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2.2 Dune configuration file example
A teoria da transdisciplinaridade está, hoje, segundo Nicolescu (2007), plenamente desenvolvida. Agora, seria tempo de agir, saindo das ações que foram concentradas no passado no campo da educação e se estendendo para as atividades nos setores científico, social, político e espiritual. Contudo, a transdisciplinaridade é um ato altamente criativo; [e] não há fórmulas para prover a reintegração do conhecimento”, afirma Rapport (2000, p. 142). Sua prática, segundo Domingues (2005), é de difícil desenvolvimento. Ela lida com questões de difícil explicação pela ciência, em diferentes “níveis de realidade”, e para isso “procura conciliar paradoxos e conflitos e gerar resposta para “mistérios”. [...] contempla a “complexidade” dos sistemas e é aberta a outros tipos de lógica que procuram harmonizar os contraditórios; particularmente [...] a “lógica do terceiro incluído”” (OLIVEIRA, A.,2005a, p. 252).
A transdisciplinaridade se refere a algo qualitativamente diferente da interdisciplinaridade, mas as dificuldades para a prática da interdisciplinaridade apontadas por Gusdorf (2006) e citadas anteriormente, podem ser igualmente consideradas com relação às atividades transdisciplinares. Também essas enfrentam os obstáculos epistemológico, relacionado às dificuldades dos especialistas de verem o conjunto da realidade; institucional, representado pelas estruturas departamentais quase incomunicáveis de instituições de ensino e pesquisa; psico-sociológico, proveniente do sistema gerado pela compartimenta- lização e pela gestão de cada parcela do saber na qual cada especialista se
empenha arduamente pela defesa de suas posições e manutenção de seu controle na disciplina; cultural, agravamento da fragmentação da ciência pela separação que ocorre igualmente entre as áreas culturais e suas mentalidades particulares, línguas e tradições (GUSDORF, 2006, p.47-50).
Em sendo assim, o trabalho transdisciplinar deve ser paciente, exigindo tempo e compromisso das pessoas e das instituições (NOWOTNY, 2003), iniciando- se pelas margens dos saberes específicos, locais e disciplinares (BRANDÃO, 2007). Segundo esse estudioso, os conceitos e discursos transdisciplinares devem ser capazes de fecundar e moldar saberes, mantendo-se abertos para serem contaminados, refeitos e aptos a adquirirem novas formas a partir da interação com outros saberes. Também devem ser capazes de se abrirem a outras interpretações e derivações inesperadas, afastando a noção extremamente fechada e especializada do discurso disciplinar, que se preza pelo rigor a qualquer custo. Ao mesmo tempo, diz Brandão (2008), a transdisciplinaridade deve ter a capacidade de transfigurar as disciplinas internamente, para aproximá-las (e não para destruí-las ou negá-las, como pretende um holismo pseudocientífico) e enfrentar problemas e objetos complexos e contextualizados, como os que se multiplicam no século XXI (BRANDÃO, 2008, p.19).
Domingues (2005), diz não haver exemplos históricos de projetos baseados na transdisciplinaridade, estando a serem construídos agora, com inspiração em experiências multi- e interdisciplinares ocorridas, como a experiência do projeto Apollo, que possui características próximas de um projeto transdisciplinar, embora não seja reconhecido como tal em sua totalidade (é considerado interdisciplinar pelo autor), e experiências recentes em campos disciplinares como a inteligência artificial, as neurociências, a bioinformática e outras.
Um projeto desenvolvido na Etiópia foi citado por Klein (2004) como exemplo de abordagem transdisciplinar utilizada para solução de problemas complexos, como normalmente o são aqueles ligados ao meio-ambiente. Tratava-se de uma região rural em que o subdesenvolvimento e a degradação do meio ambiente tornaram-se recorrentes, em terras com alto nível de degradação da vegetação e erosão do solo. Ao mesmo tempo, uma boa porção de terra fértil (12 milhões ha) era subutilizada devido à precariedade do sistema de drenagem e às inundações na época das chuvas. Para uma abordagem adequada do problema, pesquisadores consideraram o conhecimento indígena e as preferências dos fazendeiros locais. Esses testavam
novas tecnologias e avaliavam o impacto em termos bio-econômicos, maximizando os critérios de lucro e de renda. Durante o projeto foi surgindo simultaneamente a necessidade de avaliações sobre os aspectos econômico, social e de efeitos ambientais das intervenções tecnológicas. A integração das dimensões humana, política e técnica tornaram-se necessárias para o trabalho que devia levar em conta a saúde do agroecossistema (KLEIN et al, 2001, apud Klein, 2004). Essa experiência demonstrou, que a pesquisa com problemas complexos é aberta e fracamente definida; a realidade não pode ser investigada numa dimensão reduzida, sendo composta de “regras” próprias; o sentido do problema é dependente do contexto; e, o conceito de complexidade está localizado na relação entre os elementos estudados (KLEIN, 2004). O entendimento pleno do problema emerge de uma fertilização cruzada de múltiplos métodos e perspectivas adaptadas e não de modelos idealizados. Em terceiro lugar, a experiência demonstrou que a pesquisa possui diferentes níveis: no micro, os pesquisadores têm de aprender como trabalhar com situações inter e transdisciplinares com múltiplos líderes; no médio, o sistema científico está se modificando; no nível macro, os efeitos de políticas de transformação afetam a ciência como sistema. Por último, houve a demonstração de que as variadas formas de conhecimento, a estrutura institucional e a solução de problemas exigem novo diálogo entre a ciência e as humanidades (KLEIN, 2004).
