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Os principais efeitos das proposições acerca da ontologia em W2 podem ser percebidos na ênfase que o autor dedica ao resgate do indivíduo nas relações internacionais: “When IR scholars talk about states ‘acting’, what they really mean is individuals acting.” (WENDT: 2010a, 296). Wendt, contudo, não é tão inocente quanto aparenta. Segundo ele, a pergunta que representa o diferencial a esse respeito consiste em averiguar a quais indivíduos se pode, de fato, atribuir a ação estatal.

Inicialmente, não se pode desconsiderar qualquer cidadão de um estado, sendo preciso partir da premissa de que todos compõem a função de onda social que constitui essa coletividade. No nível da ordem implicada, todos cidadãos estão

ligados às ações estatais. Porém, no nível da ordem explicada, poucos seriam os indivíduos que estariam realmente fazendo algo que possa ser considerado relevante em termos de agência do estado, sendo que a maioria não teria nem mesmo ciência da adoção de determinados rumos em detrimento de outros. Citando o exemplo dos Estados Unidos, assinala: “The ones really doing something are those who speak for the U.S. globally in relation to other such speakers (leaders and other decision makers), and/or who embody or represent the U.S. on a local basis (bureaucrats, soldiers, tax collectors, and so on.” (WENDT: 2010a, 296).

Não obstante a ideia de que os indivíduos relevantes estão onde a ação na política internacional se encontra ter o caráter de uma sabedoria de senso-comum, utilizada por analistas de política externa por mais de meio século, teóricos sistêmicos geralmente ignoraram o potencial do indivíduo nas RI, na medida em que suas contribuições se dissipariam em um mundo real composto por estados, empresas multinacionais, organizações internacionais etc.

Segundo Wendt, semelhante modalidade de raciocínio sistêmico pode até ter validade quando considerados funcionários de menor escalão, mas não quando, por indivíduos, se tem em mente líderes e servidores públicos com alto poder decisório: “‘Quantum individualism’ would not only embrace the idea that leaders matter in foreign policy, but see them as a key unit of analysis for systemic theorizing more generally.” (WENDT: 2010a, 296).

Logo, tornar-se-ia indispensável, para o esforço do resgate da agência humana, isto é, da subjetividade, perante o descaso cometido por boa parte das teorias estruturalistas, retomar os estudos sobre lideranças individuais a partir, entretanto, de uma perspectiva quântica – de modo a compreender a relação complexa que se estabelece entre líderes e tomadores de decisão, por um lado, com os demais cidadãos de um estado, por outro.

Com este fim, Wendt recorre à monadologia quântica de Nakagomi. Além de desenvolver conceitos importantes a partir da filosofia de Leibniz – tais como mônadas ativas e mônadas nulas (denominadas passivas por Wendt) –, atualizados a partir de uma ontologia profundamente associada com a mecânica quântica (e com a preocupação em suprir o explanatory gap), Nakagomi oferece uma representação de

sua monadologia quântica que não deixa de ser interessante, seja por tentar adaptar sua teoria para fenômenos sociais, seja por antecipar algumas considerações de Wendt sobre o estado (ainda que Wendt tenha efetuado adaptações e refinamentos a partir das proposições de Nakagomi):

“People live in a nation, but what is nation? Nation exists in individual mind of the members to the nation. The members have a common image of the nation, then the nation exists. If people appear who do not share the common image of the nation, the people will be excluded or inversely the nation will be destroyed.” (NAKAGOMI: 2006, 243).

O dado relevante, enfim, consiste na categorização dos indivíduos em diversas espécies de mônadas. Assim, líderes seriam mônadas dominantes, sujeitos que contém em si as razões para as ações coletivas que adotam. De forma mais simples, as mônadas dominantes possuem uma estrutura hierárquica que as autoriza a tomar decisões pelos demais membros do grupo. Isto só ocorre na medida em que outras mônadas se submetem à mônada dominante, conferindo à mesma o status de responsável última pelas ações estatais, de modo a abrir mão, até certo ponto, de seu próprio direito de escolha de um curso de ação diverso (WENDT: 2010a, 296)154.

