tml. Acesso 06/10/2012.
No Colégio Nossa Senhora do Rosário as meninas tinham aulas, entre outras matérias, de música e trabalhos manuais. O aprendizado musical, que primordialmente, fazia parte de um ideário da formação escolar feminina, estava presente de forma cristalizada em um programa de ensino que continha “disciplinas que favoreciam o desempenho da mulher como mãe, esposa e dona de casa” (TOFFANO, 2007, p. 51). Destacavam-se nesse ideário feminino as atividades de bordado, aprendizagem de línguas, geralmente francesa, e atividades artísticas de dança e música, sendo as mais frequentes – a música vocal e o piano.
Consta nos registros da época que a música tinha um lugar sedimentado no currículo das disciplinas oferecidas, principalmente nos colégios particulares ou no ensino em domicílio, como um das prendas domésticas femininas ou como forma estreitamente associada a essas prendas. (TOFFANO, 2007, p. 51)
O conhecimento musical ministrado, em sua maioria, era reproduzido de instituições europeias de onde cada freira-professora era originada, algumas ordens, no entanto, possuíam irmãs que chegavam a se especializar em
centros mais avançados brasileiros como é caso de Sor Braga, do Colégio Nossa Senhora do Rosário, que fez uma especialização no Rio de Janeiro.
[...] me lembro... a diretora do colégio era Julieta Braga, e a minha professora de piano, a primeira foi... a gente chamava Sor, né?, Sor Lima, aí depois de Sor Lima, foi Sor Braga. Era Julieta Braga o nome dela, a gente chamava Sor Braga, essa era muito competente, tinha um curso.... no Rio de Janeiro, né? Na Universidade de lá, aí, eu fiquei estudando até...até parece 29 ou 30. (Júlia Nóbrega, 2011).
O ensino da música nos colégios religiosos era possuidor de confiabilidade, uma vez que o mesmo fazia parte da formação de “damas bem educadas”. O dedilhar do piano estava restrito às famílias de posses que eram as que poderiam ter acesso à aquisição tanto do bem cultural, como do material – o instrumento piano. Era um instrumento, portanto, que se adequava às necessidades prementes de ascensão cultural da elite paraibana.
Toffano (2007) acredita que o mundo pianístico era um mundo feminino, principalmente porque era uma atividade ligada as coisas domésticas, além disso, tocar piano era sinônimo de possuir refinamento e cultura, qualidades estas que toda moça deveria possuir para ser um bom partido para o casamento. Desse modo, o ensino pianístico nas escolas religiosas era de acesso restrito ao gênero feminino, visando uma proposta educativa, porém não profissionalizante. Nas instituições de ensino religioso masculinas raramente se encontravam o ensino de música e, menos ainda, o ensino de piano.
Tal fenômeno de aculturação pianística partia de um objetivo de formar, sob uma orientação humanista, a mulher da época. Nesse sentido, consideramos pertinente para o contexto as ideias propugnadas por Chervel (1991, p.109), quando nos indica que:
las disciplinas escolares intervienem asimismo en la historia cultural de la sociedad. Su aspecto funcional reside en la preparacion de la aculturación de los alumnos de acordo com determinados objetivos: es el aspecto que explica su genesis y constituye su razón social.
Assim, observamos nesse contexto, que a disciplina piano inicialmente estabelecida nesses Colégios para orientar a condição social feminina, passou
a exercer um duplo papel formativo, visto que, a função inicial reproduzida na cultura escolar foi se ampliando, gerando um novo padrão comportamental, já que, aos poucos, essas mulheres foram ultrapassando os limites determinados para o cumprimento de seu papel na sociedade. Desse modo, apesar de o ensino de piano nas instituições confessionais não terem o objetivo de preparar pianistas ou formar professoras de música, esse foi o caminho percorrido. Como poderemos ver mais adiante nos relatos de Dona Júlia Nóbrega, quando ressaltou que a entrada no Colégio do Rosário foi determinante para a sua futura independência e à profissionalização.
Naquele momento histórico, estudar em um colégio, mesmo que confessional, significava uma atitude ousada para a mulher, principalmente porque possibilitava o acesso ao conhecimento, que era restrito ao mundo masculino. Nesse compasso, o conhecimento musical foi permitido, pois não oferecia tanto ‘perigo’ aos homens e à sociedade. Desse modo, foram surgindo professoras de piano e pianistas sem uma preocupação mais explícita com o desenvolvimento de habilidades para o exercício de uma profissão de musicista. Aprender tocar o piano
[...] embora estivesse incluído num contexto da educação formal, o instrumento não alcançava em nenhum momento valor algum em termos de profissionalização. Era apenas mais um item no acervo das chamadas ‘prendas domésticas’ necessárias para se fazer um bom casamento e, assim, exercer as funções de esposa e mãe dedicada, papéis para os quais a educação feminina deveria ser orientada e bem cristalizada. (TOFFANO, 2007, p. 52)
Na cidade de Alagoa Grande, além do ensino musical que era desenvolvido no interior do Colégio Nossa Senhora do Rosário existia, também, uma outra escola de ensino musical. Freire (1998, p. 31) nos traz notícias da existência dessa escola de música que funcionou desde 1908, ou seja, onze anos antes da fundação do Colégio. Essa escola de música de Alagoa Grande possuía cerca de 100 alunos e “[...] nos tempos áureos, cinco em cada mil habitantes chegam a frequentar suas salas de aula [...]” (MOURA, 2001, p. 29). Segundo Freire (1998, p. 31), o ensino na escola:
era uma espécie de ensino rudimentar ou primário, nem por isto menos útil à vida local, visando primordialmente a formação de bandas que tivemos: a Peregrino de Carvalho e a Maciel Pinheiro, filiadas a clubes e políticas rivais, a última, fundada por Ernesto Cavalcanti.
