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Tidligere kjennskap til merkevare

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4.7 Nye identifiserte elementer

4.7.2 Tidligere kjennskap til merkevare

Cantar é existir. Para um deus, muito fácil. Mas nós, quando é que existimos? 58

O que nos leva além da representação? Em primeiro lugar, deve-se aproximar a pulsão do dizer, de maneira a explicitar, sem mediações, seu destino originário. O bem-dizer ético não é algo que se aplica secundariamente ao homem, depois de satisfeitas as suas necessidades básicas. É originário, e tudo deve ser lido desde a ótica do originário. E não a partir de algum ponto da existência, mas desde sua origem. Será sempre extraordinário que Freud tenha descoberto o caminho do dizer, chamando-o de pulsão (Trieb). Esta

deve ser entendida, portanto, em seu mais alto grau, como natureza e arte. “O

homem fala”, escreve Lacan em Função e campo da palavra e da linguagem,

“porque o símbolo o fez homem”; não é menos certo, porém, que são os dizeres inconscientes e os dizeres poéticos que efetuam a condição simbólica. No princípio, o verbo não se distingue do ato, do dizer (ato fabulatório, dizer ético). Da mesma forma que a pulsão, a linguagem só é realmente linguagem quando exercida, praticada. Mais tarde, no seminário O sinthoma, Lacan dirá: “criamos uma lìngua na medida em que a todo instante damos um sentido, uma mãozinha, sem isso a língua não seria viva. Ela é viva porque a criamos a

cada instante” 59. Mas a prática da linguagem não é assim tão evidente, ou

melhor, ela se dá em vários níveis de expressividade, de modo mais claro ou mais obscuro; e não é o dizer inconsciente, o do lapso ou do sonho, que se qualificaria de mais obscuro. Se o compararmos aos usos da linguagem

cotidiana, utilitária 60, aquele dizer, mesmo sob a forma do enigma, é uma luz,

uma luz oculta. As formações do inconsciente como o sonho, o lapso, o sintoma, a fantasia e o delírio são caminhos do saber, se tivermos em vista o coração do ser que, note-se bem, não é necessariamente o ser. O mais claro aparece assim sob o aspecto do mais obscuro. Tudo depende do lugar em que nos situamos em relação ao dizer, isto é, à pulsão. Quanto mais se transita de uma língua dominante, com seu teor de recalque, a um idioma originário, mais a linguagem perde sua função de representar coisas para abrir clareiras na

percepção, dar a ver o invisível, fazer ouvir o inaudível 61. Não é exatamente o

58 “Gesang ist Dasein. Für den Gott ein Leichtes./ Wann aber sind wir?...” Rilke, R. M., Sonetos a Orfeu

(parte I, 3) - Elegias de Duíno, p. 25, Petrópolis, RJ, Vozes, 2000.

59 O seminário, Livro 23, O sinthoma, op. cit., p. 129.

60 Distinguimos o uso utilitário dos signos cotidianos de uma pragmática pulsional, voltada aos afetos e às

suas implicações éticas e estéticas.

61 É através das palavras, entre as palavras, que se vê e se ouve”, diz Deleuze em Crítica e clínica, op. cit., p.

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inédito que ela invoca, ainda que se trate também dele, mas a condição renovada de ver, de ouvir, os afetos intempestivos (de que tempo? de que lugar?), os graus de potência esquecidos.

O destino originário da pulsão é, portanto, a sublimação. Ao destacar a condição de ver, de ouvir, de dizer, enfatizamos a tendência, mais que o objeto, que dela deriva tanto em sua feição como em seu valor. Todos os acontecimentos analíticos (a vida de modo geral) serão lidos a partir daquele

destino, e tal é a envergadura do processo instaurado pela análise. “Meu lema

é: a linguagem e a vida são uma coisa só” 62. Deveria ser uma proposição

elementar para os psicanalistas, mas curiosamente não é assim. Mesmo a incidência exaustiva da investigação lacaniana em torno do objeto a, com todos os seus paradoxos (dele não se tem imagem nem idéia), redefinindo a questão do objeto para além das pretensões imaginárias de completude e naturalidade, não foi suficientemente precisa para reconhecê-lo como objeto

de sublimação em sua origem 63. Não há objeto libidinal que não seja

construído, obviamente com os elementos de que a pulsão dispõe. Winnicott o identificara como objeto transicional, engendrado entre o isso e o mundo externo e, dada sua aptidão ao gozo, como uma espécie de composição estética. Foram precisos vinte anos depois de Lacan para se dizer, como faz

Miller, que o objeto a não é real; que, do gozo, ele “é apenas o núcleo

elaborável num discurso” 64, deixando subsistir em aberto a questão do gozo

real.

