Eduardo J. M. Camilo*
Tendo como referência dois cartazes editados em Setem- bro de 1974, ( a- “Manifestação de Apoio ao General Spínola”: Maioria Silenciosa; b- “Minoria Tenebrosa. “Maioria Silen- ciosa””: MDP-CDE) este artigo tem por objectivo a deli- mitação do que entendo por discurso satírico e invectivo do cartaz político.
Os dois cartazes em análise referem-se aos acontecimen- tos relacionados com a manifestação de 28 de Setembro de 1974, cuja realização nunca se viria a efectuar. O termo ‘Maioria Silenciosa’ parece reportar a uma expressão de António de Spínola, utilizada durante um apelo na televisão para que a “Maioria Silenciosa reaja contra o comunismo”. Apoiada pelo General António de Spínola e organizada por certos partidos como o Partido do Progresso, o Partido Democrata Cristão e o Partido Liberal, a manifestação da Maioria Silenciosa ocultava um plano conspirativo de inver- são do processo revolucionário, sobretudo no que diz res- peito às opções tomadas em relação à descolonização das
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25 de Abril de 1974. O insucesso desta conspiração pre- cipitaria – dois dias mais tarde (30 de Setembro de 1974) – a renúncia do General António de Spínola ao cargo de Presidente da República e levaria à constituição do 3º Governo Provisório.
Este artigo está estruturado em 4 partes distintas. Na primeira parte, procurarei realizar um case studie dos dois cartazes acima referidos, enfatizando a sua interdependência.
Na segunda parte, considerarei o discurso do cartaz político como um discurso incompleto cujo sentido só é eficazmente interpretável, conforme ele conseguir evocar os sentidos transmitidos por outros cartazes ou meios de comunicação. A eficácia do discurso do cartaz reside precisamente nesse poder de evocação de discursos anteriormente enunciados e não na relação entre tamanho e quantidade de informação como fazem crer alguns autores a propósito das suas re- flexões sobre o slogan. Ainda nesta parte, desenvolverei uma introdução ao discurso satírico considerando-o como um género - entre vários- de discurso entimemático doxológico agonístico.
Na terceira parte, caracterizarei o que entendo por dis- curso agonístico explicitando a retórica que lhe está subjacente (retórica do ‘combate’) e de que forma ele está presente no cartaz político do pós 25 de Abril (1974-1975), quer num plano verbal, quer no plano iconográfico. Nesta parte re- censearei também as principais características do discurso satírico e invectivo, descrevendo a retórica do ‘desprezo’ que o caracteriza.
Por fim, na quarta parte, regressarei ao case studie onde ilustrarei como o cartaz do MDP-CDE reflecte, numa perspectiva satírica e invectiva, o sujeito de enunciação e o enunciado do cartaz editado pela Maioria Silenciosa.
Minoria Tenebrosa, “Maioria Silenciosa”
(A) (B)
Começa-se o artigo por propor ao leitor o desafio de observar atentamente os cartazes A e B. Como pode verificar, se é certo que eles são diferentes, simultaneamente surpre- endem pela sua semelhança. É como se no cartaz «Minoria Tenebrosa, “Maioria Silenciosa”» (cartaz B) se descortinasse a mensagem transmitida pelo cartaz de anúncio da mani- festação de apoio ao General Spínola (cartaz A), mas to- talmente invertida. Tal inversão verifica-se não só ao nível das próprias mensagens (num cartaz anuncia-se um acon- tecimento, no outro comenta-se-o), mas também do próprio registo: se num cartaz um determinado sentido é transmitido por imagens, no outro é através de palavras; e vice-versa,
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e a primeira inversão nestes dois cartazes. Mas como se descortina o General Spínola na imagem do cartaz B? Através de uma ‘corporificação’ da efígie ilustrada na imagem do cartaz ‘A’. A face-logotipo idealizada por Quito no cartaz da ‘Maioria Silenciosa’, adquire um corpo, mas não um corpo qualquer. O seu corpo é um corpo militarizado, reconhecível não só no ‘tailheur’ da farda, como também na abundante medalhística ao peito, nos ombros e nos colarinhos. Em ‘B’ descobrimos o corpo de um militar e somos capazes de reconhecer uma individualidade por constatarmos que o vestuário, juntamente com a medalhística, podem ser metonímias evocativas de uma determinada pessoa. Se essa pessoa está implícita em ‘B’, então está explícita em ‘A’ – é o general António de Spínola. Em relação a este aspecto, se o artista do cartaz B quisesse ser ainda mais explícito só faltaria representar um monóculo num