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2 Methodology

2.2 GPR survey

2.2.3 Data processing

Durante séculos predominou uma suposição, baseada em teorias tradicionais, de que a mente humana é literal, responsável pela objetividade e veracidade na representação simbólica dos referentes do mundo físico-social.

Nessa visão tradicional, a linguagem poética seria oriunda do coração. A natureza estética dos textos poéticos – a discursividade metafórica – estaria intimamente condicionada às palpitações emocionais do coração, fonte primeira dos sentimentos humanos.

Dessa forma, a princípio, impunha-se fortemente a distinção entre linguagem poética ou literária e a linguagem comum. A partir dessa visão dicotômica, a metáfora era vista como recurso exclusivo da linguagem dos poetas (literatos), cabendo às outras pessoas comuns (povo) o uso coletivo da linguagem vernacular, o linguajar comum cotidiano (LIMA, 1999).

Certamente, a dicotomia metafórico/literal já está posta na Grécia antiga, pela filosofia platônico-aristotélica. Platão fazia uso, conscientemente, de abundantes alegorias, analogias, metáforas em seus discursos. Mas, em princípio, foi Aristóteles, nos livros Retórica e Poética, quem primeiro estabeleceu, de modo mais didático, algumas definições sobre metáfora (“a metáfora consiste no transportar para uma coisa o nome de outra”). Assim, Aristóteles teria dado início à tradição que concebe a metáfora enquanto um uso desviante da linguagem em oposição a um uso normal e comum.

Em nossos dias, tal concepção ainda se mantém vigente em alguns círculos de estudos lingüísticos. Contudo, muitos estudiosos da linguagem têm formulado críticas rigorosas a essa suposta concepção aristotélica. Sustentam uma posição que compreende a metáfora não como um instrumento na organização discursiva. Ao contrário, a metáfora estaria na origem e no fundamento da linguagem, e teria primazia sobre o plano literal.

Nesse sentido, durante o crescimento de uma criança, pode se observar que ela usa a linguagem para se referir a objetos ou pessoas concretas. Seu primeiro léxico constitui-se de palavras designativas de referentes próximos e tangíveis (pai, mãe, água, etc.). Com o passar do tempo, adquirindo maturidade social e lingüística, ela amplia seu restrito vocabulário, inserindo novos registros lexicais com base nas famílias de objetos (fruta, comida, roupa, etc.). A tendência, com o avançar da idade, é a criança combinar ou associar essas famílias de objetos com outras famílias de objetos, nos processos de designação das inúmeras experiências humanas, passando de um nível concreto a um nível abstrato de representação conceptual. Ao comentar, por exemplo, que “o professor é um pai para mim”, a criança estaria

conjugando famílias de objetos diferentes, fazendo uso, portanto, da metáfora (ALVES, 2006).

Descobrindo primeiro as palavras e a linguagem, para referir e designar os objetos e pessoas do seu convívio social imediato (família), a criança – no compasso contínuo e progressivo de seu desenvolvimento intelectivo-cultural – alcança o estágio de compreensão que lhe permite interpretar que as palavras também constroem os próprios objetos.

Isso posto, importa entender que a linguagem não é tão-somente um veículo de conhecimento, mas também o encontro da experiência humana com o mundo real. É exatamente nesse confronto de paradigmas que a Lingüística Cognitiva vai estabelecer as bases para descortinar as nuances que envolvem a metáfora.

Como foi mencionado antes, a metáfora sempre recebera um tratamento sob o enfoque da criatividade poética, vista enquanto figura de estilo. Contudo, para a Lingüística Cognitiva, a metáfora se constitui num processo cognitivo. Em função disso, interessa-lhe a metáfora literária, mas sobremaneira a metáfora que emana da linguagem cotidiana. São as “metáforas mortas”88 – cujo sentido foi totalmente apreendido pelos falantes de determinada comunidade, que se tornam objeto de estudo pelos pesquisadores filiados à ciência cognitiva. A metáfora, com a LC, deixou o mundo exclusivo das palavras e do seu jogo artístico para se situar no mundo dos pensamentos (ALVES, 2006).

