Num determinado destino turístico, o turismo abrange várias atividades diretas e conexas (hotelaria, empresas de animação turística, restauração, comércio, transportes e etc.), implicando tanto entidades privadas como entidades públicas, sendo, por conseguinte adequada uma abordagem de cluster. De acordo com Carvalho (2006), o turismo é “uma das atividades económicas por excelência, para ser abordada numa perspetiva de economias de aglomeração, de cluster e como instrumento de desenvolvimento regional” (Carvalho, 2006: 142). Ferreira (2009) argumenta que “clusters being a competent tool in companies performance, in regional development and in countries competitiveness, it is important to analyse its potencial in tourism” (Ferreira, 2009: 37).
O conceito de cluster surge com Porter (1990) que o define como:
“(…) geographic concentrations of interconnected companies, specialized suppliers, service providers, firms in related industries, and associated institutions (universities, standards agencies, and trade associations) in particular fields that compete but also cooperate” (Porter, 1990: 78).
Esta definição de cluster, sujeita a várias abordagens na literatura, é passível de se aplicar ao sector do turismo, dado que “desenvolver o turismo não é mais do que organizar a maior parte das atividades económicas geograficamente concentradas nos limites da região que se pretende constituir como destino turístico, de forma integrada e complementar” (Carvalho, 2006: 142).
Michael (2007) defende que, no caso específico do turismo em áreas não urbanas, podemos referir-nos a micro clusters, ou seja, a clusters em pequena escala com atividades de nicho especializadas, um networking a nível local ou regional com os recursos turísticos locais. O autor define:
“The term micro-cluster was coined to refer to the geographic concentration of a small number of firms in a cohesive local environment, where the complementary interaction between those firms contributed to an enhanced level of local specialization. A micro- cluster, then, is defined by its local context, and the unique identification of its product, rather than by artificial perceptions of regionality of production processes ” (Michael, 2007: 21).
17 O turismo é caracterizado por uma complementaridade de serviços, que compreende vantagens para as empresas que estão inseridas em clusters, como aponta Malakauskaite (2010):
“For example, customer satisfaction in the tourism industry is dependent on various components. One of them is the set of complementary services, including hotels, restaurants, souvenir shops, airlines, and communication services, etc. Not only do all of the aforementioned services create an attractive tourism product and bind the cluster companies, they also grant a sufficient (in some cases, even extra) value-added for a customer” (Malakauskaite, 2010: 62).
Considerando as diversas atividades e serviços que o turismo abarca, Carvalho (2006) elenca as atividades desenvolvidas pelos turistas e que integram o cluster de turismo: (i) o planeamento e preparação da visita; (ii) o transporte origem-destino e mobilidade no destino; (iii) as operações de alojamento; (iv) a alimentação, entretenimento, diversões, atividades diversas; (v) as compras, recordações, lazer, repouso; e (vi) a experiência global vivida durante a estadia.
Huybers e Bennett (2003) defendem a aplicação do conceito cluster ao destino turístico, argumentando que, por um lado, os destinos turísticos são maioritariamente uma concentração numa região com determinados atrativos (sejam eles naturais ou criados); por outro lado, defendem a existência de várias empresas especializadas em diferentes estádios da cadeia de valor do produto turismo num destino turístico.
Relacionando o nível de clusterização com a competitividade de um destino turístico, Malakauskaite e Navickas (2010) apresentam uma relação positiva, defendendo que os clusters contribuem para a produtividade, inovação e empreendedorismo. Os autores fundamentam que as empresas que funcionam em cluster têm por norma mais facilidades: no acesso a informação específica, na mão-de-obra especializada, na capacidade de negociação e na entrada em novos mercados.
Estes autores vão ao encontro da ideia de Porter (1998), isto é, que os clusters trazem benefícios positivos para a competitividade ao criarem uma maior produtividade associada a uma maior eficiência e especialização das empresas, bem como condições favoráveis à aprendizagem e inovação. Ainda, neste sentido, Novelli et al. (2006) salientam a importância dos clusters no desenvolvimento regional pelo contributo positivo na produtividade, desempenho, capacidade e inovação e de conhecimentos para desenvolvimento dos negócios.
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Na mesma linha, um estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (2008) conclui que um cluster ou network de turismo pode aumentar a produtividade e o nível de inovação e desenvolvimento tecnológico das pequenas empresas, favorecendo a criação de uma imagem de marca e a capacidade de lobby, referindo que “clusters and networks can allow SMEs to combine the advantages of small scale with benefits of large scale” (OCDE, 2008: 44).