dos olhos da figura. Poderíamos questionar porque não o fez. Por inabilidade ou porque, provavelmente, lhe interessa que a imagem apre- sente um certo grau de opacidade semântica. É como se a imagem quisesse mostrar/ridicularizar o General Spínola, mas, simultaneamente, por temor ou por respeito, não tivesse coragem para ir tão longe, isto é, não ousasse explicitar, totalmente, o seu atrevimento. É, portanto, uma imagem que se dá a conhecer a todos, mas só é reconhecida por alguns. Salienta-se que ainda não se desenvolveu um segundo nível, incidindo sobre os significados que esses adereços metonímicos (concretamente, os relativos à medalhística) veiculam. Por agora, apenas estou interessado em demons- trar que uma das características do cartaz satírico, numa perspectiva restrita, e da sátira, em geral, é a da reprodução, a da imitação, mas concretizada pelo fenómeno da inversão. Já aquilo que a medalhística transmite em termos de con- teúdos é outra problemática que é sintomática da atitude de distanciação (no que diz respeito ao quadro de valores políticos) que o sujeito de enunciação do cartaz ‘B’ apresen-
Minoria Tenebrosa, “Maioria Silenciosa” ta em relação ao sujeito satirizado, o General Spínola. Esta atitude, se bem que apresente especificidades no discurso satírico e invectivo, é comum aos diferentes géneros do discurso agonístico: a sátira, o panfleto e a polémica. Mais à frente reflectirei aprofundadamente este assunto.
Passo agora para o segundo paralelismo/inversão que está relacionado com a explicitação do sujeito de enunciação no manifesto cartazístico. Pragmaticamente – e esta é uma característica omnipresente em qualquer cartaz (independen- temente do seu género) –, o manifesto cartazístico é um enunciado caracterizado por uma determinada proposição política e pela explicitação do sujeito de enunciação que a enunciou. Geralmente, esse sujeito de enunciação é de ordem institucional e pode ser reconhecido a nível verbal (a sua identidade), iconográfico (símbolo) ou, ainda, a nível verbo-iconográfico (logotipo). Acrescento, ainda, que, por vezes, é possível descobrirem-se índices da sua existência, mesmo que eles não apresentem uma substância verbal ou iconográfica. Dá-se como exemplo, a importância da cor (vermelho e amarelo) dos cartazes produzidos/enunciados pelo MRPP que possibilitavam, por parte do interlocutor, o seu reconhecimento, mesmo que o MRPP não se assumisse, verbal ou iconograficamente, no manifesto cartazístico. Muito se poderia reflectir sobre este assunto. A partir do momento em que um sistema formal de linguagem não verbal, como é o caso, por exemplo, das cores, possibilita a afirmação e o reconhecimento de um determinado sujeito de enunciação
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Regressando à temática do artigo. O paralelismo e a inversão nos dois cartazes resulta do facto de que em ‘A’ a ‘Maioria Silenciosa’ é o sujeito de enunciação do enun- ciado cartazístico; mas em ‘B’, transforma-se em sujeito enunciado sobre o qual se transmite uma qualificação, uma determinada interpretação. É como se em ‘B’ este sujeito enunciado se transformasse num significante que se correlaciona, explicitamente, com um determinado signifi- cado de forma a criar um signo completo que, numa perspectiva ‘saussuriana’, se ilustra no quadro seguinte:
O significado encontra-se verbalmente expresso (“Mino- ria Tenebrosa”). Esta expressão não é mais do que o re- sultado de uma acção de conotação institucionalmente atri- buída pelo MDP-CDE ao signo identificativo do sujeito de enunciação do cartaz ‘A’ (“Maioria Silenciosa”). Como é sabido, na conotação o plano de expressão de um signo seria caracterizado por um outro signo anteriormente construído (segundo determinadas circunstâncias e num determinado contexto), que, por certas razões e em nome de determinadas funções, é apropriado e manipulado em forma significante
de um determinado significado ideológico2. Prefiro, todavia,
conceber a frase “Minoria Tenebrosa” como uma expressão institucionalmente determinada que, à maneira de Peirce, se assume como um interpretante integrado no âmbito de uma semiosis político-partidária ilimitada. Tal semiosis só virtu- almente terminará no chamado interpretante final – hábito
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2 - Sobre a dinâmica dos signos conotados, cf:
BARTHES, Roland - Mitologias. Lisboa, Edições 70, Col. Signos. BARTHES, Roland - Elementos de Semiologia. Lisboa, Edições 70, Col. Signos.
