3.2 Experimental method
3.2.4 Generating input to wave generator
Paul Virilio (2000)148, inspirado em Albert Einstein149, havia alertado para uma
catástrofe que golpearia o planeta, uma explosão informacional tão destrutiva quanto a bomba atómica150. Nesta perspetiva, o filósofo francês situava a informação como
corrosiva, como uma entidade destrutiva e maliciosa capaz de nos ameaçar com a anulação espaço-temporal e com a materialidade da personificação, subordinando as diferentes durações locais a sobredeterminações de tempo e espaço únicos, esvaziados de interações humanas reais.
Depois do “fim da história”, prematuramente anunciado poucos anos atrás por Francis Fukuyama, o que está sendo revelado aqui são os princípios do “fim do espaço” de um estreito planeta mantido em suspensão no eletrónico dos nossos modernos meios de telecomunicação. (…) O tempo do mundo finito está chegando ao fim e, a menos que sejamos astrónomos ou geofísicos, não entenderemos nada da repentina “globalização da história” se não nos voltarmos à física e à realidade do momento (Virilio, 2000, pp. 7-8, tradução nossa).
Para este filósofo, o dilúvio informacional existente na internet é responsável por nos remeter a um tipo de espaço-tempo tecnológico no qual o volume extenso e denso de informações – hoje conhecido como Big Data – é acessado de forma independente das condições espaciais e cronológicas. Sua visão negativa em relação às
148 Cf. Virilio, P. (2000). The information bomb. London: Verso. 149
Quando este profetizou, ainda nos anos 1950, a vinda de uma “segunda bomba” como sucessora da bomba nuclear manufaturada nos Estados Unidos durante a segunda Guerra Mundial, que explodiu em Hiroshima, no Japão, em 1945. A segunda bomba era aquela da informação, enquanto a terceira referia- se à bomba populacional que explodiria no século XXI. Cf. Armitage, J. (2000). Paul Virilio: From
Modernism to Hypermodernism and Beyond. London: Sage.
150 Neste sentido, Paul Virilio (2000) explica que a interação em tempo real seria para a informação o
mesmo que a radioatividade representava para a energia; isto é: a desintegração não afetaria somente as partículas da matéria, mas as próprias pessoas que formam a socieade, através de consequências como o desemprego em massa, a ascenção do terrorismo (escondido sob o anonimato da internet), guerras económicas globais (cada vez mais entrelaçadas às guerras informáticas) etc.
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novas possibilidades justifica-se na crença de estarmos vivendo um “falso-dia eletrónico, cujo calendário é composto apenas por ‘comutações’ de informações sem qualquer relação com o tempo real” (Virilio, 1993, p. 10)151.
E neste cotidiano como campo de batalha da bomba informática, como “um visível que se nos apresenta agitado, acelerado, instável, furtivo e fugidio”, Luis Miguel Loureiro (2017, p. 7)152 observa as transformações inauguradas com a experiência
societal reduzida ao que Manuel Castells vem a denominar como “sociedade em rede”. Para o pesquisador português, que dialoga numa direção próxima a de Paul Virilio no tocante ao “achatamento do mundo”, prevalece uma ideia de que ao achatar o mundo o visível positivo projetado nas redes promete-nos um futuro transparente, em que nos encontraríamos todos no mesmo plano, universalmente visíveis. Tal processo, por outro lado, acarretaria certas consequências:
A promessa pode até parecer virtuosa, e tem sido inúmeras vezes apresentada como a democracia global finalmente levada a todos, a democracia tornada universalmente acessível (Lévy, 2003). Mas, na verdade, ela encerra em si lógicas como as de vigilância global, as da ocultação e fuga do vigilante e do atirador e as da permanente revelação da posição do combatente desprevenido (Loureiro, 2017, pp. 8-9).
Nesta perspetiva, o mundo técnico, efetivamente achatado, estaria a reduzir- nos ao número. Isto é, ao número do cartão do cidadão, do contribuinte, da segurança social, do cartão de crédito, da identificação bancária, ao número mecanográfico – aquele que nos codifica, que nos torna identificáveis em qualquer lugar, um ponto sempre visível na rede de coordenadas do cotidiano digital. “Somos o alvo docilmente fácil da dominação tecnicamente dissimulada” (Loureiro, 2017, p. 10)153.