A relação entre mônadas exposta poderia assim ser traduzida para o léxico quântico: em seu conjunto, as mônadas constituiriam um sistema de partículas emaranhadas, onde, devido à estrutura interna, os atos de medição relativos ao sistema, realizados pelo próprio ambiente, seriam respondidos conforme a decisão da mônada dominante, que centralizaria tal atividade; ainda que a medição ocorra também sobre as demais mônadas, sua resposta se dá não localmente e se manifesta por meio do líder. Decisão significa, portanto, o colapso da função de onda que constitui as potencialidades estatais (WENDT: 2010a, 297).

Entender o processo decisório como redução do vetor de estado possui duas consequências relevantes. Primeiro, devido à diversidade de resultados possíveis associados a uma função de onda, a ocorrência do colapso em determinado sentido

154 Novamente, a ideia fora exposta por Nakagomi, em termos similares: “In a harmonic situation,

there can be a monad whose volitional power is enhanced by other supporting monads in such manner that the distribution of preferability over choice-item set is unchanged but the appetite is multipied by almost the number of the supporting monads.” (NAKAGOMI: 2006, 248). Nakagomi denomina esse fenômeno como mecanismo de reforço. Não obstante Wendt referir-se à monadologia quântica de Nakagomi e mesmo à importância de seu conceito central para uma ciência social quântica, o autor não se refere à Teruaki Nakagomi nos dois últimos pontos citados, o que causa estranheza em razão da proximidade das ideias discutidas por ambos. Mais ainda, em WENDT: 2010a, consta apenas a referência bibliográfica ao primeiro texto de Nakagomi a este respeito, datado de 2003.

dependerá de forma crucial da personalidade do líder. Mesmo em situações com alto grau de restrição, a menor das diferenças entre líderes poderá gerar diversidade considerável no que se refere aos rumos da atividade estatal. Segundo, na medida em que as funções de onda sociais emaranham vários indivíduos, o colapso gerado pelo líder, ao fazer uma escolha política, terá efeitos não locais para todos os membros do grupo. Tal como no exemplo citado sobre Sócrates e Xantipa, “George Bush’s decision to go to war against Iraq was a Cambridge change for all Americans and Iraqis, altering their status from peoples at peace to peoples at war.” (WENDT: 2010a, 297).

No entanto, essa possibilidade de ação à distância não elimina o fato de que a mônada dominante apenas é capaz de converter sua decisão em realidade de modo local – a referência às ordens implicada e explicada mais uma vez se mostra útil. Isto porque a decisão adotada deve ser capaz de induzir outras mônadas no sentido de corroborá-la, tal como no mecanismo de reforço mencionado por Nakagomi. Para tanto, indivíduos precisariam: (i) ter ciência da decisão; (ii) aceitar as implicações decorrentes para suas condutas; (iii) agir com base nessas consequências (WENDT: 2010a, 297). Os três requisitos mencionados, sem dúvida, se dariam no nível da realidade clássica.

Nesse sentido, o fenômeno em questão – poder indutor das decisões adotadas pela mônada dominante com relação às demais – teria inclusive aplicabilidade na distinção entre estados ordenados e estados “falidos”, de modo que o estado poderia ser visto como uma máquina gigante de reação em cadeia (WENDT: 2010a, 297), por meio da qual as decisões do líder produziriam efeitos clássicos por todo o sistema.

Cumpre notar, todavia, que, não obstante o emaranhamento quântico, os cidadãos não perdem a característica monádica de indivíduos diferenciados com perspectivas únicas sobre o mundo – e mesmo com uma capacidade biológica para agir de forma independente:

“To sustain the chain reaction of going to war in Iraq, therefore, every other monad in the process – from the President’s generals sitting in Washington on down to soldiers on the front line – must do his or her part to make the collective decision a reality, by actually going to war rather than refusing to fight. And these decisions are every bit as quantum as the leader’s, even if their ramifications for the state are, individually, less sweeping because they are not made from the center.” (WENDT: 2010a, 297).