Como temos poucos relatos sobre esta escola de música em Alagoa Grande, fica difícil aquilatarmos como era o seu ensino e se existia o ensino de piano nessa entidade. Podemos apenas concluir que, se era uma escola rudimentar, primordialmente para a formação de bandas, coisa muito comum nas cidades interioranas do nordeste, dificilmente poderia haver o ensino de um instrumento como o piano e, provavelmente, o lugar da mulher nesta escola era quase inexistente.
Nas primeiras décadas do século XX, em Alagoa Grande, o aprendizado pianístico, de forma genérica, era ainda elitizado, no entanto, já havia um movimento educativo musical, tanto nacional quanto local, no sentido de estender o acesso a este tipo de conhecimento a um maior número de pessoas. Em Alagoa Grande, porém, e particularmente D. Julinha, ainda se encontrava sob as convenções sociais e preceitos educativos, descritos anteriormente, que eram impostos às mulheres de seu tempo. Por pertencer a uma família influente da cidade, uma vez que o seu tio Felix Guerra foi um dos prefeitos de Alagoa Grande, D. Júlia teve plenas condições para desenvolver as suas habilidades pianísticas, já que possuía acesso ao conhecimento musical formal e ao instrumento para dedilhar.
Como já mencionado, foi no Colégio Nossa Senhora do Rosário que Dona Júlia aprendeu a arte pianística. Segundo seu depoimento, ela foi incentivada pela família, a despeito do senso comum presente à época que tratava tal atividade sem nenhum compromisso mais profundo com a produção intelectual artística. Tal fato, a respeito da mentalidade incutida na sociedade local, é retratado, mesmo que brevemente, nas suas memórias quando nos relatou que: “fiz dois anos no curso normal, depois eu fiquei noiva, aí o meu avô disse: Ah! Quem vai casar não precisa [mais] estudar, (risos) aí eu deixei, né?”.(Júlia
Nóbrega, 2011).
Todavia, contra os prognósticos da época, e tendo deixado a Escola Normal, D. Julinha se profissionalizou e, mesmo após seu casamento com Raul
Onofre Nóbrega, em 1933, se manteve atuante como professora de piano e pianista da cidade.
[...] o piano continuei estudando. Sempre tocava nas festas lá de fim de ano, né? Toquei muito com Dulce Montenegro, não sei se você conheceu Dulce Montenegro?
[...] Ela era uma professora de piano, ela foi aluna também do professor Gazzi, e foi assim a minha vida de colégio.... Aí, em 1933 eu me casei. Em 1940, vim morar aqui e aqui fiquei, sempre lá, ensinava particular, em Alagoa Grande. (Júlia
Nóbrega, 2011).
Paulatinamente, portanto, novos paradigmas socioculturais foram sendo construídos na sociedade paraibana acompanhando, até certo modo, os novos rumos impressos pela capital brasileira. Nesse contexto a profissão de professora de piano e de pianista tomou rumos mais efetivos.
No Colégio Nossa Senhora do Rosário, o ensino de música, segundo Dona Júlia, acontecia numa rotina semanal, na qual uma hora de aula eram ministradas duas vezes por semana, inclusive com aulas de piano e teoria musical. As vezes essa rotina era quebrada quando, por razões outras, as irmãs ministravam aulas de piano aos sábados. As freiras ensinavam a técnica pianística, a partir de métodos como o Hanon – o pianista virtuose46 e Czerny47 que eram aplicados ao lado de outras obras do repertório erudito. Segundo D. Júlia, Sor Lima ensinava a iniciação ao piano e, Sor Braga ministrava aulas às alunas mais adiantadas do curso médio e superior: [...] Olha eu estudei no
Colégio, como eu lhe falei, em Alagoa Grande, com essas duas irmãs. Sor Lima e Sor Braga né?[...] a primeira iniciação e a segunda era mais adiantada curso médio e superior [...].
As atividades no Colégio aconteciam de modo a contemplar duas vertentes importantes da formação do pianista e do professor de piano. Trata- se do campo das práticas pedagógicas, vislumbradas nos métodos empregados pelas freiras e na proposta pedagógica de formação musical que contemplava o ensino teórico e o ensino do instrumento. No campo das
46 Hanon O pianista Virtuoso é um método para piano para o desenvolvimento da técnica,
através de 60 exercícios de velocidade de passagem de dedos, escalas, arpejos e acordes em todas as tonalidades maiores e menores. No método são trabalhados arpejos, escalas, exercícios para adquirir agilidade, independência, força e igualdade, além de extensão dos dedos, passagem do polegar, trinos entre outras dificuldades.
47 Coletânea de exercícios para piano composta de vários volumes em grau de dificuldade
práticas de performance, era contemplada a partir das frequentes apresentações musicais que as freiras organizavam e que, segundo D. Júlia, aconteciam nos finais de cada ano e em datas festivas. Tais apresentações tinham caráter avaliativo, além disso, eram também momentos de confraternização com as famílias das moças, que compareciam às audições para assisti-las tocar piano.
Durante o tempo em que esteve vinculada à instituição D. Júlia sempre participou das aulas de música e das atividades musicais promovidas pelo Colégio.
Foto 8. D. Júlia, com as colegas do Colégio Nossa Senhora do Rosário,