a. Considerações sobre a perversão, na obra de Freud:
Após essas considerações gerais sobre os processos iniciais da formação do ego e suas relações com as fantasias inconscientes, acredito que caiba aqui, um enfoque freudiano sobre o desenvolvimento da sexualidade infantil e suas conseqüências, às vezes, problemáticas para a vida adulta.
Desde que escreveu os “Três Ensaios da Teoria da Sexualidade”, FREUD (1905)
sempre fez questão de deixar claro que a perversão não é uma forma de degeneração, isto é, não se trata de uma doença. Ao discorrer sobre a sexualidade infantil, considera as crianças, perverso-polimorfas, ou seja, com sexualidade presente no corpo como um todo e satisfazendo-se de qualquer forma. Logo, havendo possibilidades distintas de obtenção de descarga pulsional, acabam por realizar a diminuição da tensão da energia acumulada. Desse modo, geram prazer sexual, por meio do alívio da tensão. Lembremos que o prazer é obtido, nesse enfoque, exatamente pelo alívio, por meio da descarga energética do acúmulo da tensão.
Comentando a temática da sexualidade na obra freudiana, GARCIA-ROZA (1995)
se detém bastante na exposição das presentes aberrações sexuais, no primeiro dos três ensaios sobre a sexualidade e acaba por tornar mais simples a compreensão dos princípios freudianos da sexualidade humana.
“A seqüência do ensaio sobre as aberrações sexuais encaminha-se sutilmente no sentido da conclusão de que não há aberrações sexuais, ou melhor, de que a sexualidade humana é, em si mesma, aberrante e perversa. Isso, não por efeito de uma degradação da sexualidade humana em relação a animal, mas em razão de uma diferença: enquanto a sexualidade animal é regida pela reprodução, a sexualidade humana é regida pelo princípio do prazer.” (GARCIA-
ROZA, 1995, p. 30)
Mais adiante na sua obra, no artigo “O Instinto e suas Vicissitudes”, FREUD
(1915a), ao discorrer sobre a temática da pulsão e seus destinos, esclarece que a representação da pulsão se dá através do encontro com o outro, enfatizando o importante papel dos adultos (pais ou seus substitutos) no desenvolvimento do psiquismo das crianças. É a ação dos adultos que vai erotizar a pulsão e dar destinos à força pulsional.
Mais uma vez, observando-se a relevância desse aspecto do relacionamento dos adultos com as crianças, pode-se inferir a importância dos trabalhos de educação preventiva realizados nas escolas, junto ao público infantil, já numa idade precoce. O desenvolvimento do psiquismo infantil depende do encontro com o
adulto, pais ou substitutos. Não cabe dúvida quanto ao relevante papel que educadores podem desempenhar nesse processo, por meio de atividades redutoras de vulnerabilidades que possam dar destino à carga pulsional das crianças. Sobretudo, se considerarmos que os pais estão cada vez mais ausentes e impossibilitados de realizar esse papel. Não que estejamos defendendo a possibilidade dos educadores serem substitutos dos pais em seu papel frente à formação dos psiquismos, mas acreditamos que possam, estes últimos, ser importantes figuras que se somam ao desenvolvimento e o facilitam junto às crianças.
Pensando nos destinos que podem ser dados à força da pulsão, voltemos às considerações sobre a perversão. Ao focarmos os mecanismos da perversão, podemos dizer que o perverso possui uma forma singular de vivência do Complexo de Édipo. Ao chegar à fase da triangularidade edípica, ele não suporta a angústia correspondente à percepção das diferenças entre os sexos (aos desejos pelo genitor do sexo oposto e à rivalidade com o do mesmo sexo), e regride a um momento anterior, em que não havia diferenças sexuais entre os seres humanos. Assim, todos são iguais e sem distinção de sexo. Essa é uma forma de não se deixar atingir pela falta da mãe, pela possibilidade de sua perda para outro, para o pai. A mãe permanece, então, na posição fálica, ou seja, o perverso continua no seu mundo onde não há diferenças sexuais, e embora se esforce para provar que não há castrados ao seu redor, seu mecanismo psíquico é a recusa do feminino, frente à ameaça da castração, por meio de uma clivagem do ego.
A lei que existe para o perverso, portanto, que pôde ser internalizada a partir de seu relacionamento com os outros, é a que se relaciona com seu desejo. Ao não abandonar a idéia de mãe poderosa, fálica, o perverso aceita o papel de complemento da mãe. E, por recusar a castração, permanece no estado de onipotência, acredita-se sem limites.