No que respeita ao turismo de natureza, Huybers e Bennett (2003) defendem a cooperação entre as empresas numa determinada região, que se materializa na criação de clusters de turismo, onde a natureza constitui a principal ativo regional de competitividade. Sublinham que, nos clusters de turismo de natureza, a cooperação é sobretudo ao nível ambiental e de sustentabilidade, muito embora existindo competição entre as empresas. Com uma organização em clusters, as partes adquirem benefícios e eficiência coletiva ao competirem com outros destinos turísticos concorrentes, ao mesmo tempo que a cooperação constitui uma forma de autorregulação alternativa à regulação externa e formal (Huybers e Bennett, 2003)
A criação de valor no turismo de natureza está intimamente relacionada com a cooperação entre todas as entidades que compõem esse micro cluster, segundo um estudo específico sobre o turismo de natureza em Portugal que refere:
“No turismo em geral, e em cada um dos sectores turísticos em particular, a produção de valor requer o desenvolvimento de um amplo e complexo sistema de recursos e atrativos turísticos, de infraestruturas e equipamentos, de serviços e de atividades que exige a intervenção de numerosos atores, tanto do sector privado como do sector público.” (Turismo Hotelería y Recreación, 2006: 40).
Pode, assim, verificar-se no Anexo II um esquema exemplificativo do processo de criação de valor no sector do turismo que aponta uma panóplia de entidades e atividades do sector privado a par da intervenção do sector público. Salienta a importância das políticas públicas em aspetos como o planeamento, a legislação, as infraestruturas, a formação, o marketing e, em específico, o papel do poder local com uma maior intervenção na estruturação e divulgação do produto da região. Neste processo está inerente o sector privado (os hotéis, os restaurantes, os transportes, os intermediários, os operadores, os fornecedores, o comércio, etc.) que opera no terreno e que contribui conjuntamente para uma rede de oferta e de criação de valor num micro cluster orientado para o turismo de natureza numa determinada região.
19 Um estudo da OCDE (2008) defende que o turismo não se limita a uma cadeia de valor, mas antes a uma rede de valor, considerando o turismo uma “networked industry” ou um “connecting business” que integra vários sectores, constituída por um vasto número de pequenas empresas, atores locais e players globais (privados e públicos). O estudo menciona que “value chains in tourism rarely correspond to the linear model of production that may exist in other industries. Rather it reflects the fact that tourism is a networked and complex industry with multiple entries into the value chains”. (OCDE, 2008: 42). O estudo demonstra que a internet introduziu uma mudança significativa na cadeia de valor do turismo, permitindo que os clientes (turistas) programem a sua viagem de forma autónoma, com informação e contacto direto com a oferta, principalmente ao nível dos transportes. Há alguns anos era mais comum a utilização de intermediários como as agências de viagem. O estudo aponta que os serviços da oferta de turismo que constituem o cluster são os transportes, as infraestruturas, os alojamentos e as atrações que podem ser de diversas ordens, sendo que tudo conflui numa característica intangível e específica do turismo: ser um produto/serviço de experiência. Esta ideia encontra-se exposta no Anexo III.
No que se refere ao turismo de natureza em áreas protegidas, Salvador et al. (2011) apresentam uma adaptação do modelo de Porter, apresentado no Anexo IV. Consideram a formação de cluster espontânea, defendendo uma rede de “networking” em que os elementos interagem e dependem uns dos outros. Assim, no caso do turismo em áreas protegidas, consideram como fatores da oferta: a mão-de-obra especializada, o ambiente natural e a oferta das empresas. Por condições da procura realçam: a pesquisa dos turistas, a dinâmica da procura e o respeito pelo ambiente.
No que respeita à estratégia, estrutura e rivalidade apontados por Porter (1990), Salvador et al. (2011) destacam: a estratégia do negócio, as dinâmicas da atividade e a perceção de risco. No turismo de natureza, as indústrias relacionadas (ou de suporte) são: os transportes, as empresas de publicidade, áreas protegidas e o património. À semelhança do que defende Porter (1990), são mencionados os dois fatores externos que afetam o micro cluster: o acaso e o risco associados e as políticas públicas.
Não obstante a defesa generalizada da cooperação, materializada na existência de um cluster (ou de um micro cluster), Neves (2008) realça que a realidade do nosso país apresenta-se ainda díspar. Identifica uma falta de visão global, de dinamização de redes, e na preservação da natureza e da biodiversidade, sobretudo em áreas protegidas.
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