1.3 Spermatogenesis
1.3.1 General structure
Urbanização é sinônimo de modernização, neste sentido o tema da construção civil “sustentável” é muito mais amplo, e de certa forma envolve o problema do crescimento das cidades.
Na reportagem de Silvia Wargaftig “Metrópole aprova lei de Mudanças Climáticas: Principal centro financeiro do país é uma das cidades mais caóticas do mundo, São Paulo transforma em lei o desafio de ser sustentável” (BRASIL, ed. 26, 2009b, p. 14), aborda o assunto da possibilidade da maior cidade da América Latina ser a primeira “sustentável”. Silvia Wargaftig entrevista o prefeito de São Paulo Gilberto Kassab (do Democratas) para falar desse enorme desafio de tornar a cidade “sustentável”:
O aquecimento global é o desafio mais importante, do ponto de vista econômico, social e ambiental, para a humanidade, no século 21. Cada um deve fazer a sua parte. Com a nova política, São Paulo passou a estar entre as cidades mais atuantes no mundo, afirma Gilberto Kassab. A humanidade mora cada vez mais em áreas urbanas. O consumo que determina a produção é praticamente todo realizado nas cidades. É nelas que a democracia pode ser mais intensamente vivida. Devemos dar o exemplo, ressalta (BRASIL, ed. 26, 2009b, p. 14).
Para alcançar o objetivo de tornar a cidade de São Paulo “sustentável”, o governo sancionou a Política Municipal de Mudanças do Clima, Lei 14.933/09, sancionada em junho, estabeleceu a meta de reduzir em 30% as emissões de gases de efeito estufa (GEE) da cidade nos próximos quatro anos. Para cumprir a nova legislação, a prefeitura de São Paulo criou o Comitê Municipal de Mudanças do Clima e Ecoeconomia, formado pelo governo estadual, das secretarias municipais e de entidades da sociedade civil, entre as quais estão o Greenpeace, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (ANFAVEA) e o Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo. Segundo Silvia Wargaftig, “(...) juntos, eles terão de superar os próprios interesses e construir consensos para planejar, implementar e acompanhar programas, políticas e metas” (BRASIL, ed. 26, 2009b, p. 14).
Para a jornalista Silvia Wargaftig, os esforços de redução dos efeitos que causam o aquecimento global são das mesmas proporções que o tamanho da
cidade de São Paulo, são enormes. Numa cidade com 11 milhões de habitantes e 1,5 milhões de desempregados não será fácil pensar soluções para questões sociais, ambientais e econômicas. Kassab fala em estratégias para o lixo, transporte limpo, arborização e saneamento básico. Todas são questões prioritárias, mas o caso mais problemático é o dos transportes. Os veículos na cidade de São Paulo em conjunto emitem 76,14% do CO2, gerada pela queima do diesel e da gasolina
usados para mover os 6,5 milhões de veículos licenciados na cidade. E o problema se agrava com a adição de aproximadamente oitocentos (800) novos veículos a cada dia. A principal meta da prefeitura da cidade de São Paulo é tentar reduzir as emissões dos gases poluidores até 2010, a partir do investimento na nova frota de ônibus, substituir os combustíveis fósseis por outros. Projetos de trem, metrô, trolebus e corredores andarão juntos com a nova legislação ambiental.
Além das promessas para o futuro, a gestão atual da prefeitura da cidade de São Paulo passou a fazer parte da comissão executiva do C40: Large Cities Climate Leadership Group. Um grupo de discussões internacionais que reúne as maiores cidades do mundo. Basicamente, nos eventos realizados pelo C40 são debatidas novas formas de adoção de tecnologias para a redução de emissões de GEE.
Além das possibilidades de “sustentabilidade” para a cidade de São Paulo, encontramos outras matérias que abordam novos tipos de organização urbana, que visam à preservação do meio ambiente e a qualidade de vida. A jornalista Vanessa Campos aponta para mudança dos conceitos dentro do setor da construção civil, por exemplo, a adoção de “cidades sustentáveis”, que vem sendo discutido entre os especialistas da área, em âmbito nacional e internacional (PRIMEIRO, ed. 14, 2009a).
