Na Santa Casa de Misericórdia, as ações sempre pareceram transparecer uma total adesão aos preceitos preconizados pelo poder provincial. Não era a toa que os Provedores, quase sempre, eram os próprios Presidentes de Província. No entanto, no dia-a-dia, a Mesa Administrativa parecia não estar sempre em conformidade com o que o governo central recomendava. Claro que, quando a ordem vinha por escrito, na forma de um ofício, requerimento ou mesmo carta, a direção do hospital prontamente procurava atender aos ditames governamentais.
Durante décadas, ou melhor, quase todo século XIX, precisou ceder um espaço grande do prédio, que poderia abrigar algumas enfermarias e desafogar um pouco o cotidiano hospitalar. Esse espaço era ocupado pelo Hospital Militar. Durante quase todo o período pesquisado existiam requerimentos enviados para as autoridades locais, regionais e por vezes centrais para que se permitisse transferir os doentes militares para outro prédio. A resposta era sempre a mesma: não poderiam porque não tinham outro espaço para acolher esses enfermos. A Mesa Administrativa acatava a solicitação e tentava arrumar de outra forma o problema. A questão de dinheiro também nesse ponto tinha respostas muito parecidas. Houve várias tentativas de aumentar o aluguel do prédio onde estava o Hospital Militar, mas nem sempre foi possível conseguir que esse objetivo fosse atendido.
O hospital não tinha espaço para o atendimento dos expostos, mas quando ficou decidido que passaria a ser encargo da Misericórdia o acolhimento das crianças abandonadas, mais uma vez a direção teve que resolver o problema da melhor maneira que pode.
A questão do dinheiro não era a única que afetava o cotidiano desse hospital. Muito embora existissem regras que prescreviam quais deveriam ser os doentes aceitos, muitas vezes a Santa Casa se via obrigada a aceitar enfermos com os quais não teria como organizar uma forma adequada de tratamento, mas sempre havia um modo de contornar
a situação; e logo depois se via nas atas ou relatórios que determinados pacientes estavam sendo aceitos. Eram atendidos muitas vezes em condições consideradas desumanas, tanto que os próprios Provedores por vezes queixavam-se do abandono com que era tratados, por exemplo, os alienados (Ver RPISCMPA).
Além destes, havia outro problema, em relação ao corpo de funcionários, a Mesa administrativa também procurava atender as demandas que eram exigidas na cidade. Conforme os Códigos de Posturas somente deveria poder curar, principalmente em hospital, quem tivesse o título para tal. Embora isso fosse prerrogativa do governo, na Santa Casa houve inúmeras vezes que foram aceitos práticos para funções importantes como boticário, médico de banco ou cirurgião.
O Dr. Israel Rodrigues Barcellos Filho trabalhava há mais de 10 anos na Santa Casa, muitas vezes gratuitamente, quando em 1882 pediu sua exoneração como médico dos expostos e como médico do hospital. Na despedida, o Provedor atesta as vantagens de ter tido um médico tão bom e que cuidava dos doentes de forma mais barata. Ele era homeopata e embora já houvesse um entrave em que os médicos cada vez mais queriam a preferência nos tratamentos médicos, ele conseguiu ficar dentro do hospital tratando os pacientes com o sistema homeopático.
Outro caso é o do Encarregado da Botica, Ernesto José da Silva, também trabalhava há mais de 4 anos no hospital e cujo desempenho era apreciado, teve que ser afastado do hospital porque o Inspetor Interino da Saúde Pública ter informado que não deveriam ser aceitos práticos para o serviço do hospital e que o funcionário deveria ser afastado.
Dez anos antes, em 1872, o encarregado da Botica da época também atuava fora das suas obrigações. Não tendo pessoal suficiente para atendimento dos enfermos existentes, ele atuava como Enfermeiro-mór.
Diversas foram às ocasiões em que a Santa Casa pareceu estar à margem da lei, para conseguir ultrapassar os entraves que aconteciam todos os dias na rotina diária daquele hospital.
Tania Salgado Pimenta afirma que existia todo um aparato burocrático que os governos se esforçaram para impor e para conseguirem a oficialização das práticas de cura ou para reprimirem as atividades consideradas ilegais. Não só ela, mas como muitos pesquisadores da área de história da medicina, concordam que isso acontecia em
inúmeras ocasiões e lugares, principalmente durante o século XVIII e XIX (PIMENTA, 2004).
As práticas de sangrar, por exemplo, eram ainda aceitas de serem feitas pelos sangradores da época porque era um trabalho muito desvalorizado, contudo depois de um tempo virou uma tarefa efetuada por mãos mais especializadas e que ocupavam um lugar na estratigrafia social, que não era a que os escravos ocupavam.
O tratamento homeopático se assemelhava nesse sentido ao que era executado pelos curandeiros e parecia que entrava mais em contato com o doente do que o que era despendido pelos médicos alopatas, cada vez mais distantes. Tania Pimenta argumenta que essa aceitação da homeopatia mais próxima da população em geral se deve pelo fato das concepções da homeopatia também serem vistos como uma experiência que aproxima a espiritualidade da doença e da saúde. Assim também eram as práticas exercidas pelos negros e libertos que atuavam na maioria das vezes como sangradores (PIMENTA, 2003).
Essa aproximação com os pacientes, despendendo um tratamento mais humano é cobrado no Relatório da Provedoria da Santa Casa de Porto Alegre, de 1884, onde o Provedor afirma que o trabalho dentro do hospital, exercido pelo enfermeiro, não é nada mais que mecânico e que deveria ser dispensado mais cuidado em relação aos enfermos, pois estes já levavam uma vida de sofrimentos e deveriam poder dispor de um tratamento mais condizente com sua condição. Neste caso, ele ressalta como a presença das irmãs de caridade se fazia imprescindível no hospital (RPISCMPA, 1884).