Buscando recusar a castração, tal sujeito manejará o outro, enquanto exercita seus instrumentos de poder. O outro se torna, então, algo descartável e substituível. O desejo do outro é algo não reconhecido pelo perverso, já que a própria diferenciação
“eu” e “outro” lhe é insuportável, como foi dito, por trazer a lembrança da castração, da diferenciação dos sexos, enfim, das limitações.
Compreendemos que, muitas vezes, a compulsividade, expressa nos atos sexuais de adultos e de crianças, é a forma de proteção contra a angústia da castração. A sexualidade deve ser constantemente realizada, sem que haja tempo para pensar, para refletir sobre seus sentidos e seus porquês. Então, o gozo torna-se uma obrigação, um imperativo, algo da ordem do repetitivo, que não possui maiores relações com o prazer em si. As atitudes de tal pessoa podem demonstrar uma enorme liberdade de ação, mas, na realidade, não expressam a verdade interna: o perverso é absolutamente engessado em suas ações, ele age de uma determinada maneira por absoluta falta de liberdade. A sexualidade que manifesta e que pode parecer muito “liberal”, na verdade, expressa algo relacionado à compulsividade. Assim, trata-se de limitação à expressão ampla da sexualidade, sendo algo restritivo e não libertador.
Compreendendo dessa forma, pode-se observar o papel preventivo que os adultos (pais, professores, psicólogos) podem desempenhar, junto às crianças e aos adolescentes, no que tange à vida sexual, auxiliando-os na diminuição da necessidade de manifestações repetitivas pulsionais. Evidentemente, na escola não se pode fazer um trabalho psicanalítico como se faz numa clínica psicológica. Nem seria esse o objetivo do trabalho preventivo, que fique bem estabelecido. Porém, ao considerar a sexualidade humana a partir dessa compreensão, entende-se que muitas atividades realizadas nas salas de aulas e fora delas podem auxiliar na diminuição dos danos advindos da repetição compulsiva de um determinado comportamento.
Verificamos que a compulsividade ocasiona a repetição desenfreada e sem reflexão de atos sexuais e outros ainda, como o uso frenético de substâncias químicas, de jogos eletrônicos etc., para a obtenção de prazer ou para a evitação do mal-estar. Em geral, esses comportamentos são repetidos por necessidade e não por prazer. O alívio da tensão desprazerosa, gerado por aquilo que é impensável na mente do indivíduo, é o motivador de muitas dessas ações vazias. Os adultos, repetimos aqui, poderiam desempenhar um papel importante junto às crianças e aos adolescentes, ao possibilitarem que a angústia (acúmulo da tensão), que precisa ser descarregada, possa
alcançar outras formas de expressão, a saber: jogos, dramatizações, brincadeiras, atividades culturais e esportivas. Estas são algumas dentre as várias possibilidades de manifestação, que podem auxiliar na conscientização sobre as demandas dos atos e reduzir a carga repetitiva e compulsiva das manifestações.
Nem sempre podemos esperar dos educadores, por melhor que sejam suas formações iniciais e continuadas, que compreendam e consigam colocar em prática todos esses objetivos preventivos. Porém, se forem realizados trabalhos em parceria com profissionais da psicologia, os educadores possuem um papel bastante destacado nas atividades de educação preventiva junto às crianças. Eles podem desenvolver diversas ações redutoras de vulnerabilidades que poderiam ser complementadas por ações dos psicólogos e orientadores educacionais, junto às crianças e, evidentemente, junto aos pais dos alunos e demais professores e funcionários das escolas, atingindo-se amplamente a comunidade escolar.
Dessa forma, os educadores estariam auxiliando seus alunos no desenvolvimento da capacidade de suportar as experiências, frustrações, tristezas e satisfações, isto é, conhecendo os limites impostos pela vida, como foi indicado nas hipóteses desta tese.
b. Considerações sobre a compreensão psiquiátrica psicodinâmica das “parafilias”:
Nosso objetivo agora é, tão somente, realizar uma breve descrição da forma como a psiquiatria, numa leitura psicodinâmica, compreende a temática das perversões sexuais, ou parafilias, para que possamos aproximar estes conceitos dos conceitos freudianos, anteriormente expostos. Vale destacar que as formas de compreensão a respeito das manifestações e origens das perversões variam, conforme a teoria de cada autor.