Abre-se, com isso, espaço para a diferenciação entre mônadas ativas e

mônadas passivas, conforme a respectiva relação ao emaranhamento do qual fazem

parte. Mônadas em modo ativo estão conscientemente avaliando seus potenciais e agindo sobre os mesmos, a fim de realizá-los da forma desejada em dado contexto. Mônadas em modo passivo não demonstram a consciência mencionada – muito embora possam estar em modo ativo, com respeito à outra situação qualquer. Conforme observa o autor: “Recalling that each individual is embedded in countless social wave functions, from the international system all the way down to the Family, with respect to the overwhelming majority of situations monads will necessarily be in passive mode at any given moment.” (WENDT: 2010a, 297 e 298).

Logo, a transição entre os modos ativo e passivo adquire uma importância fundamental. Tomando novamente a guerra no Iraque como exemplo, Wendt assinala tratar-se de um cenário no qual líderes e combatentes dos dois lados configuram mônadas ativas, porém apenas nos momentos em que as respectivas linhas de ação, que estão sendo efetivamente adotadas, fazem com que o conflito ocorra. Mônadas passivas seriam todos os demais – e.g., combatentes em momentos outros, civis iraquianos e norte-americanos, assim como a sociedade civil e líderes de países não envolvidos. Estritamente falando, pois, não seriam os “Estados-Unidos” que estariam em guerra com o “Iraque”, visto que na realidade real (expressão que, a despeito do aparente pleonasmo, faz sentido na proposta de Wendt e é utilizada com bastante frequência), a maior parte dos cidadãos dos E.U.A. não estão envolvidos na guerra:

“Our imagery here should be the horizontal image of warring ant colonies rather than the vertical image of dueling Leviathans: viewed by aliens in space, the War in Iraq is nothing but particular individuals who normally live in one colony flying to a faraway place and fighting with the locals. As causalities rise new individuals arrive to take their place, but at no time is the totality conventionally known as the ‘United States’ actually at war, because that totality exists only potentially, as a wave function, not actually.” (WENDT: 2010a, 298).

Isso não quer dizer que mônadas passivas não tenham papel algum a desempenhar. Quando considerado o nível da ordem implicada, mônadas ativas e passivas estão conectadas em cadeias complexas de dependência e responsabilidade, de modo que a função de onda do todo constitui uma condição permissiva para o comportamento de suas partes, tal como no modelo de realidade holográfica – ainda que, ao fim e ao cabo, a maioria dos cidadãos norte-americanos estejam apenas

virtualmente no Iraque, não fazendo parte de sua real realidade (WENDT: 2010a, 298).

De qualquer modo, um dos pontos mais importantes em toda essa discussão é mitigar a subvalorização do indivíduo, derivada da análise estruturalista em RI. Ao mesmo tempo importante, o indivíduo igualmente é redundante para a política internacional, entendido o termo tal como utilizado na holografia, decorrente da noção de que o todo está presente em cada uma de suas partes: “From a holographic perspective a state losing half its population in a catastrophe, or even 99 per cent, could survive, since most of the common knowledge that constituted its identity could be recovered from its remaining members.” (WENDT: 2010a, 298 e 299).

O conceito de redundância seria aplicável, parcialmente, mesmo aos líderes, uma vez que, se por um lado eles representam mônadas dominantes, por outro lado também se sujeitam consideravelmente a restrições decorrentes de estruturas sociais. Justamente esta última consideração corroboraria a possibilidade de substituí-los. Há um dado positivo, mesmo democrático, nessa constatação de que as qualidades únicas dos membros de um estado (e de seus líderes, ainda que com restrições) serem “dispensáveis”, pois graças a ela se torna possível ao estado projetar, ao longo do tempo, uma identidade estável (WENDT: 2010a, 298).

