não acatavam as ordens dadas pela ama-sêca, o que vem confirmar o papel de chefia que estas assumiam dentro da casa (SÁ, 1985, p. 187).

Das atividades, podem ser citados inicialmente o cuidado com as crianças e a amamentação. As amas deveriam dar de comer ao exposto e colocá-lo para dormir. Nos relatos das demissões, há vários casos em que as amas matam as crianças sufocadas por dormirem por cima delas. Situações similares também produziam ferimentos que levavam à morte, como quando uma criança quebrou o braço ao ser esmagada por uma ama. As amas que incorriam nesses erros eram chamadas de “pesadas de sono”. Em vários casos, atribuía-se estes incidentes ao alcoolismo. Há também a informação de uma criança que foi deixada no

chão, tendo sido mordida por ratos e morrido em consequência deste fato. Ainda em relação ao cuidado, existem informações sobre espancamentos. Em alguns casos, as amas batiam nas crianças até a morte. Não fica claro o que motivava essas agressões.

Retomando a dualidade entre cuidar e educar, vê-se que as duas práticas tratadas até o momento, a das criadeiras e a das amas, parecem pender para o polo do cuidado. Não há, nos documentos analisados, quaisquer referências a práticas educativas destinadas às crianças que tivessem algum tipo de programação, organização ou sistematicidade. Conforme se verá em relação às creches, havia iniciativas de educar as mães a partir dos princípios do higienismo, com o intuito de qualificar o cuidado que estas davam aos filhos. Apesar disto, não é possível afirmar a inexistência de um nível educativo similar ao que se teria dentro do núcleo familiar, voltado a transmitir a moralidade vigente ou formas de sociabilidade, em ambos os casos provavelmente com uma grande influência religiosa. É possível presumir que este nível existisse, entretanto, não há referências explícitas nos documentos consultados, sejam eles fontes originais ou trabalhos de pesquisadores contemporâneos.

Se há uma predominância do cuidado nos casos apresentados até o momento, a qualidade dessa atividade é continuamente questionada. Todavia, retomando a ressalva de Sá (1985), tudo até o momento foi visto por olhos alheios. O trabalhador não teve sua voz escuta- da. Não se intenta com isto negar a existência de maus tratos e grandes índices de mortalidade como resultado das ações de amas e criadeiras. Porém, a análise tomada pelo viés dos médi- cos ou dos administradores da roda não permite compreender como isso se processava efeti- vamente e conduz ao raciocínio de tomar tais trabalhadores como vilões a serem combatidos, quando, na verdade, mostra-se essencial discutir o contexto que os produzia e a forma como esses profissionais atuavam para lidar com as contingências e constrangimentos que lhes eram impostos.