Segundo GABBARD (1998), de acordo com o manual de psiquiatria DSM – IV
quando o ato sexual da pessoa se realiza a partir de recursos não-humanos, exercendo humilhações ou dor física, ou ainda, envolvendo crianças e pessoas que não desejam participar da situação. Para o autor, baseado numa ampla revisão bibliográfica sobre a psiquiatria, um indivíduo é perverso quando sua sexualidade é usada para evitar um “relacionamento emocionalmente íntimo e a longo prazo”, com o outro.
O ato perverso possui claras ligações com as características psicológicas da pessoa. A manifestação da sexualidade parafílica, seu ato perverso, é, obrigatoriamente, fixo e ritualizado, visando à obtenção do orgasmo genital. GABBARD
(1998, p. 233) esclarece, ainda: “.Cabe dizer que permanecem obscuras as razões da preferência do indivíduo por uma fantasia ou ato perverso em relação a outro”.
Considera-se, ainda, que as perversões podem ser observadas em sujeitos psicóticos, em pacientes com transtornos de personalidade, em neuróticos e em pacientes “relativamente intactos”. Porém, ainda segundo GABBARD (op. cit., p. 233):
“As parafilias que envolvem a crueldade explícita em relação a outros, estão com freqüência em pacientes com transtornos de personalidade anti-social”.
O indivíduo considerado como “anti-social”, já foi chamado de “psicopata” ou “sociopata” no passado, visto como aquele que apresenta “transtorno de caráter” etc.
“... O paciente psicopata nunca tem consciência das outras pessoas, como indivíduos separados e com sentimentos próprios” (...) “Quando confrontados com seu comportamento anti-social, os psicopatas, tendem a responder com cinismo” (...) “podem escolher mentir e evitar qualquer responsabilidade por seu comportamento”. (GABBARD, op. cit., p. 348)
Ao falarmos de transtornos psíquicos e suas relações com o uso de risco e dependência de drogas, é importante considerar as observações e as ponderações sobre comorbidade psiquiátrica, sugeridas por SEIBEL E TOSCANO JR.(2001):
“O uso de drogas pode ser ao mesmo tempo causa, conseqüência de transtorno mental ou simplesmente ocorrer na presença de outro
diagnóstico psiquiátrico, sendo em geral difícil determinar se a patologia observada é resultado do uso regular de drogas, conseqüência de seus efeitos ou faz parte da síndrome de abstinência”. (2001, p. 303)
Advertem, ainda, SEIBEL E TOSCANO JR.(2001, p. 306):
“Não devemos esquecer de que sintomas causados por uso de drogas podem camuflar manifestações de outros transtornos psiquiátricos, como os episódios depressivos no decorrer da abstinência de cocaína ou de anfetamina e análogos e o quadro de psicose esquizofreniforme induzida por estes mesmos agentes farmacológicos”.
c. Considerações kleinianas sobre a perversão:
Sempre que se considera a temática da perversão na psicanálise kleiniana, convém registrar que componentes da sexualidade polimorfa infantil vão estar presentes durante toda a vida dos seres humanos, servindo como substratos para sua organização psíquica, ao longo da vida. O que vem indicar a existência de “problemas”, em relação à organização patológica, é a forma como o sujeito se relaciona com esses aspectos infantis, na vida adulta.
Sabe-se que a temática da perversão vem sendo estudada, por diversos autores, não apenas no que tange à sexualidade como um sintoma, mas como um mecanismo de organização do psiquismo, isto é, como uma patologia. Assim, compreende-se que o comportamento sexual perverso poderá surgir em diversas formas de organizações psíquicas; mas não é ele que define a organização patológica perversa.
Convém relembrar alguns conceitos importantes da psicanálise, como, por exemplo: as pulsões, de vida e de morte, que nunca se apresentam separadas no psiquismo. Contudo, pode ocorrer a preponderância de uma delas, visto que a maneira de relacionamento que o sujeito estabelece com o objeto, ou seja, as relações objetais arcaicas, é que irão indicar a qualidade do relacionamento. Esse fato mostrará qual das duas pulsões é preponderante no aparelho psíquico.
Quando a pulsão de morte é preponderante, têm-se as patologias ligadas ao narcisismo. Essas recorrem ao mecanismo da cisão e, posteriormente, ocorre a idealização de um objeto, e o vínculo com esse “objeto extremamente bom” se torna onipotente.