A percepção de que a linguagem é impregnada de metáforas levou muitos estudiosos a adotarem uma nova visão da mente. A metáfora passa a ser concebida como elemento importante no processo de entendimento da própria compreensão humana e não mais como um mero ornamento do discurso (LAKOFF; JOHNSON, 1980).

Cabe ressaltar que a função da metáfora, portanto, é estender as capacidades de comunicação e conceitualização do ser humano. A metáfora é um instrumento que incorpora e transporta conhecimentos relevantes e centrais numa

88 A “metáfora morta” equivaleria a uma simples expressão que não tem mais uso metafórico. Assim

sendo, um leitor competente do inglês não compreenderia a expressão familiar “falling in love” (estar/ficar apaixonado) como uma metáfora (BLACK, 1979). Igualmente, um falante de português não recupera mais a transferência analógica (metafórica) do SVI “morrer de fome”, que soa como uma expressão comum e literal.

dada cultura, sendo responsável pela redução da distância entre argumentos lógicos e emocionais no plano da produção verbal.

Sob a ótica cognitivista, as metáforas são mapeamentos entre domínios conceituais: a passagem de um domínio fonte para um domínio alvo. Na interação verbal, o falante transporta seus conhecimentos e inferências da fonte para o alvo.

Fazendo uma leitura de Lakoff e Turnner (1989), Cançado (2005, p. 100) afirma que “as metáforas nos permitem entender um domínio de experiência em termos de outro.” Essa autora enumera, ainda, uma série de metáforas comuns, na tentativa de mostrar a relevância desse fenômeno na linguagem cotidiana. Adaptado diretamente de Lakoff e Johnson (1980), Cançado expõe um grupo de metáforas espaciais, associadas à orientação para baixo – para cima. Observe alguns exemplos:

(44) Eu estou para cima hoje. Eu estou de alto astral. (Feliz é para cima) (45) Hoje eu estou me sentindo para baixo. (triste é para baixo)

(46) Ela é uma cidadã de alta categoria. Ela é uma pessoa de alto valor. (virtude é para cima)

(47) Ele é um cidadão de baixa categoria. Ela é baixa em seu comportamento. (depravação é para baixo)

Essas metáforas, segundo Lakoff e Turnner (1989), parecem ser baseadas em nossa experiência corporal de deitar e levantar e associações com as noções de consciência, saúde, poder, entre outras. Esses autores também identificam um conjunto de características que funcionam como propriedades sistemáticas da metáfora: convencionalidade, sistematicidade, assimetria e abstração.

A convencionalidade está relacionada ao grau de novidade da metáfora. Eis alguns exemplos89:

(48) O candidato voou no concurso.

(49) O computador nos prende em suas janelas.

Em (48) temos um caso de metáfora mais velha que em (49). O exemplo (48) já se tornou uma expressão fossilizada ou uma metáfora morta (SEARLE, 1979). Todavia, para os autores cognitivistas, prevalece um entendimento contrário a essa posição, quando argumentam que as metáforas comuns e familiares podem ser renovadas, revitalizadas, preservando o seu status metafórico.

A sistematicidade refere-se a uma associação não apenas entre um conceito e outro, mas entre vários dos conceitos participantes do campo semântico concernente ao domínio alvo e ao domínio fonte (CANÇADO, 2005). A partir da metáfora cristalizada tempo é dinheiro, muitos dos conceitos relacionados a noções financeiras são transferidos para os conceitos que envolvem tempo. Veja alguns exemplos90.

(50) Esta casa me custou metade de minha vida. (51) O pai investiu muito no futuro dos filhos.

(52) Estou perdendo tempo com esse carro enguiçado. (53) Aproveitei o feriado para adiantar meu relatório. (54) Com o computador, economizei horas de trabalho.

A assimetria se refere à natureza direcional da metáfora. As comparações entre dois conceitos não são simétricos, visto que a metáfora provoca tão-somente uma transferência de propriedades da fonte para o alvo. Pode-se ilustrar essa trajetória com a metáfora a vida é uma viagem. Nessa metáfora, o mapeamento é assimétrico e funciona em uma única direção: da viagem para a vida. Não se realiza a direção contrária, da vida para a viagem. Formulo, com base em Cançado (2005), alguns casos91:

(55) A sua informação é meu ponto de partida.