Mas é comum afirmar que o real está excluído do sentido, e até estaria

bem assim, se houvesse uma ressalva – que do real, no entanto, se goza como

do único sentido originário, ativo, frente ao qual todos os outros, menores, emudecem, por não se mostrarem suficientemente adequados ao gozo, isto é, à lucidez originária. Em relação a esta, todos os demais sentidos perdem o sentido. Daí a impressão, a certa distância, de um não-senso. Em outras palavras, trata-se aí de um saber de não-senso porque é um saber sem

explicação – ele não recebe luz de nenhum outro. O gozo deste saber, a isto é

que Lacan chamava de agalma 65. Mas será que ele era entendido?

É claro que o gozo diz respeito ao vivo, mas que ambos se esclareçam como saber, como lucidez, eis o retorno do arco e o sentido da análise, dos

62 Diálogo com Guimarães Rosa, por Günter Lorenz, em Ficção completa, op. cit., p. 47.

63 Aqui nossa pesquisa encontra a de Guattari: “Tento levar o objeto parcial psicanalìtico, adjacente ao corpo e

ponto de engate da pulsão, na direção de uma enunciação parcial”. Caosmose, op. cit., p. 25. Guattari fala ainda da separação de um “objeto parcial” ético-estético do campo das significações dominantes (p. 24). Pois bem, uma enunciação parcial de cunho ético e estético é sempre relativa às significações dominantes, sendo nela mesma, por ela mesma, em sua gênese e em sua consistência, o que chamamos de um dizer inteiro ou íntegro. A idéia de “parcial” permanece enquanto referida a um recorte...

64 Lacan, J., Outros escritos, Prólogo, p. 13, Zahar, RJ, 2003.

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quais se teve até hoje apenas um vislumbre turvo, um balbucio, um embrião de pensamento. Acontece que esse saber existe em ato, é uma autorização e, como tal, imediatamente um dizer. Lacan foi preciso em enunciar que o analista “s‟autorise de soi même”, a partir de si mesmo e não por si mesmo ou em si mesmo, como se ouve às vezes, pela simples razão de que uma “autoridade” se exerce no mundo, junto aos outros, por força de seu saber- fazer e sob a forma de uma intervenção, de um dizer.

A sublimação e o cosmo

A sublimação é uma estranheza não-humana e cósmica, pois abrange uma gama considerável de práticas originárias que não poderiam mais ser

circunscritas à esfera dos procedimentos humanos 66, ainda que estes possam

compreender aquela amplitude e, paradoxalmente, nela se incluir. Compreender e se incluir não são atos muito comuns; na verdade são bem raros, quase impossíveis e, no entanto, que outro destino poderia haver para o homem? Em sua leitura dos fragmentos de Heráclito, Heidegger pergunta como o logos humano é grande e se engrandece, respondendo igualmente por

graus: “quanto mais estiver recolhido na coletividade originária” 67. Isto serve

para evocar o caráter precioso – e não menos perigoso – da indeterminação a

que está sujeita a experiência humana, proporcional à condição de auto- determinação inconsciente, não realizada, que deve explicá-la em termos absolutos.

As formações do inconsciente são dizeres tateantes, semi-ocultos, pelos quais se desenham campos de experiência expressiva, com seus territórios afetivos e domínios existenciais que, todavia, se encontram ainda fora do alcance de uma prática esclarecida. O peso dos recalques é imenso. “O idioma é a única porta para o infinito, mas infelizmente está oculto sob montanhas de

cinzas” 68. O lapso ou outra expressão privilegiada, ao mesmo tempo que

desterritorializa pelo efeito de não-senso ou de excesso de sentido, é signo de expansão territorial, anuncia novos estratos discursivos, evoca regiões de saber ainda inexploradas. Chave esotérica, abre portas secretas de entendimento e visão. E assim é a vida, incisiva, contundente em seu não-

senso, uma faísca, uma explosão, por mais diminuída que esteja – um sinal de

luz na superfície.

