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Percebe-se, pois, que agente – assim como estrutura e processo (para retomar a tríade sob a qual o raciocínio presente em STIP é desenvolvido) – não deixa de constituir um conceito-chave na ciência social quântica, porém reformulado. Suas três principais características podem assim ser resumidas (WENDT: 2010b, 34 e 35):

(i) Os estados intencionais, por representarem ondas de potencialidade, apenas possuem existência determinada por meio de sua atualização comportamental (teoria performativa da ação).

(ii) O comportamento, por sua vez, entendido como o colapso da função de onda, é não determinista e livre, do ponto de vista ontológico.

(iii) O referido colapso seria gerado pela atenção e vontade do indivíduo136, entendida esta em um sentido teleológico forte, direcionada à maximização da liberdade.

Resta agora verificar os comentários de Wendt acerca da estrutura e do processo, por meio de seu modelo quântico de sociedade137. À primeira vista, a

136 Esse ponto é desenvolvido com maior propriedade no subitem 2.6.

137 É preciso reconhecer que Wendt, ao tratar estrutura e processo conjuntamente, sob o prisma do

modelo quântico de sociedade, revela que sua ciência social quântica ainda é deficitária no que se refere ao estudo do último item. O próprio autor reconhece que a próxima etapa lógica em sua argumentação a favor de uma ciência social quântica consistiria em compreender melhor o funcionamento do processo a partir de um quadro teórico quântico (WENDT: 2010a, 304) – até

atribuição de efeitos quânticos aos indivíduos pareceria implicar alguma espécie de

reducionismo (rejeitado com veemência por W1, cumpre lembrar), o qual impediria

propriamente se falar em ciência social quântica. Não é este o caso. Wendt crê que, muito embora sistemas sociais não possuam cérebros tal como um organismo, a QCH, além de apoiar, aprofunda o holismo desenvolvido em STIP. Isto porque, se os seres humanos são seres quânticos, então suas interações deveram necessariamente apresentar aspectos que não possam ser simplificados em termos clássicos. O autor foca aqui suas considerações em três tópicos (WENDT: 2006, 200):

(i) Os sistemas sociais possuem funções de onda que constituem seu

inconsciente coletivo.

(ii) Tais funções de onda colapsam mediante um processo de “intra-ação”, passível de descrição pela teoria quântica dos jogos.

(iii) Os sistemas sociais poderiam ser considerados superorganismos dotados de consciência coletiva.

Apresentaremos os pontos acima tal como originalmente elaborados em seu primeiro escrito (WENDT: 2006). Contudo, é possível perceber, a partir dos textos que se seguiram a “Social theory as a Cartesian science”, tanto um aprofundamento de algumas dessas ideias, seja quanto à estrutura, seja quanto ao processo, quanto o abandono (quiçá uma suspensão temporária) de algumas proposições, em especial, a utilização do conceito de superorganismo, ideia esta que o autor reconhecia, desde o início, como sendo a mais especulativa de todas. Deixaremos a conjecturas sobre a natureza do estado para a próxima seção.

Foi apontado anteriormente o sentido em que Wendt adota a noção de inconsciente. Para o autor, se um sistema social é possuidor de conhecimento compartilhado, torna-se, então, razoável supor que tenha também certo tipo de inconsciente coletivo, capaz de estruturar a ação, prover memória e exercer atividades quanticamente computacionais (WENDT: 2006, 200).

porque o mesmo passaria a ter posição de destaque na nova ontologia proposta a partir da QCH. No entanto, ainda que, sob o aspecto organizacional, falte um tópico para discorrer exclusivamente sobre o processo, sua presença pode ser verificada em toda a análise decorrente. Optamos, pois, por seguir a forma de exposição do autor, na qual o tema do processo se encontra difuso, seja nos postulados da ciência social quântica, seja nas considerações mais específicas sobre suas implicações para a teoria das relações internacionais.

Assim como em STIP, Wendt faz referência aqui às filosofias internalista (o pensamento precede a linguagem) e externalista (a linguagem precede o pensamento). A este respeito, tanto W1 quanto W2 sustentam o externalismo, ainda que por razões diversas:

“Quantum theory strongly supports externalism. The theory tells us that at the moment of measurement, observer and observed are entangled non-locally and as such participate in a single wave function. It is only in making a ‘cut’ between them, with the act of measurement itself, that subject and object acquire completely distinct identities. If such entanglement exists even in our measurements of sub-atomic particles in the lab, then it should be present all the more so in our measurements (perceptions) of other people, who are themselves quantum systems. This is at least highly reminiscent of externalism, and as such suggests that

shared meanings are the primary form that quantum entanglement takes at the human level.” (WENDT: 2006, 201).