(56) Aposentado, agora deseja navegar em outros mares.

(57) Cansado de lutas, achava que já ultrapassara o fim da estrada.

90 Exemplos também adaptados de Cançado (2005). 91Idem.

A abstração se relaciona com a falta de simetria no processo metafórico. É ponto consensual entre os estudiosos conceber a noção de que uma metáfora típica usa uma fonte mais concreta para descrever um alvo mais abstrato. Consequentemente, é muito mais concreta a experiência comum de se locomover, fisicamente, de um lugar para outro no espaço geográfico, do que a fantástica e mais abstrata experiência de nascer, viver, envelhecer, morrer.

Na visão de Cançado (2005, p. 103), “esse ponto de vista do concreto para o abstrato permite relacionar as metáforas a um papel central de organizadora de novos conceitos e organizadora de experiências”. Na verdade, contudo, há a tendência na língua de ocorrer também metáforas em que a fonte e o alvo podem ser igualmente concretos ou abstratos.

Sendo assim, os domínios integrados equivalem a conhecimento lingüístico, enciclopédico, social, etc., dos quais se extraem os inputs para a mesclagem92. Podem ser eventos, atividades, papéis sociais, etc. Na linguagem, há significados produzidos a partir de irradiações de conceitos já existentes. A expressão “vírus de computador”, por exemplo, advém de se saber que o organismo humano (domínio biológico) pode ser atacado por vírus, que vai provocar-lhe alguma doença e/ou dano. A metáfora conceptual CORPO É MÁQUINA nos possibilita “ver” o computador (máquina) como organismo. Mesclando tais conhecimentos, temos a metáfora COMPUTADOR É ORGANISMO, que permite uma nova projeção: a expressão lingüística “vírus de computador”. Tal expressão referencia um tipo de programa destinado a danificar os dados armazenados no sistema (domínio de artefato) de modo a comprometer sua integridade, assim como acontece com o organismo humano vitimado por uma doença virótica. Nesta mesclagem, ocorre um processo de integração multidirecional, bem distinto do processo de integração composicional linear (cf. JESUS, 2005).

Feitas essas considerações acerca do estatuto da metáfora, adianto que os pré-fabricados lingüísticos do tipo SVI – alvo desta pesquisa – serão submetidos à

92 A mesclagem (blending, em FAUCONNIER, 1997) é entendida como uma operação cognitiva

genérica que está presente nos diversos processos criativos (arte, construções lingüísticas, etc.). Tal processamento implica esta configuração: dois domínios de conhecimento (Inputs 1 e 2); um terceiro domínio, o espaço genérico, que reflete as estruturas dos dois inputs, definindo a correspondência entre esses espaços; e um quarto domínio, o espaço mescla, que combina propriedades de ambos os inputs, mas também apresenta propriedades originais e organização estrutural própria, que é a sua estrutura emergente (FAUCONNIER, 1997; MIRANDA, 2000).

análise das motivações semânticas e pragmáticas. Para isso, é preciso descrever as configurações morfossintáticas (construções e estrutura argumental) projetadas pelo processo de metaforização, considerando a natureza prototípica e o caráter de figuratividade dos SVIs nos vários tipos de textos do corpus foco desta pesquisa.

4 ANÁLISE DOS DADOS

Hora de botar a mão na massa.

Neste capítulo, procedo à análise de natureza interpretativa do fenômeno em foco sob o suporte dos princípios teórico-metodológicos arrolados no capítulo precedente. Com base na descrição dos dados de fala, selecionados junto ao corpus integrante desta pesquisa, construo um conjunto de leituras sobre os SVIs inspiradas nos créditos de estudiosos da área, mas, em parte, condicionadas sobretudo à minha liberdade intuitiva93.

E é nesta perspectiva teórica – abordagem da linguagem em uso – que pretendo descrever os SVIs, tomando como premissas as evidências de que esses construtos idiomáticos são recorrentes na comunicação cotidiana, constituídos basicamente de V + O que ingressam, como expressões compósitas, no léxico94 vernacular de uma coletividade.