Minoria Tenebrosa, “Maioria Silenciosa” (político-partidário) que, numa perspectiva pragmatista, é concebido como uma disposição para uma acção, para a
intervenção político-partidária na realidade3. Esta opção tem
por consequência o abandono da concepção dicotómica de signo postulada por Ferdinand de Saussurre e a adopção da concepção de Carl Sanders Peirce intimamente ligada à noção de semiosis ilimitada. Sendo um signo (independentemente dele ser simples ou complexo) alguma coisa que está para alguém (intérprete) em lugar de outra coisa (objecto), em relação a qualquer respeito ou capacidade (fundamento do signo), o interpretante assume-se como a ideia que o signo suscita no intérprete que é por ele afectado. O que é in- teressante na teoria de Peirce consiste no facto de o interpretante ser igualmente um signo com a mesma dinâ- mica do signo precedente. Este signo ‘segundo’ institui com o objecto - o signo precedente – uma relação de substituição com referência a uma determinada ideia (fundamento do signo), criando um novo interpretante que não é mais do que o objecto de um signo terceiro e assim sucessivamente no âmbito de um processo de semiosis ilimitada. Como escreve o próprio autor, o signo é “tudo o que leva outra coisa a referir-se a um objecto a que ele próprio se refere (...); da mesma forma, o interpretante torna-se por sua vez
um signo, e assim ao infinito”4. O que é importante neste
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3 - Numa carta endereçada a Lady Welby, Peirce distingue três tipos de interpretante: o interpretante imediato, que é não é mais do que o significado, isto é, uma simples conjectura elementar, na medida em
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conceito – e Umberto Eco é bem claro sobre este aspecto5
-, é que a semiosis para além de ser virtualmente ilimitada, é também de ordem material. Consegue-se, assim, ‘substancializar’ o conteúdo, sendo a sua materialidade a mais diversa: as imagens podem ser interpretantes de signos, o mesmo acontecendo com os índices, as definições (cien- tíficas ou ingénuas), as traduções, as conotações, os índices directos do objecto ou, até mesmo, o significante equiva- lente, mas noutro sistema semiótico (por exemplo, o gestual)6. É nesta medida que a qualificação verbal “Minoria Tene- brosa” se assume como o interpretante deficional de um determinado sujeito político (“Maioria Silenciosa”). De uma estrutura diádica (a da concepção saussuriana de signo) passa- se para uma estrutura triádica, na qual o representamen do signo é a frase “Maioria Silenciosa” escrita segundo uma determinada ordem e regra; o objecto é a “Maioria Silen- ciosa”- mas entendida enquanto sujeito de enunciação do cartaz ‘A’ e apresentando uma substância expressiva de natureza iconográfica e verbal; e o interpretante é o enun- ciado definicional “Minoria Tenebrosa”.
Mas se o cartaz ‘B’ se reporta, explicitamente, ao cartaz ‘A’, sendo que essa referência até é ostentada no cartaz ‘B’ pelas aspas – marcas convencionais da citação – não deixa de se verificar a inversão, que é uma característica típica do género satírico. Tal inversão verifica-se, sobretudo, na ordem do registo. No cartaz ‘A’, a identidade do sujeito de enunciação é relativamente complexa, pois é de natureza ícono-verbal. Certamente que ‘Maioria Silenciosa’ é uma frase
_______________________________ 5 - A este propósito cf:
ECO, Umberto - Idem, pp 58 e ss.
- Conceito de Texto. São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 1984, p. 24-48.
- As Formas do Conteúdo. São Paulo, Editora Perspectiva, 1974,
pp. 17-47.
6 - Sobre as diferentes Substâncias que um interpretante pode apresen- tar, cf ECO, Umberto - O Signo, pp.154-155.
