Reflete-se sobre as raízes histórico-pedagógicas da Educação Física no Brasil, com um olhar crítico em torno das caracterizações preponderantes assumidas pelos professores e destes na relação com os estudantes. Almeja-se como perspectiva contribuir com um suporte teórico crítico que auxilie na renovação pedagógica dessa área, em busca de autonomia e transformações no intervir educativo do professor, em suas interações no contexto sócio- educativo.
Para tanto, é imprescindível não esquecer que a Educação Física traz como herança histórica, conforme relatado por Betti (1991), a opção de um modo reprodutivista de modelos de atividade física, caracterizado por não relevar as necessidades dos estudantes e suas diferenciações; pelo perfil passivo e submisso do estudante, ao qual cabia repetir mecanicamente os exercícios sob as ordens do professor, que restringia seu pensar e agir próprio; pela forma reprodutora das características do trabalho, dentre elas obrigatoriedade, ênfase em resultados, limitações espaço-temporais; pela imposição de regras e condutas pré- determinadas e inquestionáveis; e por intervenções autoritárias externas como via de resolução das questões que emergiam no grupo, privando os estudantes de desenvolverem a capacidade de decisão própria nas soluções de conflitos.
Acredita-se que apesar de ainda fazerem parte do contexto pedagógico da Educação Física até hoje, essas influências de caráter técnico, higienista e militar, foram atenuadas. E de acordo com descrições de Bracht (2003, p. 24), foi “a partir do contato com o debate pedagógico brasileiro das décadas de 70 e 80, que profissionais do campo da Educação Física passam a construir objetos de estudo a partir do viés pedagógico”. As investigações teóricas são norteadas por reflexões nas áreas das ciências humanas e sociais, propiciando ao professor uma sustentação pedagógica ao seu discurso.
Para Bracht (2003) algumas publicações no âmbito da Educação Física vêm se ocupando em reforçar uma teoria dessa área com um caráter prático pedagógico, na tentativa de estruturar um corpo teórico que se desvencilhe das influências da simbologia do sistema esportivo, como fator importante de construção da autonomia da Educação Física num contexto pedagógico. Articula-se assim, a busca para traçar novos rumos para a práxis da Educação Física e de seus profissionais, com o questionamento, renovação e reconstrução de seus referenciais pedagógicos.
Porém, aos professores de Educação Física faltam referenciais fundamentados de perspectivas pedagógicas de atuação, pela própria dificuldade de aquisição de autonomia e de identidade da Educação Física, de acordo com as idéias de Bracht (1989). Pois os professores não conseguem distinguir as funções de treinador e professor, tornando-se imprescindível a
necessidade de construção da autonomia pedagógica da Educação Física que envolva uma reflexão crítica das funções da escola no âmbito social. Para Marinho (1983), os conhecimentos técnicos devem ser utilizados como meio e não tornar-se o foco central do ensino da Educação Física, pois a função do professor supera estes conhecimentos, em vista da perspectiva de formar-se no Ensino Superior de Educação Física professores e não atletas.
Sinaliza Betti (1991) que o transcorrer das transformações da Educação Física na atualidade, baseia-se numa proposta sócio-política de uma personalidade que configure um homem capaz de refletir criticamente, e que seja criativo e consciente. Essa proposição é oriunda de um momento histórico de mudanças rápidas e recorrentes, da necessidade de profissionais preparados e seres humanos capacitados para lidar com as incertezas e os problemas político-sociais mais diversos no cenário educativo.
Em decorrência dessas questões a formação em nível superior de Educação Física no Brasil, atualmente é cenário de muitas discussões que fazem emergir conflitos no campo de suas próprias diretrizes curriculares. Consta no Parecer do Conselho Nacional de Educação/ Câmara de Educação Superior - CNE/CES no 0058/2004, de 18 de fevereiro de 2004, que delineia as Diretrizes Curriculares Nacionais dos cursos de graduação em Educação Física, que o graduado em Educação Física deve superar a aquisição do domínio de conteúdos específicos da atuação profissional nessa área para compreender e resolver as problematizações envolvidas no seu trabalho; apresentar um perfil autonômico para tomar decisões e assumir suas opções e as consequências destas em sua intervenção acadêmico- profissional; além de questionar de forma crítica sua postura e seu contexto de atuação, interagindo no meio acadêmico-profissional e na sociedade de forma cooperativa.
Acredita-se que para formar profissionais com esse perfil, necessita-se problematizar o processo de ensino-aprendizagem numa perspectiva de autonomia e compreender que a questão central atual, referente à atividade profissional, está na falta de reflexão crítica e questionamento da própria atuação, por isso, torna-se necessário analisar o próprio fazer pedagógico e este em confronto com os demais. Para a viabilidade dessa perspectiva, Neira (2006) diz que precisa-se de critérios que proporcionem a efetivação de uma avaliação fundamentada, pois hoje a problemática supera a detenção de saberes teóricos, sendo mais relevante saber se no cotidiano pedagógico, os saberes são mobilizados e renovados, para que outros conhecimentos possam emergir desse processo.
A questão da formação do professor de Educação Física perpassa pela crítica ao modo de estabelecer as relações pedagógicas, que durante muito tempo foi marcado por características desniveladas, autoritárias e submissas que repercutem até os dias atuais. É
importante que esse modelo seja questionado principalmente no ambiente acadêmico, responsável pela formação dos futuros profissionais dessa área de conhecimento. A noção de autonomia como processo pedagógico, configura a concepção de que a educação, em concordância com Neira (2006), é voltada para uma sociedade com pessoas que nela realizam seus projetos conforme a visão de homem como sujeito. Ou seja, o indivíduo que dinamicamente busca a compreensão do mundo no qual se insere e uma forma de intervenção, para solucionar os questionamentos que dele emergem; é o indivíduo que utiliza suas próprias atuações na realidade para entendê-la e elabora suas categorias de raciocínio, paralelamente à sistematização de seu mundo.
Acredita-se, assim como Neira (2006), numa reorganização do fazer pedagógico como fomentador do desenvolvimento da autonomia, da harmonia pessoal, das relações entre as pessoas e da inserção no contexto social; o que se configura como fundamental, para nortear as ações do professor, fruto de sua maneira de ver a sociedade e a função que as pessoas desempenham nela.