Por tais motivos, seria possível identificar os sistemas sociais com funções de

onda coletivas, caracterizadas pela superposição de estados de informação dos

indivíduos. De maneira similar ao descrito sobre os agentes, as funções de onda das estruturas sociais não são conscientes, uma vez que a consciência emerge apenas a partir do colapso. Daí sua associação com o inconsciente coletivo.

Wendt acredita que essas “constatações” sugeririam um modelo holográfico para a relação agente-estrutura, onde cada indivíduo espelharia o conjunto da sociedade, cuja totalidade poderia ser construída a partir de qualquer uma de suas unidades, assim como uma ontologia participativa, que rejeita, simultaneamente ontologias individualistas e hierárquicas:

“Given quantum entanglement at the unconscious level, the mind relates to society not through reduction, emergence, or even mutual constitution, but by in a sense being society, all the way down. Instead of being distinct entities, minds participate in each other’s reality. In effect, they stand in a relationship of identity. At the same time, however, this identity is “incomplete” by virtue of having two different and irreducible aspects – individual and collective, subjective and objective, inside and out. Like ‘monads’ in Leibniz’s metaphysics, individuals in a hologram retain their own points of view on the collective, even while they mirror its properties.” (WENDT: 2006, 201)138.

Se, por um lado, indivíduo e sociedade se assemelham pelo fato de serem dotados de funções de onda, por outro lado, ambos diferem entre si pela forma como ocorre o colapso de suas funções. No caso dos indivíduos a redução se dá em uma

138 Decidimos pela citação sem maior detalhamento das ideias, pois esses pontos são retomados pelo

autor posteriormente, ocasião na qual recebem uma versão mais refinada. Deste modo, interessante notar que a expressão ontologia participativa aparece apenas no primeiro texto, sendo depois substituída pelo termo ontologia processual. Com respeito à noção de holograma, Wendt opera, nos escritos de 2010, algumas ressalvas para sua utilização no âmbito da relação agente-estrutura.

consciência unitária; no caso das sociedades, a redução se dá em um conjunto de consciências separadas fisicamente, de modo disperso, ou distribuído. Logo, ao invés de produzir unidade de consciência, o colapso da função de onda coletiva produz diferença (WENDT: 2006, 202).

A fim de esclarecer as consequências desse raciocínio, Wendt recorre ao exemplo provido pela teoria dos jogos tradicional. Por presumir a existência de indivíduos em termos clássicos, tal análise toma as identidades como um fato bruto da natureza, anterior mesmo à interação entre indivíduos. O caso seria completamente diverso quando adotada a teoria quântica, uma vez que não é lícito afirmar que indivíduos possuem identidades antes de sua respectiva medição. A identidade surge com a própria interação, nunca antes desta: “What is ontologically primitive is not a substance (the brain) but the process of wave function collapse in measurement, which fixes determinate identity.” (WENDT: 2006, 202).

No caso das funções de onda coletivas, o processo de colapso teria tanto um aspecto coletivo quanto individual.

Com relação ao primeiro, visto que a função de onda é compartilhada, é de se esperar que a coletividade, considerada em si mesma, colabore para a seleção dos resultados, em uma espécie de “medição interna” – dado este que parece reforçar a ideia já existente de que grupamentos sociais podem ser dotados de intencionalidade

coletiva, caracterizada pela não redutibilidade. Com relação ao segundo, não obstante

se tratar de uma função de onda coletiva, seu colapso é necessariamente mediado por consciências individuais, o que faz destas o local, por excelência, do controle deste processo.

Apesar do desdobramento das intenções coletivas depender da forma como os sujeitos expressam-nas, vale lembrar que a consciência dos sujeitos sobre essas intenções surge apenas a partir de suas ações ou, na terminologia quântica, de seus colapsos. Em suma, a produção daquilo que Wendt define como consciência da

diferença, possui o todo sempre como referencial (WENDT: 2006, 202).