66“A arte não espera o homem para começar...” Mil platôs, vol. 4, op. cit., p. 129.

67 Heidegger, M., Heráclito, p. 364, Relume-Dumará, RJ, 2002. “Coletividade originária” é uma das versões

de Heidegger para o Logos heráclitiano.

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Uma mulher em análise se queixa, em dado momento, das suas condições financeiras, dizendo-se, porém, longe de querer abrir mão do conforto e do luxo. Repele a idéia de privar-se de um bem ou de um gosto, e acrescenta: “é que já me senti privada demais!”. A expressão privada demais ressoa, ramifica-se, distribui-se em estratos, em mais de um plano de experiência e, por conseguinte, em diferentes alturas do tempo. Privada de coisas por uma dinâmica econômica controlada pelo ex-marido; privada enquanto vaso, recebendo as descargas sexuais do então marido, que não se dedicava a proporcionar-lhe o prazer devido; privada ao modo de uma propriedade, pois, justamente, teve um único companheiro, e mesmo depois da separação permaneceu ligada a ele, como se, sozinha, ainda lhe pertencesse,

independente do tempo já transcorrido e por transcorrer ainda: “privada

demais”. A percepção radial dos estratos experienciais e das alturas do tempo se dá quase que de um golpe só, como desvendamento de sentido.

O sentido pulsional se define por uma desterritorialização progressiva, isto é, por uma abolição progressiva dos sentidos enquanto efeitos de

significante, de história, de cultura – até onde? Abolição dos sentidos, bem

entendido, quer dizer aqui re-apropriação, domínio, superação, emergência de vida subjetiva, existência, clareza. É que o real, em seus diversos graus, é digestivo, triturador, antropofágico. Há limiares de passagem que vão do

cultural ao caos aparente – a estação infernal – e deste ao cosmo, enquanto

pressuposto de todas as passagens. Mas não é o mesmo antigo cosmo, ordeiro

e seguro, se seu fulcro é a vida, coisa que Lacan não viu ao contrapor –

acertadamente, diga-se de passagem – a função da angústia, correlata da

indeterminação de que falávamos, tanto à visão cósmica estável, tradicional, quanto ao sentido de um progresso histórico, evolutivo, que é tão caro à

modernidade, por esta se acreditar no seu ápice 69. Subsiste a faceta cósmica

da experiência analítica, a linha de passagem a um cosmo aberto, perspectivo, vivo, em ordenação constante. Foi nestes termos últimos, aliás, que Freud situou a experiência humana, ao ver seus desdobramentos refluírem às pulsões de vida e de morte. Ora, não há vida que não se ligue por fios visíveis e invisíveis ao universo 70.

Por que ir tão longe, pode-se objetar, quando a vida de um sujeito humano já dá o que fazer no âmbito social, em relação à cultura, com os outros e consigo mesmo? O erro está em conceber o cósmico como uma realidade distante, uma referência remota. O cósmico, o vivo, é o mais

69 Lacan, J., O seminário, livro 10, A angústia, p. 47 e 48, Zahar. RJ, 2005.

70 “Porque se o nosso corpo é a matéria à qual a nossa consciência se aplica, ele é coextensivo à nossa

consciência. Compreende tudo o que nós percebemos, vai até as estrelas”. Bergson, H., Les deux sources de la morale et de la religion, Oeuvres, p. 277, PressesUniversitaire de France, Paris, 1963.

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próximo, é o micro, o molecular, o mais íntimo (das Heimlich), aqui e agora, por mais longe que esteja da experiência subjetiva (das Unheimlich).

