• No results found

3.3 Delayed creation

3.3.2 Two-step creation model

Ao fazer a pergunta se “as ações afirmativas funcionam?”, Dworkin busca investigar a questão da eficiência dos programas de ação afirmativa, ou seja, se estes programas realmente conseguem atingir os resultados a que se propõem. Isto se mostra bastante importante porque grande parte dos ataques às ações afirmativas concentra-se nas suas conseqüências. A tese é que as ações afirmativas, ao invés de aliviarem a tensão racial, estão exacerbando-as. Dworkin sustenta que o problema com a análise da eficiência dos programas de ação afirmativa é que, tanto os defensores, como os críticos, se baseiam em dados superficiais. Além do que, a maioria apela a pressupostos tidos como de “senso comum” sobre como os brancos e negros devem e podem pensar ou agir. Em razão disto, Dworkin ressalta a importância de um estudo intitulado “The Shape of the River” 166. Segundo Dworkin, este é o “primeiro exame abrangente e estatístico das

conseqüências reais dos 30 anos de ação afirmativa nas universidades dos Estados Unidos” 167. A base de dados analisada neste estudo contém informações sobre mais

de 80.000 graduados que se matricularam em 28 faculdades e universidades seletas em 1951, 1976 e 1989. Instituições estas que aplicaram programas de ação afirmativa.

O estudo “The Shape of the River” considerou equivocadas, por exemplo, as

166 Este estudo foi traduzido para o português e pode ser encontrado em: BOWEM, G. Willian; BOK, Derek. O curso do rio: um estudo sobre a ação afirmativa no acesso à universidade. Tradução. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro, 2004.

afirmações de que as universidades aceitaram negros desqualificados via ação afirmativa, ou de que esta espécie de política acaba por prejudicar a auto-estima nas pessoas negras. De forma sucinta, as principais conclusões da pesquisa foram:  A ação afirmativa não aceita negros desqualificados. O estudo reconhece que

os candidatos brancos, em grupo, tiveram notas significativamente mais altas que os candidatos negros. Entretanto, é um erro supor que, por isso, os “negros retroativamente rejeitados” eram desqualificados para a formação que receberam. Isso foi concluído comparando-se a nota dos negros com o décimo inferior das notas dos brancos aprovados. De qualquer forma, o êxito profissional dos negros refuta qualquer hipótese de que os negros eram desqualificados para tal formação168.

Os negros não estariam em melhor situação se estudassem em instituições menos exigentes, nas quais se “encaixariam” melhor. Ou seja, os negros não

desperdiçam as oportunidades que lhes são dadas através das ações afirmativas, optando por uma escola mais exigente, que eles acabam abandonando e não concluindo o curso. Primeiramente, o estudo River aponta que o índice de evasão tanto dos negros quanto dos brancos (embora o dos negros seja maior) é tão alto que indica que as ações afirmativas não podem ser o problema principal. Em segundo lugar, o estudo mostra que o índice de evasão dos negros nas escolas seletas é pequeno em relação com os índices nacionais. Além disso, o índice de formatura de negro é progressivamente mais alto nas escolas mais exigentes, mesmo para os negros com notas mais baixas. O estudo River sugere que isso se deve ao fato das escolas seletas serem mais ricas e, portanto, possuírem mais recursos para bolsas de estudo e outros auxílios, como programas de orientação etc.

169

A ação afirmativa produziu, como se esperava, mais empresários, profissionais liberais e líderes comunitários negros bem-sucedidos. Como Dworkin

coloca, o êxito dos programas de ação afirmativa nesse aspecto pode ser visto pela: (a) quantidade, ou seja, aumento da renda ou do número de profissionais negros; e pela (b) qualidade, aumento de participação dos negros na sociedade, assumindo posições de liderança. Segundo o estudo, os negros das escolas seletas ganham mais que a maioria dos negros com diploma universitário, embora menos que os brancos diplomados nas mesmas instituições. O alto nível da escola que

168 DWORKIN, Ronald. A virtude soberana: a teoria e a prática da igualdade. p. 552-554. 169 Ibid., p. 554-557.

freqüentaram é parte importante da história de sucesso desses negros: quanto mais exigente a escola do negro formado, tanto maior será sua renda futura, mesmo que todos os outros fatores sejam os mesmos. E mais, o número de negros que participaram de instituições de serviços comunitários no grupo de 1976 foi quase o dobro do número de brancos170.

A diversidade racial no corpo discente da universidade ajuda a acabar com os estereótipos e a hostilidade entre os alunos, vantagem que continua na vida pós- universitária. Dworkin diz, com razão, que é difícil analisar atitudes e emoções. Não

obstante, o estudo de River mostra que, tanto os negros como os brancos (é bem verdade que mais os negros do que os brancos) acharam que conhecer pessoas de outra raça foi essencialmente importante (sendo que o percentual de brancos que assim pensava aumentou no decorrer do programa de ação afirmativa). O estudo provou que, embora houvesse auto-segregação racial nos campi, clubes, refeitórios, os “muros entre os subgrupos eram bem porosos” 171.

A ação afirmativa não prejudica os negros porque os insulta ou constrange ou destrói seu auto-respeito ou envenena a imagem do negro. Esse é um dos

argumentos “mais comoventes” contra a ação afirmativa. Dworkin diz que o fato de muitos negros importantes acreditarem que a ação afirmativa tenha incentivado essas suspeitas é o preço indubitável e lamentável de tal política. Entretanto, não são muitos negros e, portanto, o preço não é alto. A maioria esmagadora dos negros entrevistados em River aprova as políticas sensíveis à raça de sua universidade, ou seja, a maioria pensa que a ação afirmativa foi boa para eles, para aumentar sua renda e em outros aspectos menos materiais172.

Não seria possível manter a proporção de negros em instituições de prestígio se a ação afirmativa fosse abandonada e fossem utilizados os padrões de neutralidade racial. River supõe que as admissões com neutralidade racial teriam

diminuído entre 50% e 75% o número de negros em escolas seletas e entre 1,6% e 3,4% do número total de alunos admitidos nas 173 faculdades de Direito173.

Ante as conclusões do estudo River, o nível do debate elevou-se e é possível afirmar que os programas de ação afirmativa no ensino superior norte-americano vêm conseguindo alcançar seus objetivos imediato e de longo prazo, ou seja, pela

170 DWORKIN, Ronald. A virtude soberana: a teoria e a prática da igualdade. p. 557-559. 171 Ibid., p. 560-564.

172 Ibid., p. 564-565. 173 Ibid., p. 565-567.

adoção explicita do critério racial houve expressivo aumento dos profissionais negros em profissões prestigiadas e, concomitantemente, redução do grau de consciência racial174.