O que se pode perceber a partir da leitura das atas e relatórios da Santa Casa é de que no decorrer do tempo, as ações que eram executadas sempre visavam satisfazer, da melhor forma, o objetivo geral da instituição que seria acolher os enfermos desvalidos. O recolhimento ainda parecia ser primordial no principio do século, no entanto, quanto mais passam os anos, mais as regras mudam e os preceitos científicos tomam o lugar das antigas premissas.
Nikelen Witter, neste ponto, argumenta de que a Santa Casa no intuito de continuar no recolhimento dos enfermos, ou seja, na idéia de “animar, proteger e favorecer”, assume inúmeros contratos com os Presidentes da Província. Os contratos eram os que diziam respeito ao atendimento aos presos pobres, aos menores do Arsenal de Guerra,
ao aluguel das enfermarias do Hospital Militar. Porém, mesmo que fossem feitos esses contratos, os gastos excediam em muito o que a Santa Casa arrecadava.
Cada Provedor novo tentava cada vez mais arduamente melhorar o tipo de atendimento que a Santa Casa oferecia. Nos relatórios anuais, é marcante um dado que sempre aparece: a taxa de mortalidade do hospital. Esse dado é um parâmetro do quanto obteve sucesso o desempenho da administração. Outra questão também que serve como baliza de melhorias é o aumento do prédio e, também, o do patrimônio.
Quase sempre os esforços não eram suficientes para melhorar os gastos. Por exemplo, os gastos com a botica eram sempre muito grandes, mas se o receituário fosse devidamente aplicado e os medicamentos tinham causado algum efeito, era quase como se o dinheiro tivesse sido bem gasto; embora a impressão sempre fosse de que eles preferiam não gastar.
Depois de um determinado momento, principalmente no último quartel do século, os gastos com melhorias no hospital tinham alcançado um patamar bastante alto. Nesse período, o prédio já havia sido terminado e agora era o momento para que novas experiências fossem feitas.
A admissão dos doentes era sempre um desafio, quase sempre lotavam os leitos, o hospital sempre cheio, comportando bem mais do que era planejado. Porém, quando esses desafios eram confrontados com a taxa de mortalidade, e se essa havia diminuído, era como se houvesse uma comemoração: “olha, estamos gastando, mas está surtindo efeitos; o hospital funciona realmente”.
Houve muitas compras de novos instrumentos cirúrgicos, bem como outros utensílios e equipamentos que eram necessários para melhorar o atendimento que era oferecido. Assim como na cidade a Câmara, de uma certa forma, festejava a conquista de novas pontes, minimizar problemas da falta de saneamento, consertar estradas, etc; os Provedores e demais administradores também se vangloriavam das novas conquistas. Os segmentos dentro do prédio do hospital faziam com que o serviço de atendimento fosse cada vez mais controlado, o número de facultativos que atendiam, assim como o de funcionários incrementava os esforços para melhorar as condições sanitárias do hospital. Novas latrinas, nova lavanderia, melhorias na cozinha e demais modificações no prédio sempre tinham a intenção de aperfeiçoamento, como mandavam os preceitos científicos.
Imagem 48 – Pacientes no Pátio Central do Pavilhão Centenário. Fonte: Acervo Centro Histórico-Cultural Santa Casa.
A lista de novas compras anuais mostrava que havia uma diversidade de utensílios que eram adquiridos e que muitos eram renovados. A compra de lençóis, fronhas, pijamas para os enfermos, etc, deveria trazer ao hospital um aspecto de cientificidade e limpeza. E as visitas anuais que eram feitas no dia 1º do ano deveriam proporcionar certo alivio, pois a população poderia enfim ver que os esforços, que as esmolas doadas, eram finalmente empregadas em um hospital do qual elas deveriam se orgulhar. Bom, pelo menos é o que se pode apreender pelos relatórios que a Provedoria todos os anos elaborava.
Do mesmo modo como as enfermarias aumentavam, tanto em tamanhos, podiam receber mais pacientes, quanto em especialidades, segmentando-se, o número de doenças arroladas era também sempre maior. Nas listas elaboradas nos últimos anos que
abarcaram essa pesquisa evidenciam que a medicina passava também por transformações e que a Santa Casa estava conseguindo acompanhar.
Imagem 49 – Aspecto da Rua Sete de Setembro, no final do século XIX. Fonte: www.prati.com.br
Infelizmente, a pesquisa feita não abarcou todos os anos de atas ou outros documentos elaborados pela Câmara, mas lembro da minha pesquisa de mestrado e nos relatórios do estado enviados ao presidente (durante a República Velha), eram sempre lisonjeiros os comentários a respeito do quanto a cidade crescia. Assim, acredito que como a Santa Casa, a cidade também estava acompanhando os novos ares de progresso e ordenamento.
Embora nem sempre pareça tão perfeito quanto aparece nos documentos escritos e enviados para autoridades locais, regionais e centrais, acredito que em certa medida uma parte do esforço devia trazer resultados. Os problemas ainda existiam: falta de salubridade, antigos hábitos que ainda vigoravam, dificuldades de ultrapassar barreiras quanto a usos e práticas arraigadas em séculos; enfim, a cidade crescia e a população ia encontrando também seus modos de melhorar e resolver seus problemas. Nem sempre aconteciam melhorias de fato, como as autoridades assim desejavam e pregavam, mas a população também se via as voltas dos novos confrontos e dificuldades que irrompiam
historicamente, querendo mudar seu dia-a-dia, tentando controlar suas vontades, costumes e práticas.