151 Cf. Virilio, P. (1993). O Espaço Crítico. Rio de Janeiro: Editora 34. 152
Cf. Loureiro, L. M. (2017), “Da (nova?) política num visível positivo”. In I. Babo; J. Bragança de Miranda; M. J. Damásio & M. Di Felice (Orgs.). Constelações do Ativismo em Rede (Vol. 1, pp. 5-13). Porto: Edições Universitárias Lusófonas (no prelo).
153 Por outro lado, neste mesmo texto Luis Miguel Loureiro (2017) reconhece a existência de fenómenos
de resistência – no sentido da invisibilidade – a tais processos de dominação tecnicamente dissimulada, tendo inclusive desenvolvido tese de doutoramento sobre o movimento da Geração à Rasca, indicada nas nossas referências finais: “Daí que se observem já, nos novos fenómenos de resistência fundados nos
interstícios do digital, processos subversivos de anonimização que utilizam, precisamente, as mesmas táticas de dissimulação para transformar o código num jogo de esconde-esconde que cria a ilusão de que a vitória se pode tornar imprevisível” (p. 7).
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Numa direção diversa daquela apresentada por Paul Virilio (2000), que observa a interatividade do mundo contemporâneo como representante do fim do século, que faz de toda presença “presente apenas à distância”154, a teórica e ativista italiana
Tiziana Terranova (2004) analisa a cultura contemporânea numa linha um pouco menos entusiástica que aquelas apresentada por autores como Pierre Lévy (2007), Lee Raine & Barry Wellman (2012) ou Manuel Castells (2013), mas não tão drástica quanto a do filósofo francês. Terranova reconhece a existência de uma aceleração da história e de uma anulação das distâncias dentro do meio informacional, mas as define como uma destruição criativa: um movimento produtivo capaz de resumir, ao invés de simplesmente inibir, potências sociais para a transformação no “caos da comunicação” em que vivemos.
Para pensar a qualidade da ação em rede no contexto desta assembleia heterogénea que é a cultura conectada dos nossos dias, caracterizada por uma abundância sem precedentes de resultados informativos e por uma aceleração das dinâmicas de informação, esta autora propõe que se reflita, simultaneamente, aquilo que é singular e múltiplo, que é comum e único – numa perspetiva similar àquela sugerida por Antonio Negri (2005).
Quando vista de perto e em detalhe, a cultura contemporânea (em todas as escalas do local ao global) aparece como um caleidoscópio de diferenças e desconcertante heterogeneidade – cada uma das quais mereceria reflexões individuais e específicas. Seja como for, no lugar delas mesmas apresentarem-se como fragmentos distintos, cada qual com a sua própria identidade e estrutura, aparecem-nos como uma malha de formações culturais sobrepostas, de reinvenções híbridas, polinizações cruzadas e variações singulares (Terranova, 2004, pp. 1-2, versão online, tradução nossa).
154 Corroboram a posição apocalíptica frente às novas tecologias pensadores como Carlo Ginzburg
(2010), que também coloca em xeque a ideia de que tudo e todos estão na Internet. Ao discorrer sobre a “Era Google”, o autor define o referido motor de busca como um poderoso instrumento de pesquisa histórica e, ao mesmo tempo, um poderoso instrumento de cancelamento da história, por acreditar que no presente eletrónico o passado tende a se dissolver. Cf. Ginzburg, C. (2010). “História na Era Google”. In Fronteiras do Pensamento *vídeo+. Disponível em http://www.fronteiras.com/artigos/carlo-ginzburg-a- internet-nao-apenas-remete-aos-livros-como-tambem-pressupoe-livros-1427135419. Consultado em 23 out. 2016.
Sobre o tema, ler ainda: Pimenta, R. M. (2013). “O futuro do passado: desafios entre a informação e a memória na sociedade digital”. In S. Albagli (Org.). Fronteiras da Ciência da Informação (pp. 146-171). Brasília: Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT).
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Ao tratar das implicações destes meios informativos distribuídos e interconectados, no interior de uma possível dimensão política da comunicação, a autora tenta elucidar a seguinte questão: “É ainda possível falar dos media como uma ‘esfera pública’ na era da propaganda de massa, dos oligopólios mediáticos e da guerra da informação?” (Terranova, 2004, p. 10). Se a massificação for tomada como um campo para a propagação de afeções, esta pode ser vista como capaz de incluir audiências especializadas e, no caso da internet, microssegmentadas.