No Brasil, a jornalista apresenta duas novas definições que surgem também para rever o sentido de construção e moradia: O primeiro é o “urbanismo sustentável”, segundo Dilnei Silva Bittencourt, engenheiro diretor da Cidade Universitária Pedra Branca (localizada na região da Grande Florianópolis, Santa Catarina) “Não adianta fazer um prédio verde numa cidade impactante, que polui mais”. Para ele, a alternativa é apostar na cidade-bairro, onde as pessoas moram, trabalham, estudam e se divertem num mesmo lugar. Uma ideia próxima dos subúrbios dos EUA, que surgiram na década de 80. Em Santa Catarina, a cidade de Pedra Branca possui o primeiro projeto de “urbanismo sustentável”. Numa área de 250 hectares, com atualmente quatro mil pessoas morando no local e gerando mil
empregos diretos, a vida em Pedra Branca segue os seguintes princípios urbanísticos:
Prioridade ao pedestre;
Uso misto e complementaridade; Senso de comunidade;
Diversidade de moradores; Densidade equilibrada;
Sustentabilidade e alta performance do ambiente construído; Espaços públicos atraentes e seguros;
Harmonia entre natureza e amenidades urbanas; Conectividade e integração regional.
(PRIMEIRO, ed. 14, 2009a, p. 9).
Neste tipo de planejamento urbano o automóvel é totalmente descartado, dando a prioridade à caminhada, um elemento vinculado à ideia de saúde. Dilnei Silva também fala em seis princípios para elaboração de um projeto voltado para o “urbanismo sustentável”.
SEIS PRINCÍPIOS PARA REDUZIR O IMPACTO GERADO PELA CONSTRUÇÃO CIVIL
1. Minimizar o consumo de recursos (conservar); 2. Maximizar a reutilização de recursos (reuso);
3. Usar recursos renováveis ou recicláveis (renovar/reciclar); 4. Proteger o meio ambiente (proteção da natureza);
5. Criar um ambiente saudável e não tóxico (não tóxicos);
6. Buscar a qualidade na criação do ambiente construído (qualidade). (PRIMEIRO, ed. 14, 2009a, p. 8).
Construção é o segundo ponto nas mudanças de sentido. Parece que a alternativa é aperfeiçoar a atividade produtiva, principalmente no melhor aproveitamento de resíduos (reciclagem), o que diminui o impacto na natureza e os custos da obra. Mas a construção civil não pode perder a qualidade. Na reportagem com Marcelo Takaoka, presidente do Conselho Brasileiro de Construções Sustentáveis (CBCS)28, ele fala da qualidade da habitação e o conforto térmico na
construção de casas e edifícios. Ele também acredita que a melhor estratégia na construção civil é planejar de forma correta o consumo de água e de energia que prolonguem a vida útil das construções.
28
A CBCS é uma organização que atualmente faz parte do Sustainable Buildings and Construction
Initiative (SCBI), coordenado pelo Programa Ambiental das Nações Unidas (UNEP). O programa tem
o objetivo de demandar do governo e do setor da construção civil o desenvolvimento de políticas, estratégias e práticas mais eficientes e limpas no uso dos recursos naturais.
As preocupações com a construção também devem incluir paisagismo, cultivo agroflorestal e criação de animais. Para o engenheiro do Instituto de Permacultura do Amazonas (IPA), Carlos Koury, deve haver a integração da habitação com o meio ambiente. O gás utilizado na cozinha ou no aquecedor da água do banho pode estar conectado a um sistema biodigestor, que é abastecido por resíduos de compostagem a partir da criação de porcos e galinhas.
O mesmo raciocínio é elaborado por Roberto Lamberts, PhD em Engenharia Civil pela University of Leeds, UK e Professor titular da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que considera a qualidade na construção como um fator imprescindível para ser “sustentável”. Mas, para ele, a iniciativa não deve ser somente do setor privado, o governo deveria ter um plano mais ousado no setor da construção civil, principalmente no investimento de fontes de energia renovável: “São dezenas de atitudes que devemos tomar, mas acho que falta desejo político no Brasil” (PRIMEIRO, ed. 14, 2009a).
Pesquisas mostram que o Estado é o grande comprador da construção civil, mas pouco cobra sobre a procedência dos materiais que adquiriu. De acordo com Carlos Gabriel Koury, engenheiro florestal e coordenador do Programa Unidades de Conservação do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (IDESAM), o governo brasileiro não possui um programa voltado para energias alternativas em habitações do próprio Estado.
Existem tantos outros projetos para a construção “sustentável”, mas há um problema em tornar essas ideias reais. Segundo o mestre em Arquitetura pela Faculdad de Arquitetura Division de Estúdios de Pós-graduação – Universidade Nacional Autônoma de México, doutor em Urbanismo e professor da UFSC, Lino Peres Fernandes Bragança, não existem parcerias entre universidades e governo principalmente na formalização de políticas públicas como planos diretores. Para o especialista, a burocratização é um dos maiores empecilhos na construção de uma cultura realmente “sustentável”. O governo poderia apoiar com impostos mais baixos os empreendimentos voltados para a “sustentabilidade”.