Uma dessas patologias ligadas ao narcisismo possui características especiais: é o narcisismo destrutivo, que apresenta predomínio da pulsão de morte sobre a pulsão de vida, o prazer do sujeito está relacionado com a destruição (ROSENFELD,
1988). Essa é a forma que o psiquismo encontra para tentar proteger-se da angústia primitiva de aniquilamento. Trata-se, portanto, de uma idealização, que atua de forma defensiva para o sujeito, que busca minimizar os “efeitos” ansiógenos de conteúdo persecutório. Sentimentos de culpa também podem ser “afastados” do self, através de uma organização psíquica assim, marcada pela destruição.
MELTZER (1979, p. 68) define, de forma bastante interessante, algumas
características dessa patologia, que surgem na vida adulta, como decorrência do polimorfismo da sexualidade infantil: “... As doenças psiquiátricas caracterizam-se por rigidez, construção e, quase certamente, portanto, por um elemento de compulsão...” .
Comentando sobre a divisão do self, como forma de proteção contra aspectos persecutórios, MELTZER (1979, p. 77) afirma: “Perversão é um termo muito apto para
estados sexuais da mente, engendrados pela liderança, momentânea e fixa, desta parte destrutiva da personalidade”.
Sabe-se que, normalmente, na tentativa de reorganizar a mente, ocorrem as divisões internas, as cisões, que separam partes boas das partes más, visando um maior controle dessas últimas. Conforme já se disse, as partes destrutivas da personalidade são mais “fortes”, em alguns casos. As partes más, destrutivas, atacam aspectos integrados da mente, ocasionando confusão e gerando uma formação distorcida, marcada por “trapaças” e prazer pela destruição e pelo sofrimento.
A porção boa do eu deixa-se levar pela promessa de não sofrimento e “entrega-se” aos mecanismos de dominação da parte destrutiva. Ocorre, então, uma “fusão patológica”, pela qual a libido é ligada à agressividade, gerando o sadismo, que é bastante destrutivo, típico da organização perversa. Compreende-se, então, que não é apenas o aspecto do prazer sexual, da sensualidade que está em jogo. Trata-se de uma maneira “perversa” de afastar ansiedades e de se sentir mais seguro, em todas as formas de relacionamento, tendo um controle psicótico sobre os eventos.
Considerando-se esses aspectos, nota-se que, na perversão, a relação objetal se estabelece de tal forma que a “maldade”, proveniente da libidinização de aspectos destrutivos, atua como um organizador do psiquismo. Como foi apontado, esse é o mecanismo do sadismo: o “outro” não é visto como alguém separado. É, tão somente, um meio para receber depósitos (projeções) de conteúdos destrutivos, ou seja, a relação objetal está marcada pelo prazer desumano de destruir.
A inveja, em geral, é o fator que impossibilita a relação “igualitária” humanizada com o outro. O último é percebido, apenas, como fonte exclusiva de prazer, ou seja, alguém sem desejo próprio.
A partir dessas idéias, verifica-se que a perversão é a forma de organização do aparelho psíquico, em que o sujeito busca afastar-se de angústias bastante primitivas, como ocorre também, nas organizações das psicoses. Frente às ansiedades primitivas, o mecanismo de cisão ocorre, separando objetos bons e objetos maus. Porém, enquanto a organização psicótica leva a sentimentos de perseguição, medos de retaliação dos objetos que foram colocados para fora do self, por projeção e introjeção, na organização perversa os objetos maus são tomados como “salvadores”, mesmo que eles possam trazer destruição para o self e para os outros objetos. A organização que se estabelece para o perverso, ao menos, atenua- lhe a persecutoriedade, ao contrário do que ocorre para os psicóticos.
Apontando para a questão da libidinização dos aspectos cruéis e destrutivos, que ocorre no perverso, BRENMAN (1991, p. 260) no artigo “Crueldade e estreiteza
mental”, diz: “No desenvolvimento normal, o amor modifica a crueldade; a fim de perpetuar a crueldade, devem ser tomadas medidas que impeçam que o amor humano opere”. Compreende-se que, no perverso, houve uma falha na atuação do amor como forma de aplacar a destrutividade. BRENMAN (op. cit., p. 261)
complementa:
“Quando amor e ódio entram em conflito, nós podemos sentir culpa e reparar ou ficarmos perseguidos pela culpa. A fim de evitar uma dessas conseqüências, podemos perverter a verdade, esvaziar um objeto bom retirando sua força e sentirmo-nos livres para praticar crueldade em nome de coisas boas.”