Várias práticas de sucesso ou tentativas fracassadas de desenvolver atividades transdisciplinares foram descritas por participantes do colóquio de Abbey Royaumont/França, já citado. Ao analisá-las, o relator McMichael (2000) informou que vários dos exemplos se referiam a atividades multi- ou interdisciplinares, o que confirma a dificuldade de avaliação do que sejam essas diferentes estratégias de pesquisa. Segundo Sage (2000), também relator do citado evento, os setores em que a transdisciplinaridade tem maior potencial de retorno são: saúde, meio- ambiente, desenvolvimento sustentável, educação, segurança internacional, negócios e governo.
Para McMichael (2000, p. 220), na prática, a transdisciplinaridade está presente naquilo que “nos transporta: então fazemos diferentes perguntas, vemos mais longe e percebemos o mundo complexo com novos “insights””. Nas palavras de Nicolescu (2000, p. 129), a prática da transdisciplinaridade significa “a encarnação em cada ação, da metodologia transdisciplinar, através de um conjunto de métodos adaptados a cada situação específica”. Uma metodologia geral da
transdisciplinaridade não existe, mas sim “uma que se encontra a partir do problema transdisciplinar colocado” (BRANDÃO, 2007, p. 337). Em vista de um problema e um contexto específicos, esses são tratados com os materiais disponíveis, voltados para a resolução do problema e dos saberes em pauta, constituindo uma rede que se adequa ao objeto e não à solução de qualquer problema, explica o referido autor.
Dessa forma, muitos métodos são compatíveis com uma única metodologia, formulada de acordo com os pressupostos básicos sobre os quais deve apoiar-se a transdisciplinaridade (níveis de realidade, lógica do terceiro incluído e complexidade); também devem estar de acordo com as novas definições de sujeito e objeto que emergem da metodologia da transdisciplinaridade (NICOLESCU, 2001). O objeto transdisciplinar, segundo esse autor, é composto dos níveis de realidade e de sua zona complementar de não-resistência e o sujeito transdisciplinar é constituído pelos níveis de percepção e da zona de não-resistência. As duas zonas de não-resistência, do objeto e do sujeito, devem ser idênticas para permitir a comunicação do sujeito com o objeto. Do mesmo modo em que existem “graus de disciplinaridade” que proporcionam maior ou menor satisfação dos postulados da ciência moderna, o que classifica a pesquisa transdisciplinar é o nível em que atende aos seus três postulados (NICOLESCU, 2001).
Alguns aspectos da transdisciplinaridade são apontados por Küffer (2000), para demonstrar o tipo de trabalho e desafios associados a ela. O autor salienta que esses aspectos não são exclusivos da transdisciplinaridade (podem estar presentes também em pesquisas interdisciplinares) e que eles se apresentarão com diferentes intensidades nos projetos de pesquisa. São eles:
a transdisciplinaridade refere-se a projetos de pesquisa que acreditam na interdisciplinaridade, desde a formulação das questões de pesquisa até a fase de síntese e definição das estratégias para a solução dos problemas;
a pesquisa transdisciplinar é orientada por processo [...], em que os valores e conflitos de interesse são negociados;
a pesquisa transdisciplinar demanda conhecimentos científicos, que vão além dos casos individuais;
a pesquisa transdisciplinar envolve cooperação entre as ciências naturais, sociais, as engenharias e as artes;
sistematização do conhecimento independente das disciplinas, bem como na capacidade de generalização e de elaboração teórica baseadas no conhecimento contextualizado;
abertura para a complexidade;
os pesquisadores são parte do contexto de pesquisa e têm certa influência no objeto de pesquisa. Nos projetos transdisciplinares a complexidade inclui o problema da reflexividade e da autorreferência da relevância da pesquisa social;
inclusão da incerteza e da ignorância na solução dos problemas. O conhecimento científico é temporário por natureza.;
negociação transparente de valores e padrões inseparavelmente ligados aos problemas;
envolvimento dos atores e do conhecimento local. A participação nos projetos transdisciplinares remete a uma troca interativa de conhecimento e valores e à mútua aprendizagem. O conhecimento local é quase sempre qualitativo e não quantificável. É normalmente implícito e de difícil e limitada explicitação em textos (KÜFFER, 2000, p.3-4).
Os termos interdisciplinar e transdisciplinar são muitas vezes tomados como equivalentes, como se fossem da mesma natureza. O uso do termo interdisciplinar, explica Hissa (2004), não é recente e seu emprego tem sido relativamente rotineiro, o que não é verdadeiro com relação ao termo transdisciplinar e suas variações, que ainda não estão presentes no vocabulário corrente da língua portuguesa. Esse fato ocorre também em outras línguas. Mittelstrass e Carrier (2006, p. 246) afirmam que “quando pensada de uma forma realmente séria, a interdisciplinaridade é uma transdisciplinaridade”. Guattari (2006, p. 156), ao discorrer sobre os fundamentos ético-políticos da interdisciplinaridade, diz preferir chamar transdisciplinaridade a interdisciplinaridade que passa “pela reinvenção permanente da democracia nos diversos estratos do campo social”. As duas citações feitas são de textos publicados pela primeira vez em 1990 e 1992, respectivamente, época em que apareceu mais fortemente o termo transdisciplinaridade, o que pode explicar, em parte, as opções igualmente válidas para os autores de utilizarem alternativamente os termos.