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6.1 Generelt

Hugo Chávez

Chávez não é um aventureiro na política venezuelana. Ele é fruto de uma geração que foi profundamente influenciada pelo momento histórico, um momento onde civis e militares realizavam ações de caráter antiimperialista em várias partes da América Latina.

Segundo Margarita López Maya (2009: 98), o bolivarianismo reivindicado por Hugo Chávez não pode ser entendido sem uma reflexão sobre uma série de movimentos da esquerda latino-americana que, desde os anos sessenta, contam com a presença de militares, sejam como simpatizantes ou como protagonistas de processos e lutas pela transformação econômica, política e social.

Essa aliança entre civis e militares já acontecia na Venezuela desde os anos 1970, e esse movimento bolivariano nos quartéis pode ser caracterizado como uma das consequências políticas do esgotamento e da crise do modelo industrial de substituição de importações transcorrido no país. Os

militares que conformaron el núcleo primário del bolivarianismo provienen en su mayoría de los sectores humildes de la población, cuyas familias vivieron el empobrecimiento provocado por esta crisis. Ellos, a diferencia del resto de los sectores populares, mantuvieron el acceso a la educación superior de calidad en tiempos en que la educación pública se fue deteriorando. (MAYA, 2009: 98-99).

De acordo com o jornalista Pablo Uchoa, em seu livro (2003) Venezuela: a encruzilhada de Hugo Chávez, “a história do bolivarianismo na Venezuela é também a história da esquerda traída deste país, uma esquerda que passou anos à margem da política negociada no Congresso e nas instâncias oficiais do poder”. (UCHOA, 2003: 105).

Uma parte dessa esquerda, sem ter condições de uma participação plena e efetiva na vida política do país, sem ter permissão de desfrutar plenamente de direitos democráticos, numa situação política de repressão e perseguição constante contra lideranças consideradas comunistas, sejam membros de partidos e de sindicatos, faz a opção de partir para a luta armada, se refugia nos Andes e montanhas e, influenciados pela Revolução Cubana, iniciam um balanço de suas atividades, e fazem uma reflexão teórica e política que resulta na fusão do sonho independentista de Simón Bolívar com as teorias socialistas, entre elas o marxismo. (Ibid.:105).

Chávez entra na Academia Militar em 1970, com 17 anos, época em que seu irmão mais velho, Adám Chávez, tinha entrado no Partido da Revolução Venezuelana (PRV), uma organização marxista dissidente do Partido Comunista da Venezuela (PCV). Lá estuda as obras de Mao Tsé- Tung, Clausewitz, Bolívar, Napoleão e outros autores das áreas de história, ciência política, filosofia e arte da guerra. Entre 1971 e 1973 chega à Academia Militar onde estava estudando Chávez um dos filhos do presidente do Panamá, Omar Torrijos. Chávez afirma que

em uma ocasião eu pedi a ele que me conseguisse alguns livros de seu pai. Vi fotos de Torrijos com os camponeses; ele me falava do que era a Força de Defesa e que, desde criança, viveu com seu pai entre os camponeses. Falou-me do golpe de Estado que derrubou Torrijos, estando ele na Costa Rica, e de como

depois retornou pelas montanhas de Chiriqui. Eu me tornei torrijista. Tive vários amigos panamenhos. (HARNECKER, 2004b: 20).

Em 1973, no seu terceiro ano de Academia Militar, Chávez comandou exercícios de instrução militar para um grupo de aspirantes. Um deles, com 17 anos, era José Vicente Rangel Ávalo, filho de José Vicente Rangel, que era o candidato presidencial das forças de esquerda naquele momento, por uma coalizão dos partidos PCV, Movimento Esquerda Revolucionária (MIR) e Movimento ao Socialismo (MAS), sendo este último o partido de Rangel. Neste período ocorre o golpe de Estado contra o presidente socialista do Chile, Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973.