Tal meio comum, interconectado por fluxos de imagens e afetos, é apontado por Tiziana Terranova como lugar de surgimento de novos modos de engajamento político, da constituição política comum através do biopoder da comunicação155.
Embora refute a existência de uma relação linear de causa e efeito entre tecnologias e mudanças sociais, a autora não deixa de enfatizar a dimensão da comunicação e da informação sobre outros aspetos de tais mudanças. Sua análise sobre a constituição do biopoder comunicativo como forma de resistência numa cultura conectada parte da lacuna de transparência e de prestação de contas existentes nas instituições públicas oriunda de uma cultura do secretismo156, responsável por minar o bom funcionamento
da democracia.
A partir de um reconhecimento mais enfático das transformaçõs técnicas, sociais, educacionais e psíquicas introduzidas pela revolução digital, a pesquisadora brasileira Lucia Santaella (2016) contribui para este debate ao apontar um paradoxo inerente aos dispositivos de controlo que fazem parte do biopoder, originados nas
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As observações de Tiziana Terranova sobre biopoder da comunicação exigem-nos um recuo para o entendimento desse conceito, propagado por Michel Foucault e reelaborado por autores contemporáneos como Giorgio Agamben, Antonio Negri e Roberto Esposito (cujo conceito de biopolítica apresentamos no Capítulo 3 da Parte I desta tese).
Na conceção original de biopoder, Foucault analisava o poder como algo não proveniente de um núcleo central que a tudo controla, mas como algo dinâmico, instável, heterotópico, investido de todas as partes do social – seja ela política, jurídica, económica, científica etc. –, gerindo as vidas e os corpos através das tecnologias. Como traduziu Lucia Santaella (2016): “O poder em si não existe, existem
relações de poder, muitas vezes difusas, flutuantes, imprecisas, que, nas relações humanas, quaisquer que sejam, amorosas, institucionais ou econômicas, atuam em diversos níveis, sob diferentes formas, de maneira móvel, sutil e múltipla” (p. 20). Cf. Santaella, L. (2016). Temas e dilemas do pós-digital: a voz da política. São Paulo: Paulus.
156 Fundamentada na abordagem do economista norteamericano Joseph Stiglitz, a autora destaca a
maneira como o Fundo Monetário Internacional mina o crescimento dos países em desenvolvimento para favorecer o enriquecimento de investidores estrangeiros. Cf. Stiglitz, J. (2002). Globalization and Its
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grandes instituições da modernidade – escola, caserna, fábrica, hospital, prisão etc. – e voltados para uma gestão produtiva dos mais diversos aspetos da vida das populações. Para a autora, estes precisam coabitar com as forças de resistência política que tomam como base de apoio justamente aquilo em que o poder investe: a vida vivida dos seres humanos. Assim como a ativista italiana, Santaella observa tais resistências a partir de uma interpretação política dos movimentos sociais digitais:
Foi assim que os recentes movimentos sociais que pipocaram no mundo, apesar das diferenças (…) tinham como cerne de suas reivindicações as necessidades fundamentais da vida na concretude do seu viver. “A vida tem sido tomada como objeto político e voltada contra o sistema que quer controlá-la. A vida, muito mais do que o direito, tem-se tornado o objeto das lutas políticas, mesmo sendo estas últimas formuladas através de afirmações de direito” como: “direito à vida, ao corpo, à saúde, à felicidade, à autorrealização, à satisfação das necessidades etc.” (Merçon, 2001, p. 91 apud Santaella, 2016, p. 25).
Uma reflexão que leve em consideração a tríade composta por comunicação, transparência e democracia é apontada por Tiziana Terranova como uma das premissas do pensamento moderno. “De Diderot a Voltaire e Thomas Payne, as conceções modernas de democracia começam com as demandas de revolucionários burgueses por liberdade de expressão e representação política” (Terranova, 2004, p. 131, tradução nossa). A democracia, no sentido apresentado, não apenas garante, mas é garantida pelos direitos dos seus cidadãos à representação em ambas as esferas, política e comunicativa; ao acesso às informações relativas ao exercício do serviço público e a serem representados no espectro das posições. Em outras palavras, “liberdade de informação e comunicação sustenta a liberdade de expressão, liberdade de expressão sustenta a democracia” (Terranova, 2004, p. 132).
