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3.1 Sponsorship

3.1.1 General sponsorship theory

Virada do século XVIII para XIX, depois de um período relativamente pacífico entre as coroas portuguesa e espanhola, o território do então Rio Grande do Sul se vê as voltas, novamente, em meio a conflitos. Em 1801, conforme Guilhermino Cesar, a coroa espanhola com o intuito de povoar a Banda Oriental, envia o Comissário Felix Azara, que

funda o povoado de São Gabriel, no local denominado cerro do Batovi55. Para esse local

foram enviadas famílias de espanhóis, que inicialmente estavam destinadas a povoarem regiões da Patagônia. Essa ocupação não durou três meses quando “foram, entretanto dispersados pelos nossos, durante as correrias de que resultou a queda das Missões Orientais em poder dos rio-grandenses” e que coincidiu com a anexação dos Sete Povos pelos portugueses (CESAR, 2002:210).

De acordo com o autor, esse conflito derivou-se de outro acontecimento: o rei espanhol Carlos IV, aliado com a França, começa a hostilizar Portugal em virtude do não rompimento de suas relações com a Inglaterra (inimiga da França). Foram enviados os exércitos franco-espanhóis para invadirem a região do Alentejo. Esse conflito, embora tenha durado pouco tempo, serviu de estopim para que o então Governador do Rio Grande do Sul, Veiga Cabral, que faleceria logo em seguida a essa investida56, enviasse milicianos, desertores anistiados e soldados licenciados para guarnecerem a Vila de Rio Grande e a fronteira de Rio Pardo (CESAR, 2002).

Ele havia organizado duas frentes como forma de ofensiva. A que partiria de Rio Grande, tendo como lideres o Tenente-Coronel Jerônimo Xavier de Azambuja e o Coronel Manuel Marques de Sousa, que ansiavam por uma revanche depois da invasão liderada por D. Pedro de Cevallos, obtendo vitoria depois da ação sobre o Forte de Cerro Largo. A outra frente estaria a cargo dos Dragões, comandados por Patrício José Correa da Câmara, ocupando uma região antes dominada por tribos guaranis. O comandante José Ignacio de La Quintana, depois de ser informado da queda de Cerro Largo, acabou abandonando a batalha (IDEM).

Esse evento militar de 1801 era mais um de uma série de outros que marcaram a história do Rio Grande do Sul e que estava circunscrito ao processo de ocupação do território da região do Rio da Prata pelas coroas portuguesa e espanhola.

A historiadora Heloisa Jochms Reichel chama a atenção para essa série de eventos que vinham acontecendo desde o século XVI e que fazem parte de um processo

55 O local onde foi fundado esse povoado, hoje pertence ao Rio Grande do Sul.

56 Assumiria de 1801 a 1803, o Engenheiro militar e geógrafo, da Ilha da Madeira, Francisco João Roscio,

que já estava no Brasil desde 1767, como capitão. Participando então das campanhas militares, como apoio logístico, que pretendiam retomar Rio Grande dos espanhóis (Noal Filho, 2004).

de longa duração que teria acontecido na região. Ela discute que essa questão vinha sendo negligenciada pela historiografia mais tradicional, que via a história do estado a partir da fundação do presídio Jesus-Maria-José, em 1737, e que, posteriormente, originaria a cidade de Rio Grande. Ela argumenta que precisam ser observados outros movimentos, que fazem parte desse longo processo de exploração, ocupação e formação do território onde se instalaria o estado rio-grandense (REICHEL, 2006).

Esse processo se amplia para as esferas não só geográfica, mas também política e humana. Assim, ela salienta, que muito antes de serem visadas pelos portugueses as terras localizadas no litoral, e que posteriormente seriam ocupadas no principio do século XVIII, o território situado junto às fronteiras oeste e sul, do atual estado, já estavam integradas e se configuravam numa região espacial denominada Região Platina (IDEM).

Como forma de entender melhor esse espaço, se vale de conceitos da geografia crítica, dos anos 1950, apontando que o estabelecimento de uma região se dá partir da relação do homem com a natureza, de “seu trabalho, resultando dessa troca espaços geográficos, dotados de especificidades naturais, econômicas e humanas” (IDEM: 44). O campo historiográfico, segundo ela, também tem contribuído para essa discussão, percebendo as relações sociais como decorrência de experiências de vida, de idéias e de sentimentos que os homens acabam desenvolvendo, produzindo uma cultura que também é importante para configurar esse espaço, que acaba definindo esse espaço (IDEM).

Nessa então região platina as atividades econômicas relacionadas à pecuária e seus produtos é que impulsionam seu crescimento e expansão. Sendo geograficamente formada por extensas planícies e banhada por muitos rios, que fazem parte da Bacia do Rio da Prata, acabou sendo favorecido o desenvolvimento de um intenso comércio. Esse tipo de hidrografia possibilitou a instalação e funcionamento de bons portos, de fácil navegação, que desde o principio da ocupação da América permitiu a portugueses e espanhóis o acesso facilitado à área mineradora de Potosi (IDEM).