Minoria Tenebrosa, “Maioria Silenciosa” que referencia a identidade de um sujeito de enunciação que enunciou uma proposição política. Na sua dimensão verbal, apresenta um valor fonético que deve ser considerado do ponto de vista linguístico. Mas, simultaneamente, apresenta também uma dimensão iconográfica: aquela assinatura é uma forma, um desenho, existindo para ser reconhecida como representativa de uma determinada realidade (uma boca). Surge, assim, como uma assinatura que existe para ser dita ou lida e, simultaneamente, para ser vista e reconhecida. No cartaz ‘B’, esta ambivalência está empobrecida: opta- -se, explicitamente, pelo registo verbal, curiosamente, o menos ambíguo semanticamente. Esta dimensão da redução da ambiguidade é importante, pois o artista do cartaz ‘A’ conseguiu criar um dos cartazes mais fascinantes do pós 25 de Abril. Primeiro, porque ao conceber uma identidade verbal e uma representação iconográfica instaurou uma relação de absoluta simbiose entre a imagem e a palavra. Ora, esta relação raramente existe no cartaz político, apresentando a imagem, na maioria das vezes, uma função meramente ilustrativa das mensagens verbais ou o estatuto de um estímulo programado que atrai um determinado olhar fascinado. Segundo, porque no ‘jogo’ que se instaura entre os dois regimes de significação (o iconográfico e o verbal), constata- -se uma ludicidade absolutamente original que se prolonga na representação iconográfica do cartaz ‘B’. Jogando com o paradoxo da explicitação no verbal manifesto cartazístico de um sujeito de enunciação que se autodenomina de si-
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lábios e da língua, enquanto signos metonímicos de tais actividades). Eis que o paradoxo já referido numa perspe- ctiva verbal é enfatizado numa perspectiva iconográfica: como pode servir uma boca para falar, se ela está desenhada com as palavras “Maioria Silenciosa”? Será que aquela boca não é uma boca, mas sim uma mordaça que impede de falar? Ou será que aquela boca não fala, mas apenas deglute? Parece ser precisamente esta a interpretação patente iconograficamente no cartaz ‘B’. Boca que não fala, come, mas também morde. Eis, então, que se descortina neste cartaz outro interpretante, desta feita segundo um sistema semiológico totalmente distinto do verbal, e que é um interpretante iconográfico. Se a nível verbal a Maioria Silenciosa se apresenta com o interpretante deficional “Minoria Tenebrosa”, a boca-palavra, boca silenciosa do cartaz ‘A’ transforma-se iconograficamente – no cartaz ‘B’–, numa boca que come e, disfemisticamente, por intermédio de uma retórica do desprezo típica da sátira e da invectiva, numa boca que não se limita a comer, mas também a morder, a devorar ou a sugar (iconograficamente representada pela ilustração de dois caninos vampirescos). Esta representação constitui um interpretante que está intimamente correlacionado com o interpretante deficional ”Minoria Tenebrosa”, de tal forma que, se não fosse este último, dificilmente a ilustração poderia, por si só, transmitir a conotação explicitada pelo interpretante verbal. A imagem inscreve-se, assim, numa relação de complementaridade parasitária com a palavra para
adquirir um sentido preciso7, sendo precisamente este o tipo
de relação existente na maioria dos cartazes políticos.
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7 - Nas diferentes categorias de relação imagem/palavra baseamo-nos na sistematização efectuada por Manuel Alonso Erausquin para um sistema semiótico aparentemente distinto do nosso: o jornalismo. ERAUSQUIN, Manuel Alonso - Fotoperiodismo: Formas e Códi-
Minoria Tenebrosa, “Maioria Silenciosa” O cartaz ‘A’, assenta, portanto, num paradoxo carac- terizado iconográfica e verbalmente pela explicitação de um sujeito de enunciação de um discurso que se assume pela negação da faculdade de enunciar. Iconograficamente, esse paradoxo é perversamente sublinhado por Quito, pois a assinatura do sujeito de enunciação que nega verbalmente a possibilidade de dizer alguma coisa, é representado como se fosse uma boca. No cartaz ‘B’, aproveita-se esse pa- radoxo para enfatizar que uma boca que não fala, só pode comer/devorar. Instaura-se, assim, uma dicotomia entre a oralidade e a alimentação que, curiosamente, é bastante difundida no discurso político, sendo no plano iconográfico onde ela é mais explorada.