STEINER (1991, p. 331) afirma que certos estados psíquicos podem chegar a
uma organização patológica. Nas suas palavras: “O colapso da cisão normal pode tornar o paciente vulnerável à influência de uma organização patológica que oferece uma espécie de pseudo-estrutura para ajudar a lidar com o confuso e caótico estado mental”.
É nos momentos transitórios entre a posição esquizo-paranóide e a depressiva que o sujeito tende a organizar-se dessa forma. Essa defesa, como organização patológica, pode ser predominantemente perversa, ou psicótica ou neurótica. Compreende-se que a organização patológica é uma defesa (“abrigo idealizado”) contra a fragmentação, a ansiedade de aniquilamento e, também, contra a “dor mental e a ansiedade da posição depressiva” (STEINER, 1991, p. 331).
Sabe-se que as organizações patológicas levam o perverso a distorcer a realidade e a rejeitar as regras, leis, e as normas existentes. Esse fato é apontado por todos os estudiosos no assunto, não importando a área de atuação e compreensão do fenômeno. Pode-se dizer que, no perverso, há uma transformação nos “objetivos” da pulsão, isto é: na organização perversa, para livrar-se das angústias persecutórias e de sentimentos de culpa, ocorre a libidinização da dor. Esse fato ocasiona o prazer pela própria dor, ou seja, o prazer em destruir (a si próprio e ao outro).
Lembremos, porém que, sempre a partir dos atendimentos às crianças e da observação analítica de seus jogos e brincadeiras, KLEIN (1991b) percebeu que os
mecanismos de defesa, empregados para combater as ansiedades, eram derivados da pulsão de morte. A ansiedade persecutória sentida pelas crianças dá origem às defesas arcaicas contra o perseguidor. O ego (que para Klein existe de forma arcaica/rudimentar desde o nascimento) vai perceber a ansiedade proveniente do medo de ser aniquilado, como ocorre, também, com adultos em momentos psicóticos.
Por tudo o que acima foi dito, mais se percebe que, para uma organização mais satisfatória das condições psico-emocionais do indivíduo, ele deve ser ajudado desde a infância, para ir optando por escolhas que não sejam apenas compulsões, que sejam escolhas menos danosas e mais conscientes.
4. 1. 3. Breve compreensão da formação do aparelho de pensar
Tendo apontado para a formação dos mecanismos envolvidos na perversão, sob o prisma de diferentes autores, acreditamos ser importante buscar uma forma de compreender como o pensamento humano se organiza e como se desenvolve a capacidade de pensar: o conceito de aparelho para pensar, de BION (1994).
Teremos, sempre, em vista que os comportamentos compulsivos e as adições, nas quais sempre se pensa no caso das alternativas de educação preventiva, ocorrem quando não há formação bem sucedida do aparelho de pensar.
De acordo com a teoria desenvolvida por BION (op. cit.), o aparelho para
pensar é desenvolvido para dar conta dos “pensamentos” desorganizados, primitivos, enfim, de registros inconscientes.
Deve-se esclarecer que o pensamento em questão parte da união de uma pré- concepção com uma frustração, ou seja, há uma expectativa criada pelo bebê que não se realiza, dando origem à frustração. Ao descrever suas idéias sobre o tema, no artigo “Uma teoria sobre o pensar”, BION (op. cit.,p. 129) diz:
“O modelo que proponho é o de um bebê cuja expectativa de um seio se una a uma ‘realização’ de um não-seio disponível para satisfação. Essa união é vivida como um não-seio, ou seio ‘ausente’, dentro dele. O passo seguinte depende da capacidade de o bebê tolerar a frustração.”
Pode-se notar que, no caminho de desenvolvimento para o pensamento, há uma série de detalhes importantes e determinantes. “A capacidade de tolerar frustração capacita a psique a desenvolver pensamentos como um meio de tornar a
frustração tolerada ainda mais tolerável” (BION, 1991a, p. 186). Frente à frustração,
um bebê terá duas saídas: fugir da frustração, por exemplo, através da identificação projetiva, ou desenvolver a tolerância à frustração. Caso não tolere as frustrações, o