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Os problemas gerados pelo uso de drogas também são abordados por faixa etária. O uso de drogas na adolescência, por exemplo, é uma questão que também se configura como problema de saúde pública e de infração sujeita à aplicação de medidas socioeducativas, uma vez que essa prática está interditada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. Sudbrack (1996) entende o uso de drogas na adolescência não como uma doença, mas como um ato em busca de solução para suas dificuldades. Ela admite que “[...] os jovens encontram nas drogas algum alívio (e não necessariamente prazer)” (SUDBRACK, 1996, p. 92).

No contexto da prevenção à drogadição entre adolescentes de famílias de baixa renda, ou em situação de exclusão social, a referida pesquisadora defende a articulação de saberes das diferentes áreas implicadas, num verdadeiro exercício de busca de complementaridade, cooperação e de construção de um conhecimento transdisciplinar de intervenções que resgatem o potencial criativo presente nos sistemas envolvidos. Neste contexto, a pesquisadora aponta a prática de redes sociais enquanto caminho a ser trilhado na busca de soluções não apenas restritas às questões da dependência química, mas à condição mais ampla de exclusão e marginalização em que os jovens se situam. “Nesse sentido, entende-se que a prática de redes sociais extrapola os objetivos específicos de prevenção da drogadição, sendo uma metodologia que conduz à melhoria da qualidade de vida e à promoção da saúde, no sentido mais amplo [...]” (SUDBRACK, 1996, p. 101).

Sanicola (2008, p. 13) lança mão do conceito de rede para definir sistemas que se encontram conectados, malhas de comunicação, estratégias empregadas por indivíduos ou a forma das relações sociais. Esse conceito indica um objeto que cria uma relação entre pontos mediante ligações entre eles que, cruzando-se, são amarradas e formam malhas de maior ou menor densidade no ponto de ligação, ou seja, “nó” e, por meio desse “nó”, acontecem trocas sinérgicas.

A referida pesquisadora considera as redes sociais como formas das relações sociais, divididas em duas grandes categorias: as redes primárias e as secundárias formais e informais.

As redes primárias são constituídas por laços de famílias, parentescos, amizade, vizinhança e trabalho. Em conjunto, formam uma trama de relações que confere a cada sujeito identidade e sentimento de pertencer. As redes secundárias formais são constituídas pelos laços que se estabelecem entre instituições, organizações do mercado e organizações do terceiro setor. Existem também redes secundárias informais, constituídas por laços que se estabelecem entre pessoas visando a resposta a uma necessidade imediata. (SANICOLA, 2008, p. 13).

Para Sluzki, os limites do sistema significativo do indivíduo não se restringem à família nuclear ou extensa, mas incluem todo o conjunto de vínculos interpessoais do sujeito, que são: família, amigos, relações de trabalho, de estudo, de inserção comunitária e de práticas sociais (SLUZKI, 1997). Para o pesquisador, esse nível intermediário da estrutura social é importante para uma compreensão mais profunda dos processos de integração psicossocial, de promoção do bem-estar, de desenvolvimento da identidade e de consolidação dos potenciais de mudança, bem como pode iluminar os processos psicossociais de desintegração, de mal-estar e de adoecimento, de transtornos da identidade e de perturbação dos processos de adaptação construtiva e de mudança.

Segundo o referido pesquisador, todos os processos inerentes aos contextos socioculturais, políticos, históricos, econômicos, religiosos, de meio ambiente e de estrutura social, nos quais estamos imersos, fazem parte do universo relacional do indivíduo. No entanto, o pesquisador apresenta um conceito mais restrito de rede pessoal social, a saber:

Em nível mais microscópico, por sua vez, a rede social pessoal pode ser definida como a soma de todas as relações que um indivíduo percebe como significativas ou define como diferenciadas da massa anônima da sociedade. Essa rede corresponde ao nicho interpessoal da pessoa e contribui substancialmente para o seu próprio reconhecimento como indivíduo substancialmente para seu próprio reconhecimento como indivíduo e para a sua auto-imagem. (SLUZKI, 1997, p. 41).

No contexto de inserção desses conceitos na temática do uso de drogas na adolescência, Penso e Pereira (2010) afirmam que se existir uma relação familiar e educacional estruturada constituindo uma rede social efetiva e consolidada, a saúde do adolescente será preservada. Entretanto, em caso de vulnerabilidades nessas áreas, que não contribuam para a busca da autonomia de forma saudável, é bem provável que esse adolescente procure se comunicar através de sintomas como, por exemplo, o uso de substâncias.

