4. Metode og data
4.2 Gjennomføring
Butô não começa a ser feito para um espetáculo. É durante toda a vida.218
Apesar de sua origem japonesa, o butô vem sendo disseminado mundialmente desde a década de 70 como um campo fértil para a pesquisa do movimento. Christine Greiner nos fala do impacto do butô em nosso país, por trazer à tona um corpo em crise:
Assim, o grande interesse pelo butô no Brasil não somente decorreu de uma curiosidade qualquer ou da vontade de copiar um modelo exótico de corpo, embora isso tenha acontecido muitas e muitas vezes. O seu impacto mais significativo deveu-se à importância política e filosófica do reconhecimento de um corpo que vive no limite - da vida, da vontade, do desejo.219
Tadashi Endo defende que um brasileiro ou um europeu não irão dançar butô como os japoneses, mas que o fundamental para a apreensão dessa dança é entender o espírito do butô, ou o butô espiritual. Em sua pesquisa coreográfica, Tadashi Endo parte do conceito espiritual do butô, que se conecta à idéia de MA, que significa “entre”, um intervalo de tempo-espaço. Para ele:
MA no ZEN-Budismo significa ‘vazio‘ e ‘espaço entre as coisas’. Butô MA é a forma de se tornar visível o invisível. O mínimo de movimentos faz com que a expressão de sentimentos e situações cresçam à mais alta intensidade. É mais importante manter o equilíbrio entre energia, tensão e controle, do que se preocupar com a estética do movimento. MA significa estar ENTRE. MA é o momento do fim de um movimento e antes do começo do outro. MA é como estar no rio observando o fluir das águas. Você quer alcançar o outro lado mas o outro lado significa morte. Você quer acabar com sua vida neste lado mas ainda não, você está metade aqui e a outra metade lá. Sua alma está esperando pelo último passo - completamente calma - sem respirar - completamente quieta - nem morto e nem vivo - isto é MA.220
218
GREINER. Tokyogaqui: um Japão imaginado, p.172.
219
GREINER. Tokyogaqui: um Japão imaginado, p.168.
220
ENDO. Tradução do autor. Disponível em:
http://www.tadashi-endo.de/index.php?option=com_content&task=view&id=2&Itemid=5. Acesso em 15/05/2009
FIGURA 35 - Ideograma Ma
Fonte: GREINER. Tokyogaqui: um Japão imaginado, p. 179.
O ideograma Ma é formado "de duas portinholas, através das quais, no seu entre-espaço se avista o Sol."221 Definir o conceito de Ma é paradoxal, já que ele se apresenta como um anti-conceito. É considerado um espaço "entre" que remete ao vazio que permite que coisas o preencham. É o ponto zero. Michiko Okano nos lembra que a casa tradicional japonesa dispões dois espaços que ajudam a entender Ma, que são: o espaço Ma e o corredor-varanda japonês. "É uma área de tatami, geralmente desprovida de móveis, portanto "vazia" na dimensão física, à espera de objetos e pessoas, com a possibilidade de transformar-se em vários ambientes, determinada pela conexão estabelecida."222
Para Endo cada corpo possui experiências de vida únicas que nenhum outro corpo poderia ser capaz de expressar. Interessa-me o estudo da idiossincrasia dos corpos que configuram qualidades de movimentos diferentes em cada performance, sobretudo em relação à expressão que se produz.
221
GREINER. Tokyogaqui: um Japão imaginado, p. 179.
222
Mas se a dança é um modo de existir, cada um de nós possui a sua dança e o seu movimento, original, singular e diferenciado, e é a partir daí que essa dança e esse movimento evoluem para uma forma de expressão em que a busca da individualidade possa ser entendida pela coletividade humana.223
FIGURA 36 - Tadashi Endo em frame de Cherry Blossoms, filme dirigido por Doris Dörrie (2008) Dessa maneira, entendemos que o que pode um corpo de um bailarino, ou sua potência, depende não do que ele deveria dançar, mas do que ele poderia dançar a partir de qualidades de movimentos possíveis somente naquele corpo. As coreografias estão aí para relativizar esse fato. Porém, nenhum corpo é capaz de imprimir a mesma qualidade de movimento, mesmo que se tente ao máximo a imitação perfeita do gesto. Na visão nietzscheana sobre a dança, o bailarino começa a dançar a partir do mecanismo da imitação. Somente depois, o verdadeiro criador emerge na dança. Seguindo essa reflexão, cada artista dá sua característica ao movimento e cria afectos, impossíveis de serem imitados por qualquer outro.
223
O que dizer de bailarinos contemporâneos que dançam o Café Müller de Pina Bausch? Ou, um bailarino que interpreta essa dança atualmente, consegue atingir a intensidade de Pina em sua caracterização do Café Müller? Nesse sentido, não há nenhuma garantia, pois a intensidade é algo intrínseco ao corpo. A potência de um corpo nesse sentido, não é da ordem da representação.
Voltando ao exemplo do butô, o estilo sombrio que marcava as apresentações de Hijikata se conecta às suas origens em Akita, localizada numa região norte do Japão. "Em Tôhoku, Hijikata era um morador comum de uma pequena cidade rural de clima bastante frio e com vento conhecido como kazedaruma.224 Daí, dizem alguns autores, nasceram os elementos primordiais da sua dança."225 É para a escuridão do inverno de Akita e dos seus ventos fortes que Hijikata retorna em 67, depois de ter passado alguns anos em Tóquio absorvendo a dança moderna, porém sem nunca ter de fato "abraçado" sua causa e ter se influenciado também pela dança expressionista que na época invadia o Japão.
Hijikata era um jovem estranho. Nunca participava das aulas de Ohno, ficando o tempo inteiro em um canto da sala, escrevendo. Nas famosas aulas de Ando, dona da academia, os colegas já sabiam: na vez de Hijikata realizar piruetas, todos se afastavam, pois algo imprevisível poderia acontecer. Ele parecia incapaz de repetir o que era sugerido. Mas o que seria, aos olhos de seus contemporâneos, apenas uma insanidade, tornou-se aos poucos um dos manifestos mais radicais acerca da existência humana. Não era uma tentativa de configurar vocabulários diferenciados de dança, mas uma nova proposta de pensamento para reinventar o corpo. Neste sentido, Kazuo Ohno foi o parceiro ideal, uma vez que, segundo o próprio Hijikata, era 'um dançarino que exalava o veneno do corpo'.226
224
Kazedaruma é melhor traduzido como "o espírito do vento" ou "boneco de vento."
(GREINER. Butô: pensamento em evolução, p. 24).
225
GREINER. Butô: pensamento em evolução, p. 24.
226