7.4 Visualization of Emotions
7.4.3 Generation of Intermediate Emotions
Passados mais de dez anos de teoria e prática, muito tem se escrito sobre a Economia Solidária. Há interessantes revisões conceituais sobre o tema (Cruz, 2006), além dos já clássicos autores (Singer, 2002a; Laville; França Filho, 2004; Coraggio, 2007, entre outros). Mas há também uma percepção de que a Economia Solidária, seguindo o exemplo de termos como de- senvolvimento sustentável1 ou educação popular2, tornou-se um
grande guarda-chuva que acolhe ideias e, principalmente, práti- cas muito distintas.
Para aproximar o tema da tecnologia social com o da Eco- nomia Solidária, é preciso entender melhor o que há sob esse guarda-chuva. Num recente artigo (Wirth, Fraga e Novaes , 2011, p. 194), por meio de uma revisão bibliográfica, é pos- sível compreender a heterogeneidade teórica do campo. Numa tentativa de categorizar as diferenças, são apresentadas algu- mas correntes da Economia Solidária. Nesse artigo, são apre- sentadas três perspectivas que nos auxiliam na compreensão do que é a Economia Solidária no Brasil hoje. Numa primeira corrente, os seus principais autores apontam para uma comple- mentaridade entre capitalismo e Economia Solidária. Na se- gunda, a Economia Solidária é vista como uma possibilidade de superação gradual do capitalismo. Numa terceira perspecti- va, a Economia Solidária estaria inscrita na luta histórica dos
1 Ver Theis e Meneghel (2006). 2 Ver Efrem Filho (2008).
trabalhadores na qual a autogestão3 se apresenta como meio e
fim dessa luta.
Este artigo se inscreve na terceira perspectiva que pode ser sintetizada de acordo com a citação a seguir:
Para os autores filiados à perspectiva da autogestão, parcelas da Economia Solidária realizam a autogestão possível e têm poten- cial para contribuir com a autogestão necessária, num contexto de unificação das lutas dos trabalhadores rumo a uma sociedade para além do capital. Nesse sentido, se opõem à concepção de Singer (2002a), que concebe a superação gradual do modo de produção capitalista por meio da Economia Solidária e rejeitam a hipótese de Laville e França-Filho (2004), sobre a perspectiva de complementaridade entre capitalismo e Economia Solidária. Segundo essa compreensão de autogestão, as organizações de tra- balho associado estão em constante tensão com a lógica do capi- tal dominante. O desafio estaria então na superação do trabalho alienado e todos os seus corolários (Wirth, Fraga e Novaes, 2011, p. 205).
Nesse sentido, a Economia Solidária se apresenta como um espaço de reflexão, de luta, de construção de possibilidades no qual a prática da autogestão traz a ‘viabilidade prática’ das uto- pias. Compreender o que a Economia Solidária é hoje (em núme- ros, suas formas associativas, ramos produtivos, construção de subjetividades etc.) é muito importante para o exercício de proje- tar cenários possíveis.
No entanto, pensar o futuro não é “futurologismo”, é pensar como queremos que o mundo seja, é pensar como construir o fu- turo da maneira que desejamos. Essas técnicas (de construção de cenários) têm sido usadas para pensar modelos globais (clube de
3 Sobre o termo autogestão consultar Guillerm e Bourdet (1976). Sobre a
aproximação entre Economia Solidária e autogestão, consultar Nascimento (2008), Faria (2005) e Novaes (2011).
Roma, modelo Bariloche e outros) e foi importante até meados dos anos de 1980. A partir dessa época, com a avalanche neoliberal o planejamento é deixado de lado, tendo como fundamento a ideia de que o mercado seria capaz de resolver os problemas da socieda- de. Essa ideia seguiu dominante por algumas décadas, mas a re- sistência e a negação ao neoliberalismo estão colocadas há algum tempo4. Ainda assim, parece que não planejamos a longo prazo.
Um dos cenários trazidos pela Economia Solidária é a al- ternativa de incluir os “excluídos”. Diante da constatação que mais de 50% da população trabalha na informalidade, alguns autores defendem a possibilidade de incluir a massa de informais na economia formal (Dedecca; Baltar, 1997). Esse caminho não nos parece possível, muito menos desejado.
Por isso, o ponto de partida deste artigo é o entendimento da Economia Solidária, ademais da luta diária dos trabalhadores e trabalhadoras pela sobrevivência e de resistência a tudo que lhes é imposto, como uma possibilidade de superação do capi- talismo, isto é, como um horizonte de longo prazo, quiçá, um projeto de sociedade.
Esse projeto, no entanto, não é apenas uma utopia abstrata e distante. O que a Economia Solidária traz a tona é a autogestão como utopia concreta. Como expõe Bernardo (2005),
(...) sem a autogestão das lutas a autogestão da sociedade jamais será possível. Todavia, não se trata de projectar uma utopia num futuro longínquo. Pelo contrário, trata-se de afirmar uma pre- sença imediata, porque qualquer experiência de autogestão cons- titui, por si só, uma ruptura com as regras do jogo do Estado ca- pitalista. Ao mesmo tempo em que é a condição para generalizar a autogestão, o facto de gerir a própria luta é a demonstração da viabilidade prática das relações sociais anticapitalistas, igualitá- rias e colectivistas (Bernardo, 2005, p. 3).
O cenário desejado nos parece ser a construção de uma so- ciedade organizada por “produtores livremente associados”, como apontava Marx. No entanto, a autogestão traz a necessidade da construção de cenários a partir de outros pilares, sem deixar de lado o planejamento necessário. Nas palavras de Mészáros:
Os que desprezam a própria ideia de planejamento, em virtu- de da implosão soviética, estão muito enganados, pois a susten- tabilidade de uma ordem global de reprodução sociometabólica é inconcebível sem um sistema adequado de planejamento, ad- ministrado sobre a base de uma democracia substantiva pelos produtores livremente associados (Mészáros, 2004, p. 45 apud Novaes , 2011).
Em síntese, a breve aproximação com o tema da Economia Solidária aqui colocada não tem o intuito de esgotar o debate sobre suas possibilidades5, mas sim apontar que o que ela pode
ter de transformador é a capacidade de projetar o futuro sem nos perdermos nas empoeiradas doutrinas de esquerda. Nesse senti- do, a Economia Solidária, por meio de seu principal fundamento, a autogestão, torna possível a inscrição de um projeto de socie- dade na prática cotidiana nas diversas esferas da produção e da reprodução da vida. Retomaremos essa ideia no decorrer deste artigo.