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A palavra fundamento aparece ao lado da palavra história, unida pela conjunção aditiva e, na fala da professora 1: “História e também o fundamento do povo. As histórias do povo, de cada clã, de cada subclã, passadas de geração em geração.”. Nesse sentido, ela cumpre a função de estabelecer, por meio da narrativa, os princípios que orientam o povo em sua divisão por clãs e subclãs, como algo que vem se mantendo entre uma geração e outra. São “histórias que vem lá do fundo” por serem narrativas que explicam as origens.

Ressalto que o sentido aplicado à ideia de manter está ligado às considerações de Sahlins (1987, p. 7) quanto à capacidade que os homens têm de criativamente repensar seus esquemas convencionais tanto em relação de organização de diferenças internas à cultura quanto em relação de contatos interétnicos. No caso Bororo, a abordagem feita é quanto ao modo como a geração presente de Tadarimana está narrando, por meio de sua vivência social, os seus fundamentos.

Nesse narrar, valores e virtudes de uma vida voltada à coletividade não poderiam ser perdidos de vista, de modo a não distanciá-los de uma ética social característica, conforme disse o professor 2:

Bakaru é o local onde estão os códigos de conduta do Bororo. Então, Bororo que não observa bakaru, Bororo que perdeu de vista o bakaru, ele não vive mais como Bororo. Ele é Bororo politicamente, né. Muitas vezes, na condição de Bororo ele fica muito aquém. Ele não, os pensamentos dele não são de um Bororo. Ele começa a pensar na individualidade, ele começa a querer ter as coisas, querer juntar as coisas só pra ele. Então, ele começa a querer trapacear o próprio companheiro. Isso não tá dentro da ética bororo. E ética dentro do bakaru diz bem claro, não permite essas coisas. Agora, se uma pessoa que perdeu de vista o bakaru é... ele começa a fazer dessa forma. Os não índios chamam isso de corrupção, ele se corrompeu, né. Houve uma corrupção, houve uma quebra de um círculo, porque esse bororo perdeu de vista o bakaru. (Professor 2).

Esse aspecto de conduta característico do grupo tem sido chamado na etnografia Bororo como a reciprocidade que deve prevalecer entre os clãs das metades, por meio de prestações de serviços cerimoniais envolvidas numa rede de relações prescritas, fundamentais para o funcionamento da sociedade concebida à luz do bakaru.

Quando o Bororo evidencia isso no seu modo de viver, está agindo segundo as prerrogativas do seu código social e conforme a relevância que está dando a ele. Na Aldeia Central, a quebra de uma das regras desse código de conduta pareceu não estar sendo vista

com naturalidade, uma vez que a situação de “uma pessoa do mesmo clã ficar junto é, assim, discriminado, essas pessoas são mal vistas. Tá um pouco mais aceito, né, mas sempre tem um mal olhado, direto se ouve comentário que elas não dão exemplo.” (Professora 1)

Isso leva a pensar que, enquanto casos como esses puderem ser analisados como situações que não englobam a conduta da maior parte do povo, as prescrições sociais dos Bororo vão pautar-se pela manutenção da ordem social estabelecida pelos ancestrais e cotidianamente restabelecida em suas vivências, em aspectos já descritos.

Apesar disso, na Aldeia Central de Tadarimana, houve quem dissesse que “ninguém pensa mais na história de Bororo. (...) Cultura continua, mas ninguém obedece.” (“Capitão da cultura”). E ainda: “Hoje em dia não tem mais Bororo não. Falei isso pra minha prima. Eu mesmo, eu monto a minha lei.”. Essas palavras foram ditas por uma senhora de Meruri, que adentrou a uma gravação que fazia com a senhora IC 1, a prima a quem ela se refere. Na continuidade da gravação, a mulher falou: “Eu vim lá de Meruri, mas eu não ando por causa de torneio, por causa de bola. Eu não vim aqui à-toa. Eu vim por causa de funeral.”.

É interessante observar na fala dos dois que, embora ninguém “obedeça a cultura”, a sociedade instituiu um “capitão da cultura” bororo para gerenciar funerais, ritual de nominação de crianças, tudo o que diga respeito aos conhecimentos próprios do povo, e que vi sendo realizados em Tadarimana. Talvez não com a mesma pompa de enfeites, cantos e tempo dedicados aos rituais de antes, porque a vida estava mais estritamente voltada ao círculo da aldeia.

Hoje o tempo da participação nos rituais é dividido com a participação nos torneios de futebol, com o tempo para assistir às novelas na televisão, para trabalhar na escola ou no posto de saúde. Mesmo assim, Bororo, como a mulher que acredita não existirem mais Bororo e que afirmou que ela própria “monte a sua lei”, desloca-se de uma aldeia para a outra (localizadas em municípios não muito próximos) por causa do funeral bororo.

Segundo Sahlins (1997, p. 127-128), a cultura inclui técnicas de subsistência, dieta alimentar, cerimônias, instituições, acervo de saberes e costumes que, quando relegados, impedem a afirmação da autonomia da identidade étnica do povo e das pessoas. A consciência dessa força torna-se um recurso poderoso para a sobrevivência cultural. No contexto de dominação colonialista, o autor enxerga nas sociedades indígenas uma disposição para orquestrar a história segundo a lógica dos seus próprios esquemas.

Para isso, esses povos constituem regras sociais de conduta para orientar as suas relações. No caso bororo, essas regras provêm do bakaru, reconhecido como a “Carta

Magna” da sociedade bororo, em comparação com a lei maior do Estado brasileiro. Segundo disse o professor 2: “Se a gente fosse fazer um paralelo com o Estado brasileiro, ele [bakaru] seria a Constituição do Bororo, porque nele estão as regras, a conduta do Bororo, como que ele é, como que ele vive, como ele fala que tem que ser.”.

Em sua Constituição, os Bororo possuem os dispositivos para a orquestração de sua vida, postos em ação pela interação de processos que atuam em simultaneidade, enquanto se forma o ser bororo e se constrói a sociedade dos Bororo. Analisada em sua complexidade por diferentes autores, a sociedade bororo apresenta a sofisticação e a ética em sua cosmologia por meio da relação de reciprocidade e de disputas entre os clãs até aqui narrados com destaque aos aspectos da concepção de aldeia circular, de regras de união matrimonial e de nominação de tipo ie.

Outros aspectos dos modos de narrar bakaru na Aldeia Central serão explorados em contextos onde a relação entre canto e bakaru pôde ser vista. Então, após parar em algumas curvas, vou seguindo no curso do rio da existência bororo. O que vi e ouvi, sigo narrando a partir da voz dos sujeitos.