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Considero importante a abordagem de alguns outros aspectos que podem estar envolvidos e que dificultam o processo de amadurecimento das pessoas e, evidentemente, podem causar alterações no ritmo em que se desenvolve o conhecimento. Consideraremos algumas das idéias de ROSENFELD (1988) sobre o

conceito de narcisismo destrutivo.

O autoravalia que há duas formas de manifestação do narcisismo:

1) O aspecto libidinal do narcisismo, em que há supervalorização do self, através de identificações projetivas e introjetivas com objetos idealizados, aumentando a sensação de onipotência de suas qualidades. “O narcisista sente que tudo o que é valioso nos objetos externos e no mundo externo é parte dele ou é

controlado de forma onipotente por ele.” (ROSENFELD,1988,p.139).

Poderíamos dizer que o amor da pessoa não está direcionado para o mundo externo, ou seja, para outras pessoas. O amor libidinal está voltado para o próprio “eu”, o que se manifesta como uma supervalorização da própria pessoa, como se ela não precisasse dos outros para viver e se desenvolver. A sensação de que o mundo

limita-se à própria existência e que a pessoa se basta. Evidentemente, o aprender algo novo (a aprendizagem da educação) não é muito importante para esse tipo de pessoa que se sente auto-suficiente, como se seus conhecimentos, por si só, bastassem ao mundo.

2) Por outro lado, há o aspecto destrutivo do narcisismo, em que as partes destrutivas e onipotentes do self são idealizadas. O sujeito parece ser indiferente ao mundo e aos objetos externos. Nesse estado, surgem impulsos autodestrutivos violentíssimos que se manifestam contrários ao próprio tratamento e ao profissional que o conduz. Podem surgir idéias suicidas: “a morte é idealizada como uma solução

para todos os problemas” (ROSENFELD,1988,p.141).

Nas situações clínicas, nota-se que o paciente procura destruir qualquer forma de relacionamento com o terapeuta, depreciando-o e agindo da mesma maneira consigo mesmo. Os aspectos destrutivos do self são idealizados e a destrutividade atinge os objetos externos e a própria pessoa.

Segundo ROSENFELD (op. cit.,p.146):

“Minha experiência revelou que essa organização narcisista não é dirigida basicamente contra a culpa e a ansiedade, mas parece ter o objetivo de conservar a idealização e o poder superior do narcisismo destrutivo. Mudar, receber ajuda, implica fraqueza e é vivenciado como errado ou como fracasso pela organização narcisista destrutiva, que fornece ao paciente seu sentimento de superioridade.”

Também esse segundo modelo de pessoa será resistente à aprendizagem de algo novo. Assim, a educação, o desejo de aprender, de incorporar novos conhecimentos de todas as ordens, inclusive os de cunho de educação preventiva, não serão nada atraentes. A pessoa pode mesmo desejar correr riscos, como os da contaminação por alguma doença sexualmente transmissível ou decorrentes do uso de risco de drogas.

Assim, vemos que tanto o papel da família, enquanto adultos que possibilitam à criança, a vivência da dor contida e necessária à aprendizagem, quanto os

aspectos emocionais, subjetivos, de cada pessoa são elementos fundamentais para o processo de aprendizagem e para o próprio desenvolvimento.

Citaremos, então, um fragmento de um caso clínico, para melhor exemplificar essas relações bastante destrutivas com o próprio processo de desenvolvimento: Branca9, moça de 24 anos, procurou-me para tentar manter a abstinência de uso de crack. Ela havia estado internada em uma clínica de recuperação de dependentes químicos, por cinco meses e havia sete meses que se mantinha abstinente. Todavia, quando nos procurou, disse que não estava mais agüentando a “fissura” e que sua necessidade de usar a droga estava ficando cada dia maior, causando-lhe grande preocupação e ansiedade. Relatou problemas de relacionamento com a família, namoro e vida profissional; todas esses problemas, para ela, decorrentes da vontade de voltar a consumir drogas.