Isto significa dizer que o acesso ao espaço público – no sentido habermasiano157
– da comunicação e informação é tomado por esta autora como condição elementar
157 O filósofo e sociólogo alemão sublinha o modelo original para tal conceção da relação entre a
comunicação e a política: a esfera pública burguesa que emerge no final do século XVII, na Europa Ocidental, como um espaço distintivo no qual indivíduos particulares dialogavam para formar um corpo público. Naquele contexto, os seus componentes não se comportavam nem como empresários ou profissionais negociando assuntos privados nem como membros de uma ordem constitucional sujeita a contrastes legais de um negócio burocrático. Cf. Habermas, J. *1962+(1991). The Structural
Transformation of the Public Sphere: an Inquiry into a Category of Bourgeois Society. Cambridge: The
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para que os cidadãos possam aprender sobre o desenvolvimento da res publica, a fim de desenvolver uma opinião informada, expressá-la e pressionar os governos. Conforme adiantamos no tópico anterior, desde a ascensão da burguesia, a qual Jürgen Habermas (1991) remonta o surgimento da esfera pública como um espaço independente para racionalizar o exercício público da autoridade, a opinião pública aceitava que o poder de governar fosse delegado, desde que se preservasse também o direito de monitorar os políticos.
O poder esmagador constituído pelos media na vida política da social democracia teria levado, de acordo com Terranova (2004), a numerosos postulados teóricos a respeito da emergência de uma nova esfera pública, de modo que a relação entre a comunicação e a democracia nunca tenha sido realmente o domínio exclusivo de uma ‘esfera pública’ na qual cidadãos pudessem monitorar a ação dos eleitos e incontáveis governos. Provavelmente porque, segundo esta visão, a maior parte da sociedade não se sentia incorporada como “cidadão iluminado” pensante desta esfera, o que contribuiu para que fosse delegado também este papel de formador de opinião à cultura de massa, progressivamente entrelaçada aos interesses políticos.
Tal fenómeno seria provado, mais notoriamente, desde os regimes totalitários da segunda metade do século XX, para os quais comunicação não representava apenas um caminho para o acesso à informação e ao debate público, mas a manipulação através de diversas táticas – da propaganda à censura e distorção. “Como mais explicar o fato que é a predominância de vozes populistas e autoritárias que parecem quase naturalmente mestres dos media?”, questiona Terranova (2004, p. 133, tradução nossa), ressaltando a presença mediática massiva de nomes da extrema direita como Ronald Reagan, Margareth Tatcher, Silvio Berlusconi, Osama Bin Laden e Tony Blair.
Por esta razão, a manipulação mediática ao longo das democracias de massa, por parte daqueles que podem finalmente suportá-la – transformando-a num campo sistemático de pesquisa de técnicas para formação de um consenso hegemónico – nem de longe lembraria a esfera pública burguesa composta por indivíduos engajados numa discussão sobre os interesses públicos, conforme diferencia a autora:
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A esfera pública corrente não é uma esfera de mediação entre Estado e sociedade civil, mas um lugar de conflitos permanentes, informados por estratégias de guerrilha mediática. Comunicação não é um espaço da razão que se interpõe entre o Estado e a Sociedade, mas é agora um espaço de luta direta entre o Estado e diferentes organizações, representando os interesses privados de grupos de indivíduos organizados (Terranova, 2004, p. 134, tradução nossa).
A solução contra a corrupção dos meios de comunicação tradicionais pelos interesses privados passaria, na sua interpretação, pela reconstituição de um espaço livre e aberto de comunicação, indicado como chave para o retorno a uma vida democrática mais autêntica. As esperanças para a composição desta nova esfera pública como espaço alternativo aos velhos media foram colocadas na Internet e na sua multidão conectada em modo ciberdemocrático, que teriam revelado um meio político eficiente em termos de poder de mobilização e de abertura ao acesso à informação.
Tem tornado então visível a existência de uma massa global conectada, com uma participação nos processos políticos regionais, nacionais e globais. Ao mesmo tempo em que tais massas têm aparecido na mediasfera global, contudo, o problema tem se tornado aquele das outras massas, a maioria silenciosa, a televisão pública mantida refém por um poderoso monopólio mediático em um mundo às avessas de propaganda e simulação (Terranova, 2004, p. 135, tradução nossa).