Desta forma, quando as relações no entorno do adolescente estão vulnerabilizadas:

[...] a prática de redes sociais, à medida que propõe um trabalho de dimensão não só familiar, mas de todos os outros contextos de relação do indivíduo, é importante e necessário, principalmente onde estas redes já se encontram enfraquecidas, pois cada sujeito se redescobre na relação com o outro, na construção e reconstrução de sua rede. (PENSO; PEREIRA, 2010, p. 45/46).

Costa (2001, p. 223) afirma que “[...] a presença da família permeia todo o processo de tratamento e está presente de forma muito significativa quando o egresso parte para a etapa da reinserção social”. A pesquisadora reconhece que o acolhimento familiar, após o período de tratamento, é fundamental para promover a segurança emocional e social, que seria uma fase inicial do processo de reinserção social, fundamentado na visão da abstinência preconizada pelo modelo de intervenção médico de adoecimento e recuperação. Para a pesquisadora, o retorno ao convívio familiar representa importante etapa no processo de reinserção social do egresso do tratamento da dependência química; o que deve ocorrer da forma mais natural e tranquila possível.

A pesquisadora trata a questão da reinserção social de uma maneira mais complexa, valorizando o estabelecimento de novas relações sociais constituídas em ambientes de trabalho ou educacionais, o que resultaria, em tese, no rompimento das relações anteriores com traficantes e outros usuários. A pesquisadora destaca o apoio da família nos processos de inserção social:

[...] a inserção no mercado de trabalho para a população entrevistada não foi algo muito fácil. Conseguiram no por contar com o apoio da família, trabalhando junto com os pais ou por possuírem qualificação em alguma área técnica. Outros esperaram meses para uma chance de emprego e, ainda outros, permanecem desempregados, sendo sustentados pela família. Por sua vez, o acesso a um novo ciclo escolar passa necessariamente pela questão do emprego e das condições financeiras. Mesmo assim, principalmente os mais jovens, quando têm condições e são apoiados pela família ou companheiros, retornam aos estudos. Quando isso acontece, é a retomada do ciclo natural da vida, da capacidade de investir na esperança de melhores dias e de não mais voltar à desesperança das drogas e do álcool. (COSTA, 2001, p. 239).

Para Sanchez e Nappo (2008) a religiosidade pode atuar como protetora do consumo de drogas entre pessoas que frequentam a igreja regularmente, bem como para aqueles que praticam algum tipo de preceito religioso e creem na importância da religião em suas vidas, ou tiveram algum tipo de educação religiosa na infância. Para as pesquisadoras, a prática religiosa, para a proteção do uso de drogas, deve ser um recurso adotado de forma compartilhada com outras iniciativas que viabilizem à reestruturação social do usuário,

oportunizando a formação de uma nova rede de amizades, a promoção de ocupação do tempo livre em trabalhos voluntários, atendimento “psicológico” individualizado, valorização das potencialidades individuais, integração em um grupo. Vale salientar a importância do apoio incondicional dos líderes religiosos, nesse contexto, sem julgamentos em especial entre evangélicos. Não descartar, também, a possibilidade da formação de uma “nova família” no contexto das relações religiosas; o que estaria fortemente associado aos processos de reinserção social.

Formigoni (2009) aborda cientificamente a questão da ajuda no contexto da recuperação e reinserção social de usuários de drogas pelo viés da religiosidade. A pesquisadora afirma ser a “ajuda” uma intervenção viável; no entanto, não precisa só querer ajudar aos usuários de drogas, mas é preciso ter um mínimo de conhecimento técnico- cientifico sobre o assunto, aliado a uma boa dose de solidariedade. Conforme a referida pesquisadora, a ajuda que se baseia apenas na boa vontade pode, por falta de conhecimento, cair na armadilha de uma atuação preconceituosa e fundamentada em julgamentos morais.

Vale salientar que o governo brasileiro tem apoiado as iniciativas de setores organizados da sociedade civil na busca da construção de políticas públicas adequadas ao enfrentamento do problema do uso, abuso de drogas, bem como às questões relacionadas à exclusão social como conseqüência dessa situação. No próximo tópico, abordar-se-á à evolução das políticas públicas sobre drogas vigentes no País, nas últimas décadas, priorizando-se o enfoque sobre a questão da reinserção social de usuários de drogas, considerando, também, o desenvolvimento das teorias na área de reinserção social.

2.1. A Política de Atenção Integral aos Usuários de Álcool e outras Drogas do Ministério