Chávez declara, em entrevista realizada por Marta Harnecker, que já simpatiza com as “correntes de esquerda”, e que ficou preocupado devido a rumores que circulavam entre os oficiais da academia, dizendo que o filho de Rangel era “subversivo”, era um “guerrilheiro”, um “comunista”. Disse que pensou o seguinte: “Bem, e se José Vicente Rangel ganhar? Será que nos vão obrigar a dar um golpe porque ele é de esquerda?”. (Ibid.: 20)

Além de todas essas extraordinárias situações que já empurravam o jovem militar para posições mais progressistas e de esquerda, outro fato é considerado pelo mesmo com fundamental na sua formação política inicial. Em 1974, quando ele era ainda cadete, foi escolhido para ir ao Peru para as comemorações do 160º. Aniversário da Batalha de Ayacucho (local onde o marechal Sucre derrotou, em 1825, o exército colonialista espanhol). Estava em curso a “Revolução Nacional Peruana”, e Chávez conhece pessoalmente o general Juan Velasco Alvarado, um militar nacionalista, adepto de um nacionalismo democrático, popular e progressista. Recebe, junto com a delegação venezuelana que visita o Palácio Presidencial, um livro com suas ideias sobre o papel dos militares numa revolução popular e democrática. Chávez conta que

todas essas coisas foram de alguma maneira me causando impacto: Torrijos, tornei-me torrijista; Velasco, tornei-me valasquista. E com Pinochet, tornei-me antipinochetista (nessa ocasião, me interrogava: para que servem os militares? Para servir a que tipo de governo? Para instaurar uma ditadura como Pinochet ou para governar como Torrijos e Velasco ao lado do povo, enfrentando inclusive correntes hegemônicas mundiais? (Harnecker, 2004b: 22).

Quando do golpe no Chile16 Chávez treinava nas montanhas, e chegou a ouvir pela rádio uma declaração de Fidel Castro, presidente de Cuba, dizendo que “se todos os operários, se todos os trabalhadores tivessem um fuzil nas mãos, o golpe fascista no Chile não teria acontecido” (JONES, 2008: 56-57). Chávez afirma que estas palavras teriam marcado profundamente um grupo de jovens militares que nessa época já se propunham a debater a situação política, econômica e social de todo o continente. (Ibid.: 56-57).

A influência desse nacionalismo popular, democrático e progressista, que chegava a ter posições até mesmo antiimperialistas, esteve presente na formação política do líder venezuelano. Tal posição política atravessa as fronteiras da América Latina nos anos 1960 e 1970. Em livros e discursos o General Velasco Alvarado falava constantemente na “Revolução Peruana”17. No livro A Revolução Peruana (1974), de Carlos Delgado, encontramos uma semelhença entre muitas das reflexões realizadas por Alvarado e por Chávez sobre os rumos da “revolução”. Alvarado chega a dizer que

temos que tomar consciência da imensa tarefa que uma revolução implica. Será necessário emendar dia-a-dia os erros que inevitavelmente se cometem no trabalho cotidiano da Revolução. Sejamos capazes de retificá-los. Tenhamos a honestidade, a humildade, a sabedoria e o valor que outros

16 Em relação ao golpe de Estado de 11 de setembro de 1973, no Chile, contra o governo

democrático e popular do socialista Salvador Allende indicamos o livro do general Carlos Pratz, que foi ministro da Defesa do governo da Unidade Popular. No livro (1985). Memórias:

testemonio de un soldado, são apresentados documentos e textos que mostram a história do

Chile e o papel das forças armadas naquele país durante o século XX. Pratz seguiu fiel ao governo Allende. Foi assassinado, junto com sua esposa, em 30 de setembro de 1974.

17

Sobre a chama “Revolução Peruana”, também sugerimos a leitura de VILLANUEVA, Major Victor. (1969). O golpe de 68 no Peru: do caudilhismo ao nacionalismo?; BLANCO, Hugo e

outros. (1972). Perú: camponeses e generais; MOREIRA, Neiva e outros. (1975). Perú: dois mil dias de revolução;

nunca tiveram para reconhecer os erros e emendá-los. Isso, longe de debilitar a revolução, dar-lhe-á maior força porque lhe dará maior autoridade moral. Mas sejamos supremamente exigentes conosco, aspiremos a ser cada dia melhores, estimulemos a critica honesta que é uma contribuição inestimável em toda obra de criação. Mas, sobretudo, não esqueçamos nunca o dever sagrado de ser leais a esta revolução da qual depende o futuro de nossa pátria. (ALVARADO, apud DELGADO, 1974: 17).