Assim, recomendando a interdição das escolas por umas duas gerações,

em vista da ênfase nociva que as fórmulas educacionais dão à “compreensão

mental”, pois separam a consciência da criança de suas bases dinâmicas, não mentais, D. H. Lawrence, num ensaio singular sobre psicanálise, chega a uma proposição escandalosa para as nossas referências culturais modernas: “Understanding is the devil”. Explica este anátema descrevendo a visão de uma criança: “Uma criança não precisa entender coisas. Ela deve tê-las à sua maneira. Sua visão não é a nossa. Quando um garoto de oito anos vê um cavalo, ele não vê o correto objeto biológico que nós pretendemos que ele veja. Ele vê uma grande presença viva sem uma forma particular, com os cabelos de seu pescoço flutuando e quatro pernas. Se ele põe dois olhos de perfil, está bastante certo. Porque ele não vê com visão óptica, fotográfica. A imagem em sua retina não é a imagem de sua consciência. A imagem em sua retina de fato não vai para dentro dele. Seu inconsciente está cheio de uma forte, escura, vaga presciência de uma poderosa presença, a iminente visão de uma presença que tem dois olhos, quatro pernas e uma longa crina. E forçar o garoto a ver um correto perfil de cavalo com um olho é como fixar um cartaz na frente de sua visão. Isto simplesmente mata sua visão interna. Não queremos que ele veja um cavalo apropriado. A criança não é uma câmera. Ela é um pequeno organismo vital que tem uma relação dinâmica direta com os objetos do universo exterior. Ela percebe desde seu peito e seu abdômen, com um profundo realismo, a natureza elementar da criatura. De modo que até este dia a árvore da Arca de Noé é mais real que uma árvore de Corot ou uma árvore de Constable: e uma gorda vaca da Arca de Noé tem uma realidade

vital mais profunda que uma vaca de Cuyp” 71.

Picasso parece reconstituir uma condição originária de ver, e por isso, à primeira vista, sua arte poderia se afigurar esquizofrênica, como pretendeu julgá-la Jung, ao mesmo tempo maravilhado e estarrecido. Na verdade, realiza

71 A child mustn‟t understand things. He must have them his own way. His vision isn‟t ours. When a boy of

eight sees a horse, he doesn‟t see the correct biological object we intend him to see. He sees a big living presence of no particular shape with hair dangling from its neck and four legs. If he puts two eyes in the profile, he is quite right. Because he does not see with optical, photographic vision. The image on his retina is not the image of his consciousness. The image on his retina just does not go into him. His consciousness is filled with a strong, dark, vague prescience of a powerful presence, a two-eyed, four-legged, long-maned presence looming imminent. And to force the boy to see a correct one-eyed horse-profile is just like pasting a placard in front of his vision. It simply kills his inward seeing. We don‟t want him to see a proper horse. The child is not a little camera. He is a small vital organism wich has direct dynamic rapport with the objects of the outer universe. He perceives from his breast and his abdomen, with deep-sunken realism, the elemental nature of the creature. So that to this day a Noah‟s Ark tree is more real than a Corot tree or a Constable tree: and a flat Noah‟s Ark cow has a deeper vital reality than even a Cuyp cow”. Lawrence, D. H., Fantasia of the unconscious and Psychoanalysis and the unconscious, p. 89 e 90, Penguin Books, Great Britain, 1972.

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uma integração vital (o que chamávamos a pouco de vetor cósmico), perspectivista, ativa, sublimatória, não sujeita às unidades conceituais estáveis e consensuais da percepção. A não sujeição não exclui uma ação ordenadora. Cada qual, portanto, com seu olhar e sua justiça. “Quando tinha a idade destas crianças”, refletia Picasso em 1956, “sabia desenhar como um Rafael; mas precisei de uma vida para aprender a desenhar como elas”. Até onde se estende a infância? Em suas pinturas e gravuras se tornam visíveis, uma vez ou outra, em meio à trama de traços seguros e ágeis, uma fisionomia egípcia, um afresco etrusco, um vaso pré-colombiano. Esta conexão antiga e até pré- histórica não impedia a existência de um Picasso maneirista, com a consciência de que a beleza clássica e o Quattrocento perduravam em sua obra