Comecei a vê-la em meu consultório duas vezes por semana; foram as possibilidades do momento. Destaco que a moça estava começando a trabalhar, mas se sentia muito cansada e inapta à realização de seu trabalho, irritadiça com as cobranças e responsabilidades. Poucas semanas após termos iniciado a psicoterapia, Branca saiu do emprego, pedindo demissão, de forma bastante impulsiva, por sentir-se muito cobrada e excessivamente solicitada, ao fim de um dia pesado de trabalho. Passou a ficar em casa, sem fazer nada profissionalmente falando, e pensava em voltar a estudar. Embora tivesse usado drogas por cerca de dez anos (desde uma idade bastante precoce), tinha conseguido formar-se em curso universitário e, em minha visão, possuía um bom nível cognitivo e intelectual, que fora bem preservado, apesar de seu uso freqüente e prejudicial, de diversas substâncias psicotrópicas.

Depois de cerca de dois meses de atendimento, Branca saiu uma noite e não resistiu ao desejo da droga, voltando para casa apenas na tarde do dia seguinte, após ter fumado quinze pedras de crack. Foi o que se chama de recaída. Passado o

9 O nome da paciente e alguns aspectos de seu histórico foram alterados para manter o sigilo, já que nosso objetivo é tão somente verificar um exemplo de uma situação de narcisismo destrutivo.

efeito inicial da droga, a moça ficou bastante triste com o episódio e voltou a falar em vontade de se ajudar, mas que não conseguiria ficar bem, sem ser internada.

A família, porém, avaliou que poderia haver outra alternativa. Então, a moça passou a freqüentar diariamente reuniões de grupos de Narcóticos Anônimos e seguiu com a terapia. Passadas mais duas semanas, nova recaída. Visivelmente abalada, a paciente queria ser internada, mas estava dividida, considerando ainda que poderia lutar fora de uma clínica. Todavia, poucos dias após ter tido esse episódio de uso de drogas, Branca, que começara um novo curso universitário, voltou a usar crack pela terceira vez e, desta feita, sua mãe solicitou que ela fosse levada a uma clínica para internação.

Trazemos o exemplo de Branca por verificar que realmente há um sentimento de grande desvalia e de boicote às possibilidades de ajuda. Evidentemente que a dependência é algo extremamente poderoso, difícil de ser trabalhado. Porém, Branca não aceita as próprias mudanças e a ajuda que pode estar tendo, no processo terapêutico. Considerações sobre sua vida afetiva, suas relações familiares e o futuro profissional parecem angustiá-la de tal forma, que é melhor estar entorpecida e à margem de qualquer problema. A sua destrutividade volta-se contra si própria e contra as possibilidades de ajuda que ela poderia ter em sua vida, fora de um ambiente fechado de internação.

Trata-se de uma pessoa que poderia estabelecer relacionamentos produtivos em todos os ambientes que freqüenta, inclusive no vínculo terapêutico. Todavia parece que lhe é insuportável sentir-se amparada ou ligada a algum objeto. Assim, o objeto eleito é a droga.

Aprender algo novo, que pudesse ser incorporado beneficamente à vida, não parece representar um atrativo para ela. Não por nenhum tipo de falta de inteligência, caráter ou mesmo, vontade, mas pela ação dessa destrutividade voltada contra si mesma e, ainda, a ação destrutiva diante das possibilidades de enfrentamento de situações de angústia e dúvidas. Enfim, a possibilidade de aprender e se cuidar de forma menos danosa, foi afastada naquele período do seu processo de maturação.

Explicando os mecanismos básicos presentes em casos de perversão, mais especificamente falando sobre o conceito de fusão patológica, que nos parece bastante interessante para a compreensão de algumas das questões desta paciente, assim explicita COLOGNESE JUNIOR (2003,p.80):

“Esse conceito consiste na manifestação do domínio da pulsão de morte sobre a pulsão de vida, de modo que a pulsão de morte toma emprestada a energia da pulsão de vida e passa a controlá-la, ou, dito de outra forma, a pulsão de vida está a serviço da pulsão de morte – libidinizando-a.”

Na verdade, a paciente em questão havia dado início a diversas tentativas de psicoterapia, antes de ser internada pela primeira vez. Contudo, uma das suas posturas antigas vai se repetindo, infelizmente. Ela acaba boicotando os vínculos terapêuticos, sentindo-se obrigada a retomar os comportamentos compulsivos e aditivos. Como se sua força de vida, de luta por melhorias, sucumbisse frente às imposições dos impulsos destrutivos. Assim, o doloroso é constatar que sua vontade de melhorar não conseguia sobrepujar o impulso destrutivo.