Ao analisar o processo peruano, o intelectual e militante comunista português Miguel Urbano Rodrigues afirma que

as críticas que alguns teóricos de uma ultra-esquerda que se julga marxista formulam contra o governo de Velasco, acusando-o de modernizador e neo-capitalista, ou simplesmente de reformista, tem muito pouco ou nada de dialéticas, refletindo a visão – essa sim – pequeno burguesa dos seus autores. A Revolução Peruana é, aliás, tão aberta e ambiciosa, e as transformações por ela provocadas são tão rápidas e imprevisíveis que toda tentativa para definir em termos estáticos seus contornos ideológicos e de fixar a sua imagem em clichês pré-existentes é, em si mesmo, acientífica e anti-dialética. (URBANO RODRIGUES, apud DELGADO, 1974: XI).

Além de Panamá e Perú, também na Bolívia, em 1970, o governo do General Juan José Torres classificava as forças armadas do país como “vanguarda nacionalista e revolucionária” do povo que em aliança com os operários, com os camponeses, os setores progressistas da burguesia nacional e com os estudantes, construiriam uma revolução autenticamente nacional, popular e democrática, travando juntos uma guerra contra o subdesenvolvimento, a pobreza e a dominação estrangeira.

Em defesa da soberania nacional e da recuperação do patrimônio sobre os recursos naturais bolivianos, tal revolução seria a expressão da união entre povo e forças armadas, seguindo um “modelo revolucionário nacional de esquerda”, realizando transformações estruturais levando em conta as condições específicas e singulares da Bolívia, sem nenhuma interferência de forças e atores políticos externos/estrangeiros. O General Torres formou um “Governo Revolucionário” inspirado em ideias elaboradas pelo “nacionalismo revolucionário de esquerda”. Assim como

os outros processos dessa época, não teve tempo para se desenvolver. Foi derrubado por um golpe de Estado em agosto de 1971. (TORRES, 1973: 07-25).

Enquanto tudo isso acontecia na América Latina, o governo dos EUA se preocupava em preparar as suas forças armadas e as dos países considerados aliados para operações de “contrainsurgência” ou “contraguerrilha”. Nos quartéis da Venezuela, Argentina, Brasil e tantos outros países se multiplicavam os manuais estadunidenses. Um deles, produzido pelo quartel general do Ministério do Exército dos EUA, de autoria do Major General do exército Kenneth G. Wickhan e do General do exército Harold K. Johson, foi traduzido e divulgado em diversos países sul-americanos. Com o título de Operaciones de contraguerrilha (1971), o livro começa com o esclarecimento de que

la doctrina que prescribe este Manual, se aplica a las brigadas existentes, y pueden ser adaptadas o modificadas a los requerimientos de las operaciones antiguerrilleras. Por lo general, los principios son de aplicación universal; sin embargo, como la guerrilla realiza sus operaciones en el terreno más difícil dentro del área de las mismas, los Comandantes de fuerzas antiguerrilleras deberán modificar las tácticas estudiadas en este Manual, para adaptarse a las peculiaridades del terreno en el que deben actuar. (WICKHAM E JOHSON, 1971: 08).

Em 1975 Chávez se forma com o título de Licenciado em Ciências e Artes Militares, no ramo de Engenharia Mecânica. Especializou-se em comunicações, e será enviado a Los Llanos, como chefe de pelotão de comunicações, num dos 13 batalhões do exército criados para combaterem a luta guerrilheira que se desenvolvia no interior do país.

Em 1977 é transferido para San Mateo, no estado de Anzoátegui. Assume a tarefa de oficial de comunicações no Centro de Operações Táticas (COT) do exército. Segundo depoimentos de seus colegas, entra em confronto com um coronel reformado da Direção de Inteligência Militar (DIM) por suas críticas às torturas aplicadas contra três supostos guerrilheiros que haviam sido capturados. É um período onde se envolve de maneira mais ativa na construção de um movimento político

bolivariano no interior das forças armadas (MARCANO e TYSZKA, 2004: 47-48).

3.4. Os “bolivarianos” e o trabalho de organização política nas