Trata-se, na verdade, de estudos explanatórios e descritivos sobre o objeto de análise que não exaurem os múltiplos aspectos – funcionais, semânticos e pragmáticos – que envolvem esta temática lingüística. E evoco essa delimitação investigativa em razão de propor-me a descrever, no universo das ocorrências de SVI, tão-somente as construções consideradas prototípicas em relação às matrizes verbais formadas por VT + OD e por VT + OD + [(AA1), (AA2), (CN)]. Em outras

palavras, esta análise se deterá no exame dos SVIs lexicalizados, ou em pleno 93 A postura intuitiva ante a interpretação dos dados deve-se, em certa medida, à escassez de

trabalhos com o perfil teórico-metodológico adotado nesta abordagem.

94 A concepção de léxico como algo caótico deve-se, segundo a semântica estruturalista, à confusão

entre léxico e dicionário. O léxico é estruturado, e o caos fica relegado para o dicionário, que é apresentado como um suplemento da gramática em forma de listagem de irregularidades essenciais (VILELA, 1979, p. 33). Para Gleason (1975), o léxico como nível de análise ou setor da estrutura lingüística, nunca teve um tratamento adequado e foi sempre posto de lado nas investigações lingüísticas. Arrastava-se, segundo este autor, a herança da tradição bloomfieldiana, que considerava o léxico como um apêndice da gramática, em forma de listagens de irregularidades, – “Indeed ‘irregular’ is almost a tabooed word for many of us”, escreve Gleason (1975, p. 86-87). Enquanto isso a lingüística descritiva estava interessada quase exclusivamente nas regularidades (ou na “estrutura”). Gleason (1975, p. 85) distingue entre níveis de análise lingüística e instrumentos ou produtos da investigação lingüística. Assim, há distinção, por um lado, entre léxico e gramática (sintaxe), considerando-os como dois níveis de análise ou dois setores da estrutura da língua, e, por outro lado, entre dicionário e gramática (tratado gramatical), considerando-os agora como dois instrumentos ou produtos da investigação lingüística (ver p. 27 e 186).

processo de lexicalização, cujas propriedades morfossintáticas e semântico- pragmáticas já estão arquivadas na memória léxica e são, comunicativamente, compartilhadas pelos falantes de uma dada comunidade lingüística.

Em particular, as construções sintagmáticas que já percorreram o itinerário, ou estão em pleno curso de lexicalização, são as que denomino de construtos idiomáticos, mais especificamente de sintagmas verbais idiomatizados.

Convém enfatizar que adoto este posicionamento respaldado pela própria teoria funcionalista que, através de suas estratégias procedimentais, avaliza a abertura para se desenvolver uma abordagem lingüística, entre outras opções, direcionada à descrição de fenômenos prototípicos (regulares, sistemáticos e recorrentes).

De fato, tanto a teoria funcionalista quanto a cognitiva prevêem a alternativa metodológica de se trabalhar com fenômenos tipológicos, que são, em princípio, mais salientes conceptual e discursivamente. Obviamente, os casos atípicos e desviantes são também merecedores de atenção e de um tratamento adequado e consistente. Porém, didaticamente, parece ser mais profícuo e atrativo um trabalho que procure dosar, gradativamente, conteúdos simples com conteúdos mais complexos. Essa estratégia, a meu ver, garante um processo de aprendizagem ascendente, produtivo e coerente.

Essa preocupação metodológica tem muito a ver com o viés pedagógico pertinente a esta pesquisa, de modo que se tenta aproximar a análise das ocorrências de SVIs dos fatos lingüísticos costumeiramente estudados em sala de aula, seja do Ensino Médio ou do Ensino Superior. Com isso, repito, as categorias de análise aqui selecionadas e aplicadas procuram manter, em primeiro plano, o exame dos casos mais típicos e freqüentes, para em seguida cobrir alguns exemplares de casos desviantes.

Ancorado nestes fundamentos, passo a descrever, nas seções seguintes, os SVIs mais representativos em relação a cada categoria ou parâmetro de análise.