A boca, enquanto motivo iconográfico, está associada a situações políticas em que o discurso apresenta uma forte componente agressiva, estando integrada num registo retórico que denomino como ‘retórica da guerra’. Nos cartazes políticos, a boca aberta que fala é o signo da lexis política directamente relacionado com uma praxis política de tipo exortativo e reivindicativo. O seu registo é o da invectiva: a boca aberta já não representa uma proposta política. Transformada num esgar, num rito de ódio, ela é, antes de mais, uma ordem político-militar, um hino ao ataque e à defesa: “contra os canhões marchar, marchar!”. A boca aberta é o correlato iconográfico de uma palavra que exige, que quer comandar (exortação ou reivindicação) ou de um grito de guerra, grito mobilizador e paralizante, um ‘Sluagh-ghairmi’,
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para incutir temor no inimigo, ardor no amigo e para abafar o sofrimento do abatido (figura 1). Já a boca que se alimenta parece conotar metaforicamente - numa perspectiva satírica - a figura do adversário político em relação ao qual não existe qualquer universo comum de referências políticas. Na ane- dota, a boca do inimigo é a boca funda do comilão, do explorador barrigudo que se aproveita do esforço do traba- lhador, do oportunista. De salientar que a representação iconográfica não necessita, obrigatoriamente, de representar uma boca. O artista pode optar iconograficamente por ex- plorar metonímias relacionadas com o ‘encher a pança à custa do trabalho do outro’. A metonímia mais usual é o tacho. Em relação a este adereço, salienta-se um cartoon de João Abel Manta intitulado “Uma vida exemplar”, produzido em 1969, que representava o ciclo de vida de um elemento do establishment do regime político anterior. Depois da instrução académica e da inserção no mundo profissional, a prospe- ridade é evocada a partir do número de tachos sobrepostos que vai acumulando ao longo da sua vida (figura 2).
Num tipo de registo mais agressivo, a boca que come é representada como uma boca que chupa, enfraquece e dilacera. Já não é a figura do comilão explorador que se representa, mas a do chupista que não só é um aproveitador oportunista, mas também um perigoso inimigo. Se o tipo de representação anterior apresenta um sentido relativamente anedótico, neste registo reaproxima-se da invectiva. Não é
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LAMPREIA, J. Martins - Comunicação Empresarial. As relações
Publicas na Gestão. Lisboa, Texto Editora, 1992, p.53.
DUBOIS, Jean - “A palavra “partido”” in: CHARLOT, Jean - Os
Partidos Políticos. Editora Universidade de Brasília, 1982, Col.
Pensamento Político, pp5-10.
FIDALGO, António Carreto - a Economia e a eficácia dos Signos. Covilhã, UBI- Lição de Síntese para Provas de Agregação em Ciências da Comunicação, 1999, publicado na BOCC - Base On Line de Ciências da Comunicação (http://bocc.ubi.pt/pag/fidalgo-economia- signos.html).
Minoria Tenebrosa, “Maioria Silenciosa”
Fig. 1 - A boca aberta (correlacionada com a representação de outros gestos e até mesmo adereços), como elemento iconográfico de uma retórica política de tipo ‘marcial’.
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Fig. 2 - Marchas, canudos, honras, benesses, mulheres e tachos. A sátira ao establishment do anterior regime.
Minoria Tenebrosa, “Maioria Silenciosa” só fazer rir que se pretende mas, através da ridicularização, agredir, desprezar. É neste sentido que é transformada a boca-assinatura do cartaz ‘A’, numa boca que morde, que rasga, no cartaz ‘B’.
Saliente-se, igualmente, que, à semelhança da figura do inimigo que ‘come tudo e não deixa nada’, a boca que suga pode ser representada por outros motivos com a condição de serem metonímicos da deglutição e da parasitagem (a este propósito confira-se a figura 3). É neste contexto que se recorre ao imaginário do ‘parasita’ em relação ao qual a figura do morcego vampiro assume um papel fulcral.
Nos cartazes ‘A’ e ‘B’ regista-se, então, uma clara simbiose, como se o sentido transmitido pelos dois só fosse possível num regime de coexistência. ‘B’ não existe sem ‘A’; por sua vez, a manipulação do sentido veiculado por este último – uma característica específica da sátira – paradoxalmente, só contribui para a afirmação da singularidade do seu sentido. Temos, assim, dois cartazes que se atraem e que se repelem, sendo a partir destes dois movimentos que se consagra e consolida o sentido transmitido por cada um deles.
As dimensões entimemáticas do cartaz ‘B’
A partir da análise das particularidades do cartaz ‘B’ é, então, possível formular algumas considerações.
As relações existentes entre os dois cartazes possibilitam compreender, mesmo que parcialmente, o conceito da semiosis
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Fig. 3 - A boca canina que representa o inimigo político explorador pode, igualmente, ser representada por outros motivos. Num registo cómico, destaca-se o cartaz do movimento anarquista, fortemente inspirado nos cartoons de Raphael Bordallo Pinheiro.
Minoria Tenebrosa, “Maioria Silenciosa” enunciação políticos. O cartaz ‘B’ é um desses cartazes, que, do acontecimento transmitido pelo enunciado ‘A’, enfatiza a identidade do protagonista do acontecimento e do sujeito de enunciação. Na figura 4, estão expostos