Os registros avaliativos fazem parte do cotidiano das ações escolares. É muito comum e faz parte da cultura de avaliar brasileira o uso de notas, conceitos e menções nos registros escolares no tocante à avaliação da aprendizagem. Porém destaco que os números geralmente não têm a força que as palavras possuem para expressar interpretações de dados e fenômenos para sugerir, encorajar e sobretudo para registrar processos, avanços e dificuldades. Nessa perspectiva de uso da palavra como alternativa ao número é que se baseia a utilização de pareceres e relatórios como instrumentos de registros dos processos avaliativos dos estudantes. Segundo Ambrosio (2013, p. 58), no que se refere aos registros da avaliação, deve-se observar três dimensões: registro, reflexão e observação. Segundo a autora, o ato de registrar é um exercício metodológico sistematizado rigoroso de observar para refletir, analisar e retroavaliar.
Para a realização das etapas ou dimensões sugeridas por essa autora, faz-se necessária a utilização de registros avaliativos diferentes dos que predominam atualmente. Isso porque as notas registradas nos diários de classe e boletins escolares dificultam a reflexão e a volta na avaliação. Geralmente os resultados são irrevogáveis e dão informações sobre o final, e não sobre o processo. É preciso o uso de registros que sejam mais do que um simples cumprimento burocrático.
A escola que decide pela utilização de registros avaliativos que sejam úteis à aprendizagem abraça um desafio multifacetado, pois esses instrumentos exigem além de uma mudança da prática avaliativa do professor, um nível de letramento em avaliação por parte dos pais, dos alunos e de toda comunidade escolar.
Não é difícil encontrar escolas aplicando provas e testes para crianças, mesmo quando o uso de instrumentos qualitativos é previsto e orientado. Essas ações muitas vezes são justificadas por escolas e professores como uma resposta à sociedade, que se baseia pela nota e pelo número. Por esse motivo, há necessidade de letramento em avaliação para todos os envolvidos no processo de ensino-aprendizagem, para que todos entendam como a avaliação se processa na unidade de ensino.
O primeiro desafio que destaco é em relação ao uso, pelos professores, de instrumentos como relatórios, pareceres, fichas individuais, entre outros. Apoiado em Hofmann (2018), passo a utilizar o termo relatório apenas. Uma grande questão em relação a esse instrumento é a forte inclinação dos docentes no privilégio da construção de textos que valorizam aspectos atitudinais e comportamentais tais como: disciplina, interesse e relação com os colegas em detrimento da aprendizagem, ou seja, um abandono da observação dos aspectos cognitivos/ conteúdos intelectuais. É preciso um equilíbrio entre as dimensões atitudinais e intelectuais.
Em relação aos aspectos atitudinais do estudante, destaco a problemática quanto ao uso de termos pejorativos, não encorajadores, que rotulam e desqualificam a imagem dele e que podem ser fruto da transferência de práticas avaliativas autoritárias e punitivas para esse tipo de avaliação. Já em relação aos conteúdos intelectuais/ cognitivos, é importante que o professor se atenha as informações importantes do que já foi aprendido/alcançado e o que ainda precisa ser melhorado/ aperfeiçoado e fuja das expressões globais, gerais e superficiais. Para conseguir equilibrar com eficiência as duas dimensões avaliadas com informações relevantes e úteis para a aprendizagem, Hofmann (2018) sugere que haja, por parte dos professores, um aprofundamento teórico em teorias de conhecimento, de desenvolvimento, bem como aprofundamento teórico em disciplinas específicas.
De acordo com minha experiencia docente destaco que para o professor não é tão simples e fácil redatar relatórios avaliativos que falem do percurso do estudante e suas aprendizagens, principalmente porque a cultura de avaliar em que os registros são mais quantitativos que qualitativos ainda predomina e, diante dela, é natural que professor tenha receio na produção dos relatórios. Para desmistificar essa instabilidade por parte dos professores, é necessário que a formação e o aperfeiçoamento profissionais sejam encarados de
uma forma construtivista em que o erro faça parte do processo, pois o professor, como profissional em construção, também erra e aprende com seus erros, em constante evolução e aprendizagem, principalmente quando está diante de situações novas em relação à sua prática.
De acordo com Hoffmann (2018), mudar a avaliação requer do professor a aprendizagem sobre outras formas de registro que tenham significado tanto para ele quanto para os alunos e que a avaliação são seja apenas realizada em obediência a normas e modelos impostos pela escola. Os relatórios significativos são aqueles que, de maneira respeitosa e ética, falam sobre os estudantes de forma individualizada e humana e que acompanham o processo de aprendizagem, marcando onde o estudante estava no início, o que ele já caminhou e quais providências deverão ser tomadas para o futuro.
Esse acompanhamento deve ser constante. Hoffmann (2017, p. 155) afirma que “as anotações do professor precisam ser diárias e frequentes, correspondendo à dinâmica do processo de aprendizagem”. Concordo com a autora e destaco que o fato de as anotações serem diárias não quer dizer que todos os dias o professor necessita redigir um texto por aluno retratando seus progressos e dificuldades. Isso seria humanamente impossível.
A ideia aqui defendida é que, ao final de uma aula, atividade ou tarefa, o professor faça pequenos registros sobre alguns alunos por vez, sobre os que conseguiram ou não desenvolver a tarefa ou ainda sobre fatos e situações que chamaram a atenção sobre a aprendizagem dos estudantes, dentre outras estratégias viáveis e praticáveis. Na realidade de escolas de línguas e cursos de idiomas, as turmas tendem a ser menores, o que facilita o acompanhamento e registro por parte do professor.
Hoffmann (2017) aponta que as observações dos professores precisam transformar- se em dados confiáveis. A autora também reforça a importância dos registros e destaca que não é possível que o professor “registre” tudo em sua memória. Ela defende que a partir de registros variados e diversos é que o professor faça a avaliação. Nesse sentido, o instrumento relatório entra como uma espécie de síntese do processo de aprendizagem do estudante.
O resumo do processo registrado no relatório do aluno, quando bem elaborado, subsidia as ações e intervenções que podem ser tomadas pelos próximos professores, uma vez que terão informações mais consistentes e significativas que boletins e notas que são vagos e não ajudam quando o professor necessita de informações sobre a trajetória do aluno.
A relação entre relatório e avaliação formativa é bem próxima. Os relatórios podem constituir uma verdadeira ferramenta da avaliação para as aprendizagens. Eles podem descrever os processos de cada estudante, podem fornecer dados que gerem reflexão para professores e alunos sobre a aprendizagem e também sobre o ensino. Os relatórios não têm como objetivo
classificar e comparar os estudantes e, por esse motivo, não devem seguir roteiros rígidos e fixos, mesmo porque uma avaliação numa perspectiva formativa é flexível e redirecionadora.