Imagem 17 – Mapa com as modificações na fronteira a partir do Tratado de Madri e Santo Ildefonso. Fonte: KUHN, 2002, p. 36. Op. Cit. Synesio Samapio Goes Filho. Navegantes, Bandeirantes e Diplomatas: um

ensaio sobre a formação das fronteiras do Brasil. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

A entrada posterior dos jesuítas espanhóis com suas reduções, com o propósito de adentrar nos territórios interiores sul-americanos, favoreceu de maneira crescente a formação de imenso potencial econômico que acabaram se tornando as atividades relacionadas à pecuária regional57 (IDEM).

O gado vacum possuía inúmeras utilidades. Do couro se fabricava todo tipo de abrigos e utensílios. Os selins e as cabeçadas, as rédeas, os tirantes e os laços eram feitos de correias trançadas de couro; as boleadeiras eram pedras cobertas de couro e ligadas entre si também por correias do mesmo material; as

57 Além do gado bovino, na região ainda estavam introduzidos o gado cavalar e o ovino, que aparecia em

mercadorias eram transportadas em sacos costurados com tiras de couro. Portas e janelas dos ranchos, bem como camas, cadeiras e vestimentas, também eram desse material. Como meio de transporte, cabia ao gado puxar pesadas carretas, por vezes em viagens longas. Também era utilizado nas estâncias e chácaras, auxiliando nas atividades agrícolas (Idem: 46).

Embora a pecuária na região tenha sido em muito incrementada pela ação dos jesuítas, a introdução do gado vacum e cavalar foi possibilitada pelos colonizadores espanhóis que saíram de Assunção, capital do Paraguai, no século XVI. Em 1556, o gado vacum é introduzido na cidade através da compra de algumas cabeças de comerciantes da capitania de São Vicente. Outras cabeças foram trazidas via Pacifico, a partir do Peru. A partir disso, o gado se proliferou e se espalhou por toda a região, chegando à zona da Campanha, próxima a Buenos Aires, no final do século XVI, e daí se disseminando para a Banda Oriental (IDEM).

O processo de incorporação dos territórios localizados na fronteira meridional americana, por parte dos portugueses e sua efetiva ocupação a partir de 1680 acompanha outra mudança no cotidiano português: as suas concepções de mundo, ocorridas na Europa Ocidental, que foram bem recebidas e admitidas pela Corte portuguesa e que acabaram influenciando o processo histórico (ESPIRITO SANTO, 2006).

A introdução de novas idéias decorrentes da revolução humanista, através dos processos de secularização, racionalismo e individualismo, acabaram por afetar a visão de mundo das políticas portuguesas. Com a invasão e fundação da colônia de Sacramento, em 1680, defronte a Buenos Aires, Portugal acabou cancelando as prerrogativas acertadas no Tratado de Tordesilhas e culminou nas futuras ações empreendidas quanto à ocupação do espaço platino, tanto de portugueses quanto de espanhóis (IDEM).

A interpretação portuguesa quanto ao acertado no Tratado de Tordesilhas possibilitou a execução de ocupação da colônia de Sacramento como território de direito

português58. A resposta espanhola foi o ataque de surpresa que se sucedeu logo depois.

Sacramento foi massacrada e cento e dezesseis portugueses morreram e os sobreviventes aprisionados. A reação portuguesa também foi violenta e quase culminou em uma declaração de guerra (IDEM).

O Tratado Provisional de 1681 devolveu a colônia de Sacramento a Portugal. Em resposta a essa medida, considerada injusta pelos espanhóis, a Companhia de Jesus acabou fundando mais 6 reduções jesuíticas nos anos seguintes, tentando formar uma barreira para a expansão lusa na região platina (IDEM).

Questões de sucessão no trono espanhol acabaram causando novas contendas entre Espanha e Portugal, culminando em novos ataques à Sacramento, em 1704, cujos moradores tiveram que se retirar para o Rio de Janeiro. Em 1715, com o Tratado de Utrecht, a diplomacia inglesa (aliada de Portugal) acabou garantindo a retomada de Sacramento para a coroa portuguesa. A partir disso, Portugal se viu dificultada em suas idéias expansionistas. Com o tempo acabou por encontrar os argumentos de que necessitava para a anexação do território do Rio Grande do Sul ao Brasil. Essa conquista deve-se principalmente aos novos movimentos de ambas colônias, que culminaram em novas negociações. Em 1750, é firmado o Tratado de Madri, onde os portugueses trocam Sacramento pelos Sete Povos das Missões (IDEM).