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3 Empirisk undersøkelse

3.5 Resultater

3.5.12 Generelle kommentarer

Para se compreenderem as aceções do conceito de cultura popular é necessário salientar, primeiramente, a abrangência da noção de cultura e como o próprio conceito de cultura popular foi ganhando ao longo dos tempos uma latitude e complexidade, não redutíveis a esparsas considerações.

Face ao exposto, as considerações que tecerei em torno do conceito de cultura popular centrar-se-ão em perspetivas passadas, nomeadamente, as partilhadas no período temporal que abarca os séculos XVIII, XIX e XX; engloba-se, na presente análise, o pensamento que vai desde a realização histórica da Revolução Francesa (século XVIII) até ao período dos “grandes” regimes totalitários de pendor nacionalista (século XX), não deixando de se considerar, igualmente, a época atual e a sua importância.

Ao priorizar as perspetivas passadas acerca da cultura popular estou, conscientemente, a fazer uma escolha que se revela problemática, pois interpretar uma cultura a partir dum prisma pretérito, é partir dos pontos de vista unidirecionais envolventes, que conceberam a cultura popular – e também a chamada cultura erudita – como um “singular totalizante”, nos quais se privilegiaram uma conceção hierárquica e fragmentada da cultura – uma, dirigida ao vulgo (a “cultura popular”), a outra, às elites dominantes (a “cultura erudita”) (Santos, 1988: 689).

Como se depreende, são muitas as perspetivas que englobam a noção de cultura, constantemente alvo de classificações redutoras, passíveis de reformulação, sendo que, atualmente, a cultura já não é compreendida como um todo homogéneo, mas heterogéneo,

havendo um esforço para se atentar nessa multiplicidade cultural, visível, também, no interior da cultura popular (veja-se, por exemplo, a divisão entre cultura popular rural e cultura popular urbana). Estas revisões teóricas, permitiram alcançar a dinâmica e a reciprocidade envolventes nas relações entre as diversas culturas (a “erudita”, a “popular” e, atualmente, a de “massas”), que não são, segundo Maria Lourdes Lima dos Santos (1988: 698), “estruturas imobilizadas, mas sim sujeitas a processos de mutação, rejeição e acrescentamento” ao longo dos tempos.

Como alerta, de igual modo, Augusto Santos Silva (1994: 113), na sua obra Tempos Cruzados: um estudo interpretativo da cultura popular, é perigoso reduzir a cultura a “um conjunto de símbolos e signos, à «parte ideal do real», omitindo sistematicamente os processos sociais de produção, institucionalização e reprodução (…) dos padrões, obras e práticas culturais”.

Compreende-se, face ao que foi dito anteriormente, que a definição do conceito de cultura popular tenha de ser realizada com reservas, não deixando, contudo, de ter em conta que as perspetivas pretéritas, sobre as quais irei refletir, são fundamentais para a compreensão da abrangência do conceito.

Dois elementos que são frequentemente associados ao conceito de cultura popular são a noção de povo e tradição. Aparentemente simples, não posso deixar de referir que são duas noções com uma carga simbólica – e ideológica, como se verá – muito fortes e que marcaram as construções realizadas em torno do conceito de cultura popular.

Antes, porém, de analisar estes dois elementos “enraizados” na cultura popular, irei centrar a atenção na evolução que foi sofrendo a conceção de cultura popular ao longo dos tempos, até chegar ao século que se caracteriza pela emergência dos regimes fascistas/totalitários (século XX) e, aí, reforçar a atenção na conjuntura portuguesa, nomeadamente na política ideológica protagonizada pelo Estado Novo, onde a cultura popular ganha particular relevância.

Segundo Augusto Santos Silva (1994: 98), é inviável compreender a evolução do conceito de cultura popular ao nível sociológico, se se fizer “tábua rasa do processo histórico”. Neste sentido, a História assume um papel primordial para a compreensão das “reconstruções sucessivas e alternativas [que se fizeram acerca] do que é o povo e a sua cultura”. O autor toma como referência cardinal a Revolução Francesa (1789), cujo protagonista foi, precisamente, o povo. É a partir daqui que serão voltadas as atenções para o conhecimento do povo pelo poder estatal, procedendo-se a uma “integração das massas no Estado”, que acabará por estimular o estudo dos “usos” e dos “costumes”, da

“alma” e do “espírito nacional” difundindo, progressivamente, uma “cultura” que se baseava numa “identidade colectiva profunda” (Silva, 1994: 98).

Maria Lourdes Lima dos Santos (1988: 697 e 698) também atenta neste marco histórico particular, e descreve a Revolução Francesa como um “momento de reunificação” da “grande” e “pequena” tradição, na expetativa, de “um equilíbrio compensatório entre a democratização da cultura cultivada e a mobilização da cultura popular”.

É igualmente importante referir que, no século XVIII, ainda antes da eclosão da Revolução Francesa, se propaga o movimento romântico, projetado, sobretudo, no passado e na celebração do “culto da espontaneidade e do sentimento de uma cultura popular (…) como expressão do povo simples e ingénuo”, equiparado ao “bom selvagem” (Santos, 1988: 697). Procedeu-se, então, a uma cruzada em torno da restauração da cultura popular, do povo e da nação, que marcou, simultaneamente, a valorização da cultura popular como âmbito merecedor de interesse e conhecimento. Foi, pois, neste período que se procedeu a uma mitificação da cultura popular, enquanto cultura autêntica e homogénea (Santos, 1988; Silva, 1994).

No pós-Revolução Francesa (século XIX) irão surgir indeterminações em torno da conotação do conceito de cultura popular, sintomáticas, segundo Maria Lourdes Lima dos Santos (1988: 698) do “estado do campo das lutas de classe”. Verificou-se, neste período, a formação de um hiato nas relações de reciprocidade entre os elementos que compõem a cultura popular e a cultura erudita, impondo-se uma necessidade de distinção de ambos os cenários culturais, em favor de conceções unilaterais.

Neste sentido, o acesso das massas às estruturas do Estado e aos contextos políticos, colocava entraves – segundo a perspetiva das classes dominantes – à normalização social, despoletando-se nas elites uma “estigmatização das massas operárias como «classes perigosas»” (Silva, 1994: 99). Este processo de estigmatização acabou por se tornar paradoxal, tendo em conta que outra tendência paralelamente florescia, caracterizada por uma “crescente idealização do campesinato e do mundo rural, como a fonte da cultura popular e identidade nacional” (idem, ibidem).

Nos séculos XIX e XX há uma valorização, por parte dos etnógrafos e, posteriormente, dos regimes políticos autoritários, da “tradição”, da “nação” e da “organicidade” social (Silva, 1994: 104), e verifica-se uma “idealização da tradição camponesa” (idem, ibidem). Assim, a cultura popular tem como agente central o povo, associado às comunidades rurais e, como marco temporal de referência, o passado.

Neste contexto político, social e cultural, o povo, isto é, o “povo da pré- modernidade” (Silva, 1994: 104), é encarado como “um agente activo no processo nacionalista de revivescência da cultura popular” (Melo, 2010: 73) e a tradição converte- se num instrumento ao serviço de uma ideologia política, sendo considerada como um “repositório de ensinamentos, morais… socialmente reguladores e apaziguadores, … um meio para atingir a ordem social” (Melo, 2001: 48).

Procurarei, posteriormente, desenvolver as ideias supracitadas, enquadrando-as no contexto português, especificamente, no período cronológico correspondente ao Estado Novo (1933-1974), que se revelou, segundo Augusto Santos Silva (1994: 112) um “momento capital no processo de construção social da «cultura popular»”.