COLOGNESE JUNIOR (op. cit.,p.80),baseado nessa compreensão sobre a fusão

patológica das pulsões afirma que “o melhor para a vida do paciente é ser mau”. Isso quer dizer que o paciente sente uma verdadeira compulsão à maldade ou ao boicote, como se não sendo mau, sua vida inteira estivesse em perigo. Dessa forma, entendemos que a desistência de Branca sobre a própria possibilidade de melhora, suas seguidas opções por algo destrutivo e repetitivo, nos indicam que ela acaba, realmente, ao libidinizar seus conteúdos impulsivos e destrutivos, voltando-os contra si mesma e contra as possibilidades de construção e manutenção de vínculos que possam alterar essa dinâmica.

A questão que nos inquieta é: teria sido possível que ela tivesse feito outras escolhas ao longo de sua vida, seguindo por caminhos que a não levassem sempre às dependências e compulsões se, desde pequena, ela tivesse tido a oportunidade de participar de um programa de educação preventiva, em sua escola, que visasse à diminuição dos níveis de sua vulnerabilidade? A vulnerabilidade, aqui entendida,

como a impossibilidade de dar seqüência aos vínculos positivos e de quebrar o império da pulsão de morte.

Em nossa opinião, a resposta à questão acima é: possivelmente sim. Teria sido dada oportunidade ao desenvolvimento emocional de Branca e a seu processo de maturação; teria sido aumentada a sua capacidade de consciência de si própria, de seu senso de responsabilidade e de maior cuidado frente às escolhas demasiadamente danosas que, em determinado momento de sua estória, tornar-se- iam compulsivas e repetitivas.

Novamente nos valemos das idéias de COLOGNESE JUNIOR (2003), retomando

a questão da perversão, anteriormente abordada. Para o autor, o perverso é uma pessoa que apresenta muitas manifestações comportamentais e diversas formas de movimento, mas que não apresenta mudanças de fato. Isso se explica pelo fato de o perverso estar, sempre, tentando evitar uma dor maior; a sua luta é contra o risco de fragmentação. Então, ele precisa se convencer de que a dor é necessária, que o prazer está no próprio risco de suas atitudes e que isso vale a pena. “Encontramos por trás das propostas perversas, via cântico de sereia, encantador de serpentes, um ser humano aterrorizado, movido pela fantasia de aniquilamento, o que o leva ao

estado de arrogância bem descrito por Bion.” (COLOGNESE JUNIOR,op. cit.,p.81).

Na nossa compreensão, repetimos, talvez, participando de atividades de cunho preventivo que visem à redução de danos, desde cedo, consiga-se romper o ciclo vicioso que dá origem ao estado de “arrogância”, que surge do fato da pessoa não poder entrar em contato com a falta, com o não saber, com as dúvidas etc. Talvez se consiga auxiliar essas pessoas, no desenvolvimento da capacidade de enfrentamento de suas angústias aterrorizantes e suas fantasias de fragmentação e de morte. Talvez se consiga diminuir sensivelmente seu nível de vulnerabilidade frente a esses estados emocionais, ao diminuir-se nelas a necessidade de erotização da dor, fazendo, desse ser humano, um ser menos desamparado, menos amedrontado, ou em outras palavras, mais tolerante e capaz de lidar com as dores e ansiedades, enfim, um ser humano mais amadurecido.

Para ampliar mais a compreensão sobre o que seria o processo de amadurecimento, recorremos às seguintes palavras de COLOGNESE JUNIOR (2003,p.

82):

“Deixar para o Olimpus o poder da criação é sinal de amadurecimento, é uma condição trabalhada e atingida após alguns anos de fantasias onipotentes, na qual se podia ser tudo, ter tudo, no momento e como se bem queria. Os Deuses criam e os humanos descobrem.

Descobrem que são capazes, descobrem que suportam, que têm recursos; descobrem que o suficiente é muito bom, agradável e de certo modo esperado por todos aqueles que querem compartilhar, co-operar. Os mais dependentes esperam por seus deuses idealizados, príncipes encantados.”

Discutimos, até aqui, a questão do processo de maturação e a formação do aparelho psíquico, a partir do desenvolvimento da sexualidade e suas relevâncias para o desenvolvimento de ações preventivas. E, ainda, comentamos a importância da formação dos professores para o trabalho preventivo pautado na redução de danos. Avaliamos agora pertinente verificar a compreensão de alguns autores sobre o apego, a adição e a dependência.