Toda essa argumentação pode parecer despropositada, quando não considerado o telos do autor sobre o assunto: afirmar a inadequação do conceito clássico de interação (fundado na separabilidade física) para descrever a dimensão

holística da vida social, decorrente de uma abordagem quântica. Em seu lugar, propõe Wendt a aplicação da “intra-ação”139, mais condizente com uma teoria

performativa do agir humano. Mediante a intra-ação, seria possível descrever duas características basilares do colapso da função de onda coletivo:

“First, in relating to each other through shared meanings human beings are relating to something internal (‘intra’) to themselves of which they are only a part, which captures the sense in which at the unconscious level individuals are entangled. Second, at the conscious level they only become individuated through their actions, which captures the sense in which collective collapse is mediated by distinct bodies. The two together make it possible to see constitutional difference as emerging from an underlying unity.” (WENDT: 2006: 203).

Com base nisso, Wendt propõe, de modo incipiente140, a investigação do potencial explicativo decorrente do recurso à teoria quântica dos jogos, na qual os atores representam tomadores de decisão quânticos, com propriedades e estratégias marcadas pelo emaranhamento e pela indeterminação, até que um curso de ação seja adotado. Segundo o autor, jogos não cooperativos, como o dilema do prisioneiro, quando praticados sob regras quânticas, terminam por demonstrar um aumento nas chances de cooperação – o que poderia contribuir para justificar as razões que levam indivíduos e estados, na vida real, a cooperarem muito mais do que deveriam, segundo as previsões da teoria dos jogos tradicional (WENDT: 2006, 203).

Por último, Wendt retoma a noção de superorganismo, presente inicialmente em seu texto de 2004. Seremos breves nesse ponto, pois, conforme assinalado, a ideia não reaparece em seus escritos seguintes, na medida em que Wendt buscará fundamentação diversa para a realidade estatal.

139 Wendt adota o conceito de intra-ação a partir da formulação feita por Karen Barad, bem expressa

na seguinte passagem: “Phenomena are produced through agential intra-actions of multiple apparatuses of bodily production. Agential intra-actions are specific causal material enactments that may or may not involve ‘humans’. Indeed, it is through such practices that the differential boundaries between ‘humans’ and ‘nonhumans’, ‘culture’ and ‘nature’, the ‘social’ and the ‘scientific’ are constituted. Phenomena are constitutive of reality. Reality is not composed of things-in-themselves or things-behind-phenomena but ‘things’-in-phenomena […] The world is a dynamic process of intra- activity in the ongoing reconfiguring of locally determinate causal structures with determinate boundaries, properties, meanings, and patterns of marks on bodies. This ongoing flow of agency through which ‘part’ of the world makes itself differentially intelligible to another ‘part’ of the world and through which local causal structures, boundaries, and properties are stabilized and destabilized does not take place in space and time but in the making of spacetime itself. The world is an ongoing open process of mattering through which ‘mattering’ itself acquires meaning and form in the realization of different agential possibilities.” (BARAD: 2003, 817).

140 “Quantum game theory was not developed with […] social scientific applications in mind,

however, and we currently lack concepts to translate much of its formalism into social analysis. The idea of intra-action might be one place to start.” (WENDT: 2006, 23).

A representação de uma coletividade enquanto superorganismo, assim como as principais características deste, foi descrita no capítulo I, ocasião na qual o autor chegou à conclusão de que o estado seria de fato uma pessoa, entendida, porém, como um superorganismo dotado de intencionalidade e desprovido de consciência coletiva.

A questão colocada decorre da admissão do pampsiquismo na formulação de uma ciência social quântica: se é possível sustentar a existência de alguma forma de consciência em graus distintos, tais como os de (i) partículas subatômicas, (ii) vegetais e (iii) animais, por quê não seria possível afirmar a existência da consciência em superorganismos?

Wendt não chega a responder afirmativamente a pergunta, sugerindo, porém, o não abandono precipitado da possibilidade de existência de consciência coletiva: “[…] the a priori rejection of collective consciousness is a classical prejudice. Perhaps the prejudice is justified, but until we understand even individual consciousness the jury on collective consciousness should remain out.” (WENDT: 2006, 205). No entanto, o autor terminou por optar por uma base mais sofisticada para estabelecer a ontologia de um dos principais atores das relações internacionais, deixando de lado, ainda que de forma provisória, a ideia de superorganismo.