72. O artista procede, certamente, a uma recomposição atual de elementos

antigos, assim como a uma decomposição de elementos modernos, para deixar como saldo uma espécie de memória sensível das eras. Mas faz variar o objeto de acordo com a potência do olhar, isto é, de acordo com o devir desse olhar no tempo. O cubismo não é igual à arte primitiva, as figuras que cria não são iguais ou semelhantes às de culturas remotas, já extintas; originário não é o objeto, mas o poder de apropriação e elaboração das matérias expressivas disponíveis, seu grau de autonomia criadora, sua inatualidade, ao operar além das coordenadas usuais de espaço e de tempo. Não é um retorno ao primitivo, nem uma sobre-codificação atual dos dados antigos, mas um uso originário de signos de diversa procedência, uma trans-criação, mais ou menos à maneira como Heidegger se apropria do grego antigo e o dota de um poder de enunciação poético-filosófica inusitado, dir-se-ia atemporal, a fim de

demarcar, ao mesmo tempo, a possibilidade do pensar e a sua raridade 73.

A propósito, é sempre risível a redução do vetor pulsional, enquanto aparelhado de uma zona erógena, ao objeto que lhe é destinado pela natureza ou pela cultura, pois não se vê que o circuito da pulsão vai muito além dos primeiros pretensos objetos, pode integrar, em sua potência real-virtual, séculos de experiência visual ou auditiva, e isto não de modo secundário, por um desvio sublimatório, mas por uma via originária que dá a medida de todas as outras vias. Alguns dos primeiros pretensos objetos são decididos, conforme os termos de Lacan, pela demanda do Outro, sustentada por um ideal de eu. Eles têm assim a face que o ideal de eu lhes imprime. Até aqui, os olhos são olhos para não ver. Os objetos da percepção já foram fixados. É

72 “Braque disse-me uma vez: „No fundo, sempre amaste a beleza clássica‟. É verdade. Ainda hoje isso é

verdade. Nem todos os anos é inventada uma nova espécie de beleza”. Citado em Walther, I. F., Pablo Picasso, p. 86, Benedikt Taschen, Köln, 1990.

73 Cf. Deleuze, em Crítica e clínica, op. cit., p. 112: “Chegou até nós a notìcia de que nem sequer a etimologia

de Heidegger, nem mesmo Lethê e Alethés, era exata. Mas será que o problema está bem colocado? Acaso todo critério científico de etimologia não foi recusado de antemão, em favor de uma pura e simples Poesia?”

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preciso ser uma Santa Luzia ou um Édipo com os olhos vazados para começar a ver.

Deve-se dizer da pulsão, bem como de sua prática, a análise, o mesmo

que Lacan diz do inconsciente – que seu estatuto é ético e não ôntico. Não se

trata do ser da pulsão, mas de sua prática. Esta se refere mais ao ter do que ao

ser, se entendermos o ter a partir de um movimento de apropriação expressiva

e da constituição de um domínio, ou seja, a partir de uma experiência estética. “A propriedade é primeiro artìstica, porque a arte é primeiramente cartaz,

placa” 74. Em seguida será estilo. Já em Freud a questão do inconsciente é a de

um domínio, de uma conquista progressiva de partes do isso, o que não exclui, bem entendido, que o retorno ao isso, à pulsão, e o retorno da pulsão sejam a mesma coisa. Daí se tratar de uma prática. Essa conquista, esboçada na elaboração onírica, na fantasia e na construção delirante, é originalmente estética. “Seja qual for o caminho que eu escolher”, dizia Freud, “um poeta já passou por ele antes de mim”. Ou seja, a visão poética antecipa o que se deverá entender por inconsciente. Como se salta do ético ao estético? O salto é instantâneo, pois a condição ativa, que conotamos de ética, é diretamente sublimatória. Não há mediação, nem transição e nem desvio quanto aos fins originais. Quando Guattari diz que a perspectiva esquizo-analítica estabelece uma cisão metodológica com as prática analíticas tradicionais e rompe,

finalmente, com os paradigmas científicos, “para fazer passar todas as

produções de subjetividade sob a égide de paradigmas ético-pragmáticos, ético-estéticos” 75, apenas reconduz a psicanálise ao seu devir originário, de feição pulsional.

O caráter estético reside no que se denomina, em Mil platôs, de “auto-

movimento expressivo”, isto é, num certo grau de autonomia em relação às condições dadas do meio interno e do meio externo. Neste caso, as pulsões, enquanto constituintes do meio interno, estariam no melhor dos casos

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