O interesse aqui sublinhado não está em distinguir as redes entre os “bons” conectados e os “alienados desconectados”158, mas em compreender que tipo de
relação deve existir entre estas duas constituições na esfera da comunicação. Ainda que não ignore o processo de saturação de imagens e fluxos informativos componentes dessa “hiperrealidade”, capaz de provocar “o fenómeno do parasitismo, dos excessos em rede, dos nichos de imagens locais, das micro-ecologias undergound etc.” (Terranova, 2004, p. 141), o foco da sua abordagem também não está na questão do universo mediático ter vindo a constituir um mapa capaz de substituir o real159. Seu
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Aqueles conectados à internet que não participam da esfera pública digital analisada pela autora.
159 Falamos aqui da perspetiva do simulacro, projetada por Jean Baudrillard (1990), que tentamos
reproduzir através do seguinte enunciado: “Nesta passagem a um espaço cuja curvatura já não é a do
real, nem a da verdade, a era da simulação inicia-se, pois, com uma liquidação de todos os referenciais – pior: com a sua ressurreição artificial nos sistemas de signos, material mais dúctil que o sentido, na medida em que se oferece a todos os sistemas de equivalência, a todas as oposições binárias, a toda a
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cerne aponta para esta miríade de imagens ser exibida abertamente, como um campo de propagação de intensidades ou afeções.
Uma cultura conectada, de fato, implica numa complexificação dos ambientes dos media de massa – isto é, a dimensão que envolve as múltiplas durações das diferentes formações culturais e meios. Dito de outra forma, não estaríamos mais num regime de cultura de massa160, na qual esta poderia ser colocada de um lado oposto a
uma alta cultura do discernimento estético e do debate racional, tampouco estaríamos no meio de uma cultura popular que autenticamente expressou o poder das pessoas. Para Terranova, nem mesmo podem ser opostas as massas televisivas à multidão da Internet sem que sejam convenientemente eliminadas as suas interseções e retransmissões num meio de informação comum.
A ecologia das imagens da cultura conectada é altamente diferenciada e isto implica, segundo Baudrillard, que as imagens não apenas atravessam, mas são canalizadas através de um segmentado e capilar sistema de comunicação. Não existe simplesmente uma massa amorfa, mas uma ecologia fractal de nichos sociais e micronichos. Isto é, nós não estamos vivendo em uma pura cultura de massa, mas em uma configuração da comunicação onde a perceção pura da massa confronta e interage com um fraturado e microssegmentado meio informacional (Terranova, 2004, p. 144, tradução nossa).
Embora as correntes teóricas mais recentes sobre a comunicação mediada por computador tenham associado a emergência das comunidades virtuais às fronteiras norte-americanas161, a autora italiana compreende-as como sucessões tecnológicas das
álgebra combinatória. Já não se trata de imitação, nem de dobragem, nem mesmo de paródia. Trata-se de uma substituição no real dos signos do real, isto é, de uma operação de dissuasão de todo o processo real pelo seu duplo operatório, máquina sinalética metaestável, programática, impecável, que oferece todos os signos do real e lhes curto-circuita todas as peripécias” (p. 9). Cf. Baudrillard, J. *1981+(1990). Simulacros e simulações. Lisboa: Relógio d’Água.
160 Tal afirmação nos leva a interpretar as massas numa pespetiva da teoria crítica frankfurtiana, como
massas de espectadores passivos. Contudo, com base nos diferentes estatutos de participação propostos por Erving Goffman, Louis Quéré (2015) nos convida a repensar a questão ao explicar que a experiência pública pode ser apreendida de pontos muitos diferentes, não devendo ser restrita somente aos decisores, aos mediadores ou aos ativistas - “quer estes ajam como cidadãos que participam na
formação da vontade colectiva, quer como militantes de associações, movimentos, partidos, sindicatos etc.” (p. 5). Para este autor francês, o público espectador é muito diferente do público habermasiano que
se assemelha a uma sociedade de debate, ou do público deweiano de pesquisadores comprometidos e ativos; consiste num público que partilha das emoções da condição de espectador: “A condição de
espectador é mesmo um método de participação na experiência pública, mas ela é em si diversa, variando de acordo com o grau de desenvolvimento da percepção e com o trabalho realizado para criar a sua própria experiência” (p. 12). Cf. Quéré, L. (2015). “Prefácio”, op. cit.