1 Introduction
1.2 Study area
1.2.2 Geology
Na perspectiva da lingüística funcional, os estudiosos adotam sobre a marcação um outro enfoque diferente daquele adotado pelos seguidores da lingüística estrutural. Esta, cuja tendência fundamental é a ênfase na autonomia das estruturas lingüísticas e sua independência em relação a realidades não lingüísticas, afasta-se, portanto, da concepção funcionalista, que considera os aspectos e fatores da interação social, dos propósitos comunicativos dos usuários e das pressões estruturais e semânticas que incidem sobre o sistema lingüístico.
A esse respeito, Croft (1990) explica que a hipótese de binaridade proposta pela noção tradicional de marcação tende a ser inadequada. Segundo esse autor, geralmente as formas lingüísticas não podem ser analisadas com base num parâmetro totalmente dicotômico, uma vez que existem nas línguas naturais evidências incontestáveis da plena inaplicabilidade desse procedimento.
Com isso, mediado por vários tipos específicos de assimetria, o conceito tipológico de marcação está relacionado às propriedades gramaticais assimétricas ou irregulares de elementos lingüísticos regulares. Esse fato, na verdade, impõe a necessidade de se associar o estudo da marcação com os conceitos básicos de hierarquia (= graduação) e de protótipos.
De fato, muitas categorias gramaticais têm mais que dois valores. Em função disso, seria mais produtivo e coerente falar-se de uma marcação relativa, gradiente. Por isso, configura um engano identificar marcação tão-somente com a evidência de marcas formais de natureza binária.
Votre (1994), Silva (2000) e Costa (2001) assumem posição idêntica em torno da abordagem dessa matéria. Em trabalho, aqui mencionado, Silva reconhece um “caráter gradiente” para a marcação, e propõe o emprego dos termos +marcado e -marcado, em substituição à terminologia clássica de marcado e não-marcado.
Convém destacar que Lyons (1979, p. 81) também já admitia a estratégia de empregar os termos marcado e não-marcado num sentido mais abstrato, de modo
que os termos marcado e não-marcado de um par opositivo não se distinguissem “necessariamente pela presença ou ausência de uma certa unidade manifesta”. Com base nesses fatos, faço opção pelo emprego desses termos ajustando-os à natureza escalar do fenômeno aqui em análise.
Com vistas à análise da marcação prototípica, enumero abaixo os critérios propostos por Givón.
a) Complexidade estrutural > a estrutura marcada tende a ser mais extensa ou mais complexa do que a estrutura não-marcada correspondente.
Segundo Meillet (apud CROFT, 1990), a expressão discursivamente recorrente sofre encurtamento físico, ficando mais econômica estruturalmente. Esse fato atesta uma maior versatilidade funcional das formas não-marcadas. Pois, caso contrário, seria antieconômico que as formas não-marcadas tivessem mais informações categoriais que as marcadas.
b) Distribuição de freqüência > o elemento marcado tende a ser menos freqüente do que o correspondente não-marcado.
Em conseqüência, do ponto de vista cognitivo, os membros prototípicos de uma categoria tendem a ser mais usados pelos falantes. Assim, tornam-se as formas mais recorrentes e menos marcadas, nos textos, sejam estes orais ou escritos.
c) Complexidade cognitiva > a categoria marcada costuma parecer cognitivamente mais complexa do que a não-marcada correspondente. Considerando os fatores dispêndio de energia mental e tempo de processamento, seja na codificação ou decodificação de mensagens, nota-se haver uma correlação direta deste critério com os dois anteriores. Ou seja, as pessoas tendem a empregar verbalmente as formas lingüísticas menos extensas, mais recorrentes, mais simples e conhecidas (COSTA, 2001).
De acordo com Furtado da Cunha (1999), as línguas demonstram uma tendência geral para a combinação desses três critérios de marcação, e isso é prova
da existência do fenômeno global da iconicidade77 na gramática. Em outras palavras, o isomorfismo entre correlatos substantivos – comunicativos e cognitivos – e correlatos formais de marcação pressupõe que as categorias lingüísticas que são estruturalmente +marcadas tendem a ser conceptualmente +complexas, +marcadas e -freqüentes.