A democracia monádica indicada, todavia, jamais é plenamente concretizável, visto que nem todos os pixels dos hologramas estatais (na verdade, de qualquer espécie de holograma social) carregam dentro de si uma imagem perfeita do todo: “Individuals vary in the extent to which they know the state, much less the international system, and some might not know it at all.” (WENDT: 2010a, 298). Essa variação, constatável empiricamente, parece invalidar a aplicação do princípio holográfico nas RI155. Wendt, contudo, busca contornar esse problema a partir de duas considerações.

Em primeiro lugar, a concepção do estado, e do sistema internacional, enquanto holograma, não se deve a questões de ordem fática, e.g., quantos indivíduos possuem conhecimentos suficientes sobre seus estados. Seu argumento tem mais a

155 Wendt justifica a existência da variação entre unidades do holograma social por meio de

imperfeições decorrentes do acesso à educação, a qual serviria de base para gerar uma homogeneidade entre indivíduos, no que se refere a conhecimento das leis do país, da realidade de seu estado e do próprio mundo (WENDT: 2010a, 298).

ver com pressupostos metafísicos sobre a forma pela qual intenções coletivas são constituídas: “In Medieval Europe the vast majority of people had no idea what their ‘states’ (sic) were doing, knowledge of which was limited to a tiny elite; but that does not mean that relationships within that elite were not holographic.” (WENDT: 2010a, 299). Importa, portanto, mais que a constatação empírica sobre a situação dos cidadãos, comprovar a correção do modelo holográfico de percepção social (que inclui o modelo holográfico de visão mais o entendimento da linguagem como um fenômeno quântico).

Em segundo lugar, ainda que aceito o modelo holográfico como válido, isso não exime Wendt de oferecer uma solução sobre o que fazer, conceitualmente, com indivíduos que demonstrem plena ignorância acerca do estado e do sistema internacional. A resposta do autor consiste em simplesmente excluí-los do sistema, de modo que os mesmos passam de sujeitos a objetos:

“By that I mean, by virtue of the fact that the international system is made up of states whose leaders collectively speak in the name of all human beings, all people are included in the system as potential objects of manipulation; however, not all people are subjects of the system, in the sense that they can act purposefully on the wave function that constitutes it, but only those that share in that wave function. As such, being only an object in a particular system differs not just from being an active monad, but even a passive one.” (WENDT: 2010a, 300).

Interessante notar que, devido ao emaranhamento quântico na função de onda social, no plano da ordem implicada, é possível à mônada mudar do modo passivo para o modo ativo caso assim decida perante uma realidade específica. Mônadas ativas e passivas compartilham uma realidade holográfica; indivíduos reduzidos ao status de objetos não.

A constatação em tela pode ser remediada. Publicidade e educação exerceriam uma função indispensável nesse sentido (WENDT: 2010a, 300). Mediante sua extensão a objetos, criar-se-ia a chance para que estes se tornassem pelo menos mônadas passivas e, no melhor dos cenários, mônadas ativas que poderiam ser capazes de se mobilizar para formular projetos políticos, ao invés de simplesmente quedarem como artefato para a manipulação de seus líderes.

Tal possibilidade de democratização da realidade social termina por levantar uma preocupação de ordem normativa, na medida em que, conforme se logra mitigar o problema da variação e ampliar o número de sujeitos, fortalece-se o mecanismo de

governança no qual a mônada dominante ainda possui papel central. Porém, assim como o aumento de pixels na chapa fotográfica gera maior nitidez do holograma produzido em laboratório, o aumento e aprimoramento do número de unidades que compõem um holograma social, por exemplo, poderia contribuir para a elevação da legitimidade da ação estatal, dotando o estado de uma estrutura cada vez mais estável, ainda que ontologicamente virtual. A maximização da liberdade, mediante a ênfase nos critérios de publicidade e educação, torna-se marca indelével do processo em uma ciência social quântica, com efeitos que vão além das unidades básicas de análise e se estendem inclusive por todo o sistema internacional.