Votre e Oliveira (1997) afirmam que Givón (1995) apresenta a marcação (markedness) como meta-iconicidade. Mostra a relevância desse conceito para a análise das tendências de mudança e estabilização da língua em uso. Givón reconhece que o conceito é dependente do contexto, no sentido de que uma construção pode manifestar-se como marcada num contexto e não-marcada noutro. Desse modo, constata também que os critérios de marcação se entrelaçam e interagem para definir determinada unidade lingüística como marcada. O item marcado é mais complexo em termos estruturais e cognitivos e menos freqüente que seus pares. Nesse sentido, os argumentos de Givón são particularmente interessantes na análise da correlação entre marcação e tipo de texto, em que ele examina as oposições oral-escrito, acadêmico-informal, narrativa-procedimento.
Nesse sentido, no tocante aos pré-fabricados lingüísticos, de modo particular os construtos idiomáticos (SVIs), serão submetidos à análise de sua estrutura formal e conceptual, para verificação dos padrões peculiares de marcação.
A respeito dessas construções lexicalizadas (cristalizadas), ou em vias de lexicalização, cabe ainda mencionar aqui o trabalho de Garrão e Dias (2003), baseado em Neves (1999), que trata da delimitação das unidades lexicais partindo da investigação do comportamento de construções com verbo-suporte, em contraste com o funcionamento de outras construções de formação semelhante. Veja o gráfico a seguir:
77 Embora seja mencionado em alguns lugares deste trabalho, o fenômeno da iconicidade não se
constitui foco desta investigação. Os aspectos, possivelmente descortinados pela aplicação desse princípio cognitivo-funcional, se enquadrariam, necessariamente, numa pesquisa específica ulterior.
Gráfico 2 – Escala de unicidade lexical
Fonte: Garrão e Dias (2003).
Segundo os autores supracitados, na extremidade esquerda, tem-se as combinações formadas com verbos plenos e sintagmas nominais complementos, que são completamente livres – consolidar a estrada; findar propostas, com os dois elementos exercendo papéis independentes na estrutura argumental; na extremidade direita, tem-se as expressões que exibem um significado unitário, em que “nem mesmo parece ser possível postular um SN em posição de objeto” (NEVES, 1999, p. 99), como dar um pulo, tomar partido. E entre estes dois graus extremos de construção, existem as construções intermediárias78, constituídas dos chamados verbos-suporte, que apresentam certo grau de esvaziamento do sentido lexical, no entanto, semanticamente contribuem para o significado total da construção – dar um riso, ter confiança.
Numa tentativa de interpretação da escala de unicidade lexical, poderia afirmar- se – sob a perspectiva teórica norteadora desta pesquisa – que as construções posicionadas no continuum escalar são todas ocorrências de pré-fabricados lingüísticos do tipo SVI. Em princípio, as construções situadas à esquerda da escala seriam -marcadas, as localizadas à direita seriam +marcadas, e aquelas que orbitam 78 Particularmente, considero difícil de compreender o procedimento de Neves (1999), visto que as
“construções livres”, as “construções intermediárias” (com verbo-suporte) e as “expressões cristalizadas” exibem morfológica e sintaticamente o mesmo perfil funcional: verbo transitivo + objeto
direto. E semanticamente são interpretadas como um bloco compacto e unitário (unidade lexical). Além disso, considerar dar um riso e ter confiança construções com verbo-suporte apenas porque ainda podem ser “traduzidas” por verbo pleno de semântica similar, “rir” e “confiar”, respectivamente, é metodologicamente insustentável. Vejo mais: por exemplo, a autora classifica o verbo das construções livres, das construções com verbo-suporte, mas nada diz sobre o verbo das construções cristalizadas. Seria mais plausível, a meu ver, descrevê-las todas como construções idiomatizadas (pré-fabricadas) com diferentes graus de lexicalização.
no espaço intermediário seriam ± marcadas. Com isso, quanto maior o grau de unicidade lexical, menos variação estrutural e funcional a construção exibirá, configurando um amálgama morfossintático, com sentido e uso pragmaticamente definidos (cf. seção 4.1.1).